Lógica financeira da Sabesp marginaliza tratamento de esgoto e limpeza de rios

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Cíntia Alves, via Jornal GGN

O colapso dos principais reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo colocou a gestão da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado) em xeque. Em função da preocupação com a água, as discussões sobre os planos de tratamento de esgoto e despoluição de rios ficaram em segundo plano. Mas tão grave quanto a crise de desabastecimento são os fatores que contribuem para reduzir a qualidade dos mananciais.

Para resgatar esse debate, o GGN promoveu um encontro entre o engenheiro e sanitarista Roberto Kachel, que possui mais de 30 anos de Sabesp, e o professor da pós-graduação em Planejamento de Gestão de Territórios da UFABC, Ricardo Moretti, que já apresentou projetos à companhia.

Em entrevista ao jornalista Luis Nassif, os dois especialistas concordaram em um ponto especial: fere a lógica capitalista da Sabesp os dispêndios com tratamento de esgoto e despoluição de rios. Em outras palavras: há interesse em vender água e marginalizar outros serviços, porque é o comércio de distribuição que rende lucros à empresa mista, que vende ações na Bolsa de Nova Iorque e na Bovespa.

Confira os principais pontos do debate.

“Esqueçam, o Tietê não será salvo nunca!”
Crítico ferrenho à gestão da Sabesp, o professor Ricardo Moretti apontou falhas no planejamento e execução de obras que deveriam garantir a universalização do tratamento de esgoto.

Segundo ele, o conceito concebido pela Sabesp nos anos 1970 indica que o sistema só vai tratar o esgoto e ao mesmo tempo garantir rios e mananciais livres de poluição quando estiver totalmente concluído.

“Poderiam modelar as políticas públicas para fazer obras no sentido de que, gradativamente, o sistema fosse apresentando resultados. Mas a lógica em vigor é a de o avião só começa a voar quando todas as peças estão instaladas”, problematizou.

Roberto Kachel aproveitou a deixa para fazer uma revelação.

“Vou fazer uma colocação pesada, mas é a realidade: mesmo que coletem e tratem 100% dos esgotos de São Paulo, o Tietê vai continuar a mesma coisa.

Para que a gente possa falar em um Tietê recuperado, o processo de tratamento teria que ser de relação prolongada (com 95% de eficiência), com tratamento terciário (remoção de nutrientes) e um tratamento avançado. Esse custo é absolutamente impensável em um país como o nosso. Mas, claro, a Suíça e a Holanda fazem.”

Kachel disse ainda que existia um plano inicial para despoluir o Tietê. As obras sairam do papel, mas a lógica de funcionamento foi abandonada no meio do caminho. A ideia era construir uma ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) em Suzano e uma no ABC (Tamanduateí). Depois, fazer o sistema levar todo o esgoto da Região Metropolitana de São Paulo, exceto no entorno dessas duas ETEs, para Barueri:

“Em tese, o Tietê não receberia nada de esgoto (sem tratamento). Segundo ponto: o sistema produtor Alto Tietê teria de ter de 15 a 20 m³/s de água limpa para diluir esses esgotos tratados que viriam das ETEs Suzano e ABC para o Tietê. Mas é uma situação difícil, um investimento altíssimo levar todo o esgoto de São Paulo para Barueri.”

Kachel também frisou que os planos da Sabesp para o Alto Tietê mudaram. A ideia inicial nunca foi de usar o sistema para abastecimento. Hoje, não só retiram volumes significantes de lá, como a previsão de escassez total no sistema, segundo o engenheiro, é para outubro próximo.

“Depois do Cantareira, o próximo grande sistema de abastecimento deveria ser esse que estão começando agora, o do rio Juquiá. Não queriam usar o Alto Tietê para abastecimento justamente para garantir o mínimo de qualidade na bacia. Mas do jeito que foi feito, esqueçam, o Tietê não vai ser salvo nunca. Aliás, não está escrito em lugar nenhum que o rio tem de ser salvo.”

Ele lembrou que a Sabesp já cumpre as leis que versam sobre retirada de resíduos do rio.

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Bebendo a sujeira do Tietê: O balanço hídrico da Billings
Para Ricardo Moretti, há um segundo ponto nessa história da poluição no Tietê que poucos se dão conta:

“O rio Tietê não está tratado, mas as pessoas se acostumaram a isso. O que poucos sabem é que estamos bebendo dessa água, quando fazem as reversões no sistema para evitar enchentes na região de Pinheiros. A regulamentação da Constituição de 1989 permite que liguem as bombas de reversão quando há enchentes lá, e essa água vai parar no corpo da bacia da Billings.

Hoje, para cada 2 litros de água na Billings, metade vem dessa reversão. Essa água é recalcada pelo sistema Itaquaquecetuba para dentro da Guarapiranga, usada como manancial. O esgoto sem tratamento me preocupa menos do que a poluição difusa dentro da cidade grande. Se fizermos o balanço hídrico das águas da Billings, vamos ver que isso [a reversão de água] não é ocasional”, complementou.

O conflito de interesses nas campanhas da Sabesp
Na visão de Ricardo Moretti, existe uma situação cômoda para a Sabesp no que tange o desperdício de água, o que problematiza a falta de participação e fiscalização social nessa pauta:

“Hoje, o principal responsável pelas campanhas de conservação de água são as companhias, o que é uma ironia. Pensa bem: é como uma campanha de preservação do uso de gasolina promovida pela Shell. Já tive embates por levar alternativas para redução de consumo de água à Sabesp e ela se mostrou reticente, porque atrapalharia a lógica financeira dela.”

Essa falta de cobrança por parte da sociedade também reflete a conivência com problemas históricos cujas soluções já deveriam estar em curso, como no caso da universalização do tratamento de esgoto.

Kachel, que saiu da Sabesp há pouco anos, revela que plano para universalizar o tratamento de esgoto a Companhia tem. O problema é que, internamente, tratar esgoto é prejuízo. “Mas ninguém vai falar isso publicamente”, ressaltou.

O GGN convidou para o debate representantes da Secretaria de Estado de Recursos Hídricos e do Grupo Técnico para Assessoramento do Sistema Cantareira, que atuam face à crise de água no Estado. Sem sucesso, contudo.

Leia também:
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