Torturador da ditadura se tranca em casa para evitar escracho

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Militantes do Levante Popular da Juventude fizeram um escracho, na tarde de segunda-feira, dia 31, na rua em frente à casa do coronel reformado do Exército.

Texto e fotos de Najla Passos, via Carta Maior

“Aqui mora um torturador”, alerta a pichação feita pelos militantes do Levante Popular da Juventude, na tarde de segunda-feira, dia 31, na rua em frente à casa do coronel reformado do Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe de 1970 a 1974 de um dos mais brutais aparelhos de repressão da ditadura civil-militar, o Doi-Codi de São Paulo. Hoje com 81 anos, ele é apontado como o responsável por conduzir pelo menos 502 sessões de tortura, das quais muitos presos políticos saíram mortos.

Localizada no Lago Norte, bairro nobre da capital federal, a residência de alto luxo manteve portas, portões e janelas cerradas durante os 30 minutos que durou o protesto. Se não fossem os três carros de luxo estacionados na garagem, ninguém diria que Ustra e sua família estavam ali, quietos, tentando se esquivar da presença incômoda daquelas jovens que, a despeito da revalidação da Lei da Anistia pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2010, pediam punição para os algozes daqueles que lutaram pela democracia brasileira. “Se não há justiça, há escracho público”, afirmava uma faixa pregada na fechada da casa.

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“O Levante tem o compromisso de denunciar os torturadores da ditadura para que essa história não seja esquecida e para que essa impunidade que já dura três décadas tenha fim. E o coronel Brilhante Ustra é um emblema desta impunidade, porque é o único torturador já condenado pela justiça brasileira, mas continua desfrutando o benefício da liberdade que os lutadores que passaram pelas mãos dele não tiveram. E ainda recebendo uma pensão milionária do Estado”, afirmou Francis Barbosa Rocha, da coordenação do movimento.

Ustra foi condenado pela justiça de São Paulo, em 2012, a pagar indenização de R$50 mil aos familiares do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, assassinado nas dependências do Doi-Codi em 1971. Entretanto, por força da Lei da Anistia, revalidada pelo STF, não pode ser condenado criminalmente pelas torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados que cometeu no período, muitos deles já documentados e comprovadas por investigações operadas por familiares das vítimas e, mais recentemente, pela Comissão da Verdade.

Aos poucos, os vizinhos foram abrindo janelas e portas, se aproximando, conversando com os manifestantes, tentando entender o ato. A maioria se dizia perplexa. Muitos filmaram, fotografaram. “Eu juro que não fazia ideia que uma pessoa assim morava aqui do lado”, disse uma jovem que pediu para não ser identificada. “É claro que a gente não concorda com nada do que ele fez, mas fico com pena das duas filhas, que são pessoas maravilhosas, e tem que viver assombradas pelo passado do pai”, justificava uma outra, que também pediu para não ter sua identidade revelada.

Entre os jovens manifestantes, a solidariedade era com as vítimas de Ustra: jovens, como eles, que tiveram a vida interrompida de forma brutal. Vários cartazes com as fotos dos mortos e desaparecidos no Doi-Codi de São Paulo foram afixados na rua. Os oradores citaram nomes e biografias de várias das vítimas do coronel no aparelho de repressão. Uma esquete mostrou como eram tratados trabalhadores, camponeses, jovens e militantes tidos como “inimigos do regime”. “Pula, pula, pula quem é contra a ditadura. Pula, sai do chão quem é contra a repressão”, cantaram os jovens ao som do funk ritmado nos tambores, ao final do ato.

Como não houve divulgação prévia, polícia e imprensa convencional só conseguiram chegar quando o ato já estava acabando. Não foi o primeiro. Desde 2012, quando foi criado, o Levante já realizou outros 70 em várias cidades brasileiras, sempre expondo militares e civis que apoiaram a ditadura e seu terrorismo de estado. Nesta segunda, a manifestação contou também com o apoio de militantes do Movimentos dos Pequenos Agricultores (MPA) e do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST).

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3 Respostas to “Torturador da ditadura se tranca em casa para evitar escracho”

  1. jorge geovane Says:

    eu vejo que você deve ter entregue muita gente da tua familia na epoca não é seu traidor

  2. Miguel Alfonso Says:

    A lei de anistia, em essência, foi formulada para pacificar o país na medida em que favoreceu os dois lados envolvidos : Militares e terroristas.

    Dessa forma, o governo militar daquele momento ( Geisel )permitiu o retorno de todos os exilados e libertou todos os presos políticos existentes no país.

    Sem dúvida cumpriu bem seu objetivo tendo em vista que não são poucos os terroristas de outrora que agora ocupam cargos públicos de relevância . Alguns, vale lembrar, voltaram recentemente para a cadeia pelo envolvimento em escândalos como o MENSALÃO, e otras cositas mas . . .

    Outros tantos, cegos pelo rancor e sedentos de vingança, moveram ações na justiça acreditando conseguir revogar a dita Lei de Anistia.

    Esforço em vão, pois foram derrotados em todas as instâncias, inclusive na Suprema Corte (STF) .

    Agora apegam-se à última esperança que lhes restou : A CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS . Essa nobre instituição já se pronunciou a respeito e manifestou que os criminosos devem sim ser punidos independentemente da Lei de Anistia .

    Não tenham dúvidas que o Brasil há de cumprir a nobre determinação externa. Está esperando apenas que o último dos remanescentes daquele período venha a óbito …

    Curioso em tudo isso é constatar que nosso nobre compatriota, Fernando Gabeira, não pode colocar seus pés nos EUA pois está condenado pelo envolvimento que teve no sequestro do embaixador americano. Fica claro que a nobre Corte Interamericana não quer, ou não pode, exercer seu poder em todos os países da mesma forma . . .

    Com relação ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, quero aqui manifestar meu grande apreço, admiração e gratidão por toda a atuação que teve durante aquele momento histórico.

    Sinceramente não vejo nenhuma diferença entre: VAR-PALMARES, MR8, ALN, ETA, IRA, AL-QAEDA, IRMANDADE MUSSULMANA, FARC, ETC. Todos esses poderiam usar um único nome : MERDA!

    Aprendi nesta vida a não verter lágrimas e não acender velas para defunto ruim.

    É inegável que o governo militar fez uso de autoridade e força, mas foi apenas contra aqueles que disseminaram o terror e pretendiam implantar uma ditadura comunista em nosso país .

    Os militares norte americanos que eliminaram Ossama Bin Laden são heróis e foram todos condecorados. É isso o que deve ser feito a favor de todos aqueles que se empenham, ou já se empenharam, em cortar a cabeça das serpentes …

    Miguel Alfonso .

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