No primeiro debate do 2º turno, Aécio saiu descalço

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Acostumado a depender de uma relação privada e íntima com a mídia familiar, o candidato Aécio provou pouca capacidade de se manter de pé, sem essa ajuda.

Katarina Peixoto

“Candidato sai do armário e confessa seu programa de governo”. Poderia ser este o resumo do debate, mas fazer isso seria atribuir um gesto de coragem de que a candidatura do PSDB não é, infelizmente, capaz. Acostumado a depender de uma relação privada e íntima com a mídia familiar, o candidato Aécio provou pouca capacidade de se manter de pé, sem as manchetes, as edições, os âncoras e jornalistas a serviço de sua candidatura.

Chegou de salto alto. O salto lá pelas tantas quebrou. E terminou sem chinelo de dedo.

O debate surpreendeu, sobretudo a militância que apoia a Dilma, e que sabe que ela não é a mais assídua na aula de retórica e sofisma. E surpreendeu porque a realidade, ela é, a um só tempo, mais implacável e mais fantástica que qualquer mentira veiculada pela grande mídia oligárquica. E foi assim, com a realidade nos olhos, no olhar, na voz e nas convicções, que Dilma Rousseff desconstituiu o candidato midiático, oligarca e que saiu descalçado, do primeiro embate com a vida real, talvez de toda a sua vida.

Aécio chegou treinado em quatro afirmações, para as quais ensaiou bem amparado: 1) “A senhora está mentindo”, 2) “vamos é trabalhar com transparência e sem déficit”, 3) “em 12 anos não fizeram”, 4) “eu reconheço o que o presidente Lula fez, mas não o que a senhora fez”.

Deu-se mal.

O núcleo duro da estratégia consiste numa acusação: vocês são corruptos, por isso mentem, abusam dos bancos públicos e não conseguiram resolver todos os problemas. Eu reconheço o que o Lula fez, porque ele não é candidato e porque ele saiu, ao contrário de mim, realmente com mais de 80% de aprovação a seu governo e a sua figura, com uma mídia oligárquica hostil e racista, da qual eu, inclusive, sou coproprietário. A senhora não, a senhora ousou fazer o que é criminoso: a senhora resolveu, escolheu, mesmo, enfrentar o mercado financeiro e financiar, via o estado, políticas de desenvolvimento, distribuição e inclusão produtiva e social. A senhora cometeu a pachorra e a empáfia de apostar no mercado nacional. A senhora é que é estruturalmente perigosa.

Para deixar isso claro, o candidato do PSDB foi obrigado, pela realidade e pela postura da Dilma, a sair do armário. E ela, uma vez mais, mostrou que não veio ao mundo a passeio. Que não teve privilégio e nem se locupletou e que é daí que vem a sua autoridade, também (como ficou igualmente claro).

Debateu-se sobre corrupção, educação, economia, saúde e segurança pública.

Começou sobre a saúde. A surpresa veio com a Dilma. Ela quebrou o salto do candidato hereditário ali. Ele não aplicou verba, teve anotação no TCE de Minas, não ofereceu o serviço do Samu para as cidades do estado (28%, num lugar imenso como Minas?) e deixou a ver R$7 bilhões, na saúde, em valores totais (se eu entendi bem, na acusação da candidata à reeleição). Aí apareceu, pela primeira vez, o fracasso da estratégia retórica do rapaz de vida fácil e facilitada. Ele ficou dizendo que era mentira. Mas não contrapôs, nem respondeu. Disse que o Ministério disse, que os jornais disseram. A relação dele é sempre com narrativas, não com a realidade, como foi se tornando claro.

Segundo tema foi a corrupção. Aí o segundo salto, do outro pé, quebrou. Ele veio com a Petrobras da revista Veja e da Rede Globo, e ela respondeu com o aeroporto, aliás, os aeroportos construídos e não construídos, mas pagos a familiares do candidato, em propriedades da família, cujo caso mais escandaloso é um aeroporto sem torre de controle, praticamente uma pista clandestina, cujas chaves ficam com o tio avô do candidato. Ele disse que o tio era idoso, tinha 90 anos ou mais, fez cara de brabo, acusou a Dilma de leviana. Mas não respondeu.

Procurou, então, um par de chinelos. Entraram no tema educação. (Uma pergunta inspirada em Dorothy Parker seria esta: por quê?)

Digam-me, por que o PSDB, com os dois saltos espatifados para todos verem, no debate do 2º turno, escolhe falar e debater educação? Mas que atitude kamikaze foi essa? Eles realmente acreditam que alguém seriamente ligado à educação, no país, leva ou levará, após este debate, a sério, a proposta de revisão curricular do ensino fundamental, que não incluiu uma só linha sobre pós-graduação, pesquisa, graduação, financiamento da educação superior, nem para o ensino médio e profissionalizante? Quem está assessorando esse candidato, gente? A única coisa que vinha à mente era uma página de humor do Facebook, chamada Ajuda Luciano [Huck], porque sinceramente, como se diz.

No quesito segurança, o candidato escolheu denegar as acusações sobre Minas Gerais e seus índices de homicídio, registrados no Mapa da Violência, segundo a candidata Dilma. É digno de nota que o candidato cobra generosidade e humildade, sem que ele mesmo receba uma só crítica e tampouco advogue, no seu discurso, a generosidade concretizada em políticas de estado.

Aí entra, de fato, o tema mais importante, onde o candidato sai do armário, sem querer, como numa lenda sombria, sobre tempos, idem.

Aécio advoga que temos inflação descontrolada, déficit público, corrupção e que os empregos estão indo embora. O que há de verdade e o que há de mentira, nessas acusações?

A inflação descontrolada é mentira e o déficit público, não exatamente. A corrupção não é mentira e nem deixará de ser verdade: governos não são entidades angelicais anteriores à queda de Lúcifer, mas estruturas onde há, sempre houve e seguirá havendo, malfeito. Aliás, governos, famílias, lojas, estações de rádio e bancas de revistas são estruturas onde há malfeitos. É digno de nota que a Dilma não despreze a inteligência do eleitor, ao apostar na sua capacidade de entender isso. Agindo como candidato a centro acadêmico de administração dos anos 90, em alguma universidade privada da série b, o candidato Aécio confessou em que consiste o seu moralismo. E aí o que se pôde ver foi uma admissão, sem precedentes, da necessidade por ele reconhecida de encerrar, nas suas palavras, o ciclo da empregabilidade no país.

Para o candidato, os déficits públicos são inadmissíveis e a Caixa Econômica Federal não pode, por sua própria conta e risco, assumir programas como o Bolsa Família. Esses programas, como todo programa social, não podem ser financiados enquanto o Tesouro não estiver plenamente sanado. O truque consiste em advogar o ajuste, para depois (se e quando der) bancar os programas. Se o candidato acredita ou não nisso, é o que menos importa. O que importa é que essa é uma tese retórica parasitária de outra, ideológica, mais nefasta para o desenvolvimento e o combate às desigualdades no país.

Segundo Aécio, e as forças que com ele estão, quem deve bancar programa social é o Tesouro Nacional, e não os bancos públicos. No entanto, como se pode inferir do que o candidato já disse e do que os seus governos cometem, o Tesouro Estadual nunca está nem estará em condições de bancar programa algum. Por que? Qual a diferença entre ambos os fundos de financiamento (o do tesouro e o dos bancos)? A diferença é, de fato, em termos econômicos realistas, nenhuma. Quem instaura essa diferença é a perspectiva financista da economia, que não reconhece papel ao estado no desenvolvimento e no financiamento do desenvolvimento. Assim, separam os caixas dos bancos para serem regidos pelo mercado (o mercado financeiro) e segundo as suas regras e doutrina, ao passo que, o Estado só pode operar como financiador do desenvolvimento se e somente se e quando (quiçá um dia), for superavitário. Tchãrã! O Estado nunca será superavitário, vide o aumento das taxas de juros para conter a inflação (pouco importa se real, ou fabricada, ou imaginada ou forçada pelas relações de interesse dos agentes da banca), então, o financiamento do desenvolvimento é atribuído ao mercado, e os bancos públicos, se lhes sobrarem alguma função (vide a fala pedagogicamente tratada na propaganda da Dilma), serão competitivos com o Santander, o Itaú, além de outros. Mas a lógica do investimento será eminentemente mercadológico-bancária.

Aécio, neste debate de hoje à noite, não apenas confessou o seu alinhamento com essa doutrina, como o reivindicou. E aí está a base para dizer, sem a menor dúvida que, sim, o seu programa prevê e depende do desemprego estrutural, da desvalorização do salário mínimo (desprezado, de maneira sórdida e cínica, pelo candidato, no debate), do fim do financiamento público de políticas habitacionais, educativas (em nível médio e superior; note-se que a única política educacional por ele reivindicada é relativa ao currículo do ensino fundamental) e também em políticas voltadas aos direitos civis.

Não é por outra razão que o candidato patina no debate sobre questões de gênero. Não tem o que o dizer sobre políticas para mulheres e não é apenas por despreparo. É falta de reconhecimento, mesmo. Ele não reconhece e não atribui ao Estado outro papel que o de gerente externo, especular e espetacular (midiático, narrativo e imagético), do mercado.

Aécio nunca foi tão claro, como quando ficou de chinelo de dedos, vociferando o seu desprezo constrangedor pela quantidade de votos que teve. Tem muito assalariado com um salário mínimo que está acreditando que não será prejudicado por esse candidato. E também gente que aguarda financiamento para a casa própria, em prestações pagáveis, e que acredita que o combate à corrupção vociferada pelo candidato, em horário gratuito e em concessões de radiodifusão, 24 horas por dia, é suficiente para que o Minha Casa Minha Vida venha acompanhado de um Jornal Nacional feliz e bem humorado.

O truque foi desvendado de terça-feira, dia 14. O grande mérito da candidata Dilma Rousseff foi estimular o candidato Aécio a sair do armário, sem querer ou sem saber, exatamente, que estava fazendo isso. Ela sabia e queria. E por isso surpreendeu e levou a militância de sua candidatura às alturas. Pontuou e levou.

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