50 anos de golpe: Nos idos de cinquenta marços

Ditadura_Militar_Praca_Se

Quebra-quebra em comício na Praça da Sé, em São Paulo.

Na terça-feira, dia 31, cientes de que o general Olímpio Mourão Filho movimentava suas tropas em direção ao Rio, os padres suspenderam as aulas. Tremi. A serpente do golpe civil-militar deixara o ovo.

Rui Daher, via CartaCapital

Começo por entregar a idade. Em 31 de março de 1964, tinha 18 anos. Só eu sei quantas vezes ainda iria me entregar depois daquele dia, na contramão do acordo de elites que nunca nos permitiu vivenciar um país menos desigual.

O ano letivo acabara de começar no Colégio de São Bento, em São Paulo. No final, eu receberia o diploma do “científico”, “colegial”, que assim era como não mais o é.

Onze anos de ensinamentos dos padres beneditinos alemães, faziam-me perceber que Jesus e o Evangelho não eram bem compreendidos no Brasil.

Mais grandinho, um termo impróprio para a minha altura, desprezava logaritmos, formas geométricas e cromossomos. Preferia devorar os autores franceses Teilhard de Chardin (1881-1955), Merleau-Ponty (1908-1961), e os brasileiros Alceu de Amoroso Lima (1893-1983) e Caio Prado Júnior (1907-1990).

Daí até participar da JEC (Juventude Estudantil Católica), da UPES (União Paulista dos Estudantes Secundários), reuniões, passeatas, filmes do russo Sergei Eisenstein (1898-1948), Chico Buarque cantando “Pedro Pedreiro” em colégios da elite paulistana, foi um pulo. Pronto! Pertencia ao movimento estudantil.

A Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola depois da renúncia de Jânio Quadros, em 1961, ajudou a garantir a posse do vice-presidente João Goulart. Alvíssaras! O caminho para as reformas sociais parecia iluminado. Houvesse ruptura, venceríamos.

Desde 1962, no entanto, em regime parlamentarista de araque, logo rejeitado em plebiscito, as situações política e econômica vinham se deteriorando. Sindicatos de trabalhadores, ligas camponesas e entidades estudantis confrontavam a oligarquia rural, os industriais paulistas e os Estados Unidos.

Naquela época, em São Paulo, tínhamos a Rádio Marconi. À exceção do jornal Última Hora, de Samuel Wainer, e do Correio da Manhã, no Rio de Janeiro, a emissora era a única favorável ao governo. Tanto que combateu o golpe até ser fechada, em 1967.

No dia 13, uma sexta-feira, eu passara toda a tarde colado ao rádio ouvindo a transmissão do Comício da Central, no Rio de Janeiro. Cada discurso me fazia vibrar. Mais de 150 mil pessoas reunidas para ouvir sindicalistas, políticos, e o presidente anunciar reformas que mexeriam com os estratos conservadores do País.

Pressenti bronca pela frente.

Seis dias depois, como réplica, arregimentadas pelos setores golpistas, milhares de pessoas saíram às ruas, em São Paulo e outras capitais, na Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

Mais seis dias, e veio tréplica. Quase 3 mil marinheiros se reuniram em assembleia, no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, com reivindicações da tropa e em apoio às reformas de base.

À ordem de prisão dos insurgentes, dada pelo general do Exército e ministro Sylvio Frota, se contrapôs o contra-almirante Cândido Aragão. Era a hierarquia militar ameaçada com a cucuia.

O pressentimento virou certeza. A bronca seria o golpe de Estado.

No dia 29, domingo de Páscoa, fiquei com meus pais. Não lembro se ganhei ovos de chocolate. Gordinho e espinhento, eles me restringiam essa gula. Se não os ganhei, é provável tê-los comprado.

Na terça-feira 31, cientes de que o general Olímpio Mourão Filho movimentava suas tropas de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro, para gáudio da maioria de meus colegas, os padres suspenderam as aulas.

Tremi. A serpente do golpe civil-militar, que por muitos anos se disfarçaria de revolução, deixara o ovo.

Nos dias e anos seguintes, tudo girou entre sobreviver, formar família, e aperfeiçoar os ideais conquistados antes de março de 1964. Nos lugares onde estive, nos empregos que aceitei, nas livrarias e cinemas frequentados.

Os fotogramas desses cinquenta anos correram rápidos. Não poucas vezes se fragmentaram e tiveram que ser remontados.

A morte de meu pai, um ano depois; desistência do vestibular para medicina; primeiro emprego como estoquista de uma serraria da família Maluf; curso de administração de empresas na FGV, onde poucos eram os amigos de esquerda; casamento, filhos, prestação do BNH; o salário crescendo e a burguesia mostrando seus encantos.

Os micróbios pré-1964, no entanto, persistiam nos fotogramas.

Trabalhar durante o dia numa fábrica de tintas, em Guarulhos, e estudar Ciências Sociais, à noite, na USP, para aprender a ler Marx, Trotsky e Gramsci; centenas de livros comprados nas livrarias Avanço e Kairós; a emoção das Diretas-Já; o Brasil novamente naufragando; o círculo social se ampliando com burocratas reacionários e uns poucos que relutavam em voltar de Woodstock.

Quase quarenta anos trabalhando em setores do agronegócio, me fizeram ser empregado, executivo, sócio, de pessoas que aderiram ou participaram dos governos militares. De muitos, gosto e fiquei amigo. A outros, respeito.

Deles, nunca escondi minhas posições. Recebo respeito e alguma incredulidade.

Ao me propor este texto, o site de CartaCapital pergunta: “De que maneira aquele dia que instalou a ditadura mudou sua vida, sua forma de pensar e agir”?

Mudou?

Quem me lê sabe que não.

Rui Daher é colunista do site de CartaCapital. Seu relato é parte de uma série de 50 depoimentos coletados para o especial Ecos da Ditadura, que lembra os 50 anos do golpe militar.

***

Leia também:

Empresários que apoiaram o golpe de 64 construíram grandes fortunas

50 anos do golpe: A verdade e a impunidade

A operação de guerra que garantiu a posse de Jango com o parlamentarismo

Por que algumas pessoas têm saudade dos tempos dos militares?

“Ditadura selou aliança entre latifúndio e burguesia industrial”, afirma professora

A mídia e o golpe de 1964

A farsa desfeita: A “revolução” de 64 foi uma quartelada

O organizador da Marcha da Família é uma ameaça à sociedade

Breno Altman: A presidenta falará esta noite?

Antonio Lassance: A ditadura e seus psicopatas de ontem e de hoje

Há 50 anos, elite empresarial que queria derrubar Jango financiou a marcha

Dez motivos para não ter saudades da ditadura

Os patetas patéticos da “Marcha dos Sem Gente”

Câmara abre espaço para golpistas e saudosos da ditadura

Militar-torturador diz que arrancava dedos, dentes e vísceras de preso morto

Filho de Jango quer saber: Como os EUA participaram do golpe

A marcha da família e o mundo igualitário com Ferrari

Bob Fernandes: “Marcha da Família Alienada” é uma ópera bufa

Lalo Leal Filho: O Brasil da mídia e o país real

Vergonha ou medo?: Comandantes evitam lembrar à tropa aniversário do golpe de 64

50 anos do golpe: Ditadura militar, a raiz da impunidade no Brasil

General Newton Cruz diz que não pode ser punido pelo caso Riocentro

50 anos do golpe: Uma visita ao DOI-Codi, centro do terror nos anos de chumbo

50 anos do golpe: Como algumas empresas se beneficiaram com a ditadura militar

50 anos do golpe: A nova marcha e a nova farsa

Mauro Santayana: Reflexões sobre um golpe em nossa história

E se o Exército fosse dissolvido?

Wanderley Guilherme dos Santos: Um comício da Central do Brasil no Legislativo

Antonio Lassance: Sete lições sobre o golpe de 1964 e sua ditadura

Viúvas da ditadura tentam reeditar Marcha da Família

“Golpe militar 2014” expõe ultra direita ao ridículo no Brasil

Chico Xavier e a ditadura militar

O golpe de 1964 em filmes, livros e artigos

A imprensa brasileira e o golpe de 1964I

Em 1964, a ditadura também veio em nome da ordem e da liberdade

Golpe: Os 50 anos da campanha “Ouro para o bem do Brasil”

MPF denuncia coronel Ustra por ocultação de cadáver na ditadura militar

Ditadura militar: O algoz e o crematório

“Coronel Ustra comandava a tortura”, diz ex-sargento

Marco Aurélio Mello: Ministro que defende o golpe de 1964 pode ter lisura para julgar a AP470?

Mauro Santayana: O golpe da informação

Apoio da Globo ao golpe de 1964 foi comercial, não ideológico

O PIG apoiou a ditadura militar: As manchetes do golpe de 1964

31 de março é um dia para lamentar

A Globo e a ditadura militar, segundo Walter Clark

Golpe de 1964: A Globo devolverá o dinheiro que ganhou com ele?

Tucanou o golpe: Aécio Neves chama ditadura de “revolução”

Golpe de 1964: Ranieri Mazzilli, o político Modess

Dom Eugênio Sales era o cardial da ditadura

“Memórias da Resistência”: Novo documentário sobre a ditadura militar

Nelson Rodrigues tinha um pé na ditadura militar

Músicas de Chico Buarque ajudam a estudar o período da ditadura

Maria Rita Kehl: Alckmin usou a mesma retórica dos matadores da ditadura

Paulo Moreira Leite: A ditadura gostava de criminalizar a política

Paulo Moreira Leite: A ditadura militar e a AP 470

Ditadura militar: Os delatores de Dilma

Relações da mídia com a ditadura: Um histórico debate na Falha de S.Paulo

Uma foto da ditadura que o Brasil não viu

Mídia e ditadura: A primeira morte de Jango

O elo da Fiesp com os porões da ditadura

Depoimentos de ex-militares reforçam sadismo de torturadores na ditadura

Livro expõe ligação de agências de propaganda com ditadura militar

Folha financiava a ditadura e Frias, amigo pessoal de Fleury, visitava o Dops, diz ex-delegado

Vereador Nabil Bonduki quer mudar nomes de ruas de São Paulo que homenageiam ditadura

Trairagem: Aloizio Mercadante bajula Folha e esbofeteia vítimas da ditadura

Deputado acusa Rede Globo de prestar serviços à ditadura

Pesquisa sinistra do Datafolha testa popularidade da volta da ditadura

Ditadura militar: Estadão apoiou atos do torturador Ustra

Comissão da Verdade vai ter de enfrentar assassinos da ditadura

Marilena Chauí: A ditadura militar iniciou a devastação da escola pública

Dá pra confiar num cara desses? Delfim Netto afirma que não sabia de tortura na ditadura

Da ditadura militar ao Facebook: Uma breve história do Brasil

Ditadura militar: Documentos revelam conexão entre Itamaraty e Operação Condor

Ditadura militar: Procurador-geral da República diz que tortura e morte são imprescritíveis

Emir Sader: Os cúmplices da ditadura

Como era a propaganda da ditadura militar na Rede Globo

Mauricio Dias: Os fantasmas da ditadura

Segundo pesquisa, os milicanalhas da ditadura torturavam desde os primeiros dias no poder

Vídeo: Em depoimento emocionante, Dilma Rousseff fala sobre a ditadura militar e a tortura

Prefeitura de São Paulo, “que participou da ditadura”, terá comissão da verdade

Ditadura militar: “Imprensa aceitou a censura”, diz historiadora

Os filhos de 1964: Memórias e exumações

Em 1964, os militares golpistas venderam a democracia

Vídeo: 1964 – Um golpe contra o Brasil

Gilson Caroni Filho: 1964, a atualização grotesca de nossos liberais

Filme revela como EUA deram o golpe de 1964

Documentário quer explicar aos jovens as origens do golpe de 1964

Luis Nassif: Um estudo clássico sobre 1964

Saudades de 1964

Hildegard Angel: “É meu dever dizer aos jovens o que é um golpe de estado.”

Hildegard Angel: É meu dever dizer aos jovens o que é um golpe de estado

Hildegard Angel: A sombra do golpe de 64 paira sobre nossas cabeças

A Igreja Católica e o golpe militar no Brasil

O golpe militar no Brasil está marcado para 31 de março de 2014

Além de Aécio, Folha também costumava chamar golpe de revolução

“Igrejas legitimaram golpe militar”, afirma pesquisador

O cordão da ditabranda cada vez aumenta mais

Folha: Da ditabranda às Diretas Já

Ditadura militar: Coronel do Exército confirma farsa montada no desaparecimento de Rubens Paiva

Documentos do Exército revela os dedos-duros do meio artístico na ditadura militar

Leandro Fortes: As almas penadas da ditadura

Saiba quem são os nazifascistas do grupo Revoltados On-line

Revoltados On-line: Agora, Hélio Bicudo se junta à extrema-direita

 

Tags: , , , , , , , , , , ,

2 Respostas to “50 anos de golpe: Nos idos de cinquenta marços”

  1. 50 anos de golpe: Nos idos de cinquenta marços | EVS NOTÍCIAS. Says:

    […] See on limpinhoecheiroso.com […]

  2. 50 anos de golpe: Nos idos de cinquenta mar&cce... Says:

    […] Na terça-feira, dia 31, cientes de que o general Olímpio Mourão Filho movimentava suas tropas em direção ao Rio, os padres suspenderam as aulas. Tremi. A serpente do golpe civil-militar deixara o o…  […]

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: