A indigência intelectual e a caça às bruxas da Folha

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Saul Leblon, via Carta Maior

O jornal Folha de S.Paulo traz na edição de quinta-feira, dia 10, um artigo assinado pelo jornalista Fabio Maisonnave sobre o escritório regional do Ipea na Venezuela.

O texto registra o descontentamento do veículo e do autor com o fato de a representação do instituto em Caracas não seguir a pauta da Folha na abordagem dos problemas venezuelanos.

A cobertura do jornal dedicada ao país, como é notório, e reafirmado no artigo de quinta-feira, dia 10, carrega nas tintas do primarismo maniqueísta, prática de resto generalizada em uma linha editorial que alimenta a infantilização progressiva do seu público leitor na compreensão e abordagem dos graves problemas enfrentados pelas economias em desenvolvimento na era da globalização.

A endogamia entre o emissor e o receptor compõe uma espiral de indigência histórica que, no caso da Folha, tem no tema do “chavismo” um de seus vórtices mais dinâmicos.

Os relatos dos seus correspondentes em Caracas, e o senhor Maisonnave foi um deles, notabilizam-se por reduzir a complexidade dos desafios econômicos e sociais da Venezuela aos mandamentos da cartilha colegial do maniqueísmo antichavista.

A indigência intelectual na abordagem dos problemas mais amplos do continente latino-americano, em grande parte ainda refém dos ciclos das commodities, conduzem ao paradoxo de um jornalismo que se esponja nos mesmos limites do personalismo político que pretende criticar.

Escapa-lhe, por dificuldades cognitivas, ou opção deliberada, que a atrofia da participação democrática da sociedade na América Latina explica em grande parte a rigidez de seus gargalos econômicos. Sem alterar um lado dificilmente se avançará na equação do outro.

O resultado dessa omissão mais oculta do que revela da dinâmica de uma Venezuela secularmente espremida entre uma elite próspera, uma vasta massa de alijados da renda petroleira e instituições – inclusive o aparelho de Estado, mas também a atrofia partidária – contidos pela importância subalterna atribuída à vontade popular na ordenação do que estava condenado a ser um eterno entreposto de óleo bruto.

Desarmar essa rigidez – que o caso venezuelano magnifica, mas não é o único – é um dos problemas macroeconômicos mais complexos da luta pelo desenvolvimento latino-americano.

Não por acaso está no centro das análises de Raul Prebisch e Celso Furtado – autor de um estudo de 1957, ainda atual, sobre a armadilha do petróleo venezuelano – bem como de Fernando Henrique e Faleto, entre outros.

Os 50 anos do golpe de Estado de 1964, agora em março, reavivaram a natureza desses impasses no Brasil. Há meio século, a encruzilhada do desenvolvimento brasileiro foi respondida pelas elites com um ataque às instituições democráticas que permitiriam escrutinar transformações estruturais interditadas pela lógica dos beneficiados dominantes.

Em 1964 a Folha não perfilou ao lado dos que reconheciam a prerrogativa soberana da democracia para superar os impasses nacionais e aderiu aos golpistas.

Adota opção semelhante hoje na forma obtusa como aborda os – repita-se – graves dilemas enfrentados pela sociedade venezuelana na luta para escapar à dependência da renda petroleira – hoje melhor repartida, mas de forma ainda limitante.

Por discordar dessa renitente irresponsabilidade no tratamento de questões cuja raiz histórica transcende o caso venezuelano – embora tenha ali um mirante extremado – Carta Maior convidou o economista Pedro Barros Silva para colaborar em sua página, com análises e informações de escopo mais amplo e equilíbrio indisponível nos despachos e no foco da Folha e da mídia conservadora em geral.

Barros e Silva é o responsável pelo escritório do Ipea instalado em 2010 em Caracas. Seus textos em Carta Maior refletem opiniões pessoais, não do órgão que coordena.

O artigo do senhor Maisonnave na Folha questiona a colaboração do economista com “um portal de esquerda”, Carta Maior.

Faria o mesmo se a contribuição fosse com o site do Instituto Millenium, um sucedâneo do Ipes e do Ibad que tonificaram intelectualmente o golpe de 1964?

Dezenas de intelectuais de distintas instituições do governo ou associados ao aparelho público brasileiro escrevem na Folha.

É ótimo que seja assim.

Carta Maior reserva-se o mesmo direito de – a exemplo de outras publicações democráticas – recorrer à contribuição ecumênica de estudiosos e pesquisadores da universidade e de esferas do setor público.

Inspira-nos contribuir assim para formar um discernimento desassombrado e progressista dos desafios e as opções colocados ao passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.

Quanto à instalação do escritório do Ipea em Caracas, criticado pelo senhor Maisonnave por não “tratar de temas econômicos”, por certo incomoda à pauta da Folha o fato de ter sido criado, e assim funcionar, como uma contribuição ao desenvolvimento venezuelano nas diferentes dimensões que o termo encerra.

A expansão do mercado interno, como se sabe, fez daquele país um dos principais destinos das exportações brasileiras nos últimos anos.

Entre 1999 e 2012, o volume negociado bilateralmente saltou de US$1,5 bilhão para US$6 bilhões. As exportações brasileiras passaram de 36% do valor total intercambiado, que tornavam a balança deficitária para o país, para 84% das transações. O dado é do Ministério do Desenvolvimento (MDIC).

A Venezuela constitui hoje um dos principais parceiros do comércio exterior brasileiro; o Brasil é o terceiro maior parceiro da Venezuela. Os dois primeiros são Estados Unidos e China. Como se vê, um espectro ideológico distinto da obtusidade destilada por um certo jornalismo.

Alimentos, aviões, automóveis e serviços – sobretudo a construção de grandes obras públicas, incluem-se na pauta das exportações brasileiras.

Em 2010, quase seis meses depois de o Congresso Nacional ter aprovado o ingresso da Venezuela no Mercosul, o então pré-candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, o delfim da derrota conservadora predileto da Folha, manifestou-se contrário à entrada daquele país no bloco do Cone Sul.

A sandice ideológica foi recebida com apreensão na Fiesp.

Contribuir para o desenvolvimento socioeconômico da sociedade venezuelana, uma das atribuições da missão do Ipea, rebate favoravelmente – até do ponto de vista capitalista – no comércio exterior e no crescimento brasileiro.

Mas a Folha talvez preferisse que o Ipea funcionasse ali como uma extensão da Casa das Garças, o think tank tucano da apologia de um receituário econômico que jogou o mundo na pior crise do capitalismo desde 1929. Indisponível essa opção, o jornal procura compensá-la – com denodo, reconheça-se – através de textos e artigos como o de quinta-feira, dia 10, onde a indigência intelectual bordeja a caça às bruxas.

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