50 anos do golpe: Uma entrevista com Sílvio Tendler

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Se dez vidas ele tivesse, com todas elas faria cinema político.

Léa Maria Aarão Reis, via Carta Maior

“Não há censura política, mas há uma censura econômica em cima dos filmes políticos brasileiros que pertencem a uma bela safra de produções de alta qualidade, mas à qual o povo não tem acesso,” diz o cineasta Sílvio Tendler, professor de cinema e história na Faculdade de Comunicação da PUC-Rio e festejado diretor de dois clássicos do nosso cinema político – Jango e Os anos JK, as maiores bilheterias de docs nacionais. Conversamos com Tendler no escritório da sua produtora, a Caliban, no Rio de Janeiro, em Copacabana, onde ele também respondeu às perguntas enviadas de Buenos Aires pelo jornalista argentino Dario Pignotti. Dividimos, por isto, a sua entrevista em duas partes.

Sílvio desenhou um paralelo entre a produção do cinema político brasileiro e das excelentes produções argentinas do mesmo gênero nos últimos 50 anos. Criticou a política para o cinema da Ancine (Agência Nacional de Cinema); a precariedade dos canais de exibição, distribuição e circulação dos filmes nacionais políticos e a concentração das salas em shoppings centers – quem vai a shopping para comer fast food e comprar roupa de marca não vai ver filme político”; – e investiu contra o esquema atual de horários das sessões – quem vai ao cinema às duas da tarde de uma terça-feira? –, além de contestar o alto custo das produções brasileiras.

Emociona-se, com toda razão, quando fala sobre Os inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade, filme que adora. “Pouca gente o viu. Tem que ver Tiradentes dizendo ‘se dez vidas eu tivesse daria dez vidas para salvá-los’ momentos antes de ser enforcado e ao saber que a rainha concedera clemência aos companheiros condenados à morte excluindo-o do perdão. É muito lindo! Termina com o palanque com Magalhães Pinto (ou JK?) festejando o Dia da Independência e a PM mineira marchando em homenagem ao cara que foi morto e esquartejado como traidor…”

Incansável, e apesar das dificuldades, Tendler trabalha a pleno vapor. Dia 24 deste mês ele estreia, na TV Brasil, a série de cinco programas de 50 minutos – que resultaram em um longa de duas horas e dez minutos – o seu novo documentário Advogados contra a ditadura, patrocinado pelo Ministério da Justiça com participação da OAB. Dia 31, também na TV Brasil, inicia a emissão de Os militares que disseram não, emocionante testemunho de uma hora e trinta e cinco minutos sobre os que foram perseguidos de modo implacável e injusto pela ditadura. Juntos, eles representam 725 minutos de história. “É algo inédito no Brasil,” ressalta. “As duas séries se complementam formando labirintos, caleidoscópios, quebra-cabeças, bem como gosto.”

Outro a ser lançado no primeiro semestre deste ano, O veneno está na mesa II, sequência do primeiro que realizou sobre o uso criminoso e o consumo dos agrotóxicos no país. O primeiro Veneno está disponível no YouTube. Todos vão circular – Sílvio faz questão de enfatizar: “gratuitamente” – pelo Brasil assim como o seu Os caçadores da alma, de 2013, seleção de 13 filmes com os melhores fotógrafos do Brasil – também disponível no YouTube.

Como se pode ver, se dez vidas Sílvio tivesse, com as dez ele certamente faria cinema.

CM: Qual é o balanço que você faz do cinema político brasileiro nos últimos 50 anos? É tão vigoroso quanto o cinema argentino, por exemplo, neste gênero?

Acho que, num balanço geral, temos filmes muito importantes do ponto de vista político e realizados em certos momentos. Eles fizeram a história do cinema brasileiro.

Por exemplo?

Por exemplo, feito em plena ditadura Médici, Os inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade. Durante a ditadura do Figueiredo você tem Pra frente Brasil, do Roberto Farias, Eles não usam black-tie, do Leon Hirszman. Por outro lado, há um cinema argentino, sempre muito politizado, que vem desde os anos 60, com La hora de los hornos, do Fernando Solanas até Luiz Puenzo e seu A história oficial, que ganhou o Oscar. Tem um quase fla-flu nesta questão.

E hoje em dia?

Sem sombra de dúvida, hoje, a grande vantagem do cinema argentino em relação ao brasileiro não é por falta de filmes políticos brasileiros – quero deixar isto bem claro. É porque os filmes políticos brasileiros estão completamente marginalizados por conta da política da Ancine (Agência Nacional do Cinema Brasileiro). Não se pode esquecer que a Ancine foi criada durante o governo do FHC para dotar o cinema brasileiro de outra estrutura, para reestruturá-lo. Ela deveria ter sido demolida no primeiro dia do governo Lula.

Por quê?

A Ancine, que continua até hoje, contaminou toda a cultura. A Ministra Marta Suplicy, quando assumiu a pasta, e para justificar o terceiro mandato do Manoel Rangel, disse que a Ancine era uma agência diferente. Diferente em quê? A proposta, logo no início, era transformá-la em uma agência do cinema e do áudio visual. Nós fomos a favor. Mas a direita se rebelou. A lei não passou e hoje são feitas todas as trapalhadas possíveis com o cinema brasileiro.

A Ancine se orgulha de o cinema brasileiro ter feito 15 milhões de espectadores em 2012. Ora, se considerarmos que cada espectador médio brasileiro vai ao cinema duas vezes por ano, isto é pouco. Num país de 200 milhões de habitantes significa nada.

Não é uma questão de contabilidade completamente equivocada?

Sim! Você passa o filme em sessões para professores. Na plateia há 200, 300 professores. Você passa filmes em circuitos escolares. Temos 2 mil jovens. Mas isso não é contabilizado!

Sem falar nos horários, por vezes absurdos.

Claro. As pessoas terminam indo ver filme norte-americano com maior oferta de salas e horários. Um exemplo: quando lancei Jango, quando lancei JK, os meus filmes ficavam cinco semanas em cartaz em sessões das duas, quatro, seis, oito e dez horas. Hoje, você lança um filme com apenas duas sessões por dia – duas e seis. Quem pode ir ao cinema de tarde, às duas horas?

Os velhinhos aposentados que não precisam continuar trabalhando…

Às seis horas o estudante está saindo da escola, o indivíduo está saindo do trabalho… Ora, aí o filme não faz público. Então dizem que as pessoas não têm interesse pelo seu filme. Em 1984, em plena ditadura militar, eu fiz Os anos JK e tivemos 800 mil de espectadores. Com Jango, um milhão. Hoje, em pleno governo popular, um documentário sobre Vinicius de Moraes faz 300 mil espectadores. O de Pelé faz 400 mil. Isto quer dizer que não temos cinema alternativo. Não temos salas de cinema alternativas. Os documentários políticos brasileiros são ótimos, de boa qualidade. Há uma safra de filmes maravilhosos, mas que fazem 30 mil espectadores.

Quais?

O dia que durou 21 anos, por exemplo. Fez 30 mil espectadores – se tanto. O filme de Flavia Castro, Diário de uma busca; o da Maria de Medeiros, os filmes da Lucia Murat. Mas o cinema não consegue chegar ao público porque em pleno governo popular as salas de cinema estão todas concentradas nos shoppings. Os ingressos custam uma fortuna. Para um casal ir ao cinema, gasta 100 reais. Quem pode? E quem vai ao shopping para consumir fast food e comprar roupa de marca não quer ver cinema político. Vai ver Hollywood ou aquilo a que já está habituado a assistir na televisão. O cinema brasileiro virou uma extensão da televisão em tela grande. Então, nós não temos espaço. Por que não se faz ingressos subsidiados? Filmes feitos com recursos públicos deviam ter um preço/teto de ingresso.

E na Argentina?

Lá existe um circuito de 20 salas estatais. Em Buenos Aires há um grande cinema, o Gaumont, defronte da Casa Rosada, que é um imenso cinema popular. Os ingressos, na Argentina, são baratos e há boas salas de exibição e com bons filmes.

Mas aqui, no Rio, há as salas da Baixada Fluminense, o Ponto Cine…

São exceções que confirmam a regra.

O Gaumont também não é uma exceção em Buenos Aires?

Não. Lá, eles conseguiram manter um esquema de produção comercial completamente diferente do nosso. Produzir cinema na Argentina é muito mais barato que no Brasil. Um bom filme argentino custa, no máximo, a metade de um filme brasileiro médio. Lá, conseguiram montar uma estrutura de produção que não é milionária. Aqui, as leis de incentivos encareceram tudo. Como o dinheiro não pertence ao produtor, os preços no Brasil são muito maiores que os preços de lá. O dinheiro é público; então todo mundo cobra caro.

A indústria argentina é mais bem montada, não?

Sem dúvida. Você tem o Instituto Nacional de Cinema que dá menos recursos para os filmes. Aqui, ficamos fazendo um falso cinema comercial pela Ancine que inventou o tal Fundo Setorial do Áudio Visual do qual nunca se prestou contas. Nunca se disse quanto já foi investido e quanto retornou. Na Argentina há um movimento chamado DOCA – Documentaristas Argentinos. Há todo um sistema de financiamento público. Os filmes são muito mais baratos e as pessoas produzem com mais intensidade.

Aqui, o Fundo Setorial não presta contas?

Você sabe quanto o Fundo Setorial, na verdade a Ancine, já colocou nos filmes e quanto recebeu de volta? Um filme como Besouro, por exemplo, que foi produzido e justificado para filme comercial, para circuito internacional: nunca tivemos uma prestação de contas. Não se sabe quanto ele custou, quanto deu de renda ou em quantos países foi mostrado. Se precisarmos de informações da Ancine temos que recorrer à Controladoria Geral da União (CGU), como já foi feito, porque a agência não libera informação, não revela o quanto o Fundo Setorial já investiu e se realmente é uma atividade lucrativa ou não. Assim navega o cinema brasileiro.

Na Argentina o mercado conta com muitos canais de exibição.

Além das salas, há centenas de canais de tevê pela internet, de grupos alternativos – isto, anterior até à Ley de Medios. Há canais populares, as pessoas vão com mais frequência ao cinema. Os argentinos sempre foram mais organizados e mais politizados. Há mais cinemas de rua e os ingressos são mais baratos, como dissemos. Passeando em Corrientes vemos vários cinemas. No Rio, quantos cinemas ainda têm na Cinelândia? E na Avenida Copacabana? Em Madureira? Antigamente, Madureira era um termômetro de público do cinema brasileiro. O filme que faz público em Madureira é filme popular. Hoje, a Baixada não tem cinemas de rua.

Quais as alternativas que você vê, Sílvio?

Fechar a Ancine. Aliás, acabar com todas as agências, um sistema baseado num modelo norte-americano. Criar um instituto nacional do cinema com direção realmente colegiada, democrática e não gerenciada por quatro diretores dos quais dois são do mesmo partido político. (No caso de empate, em uma tomada de decisão, o presidente terá o voto de minerva e aí acaba tudo.)

Qual a importância do cinema fazer parte da sala de aula?

Não defendo cinema apenas na sala de aula como é a proposta do Senador Cristovam Buarque. Cinema é também para os momentos de lazer. O que discuto é que não existe, por exemplo, uma interface entre o Ministério da Educação e o da Cultura. Na educação tem-se uma política de difusão da literatura brasileira subsidiada pelo estado. O jovem brasileiro pode ler livros da nossa literatura. Machado, Graciliano, Mario de Andrade, Jorge Amado. Mas não vê filmes brasileiros nas escolas. O estudante brasileiro não tem acesso ao cinema brasileiro, ao teatro brasileiro. No entanto, ver filme brasileiro não devia fazer parte apenas da sala de aula. Seria também para os momentos de lazer do jovem que poderia ouvir a proposta: “Toma aqui; vai ver um filme do Nelson Pereira” ou então “tem aqui um Eduardo Coutinho, um Joaquim Pedro, um Sílvio Tendler. Vai ver.”

Resuma, Sílvio, esta primeira parte da nossa ótima conversa.

Por que precisamos aprender cinema só com cinema norte-americano? É fundamental: vamos entender a linguagem que o cinema brasileiro pratica

Leia mais: Sílvio Tendler: “Eu quero ser visto: copie e distribua.”

 

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