Como a revista Veja acabou com a educação no Brasil

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Veja dirigiu a educação pública brasileira nos governos tucanos e a de São Paulo até hoje. Descubra como.

Conceição Lemos

No domingo, dia 28, após ler no Viomundo a matéria “Melancólico fim da revista Veja, de Mino a Barbosa”, de Ricardo Kotscho, publicada originalmente no R7, NaMaria, do blog NaMaria News, nos mandou esta mensagem:

Interessantíssima a matéria do Kotscho. Fiquei até com pena do senhor Roberto Civita, dono/herdeiro da Abril, de sua Fundação Victor Civita, de Veja, Exame, Nova Escola (que ganhou até prêmio da Universidade de Navarra), Guia do Estudante, Recreio, Veja na Sala de Aula etc.
Ele não é mantenedor, patrocinador e parceiro do Instituto Millenium, que tem entre seus “especialistas” o autor da matéria denunciada por Kotscho, Agamenon Mendes Pedreira – vulgo Marcelo Madureira?
Um verdadeiro “coitadinho”, esse Civita, “tadinha” da Abril. Ai, meus sais.
Tudo porque o “malvado” do Lula resolveu fazer um tipo de “reforma agrária” nas verbas da Comunicação e, de quebra, nas compras dos livros didáticos, pelo MEC [Ministério da Educação], que incluíam publicações da Fundação Civita/Abril?
Te juro. Deu peninha. Ódio é um sentimento tão sentimental… Estou quase chorando aqui.
Você sabe que sou uma boa alma, mas tenho de te perguntar: será que os mais de R$52 milhões dados pela Secretaria de Educação de São Paulo (2004-2010) não ajudaram em nada a Abril/Veja?
Sei. Aí tem coisa, Conceição Lemes, tem muita história ainda não sabida sobre a Veja e a educação nacional e suas redes, tem muito fio sem nó. Se você quiser eu te conto um pouco, quer?

NaMaria é provavelmente a pessoa que mais conhece e mais denunciou os caminhos tortuosos dos negócios e desmandos dos tucanos na área educacional e suas ligações perigosas com a nossa grande mídia. É uma web pesquisadora com faro finíssimo.

Em entrevista ao Viomundo em 2010, NaMaria revelou que desde 2004 até aquele ano, o PSDB havia gasto mais de R$250 milhões com a mídia (quase tudo sem licitação) em nome da educação pública de São Paulo. Ali, NaMaria mostrou a estratégia de muitas empresas que negociam a educação em São Paulo, entre elas as de Roberto Civita:

Se pegarmos as compras feitas pela FDE [Fundação para o Desenvolvimento da Educação] à Abril (Guia do Estudante Vestibular, Atlas Nacional Geographic, revista Recreio e Veja) e Fundação Victor Civita (revista Nova Escola), em contratos sem licitação que o DO [Diário Oficial do Estado de São Paulo] aponta desde 2004 até agora [2010], teríamos a quantia de R$52.014.101,20.

Com o mesmo dinheiro entregue à Abril/Civita, sem qualquer percalço licitatório, em troca de papel, poderíamos construir quase 13 novas escolas ou cerca de 152 salas de aula, com capacidade para mais de 15 mil alunos nos três períodos (manhã, tarde e noite). Desafogaríamos as escolas existentes e atenderíamos dignamente os alunos e comunidades.”

Aceitamos, claro, a proposta da NaMaria. Mas, antes, é necessário recolocar a tabela dos gastos públicos da educação de São Paulo com a Abril e Fundação Victor Civita, para que vocês se localizem.

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Viomundo – Explique melhor a “reforma agrária” de Lula nas verbas de publicidade do governo federal e nas compras dos livros pedagógicos.
NaMaria – Refletindo um pouco mais sobre a matéria do Kotscho, cheguei à conclusão de que Lula fez, sim, a primeira, embora pequena e humilde, reforma midiática do país. Usei o termo reforma agrária, porque naquela época não se falava tanto (ou nada) em reforma midiática – ambas necessárias no Brasil. Lula resolveu investir melhor na Educação. E, em vez de continuar dando imensos quinhões da verba pública aos de sempre – que por sinal só metiam (e metem) o malho, obviamente como o próprio Civita disse –, ele resolveu repartir melhor o bolo. Só que, ao optar pela redistribuição das compras de livros pedagógicos (incluindo outras editoras no rol do MEC), e pela aquisição de obras mais adequadas do que a revista Nova Escola, Recreio ou Guia do Estudante, por exemplo, Lula atacou um vespeiro “das elites”.

Viomundo – Você se surpreendeu com a revelação de Kotscho de que Roberto Civita teria ido a Lula por se sentir prejudicado pela distribuição dos livros didáticos?
NaMaria – Nem um pouco.

Viomundo – Essa conduta de Civita mostra o quê?
NaMaria – Que Civita pensava poder fazer uso da mesma artimanha empregada por ele em São Paulo. Desde pelo menos 2004 (pode ser antes e com outros; o que falo sai do Diário Oficial), Roberto pedia ajuda a um amigo “auxiliar de almoxarifado”, na figura do então prefeito José Serra. E sempre foi atendido. Continuou a ser e ampliaram-se as benesses depois que Serra se tornou governador. Aqui, vale ressaltar que Serra atendia prontamente não apenas aos Civita, como a toda Proba Imprensa Gloriosa – comprando-as como material pedagógico, paradidático etc. Os tais mais de R$250 milhões que mostrei na entrevista de 2010 entram nisso. Mas é óbvio que a tonelada de dinheiro da Educação de São Paulo não era suficiente para manter os negócios do Civita. Ter sido ignorado pelo “chefe geral da repartição”, Lula, foi demais para o dono da Abril. Levar um não de Lula deixou-o totalmente fulo da vida. Um horror – a vingança só poderia ser maligna. Como se não bastasse, através de Serra, Civita teve acesso a milhares de endereços pessoais dos professores, que passaram a receber as revistas, inclusive em suas casas, sem que lhe tivessem dado permissão ou questionado se as queriam. Essas assinaturas são um absurdo antipedagógico completo, mas cumprem até hoje com as ameaças do senhor Civita ditas ao finado Eduardo Campos e reveladas por Kotscho:

Esta é a única oposição de verdade que ainda existe ao PT no Brasil. O resto é bobagem. Só nós podemos acabar com esta gente e vamos até o fim.

Por outro lado, temos de dar razão ao Civita. Ele TINHA mesmo de procurar “o chefe geral da repartição”, em vez de ficar lidando com os “auxiliares de almoxarifado” (com todo respeito), para ter os seus pedidos atendidos. As verbas, como no caso da Educação do Estado de São Paulo, saíam da FDE direto para a Abril e afins, isso é sabido. Mas para que isso acontecesse, a ordem precisava – e precisa! – ser autorizada pelo “chefe da repartição” paulista. Ou seja: Serra (e atualmente, Alckmin). A ordem inicial e final sempre vem de cima. Uma pena o Lula não ter compreendido a situação do “coitadinho” do Civita, né mesmo?

Viomundo – O esquema de São Paulo foi executado em outros Estados?
NaMaria – Não duvido. Basta que se interessem e procurem em seus Diários Oficiais, as provas estarão lá, salvo “lapsos” desses DOs.

Viomundo – Os mais de R$52 milhões recebidos pela Abril pelos livros didáticos expressam a realidade do que a empresa recebeu de benesses do governo paulista?
NaMaria – Certamente, não. Esses valores referem-se apenas aos que eu achei nas pesquisas no Doesp de 2004 até 2010. Deve ter muita coisa em anos anteriores e posteriores à minha pesquisa (porque parei um tempo), em outros Estados, atendendo a outros esquemas e anseios. Sem contar as prefeituras e órgãos de tudo que é canto do país. As pessoas precisam se interessar e investigar, precisam mostrar esses fatos. Como se sabe, corrupção tem roupas lindas e diversas, muitas delas em tecidos invisíveis – como aquela capa mágica que deixa o Harry Potter invisível, sabe como? Tem muita gente usando capas do Potter por aí, mas elas podem e devem ser retiradas.

Viomundo – Esse esquema começou onde?
NaMaria – Sem dúvida, com Mário Covas, em São Paulo, com os bons ventos da democracia tucana. A partir dele, dos consecutivos governos do PSDB e com Fernando Henrique na presidência, São Paulo tornou-se legalmente o latifúndio dos esquemas, o laboratório dos “programas-piloto” que seriam espalhados pelo Brasil. Obviamente grande parte desse pessoal se instalou em Brasília, em postos-chave. Depois eles iam e vinham carregando suas ideologias e negócios. É o famoso “tá tudo dominado” que continua até hoje. Um Cavalo de Tróia, tipo viral, sabe como?

Viomundo – Mas como foi parar na Educação?
NaMaria – É importante lembrar que antes e muito tempo após podermos votar de novo, o Brasil obedecia ordens do Banco Mundial em tudo, inclusive para a Educação nacional, afinal éramos escravos da dívida. E o Banco Mundial e o BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento] queriam muita construção de escolas para liberar o dinheiro, queriam educação padrão em massa para essas coisas “boas”. Só que o Brasil, de acordo com seu então ministro da Educação, José Goldenberg [agosto de 1991/agosto de 1992; era Fernando Collor], tinha salas de aula sobrando. Este senhor determinou que só seriam construídas escolas novas “depois de um estudo sobre a necessidade real daquela nova unidade”. Quer dizer: “elas não seriam mais construídas segundo critérios políticos”, porque “foram construídas no lugar errado […], as existentes podem receber muitos outros alunos”… Aí entra a Veja na parada.

Viomundo – A Veja?! Como assim?
NaMaria – Porque a Veja fez a trilha pioneira. Talvez pouca gente saiba, mas a Fundação Victor Civita [criada em 1985], a revista Nova Escola [criada em 1986] e sobretudo a Veja tiveram papel sólido nessa “transformação educacional”. O ataque “discreto e direto”, vamos dizer assim, da Veja, começou na edição de 20 de novembro de 1991 (tempo do ministro Goldenberg no MEC), em cuja capa lê-se: “Ensino Básico – As opções para resolver o problema que está na raiz do atraso brasileiro”. A facada decisiva e norteadora, das páginas 46 a 58, foi a reportagem “A máquina que cospe crianças”, de Eurípedes Alcântara. Ali, se apresentava o tenebroso estudo do ensino público brasileiro: o compara a outros países, mostra a falta de preparo das escolas e professores (tratados pelos governos como barnabés de sexta categoria), a falta de conscientização escolar para o vindouro século das novas tecnologias, a falta de metodologia/currículo e, principalmente, nos dá “as soluções para o ensino básico… sem projetos mirabolantes, de altos custos, como o Ciep, Ciac, Mobral…” Só que em sua Carta ao Leitor, contrariamente, a Veja diz:

“Não é função da imprensa apontar os caminhos para solucionar os grandes males nacionais. A tarefa de revistas e jornais é noticiar o que está acontecendo, contribuindo, para que, através da informação e dos debates, a sociedade escolha as melhores opções… a educação não é uma tarefa apenas do governo…”

Tudo isto está disponível nos arquivos de Veja. Creio ser de fundamental leitura para tentar entender os meandros do imbróglio.

Viomundo — Na época, que especialistas compartilhavam das opiniões de Goldenberg, Veja…?
NaMaria – Não podem ser esquecidos, por exemplo, a então pesquisadora e pedagoga Guiomar Namo de Mello e Cláudio de Moura Castro, à época, prestando serviços para Organização Internacional do Trabalho (OIT), na Suíça. O tempo passa e Paulo Renato de Souza entra no MEC e fica (1/janeiro/1995 a 1/janeiro/2003). Victor Civita havia morrido em 1990 e seu filho Roberto assumira. Em março de 1998, a revista Veja na Sala de Aula. Em 2001, a Unesco diz que a revista Nova Escola “é o melhor veículo de educação do País”. A Veja, propriamente dita, passa a ser a marqueteira oficial das teorias educacionais, dos projetos e políticas públicas, das ONGs, Fundações e empresas que tratavam de “projetos não-mirabolantes” para uma “boa escola” e que trabalhavam para o MEC ou Secretarias, órgãos da Educação. Esses especialistas usam demais a palavra “mirabolante”, em tudo. É impressionante, mas é justamente a palavra que mais bem os define.

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Viomundo – Isso pode ser comprovado?
NaMaria – Pode, sim. E sem que tenhamos de ler – ainda bem! – todos os exemplares da Veja. Há um livro magnífico, fruto de uma dissertação de mestrado na Unesp de Araraquara, do Geraldo Sabino Ricardo Filho, chamado “A boa escola no discurso da mídia – Um exame das representações sobre educação na revista Veja (1995-2001)“ – ou seja, cobre 7 dos 8 anos de FHC e Paulo Renato. Isso sim, uma obra de arte obrigatória de ser lida. O livro prova que durante todo esse período Paulo Renato foi incensado pela Veja, sendo que na edição 1717, de 12/setembro/2001, páginas 106-109, a matéria “Isso é uma revolução” o coloca no mais alto pódio dentre todos os ministérios universais e cósmicos de toda Via-Láctea. É apresentado como o desbravador, o construtor de novas políticas avaliativas, o licitador de 233 mil computadores (a Positivo ficou felicíssima assim como a Microsoft, aliás), o que manejava genialmente 5,7% do PIB, como “comandante de um transatlântico governamental” (sic), batendo todos os recordes em melhoria dos salários, condições etc. e tal. O ministro Paulo Renato era, para a Veja, O CARA. Tanto que ali diziam ser ele “um dos postulantes declarados do PSDB à vaga de candidato à Presidência da República”. Ou seja, O CARA foi considerado tão bom exatamente porque fez tudo aquilo que a Veja prescreveu naquela matéria de 1991 (e seguintes), em termos de “solução para o caos educacional brasileiro”: avaliação (Enem/Provão), combate à repetência criando o monstro de passar o aluno de ano mesmo sem condições (para ele “classes especiais”), Fundef (para o dinheiro fluir/entrar mais fácil – a descentralização da gestão escolar) … O livro também comprova o que eu sempre falei sobre a formação de grupos de especialistas, que Geraldo Sabino denomina como “rede de legitimidade, que contribui para produzir o consenso em torno de uma boa escola”. Aquela escola “que ensina”, “que deixa de ser um privilégio das elites… para ser a solução dos problemas do país” – solução essa que significa criação de mão-de-obra. Não por acaso a Abril é a mãe da Nova Escola, cujo pai foi a Veja – todos apadrinhados pelo Governo.

Viomundo – Que pessoas fariam parte dessa “rede de legitimidade”?
NaMaria – Uma delas eu já mencionei, a Guiomar Namo de Mello, fundadora do PSDB em 1988. Ela é diretora executiva da Fundação Civita desde 1997, diretora editorial da revista Nova Escola e diretora da EBRAP – Escola Brasileira de Professores (que presta serviços ao governo). Mas a Guiomar já foi Secretária Municipal de Educação (governo Covas), deputada estadual eleita pelo PMDB (1987/1991), foi do Banco Mundial… A Guiomar, na verdade, foi e é muita coisa, ao mesmo tempo em que também era e é da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo. Não é lindo isso? Dá uma olhada no Google e no DO de São Paulo. Outro integrante dessa “rede de legitimidade” foi o Cláudio de Moura Castro. O mais importante e íntimo consultor de quase TODAS as matérias de educação de Veja, do qual era também colunista. Ele foi do BID, em Washington. Trabalhou no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – Inep (vinculado ao MEC), no Banco Mundial, de tudo que se pode imaginar ao mesmo tempo agora. Busca o homem no Google para ver, é uma máquina…

Viomundo — Quem mais?
NaMaria – Depois temos João Batista de Oliveira e o Sérgio Costa Ribeiro (foi coordenador de pesquisas da Capes). Segundo o livro de Geraldo Sabino, o João Batista, o Sérgio Costa e o Cláudio Castro “formaram o tripé da revolução silenciosa hoje em curso no ensino básico brasileiro”. Nas Páginas Amarelas de 28/julho/1993, pode-se ler o que pensa Sérgio Costa sobre o “mito criado da evasão escolar” (como se não existisse de fato naquelas plagas), as pérolas sobre os Cieps, Ciacs e Caics prevendo suas ruínas por serem “estigmatizadas como escolas para pobres… e por serem de tempo integral, inviabilizando o trabalho para muitos alunos”. É um horror ler o que ele declarou ali. Mas bate perfeitamente com os ideais do ministro, O CARA, consequentemente com os da Veja – ou vice-versa. O interessante é que Collor gentilmente o convidou a se retirar de seu gabinete porque Ribeiro só aceitaria trabalhar com Goldenberg se acabassem com o “mirabolante” projeto Ciac.

Viomundo – Quer dizer: eles servem ao governo e setor privado?
NaMaria – Sem dúvida. Mas não somente servem como criam suas próprias empresas, que acabavam prestando serviços ao Estado, ao mesmo tempo. Portanto são proprietários, conselheiros, assessores, sócios e amigos. É o caso do próprio Paulo Renato e sua empresa PRS Consultores, “sua” Avalia Assessoria Educacional, a Editora Moderna etc., fazendo negócios com o Estado e Governo Federal. Suas jogadas com a Santillana, Prisa, que já citei no NaMariaNews e por aí vai. Com o tempo, a nova estrutura do MEC ajeitada por Paulo Renato, possibilitou que ele criasse sua própria rede de legitimidade, que depois chega na Educação em SP, em Institutos e Fundações e ONGs do país. Nomes como o da Guiomar Namo de Mello, são acompanhados por Iara Glória Areias Prado, Monica Messenberg Guimarães (essa é quente!), Rose Neubauer, Claudia Rosenberg Aratangy, e tantos outros que já citei no meu blog. O modelo de negócios é tão amplo e variado que se lermos esta matéria do Ação Educativa atentamente, comprovamos os esquemas, depois é só multiplicar por milhão.

Viomundo – Você disse que o Paulo Renato teve negócios com a Santillana e Prisa, como é isso?
NaMaria – Foi algo muito edificante do finado secretário. Publiquei no NaMariaNews, em 1/maio/2010, que a Secretaria estava comprando assinaturas do jornal espanhol El Pais, em 28 de abril, para os alunos dos CELs (Centros de Estudos de Línguas). Naquele tempo não havia o valor, mas chutei entre 700 mil e 1 milhão de reais. Fiquei aguardando a atualização no DO e nada. Até que ela veio, primeiro corrigindo o número do contrato. Depois, somente no DO de 12/maio/2010 veio a história toda, sem a quantidade de assinaturas, porém com o valor:

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Viomundo – E por que assinar o El Pais e não outro jornal?
NaMaria – Foi justamente o que perguntei em meu texto. Como bom tucano, Paulo Renato era contra o Mercosul, porém muito íntimo da espanhola Santillana, do qual era conselheiro consultivo, assim como era ligado à Editora Moderna. “O Grupo Prisa é a principal empresa de comunicação em língua espanhola […] A Santillana começou seus negócios no Brasil em 2001 ao comprar as editoras Moderna e Salamandra […]. Em 2005, adquiriu 75% das ações da editora Objetiva…” Também é dona da Avalia e outros que tais. Quer dizer, tem poder de tiro e amizades sinceras com brasileiros ilustres.

Viomundo – Ou seja, é mais um tipo de modelo de negócios…
NaMaria – Sem dúvida. Só que tem uma coisa nessa história toda que é mais interessante ainda, babado forte…

Viomundo – Como assim? O que pode ser pior do que isso?
NaMaria – Acontece que quase exatamente um ano após essa compra de R$690.336,00. Paulo Renato morre em 26 de junho de 2011 e o Ricardo Noblat noticia: Paulo Renato “estava em negociações para assumir a diretoria para a América Latina do grupo editorial espanhol Prisa, que publica o jornal El País, o mais importante da Europa”. Daí, que a gente só pode juntar as pontas, concorda? Ou seja, será que o senhor Paulo Renato Costa Souza aproveitou a boa intenção de introduzir a língua espanhola (da Espanha) para fazer mais um bom negócio, semelhante àqueles feitos com a Folha de S.Paulo, Estadão, Civita, Abril, Nova Escola, Fundação Roberto Marinho e tais? Longe de mim pensar em desonestidade, mas a coisa não parece ser na base de uma mão lavando a outra? Tipo assim, “Te compro os jornais numa boa – que são gratuitos pela internet, mas a gente nem liga pra isso – e você me garante um emprego com baita salário, viagens, cartão corporativo etc. e tal?” A função dessa gente é sempre a de se favorecer, acima de tudo? Será? Mas é o que sempre digo: a função da verdade é aparecer, esta é a sua natureza. Pode demorar, mas aparece. Portanto, o fato de o governo de São Paulo viver comprando e mantendo a grande imprensa tornou-se ato banal; faz isso há muito mais de 20 anos de PSDB, com maestria exemplar e sem restrições legais ou “pedagógicas”.

Viomundo – Por que isso acontece?
NaMaria – Falta de transparência. Onde ela ocorre, pode crer: há algo escuso, algo de falcatrua. É dever do Estado, de qualquer Governo, mostrar claramente os seus gastos e a fundamentação deles, as fontes do dinheiro, o destino dado, e assim por diante. Somente com transparência absoluta e simples de ser consultada PELO POVO pode-se comprovar a desonestidade e desmascará-la. Mas isso não acontece. É complicado, quando não impossível, encontrar essas informações. Como a pessoa precisa ter tempo e paciência gigantescos, acaba desistindo e os números podem ser torturados por qualquer um, em qualquer veículo, em qualquer propaganda política… já que ninguém pode (ou quer) correr atrás. Sem contar que os Diários Oficiais não seguem uma norma padrão – sem ser o de SP, a maioria é tenebrosa na hora de se buscar informações.

Viomundo – O que você recomendaria à presidenta Dilma se for reeleita?
NaMaria – Para rebater e estraçalhar falsos argumentos de criaturas como os Civita da vida, o governo Dilma deveria escancarar imediatamente seus gastos com a imprensa, seja em qual veículo for. A bem da verdade, o site do MEC tem os gastos com publicidade, de 2006 a 2014, mensais. Entretanto ainda sem tanta transparência, porque detalhes como a fonte dos recursos, unidade gestora, nomes dos veículos e o que vai dentro deles etc., não entram. Mas, ao menos, tem alguma coisinha que faz a gente poder pensar. Só que “pensar, intuir” é perigoso e leva a erros, torturas de números, ataques, enganos. É preciso o lema de São Tomé: mostrar, para ver e para crer. Além de não ser tão fácil de se encontrar a informação: você precisa ir na lateral esquerda em Despesas e depois ver o que tem dentro. Tudo vem em PDF: imagina a canseira abrir um por um, organizar… Poderiam melhorar isso. Confesso que não fui ver em outros ministérios, talvez sejam melhores ou piores. De qualquer modo, dever-se-ia mostrar: “olha, para a Veja mandamos tantos milhões este mês por conta disso e daquilo, o dinheiro saiu daqui e dali; para a Folha mandamos tantos milhões porque tais e tais ministérios colocaram propaganda disso e daquilo; para a Globo e seus associados (abertos ou não) pagamos tantos milhões este mês porque fizemos tais e tais propagandas…” Tudo mensalmente, em planilhas simples e claras, ao alcance de qualquer olho – publicadas, abertas, sem necessidade de download, transparentes de verdade.

Viomundo — É mesmo factível isso?
NaMaria – Claro! O problema é que, atualmente, é missão impossível porque nem o Governo informa isso claramente nem a grande imprensa o faz, é óbvio (e por motivos igualmente óbvios). Não dá para entender a Secom da Presidência não divulgar seus dados financeiros com qualquer veículo, por exemplo. Por que os estados, municípios, secretarias, fundações, santas casas… não divulgam seus gastos claramente? Seria muito mais fácil para os governos inclusive se defenderem, ou não? Eu, como aranha [logomarca do NaMaria News]” ingênua, meiga e pura”, não consigo compreender os motivos. Se quiserem ajuda, podem me contratar, numa boa [risos].

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