“Brasileiros não aceitam sua grandeza”, diz diplomata

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O diplomata aposentado gaúcho Fernando Cacciatore lança livro polêmico onde desconstrói conceitos de grandes pensadores brasileiros, como Sérgio Buarque de Holanda.

Juliana Prado, via Portal Terral

Pano pra manga. No bom português, é mais ou menos isso que promete o livro Como escrever a história do Brasil – miséria e grandeza, do diplomata aposentado e escritor gaúcho, Fernando Cacciatore de Garcia. A obra, editada pela Sulina, e lançada na quarta-feira, dia 20/11, no Rio, tenta desconstruir algumas ideias preestabelecidas em nossa cultura, algumas delas elaboradas por nossos maiores pensadores, como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. “Tudo o que foi escrito até hoje no Brasil foi com a cabeça de ex-colônia”, diz o autor. Segundo Cacciatore, a nossa historiografia nos coloca em posição de fracassados e subalterna ao colonizador, no caso Portugal, o que é prejudicial para a visão que o próprio País tem de si. Nesta entrevista ao Terra, ele fala do livro, que já é garantia de polêmica.

Terra – Quais são as principais críticas do livro a nossos historiadores, como Sérgio Buarque de Holanda e o seu Raízes do Brasil e Gilberto Freyre, autor do clássico Casa Grande e Senzala?
Fernando Cacciatore – Bem, eu sou diplomata e paga-se aos diplomatas para defender o interesse nacional, certo? Eu servi a grandes potências e me dei conta do que fazia esses países serem potências. O questionamento que faço aos dois e a outros autores é que tudo que foi escrito até hoje no Brasil, no meu ponto de vista, foi escrito com a cabeça de ex-colônia e não de um país que conta hoje em dia. Para fazer essas críticas de forma bem fundamentada, criei dois instrumentos de análise: primeiro, a identificação com o agressor, é uma espécie de síndrome de Estocolmo. Os intelectuais brasileiros, a partir da República, adotaram as ideias que vinham do exterior muitas vezes em detrimento da nossa identidade. O segundo: a “lusofilia”, que é o olhar em defesa daquele Portugal que mandava no Brasil até 1822 [ano da Independência]. Sobre o Gilberto Freyre, a quem eu admiro profundamente, acredito que ele seja um continuador da lusofilia, porque impede que vejamos o nosso passado como ele realmente aconteceu. Principal crítica ao Sérgio Buarque: para ele tudo é fracasso, nada dá certo aqui, somos uma cópia mal feita de Portugal, da Europa. A democracia aqui não se cria.

Terra – O senhor tem noção da polêmica que poderá provocar?
Cacciatore – Eu não sou radical, vejo o lado bom e o lado ruim dos dois [pensadores]. Eu não quero criar polêmica e não sou radical. Mas eu tive umas intuições pela minha formação de família. Eu via que isso tudo estava debaixo do meu nariz e não sosseguei enquanto eu não escrevi sobre isso. A polêmica é uma consequência paralela. Eu quis apenas colocar no papel a intuição que tive que fará bem ao Brasil. Não existe uma potência no mundo que não tenha uma ideologia de auto-engrandecimento. Osvaldo Aranha dizia: “Não existe país forte economicamente se não tiver ideias e princípios claros”. O que significa ter uma ideologia própria, positiva.

Terra – O senhor questiona importantes pensadores e a visão deles do Brasil como nação. Uma coisa é a visão deles não servir ao Brasil de hoje. Outra coisa é ser uma visão de país errada…
Cacciatore – Ninguém é totalmente anjo ou demônio. As duas obras têm valor universal. Eu já disse do valor que vejo dos dois. O que eu penso é que partes da obra não servem mais ao Brasil de hoje. O que o Brasil precisa é de uma história de sucesso. O livro se chama Como escrever a história do Brasil – miséria e grandeza. Por que cito miséria? Porque o Brasil não vê o tanto de pessoas que vivem na miséria e não se sente responsável por isso. Eu conto a história da miséria no Brasil no livro. Eu fiz cálculos e a taxa de diminuição da miséria é a mesma (em séculos). E, por outro lado, os brasileiros não aceitam a própria grandeza. As pessoas vão me chamar de ufanista. O norte-americano, o alemão, o italiano, todo país que se preza se respeita. O brasileiro não. O ufanismo, que era para ser positivo, virou um desastre. O fato é que o Brasil hoje tem uma transcendência planetária e o pensamento brasileiro não acompanhou isso. Tudo o que se escreveu até agora não tem auxiliado a criar uma visão positiva de Brasil, sobre nossas histórias de sucesso.

Terra – Mas será que a visão do historiador não tem a ver com o sentimento do seu tempo? Naquele momento não era este o possível de ser pensado sobre o país?
Cacciatore – Sim, naquele momento histórico e político os brasileiros tinham um grau de identificação com o opressor. Havia uma forte crítica aos países tropicais e mestiços. Existe um livro, do Paulo Prado, “O retrato do Brasil”, que contém o Gilberto Freyre e o Sérgio Buarque de Holanda. Tem ali uma visão de destruição de nós mesmos que está incutida na nossa mente. Se não tem autoestima você é altamente dominado. Aquele Alexandre Garcia (jornalista), por exemplo, ele idealiza os outros países de uma forma! Só vamos conseguir as coisas quando tivermos uma visão positiva de nós mesmos.

Terra – O senhor acredita que estes mesmos historiadores poderiam ter feito uma leitura diferente de Brasil?
Cacciatore – Eu não gosto da história do que poderia ter sido. Os diplomatas não fazem especulações na interpretação do País. A gente tem de escrever a história como ela acontece. No Itamaraty, temos tradição de escrever história, sempre baseados no Iluminismo, fazendo análises isentas e sem especulações.

Terra – Qual sua opinião sobre o conceito de complexo de vira-lata do Nelson Rodrigues? É um pouco isso que o senhor tanto questiona no livro?
Cacciatore – A ideia que eu tenho é que esse conceito do Nelson Rodrigues é um conceito teatral, de um dramaturgo. Eu tenho orgulho de ter levado à Colônia (na Alemanha) duas peças dele. Mas esse é um conceito teatral, não é de uma obra. Esse conceito é detrator do próprio brasileiro. Eu criei esse conceito de identificação com o opressor, que é mais neutro. Claro que esse conceito dele nos diminui, pois fala em vira-lata.

Terra – Quando o senhor fala da postura feminista na Independência do Brasil, cita dona Leopoldina. Por quê? Qual foi o papel dela?
Cacciatore – Dom Pedro recebeu a independência pronta, feita por Jose Bonifácio e Dona Leopoldina. Ela era muito mais estadista do que dom Pedro. Por isso talvez ele tivesse tanto ciúme e não gostasse tanto dela. No dia do Fico, o Clemente Pereira abanou a cabeça apenas, mas ela disse: “Ele [Dom Pedro] fica”. Só aí foi que ele disse aquela frase: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico”. Na correspondência dela você vê que ela teve uma grande importância para que Dom Pedro ficasse. Mas, como é mulher, todos os louros caíram sobre dom Pedro. Na verdade, os dois tiveram papel importante. Ela era muito decidida como estadista e interpretou muito mais que dom Pedro os anseios dos brasileiros de independência. Os livros não fazem jus a ela. Eles deviam fazer jus à ação do casal.

Terra – O senhor fala do conceito de “lusofilia”, o enaltecimento de Portugal colonizador. É isso que impede que se conte o que aconteceu na colonização, ou seja, a matança e a escravidão de milhares de índios, como o senhor cita? Fomos e ainda somos cordiais demais com Portugal?
Cacciatore – Nem tudo na história é explicável, há muitos imponderáveis. A Monarquia criou uma ideologia de que a gente era Portugal na América e até mais democrática que Portugal. Eles queriam que o Brasil fosse a continuação de Portugal na América. Talvez a gente tenha sido condicionado a ter essa posição frente a Portugal. Em Angola, por exemplo, em Goa, Macau, eles dizem que Portugal não tem nada de tolerante. Está um pouco na nossa natureza ser tolerante. Martius [Carl Friedrich Von Martius, botânico alemão que estudou o Brasil no século 19] disse que isso estava na nossa natureza. Que os gênios tinham colocado as raças em contato no Brasil para criar uma realidade harmônica. Ele viu a harmonia entre as raças que viviam no Brasil.

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