A história de Pasadena que a “grande mídia” não contou

Petrobras_Pasadena01

Refinaria de Pasadena.

Miguel do Rosário, via O Cafezinho

Já que o assunto do momento é Pasadena, fomos pesquisar a origem da refinaria, e tentar esclarecer algumas confusões. Nossa mídia, como de praxe, está muito mais interessada em produzir uma crise política do que em esclarecer a sociedade.

A refinaria de Pasadena foi fundada em 1920, pela Crown Central Petroleum, uma das companhias remanescentes do império Rockfeller, cujo grupo Standard Oil havia chegado a controlar 88% do refino de petróleo nos EUA.

Em 1911, a Suprema Corte norte-americana valida uma lei antitruste defendida pelo governo (Sherman Antitrust Act) e a Standard é dividida em 34 empresas. Uma delas, será a Standard Oil of Indiana, que depois será renomeada para Amoco, a qual, por sua vez, dará origem a Crown Central Petroleum.

Os herdeiros mais conhecidos da Crown, os Rosenberg, decidiram, no início dos anos 2000, vender os ativos da companhia, incluindo a refinaria de Pasadena.

Não foi uma venda fácil. Em 2003, um artigo no Baltimore Sun explicava porque se tratava de um negócio complexo. Construir uma nova refinaria igual àquela custaria mais de US$1 bilhão, estimava o autor da matéria, Jay Hancock. Nos livros contábeis da Crown, ela vinha avaliada em US$270 milhões, mas operadores do mercado diziam que os Rosenberg teriam sorte se conseguissem US$100 milhões por ela.

Ao cabo, a refinaria foi vendida para Astra Holding USA, uma subsidiária da Astra Oil, sediada na Califórnia, e que por sua vez é controlada pela belga Transcor Astra Group.

Nunca se soube o preço final da refinaria. A imprensa tem repetido que a Astra adquiriu a refinaria em 2005 por US$42 milhões. Mas eu ainda não consegui encontrar esse valor em lugar nenhum. É preciso verificar qual era o estado da refinaria antes da compra pela Astra e que melhorias, exatamente, foram feitas. O que eu sei é que a refinaria vinha enfrentando, há décadas, uma dura oposição da comunidade local, por causa da poluição emitida, e que a justiça havia tomado decisões, mais ou menos na época da venda, que obrigavam a refinaria a se adaptar às novas exigências ambientais do governo.

Está claro que a Astra, logo após a compra, fez uma série de investimentos na refinaria. Aí entra a primeira grande confusão: compara-se o preço de compra pela Astra em 2005 com o preço pago pela Petrobras, em 2006. São negócios diferentes. A Astra compra uma refinaria que há anos não era modernizada. No momento da compra, o novo presidente da refinaria, Chuck Dunlap, declara que a Astra investiria US$40 milhões nas instalações, preparando-as para processar outros tipos de petróleo e fabricar mais variedades de derivados. “Nós temos grandes planos”, asseverou um animado Dunlap à imprensa local.

Uma refinaria moderna é altamente tecnificada, com poucos funcionários. Seu principal ativo são os equipamentos e a tecnologia usada, mas a localização é fundamental, naturalmente. A refinaria de Pasadena, por exemplo, fica bem no coração do “Houston Ship Channel”, uma espécie de eixo no porto de Houston, aberto para o Golfo do México (onde ficam os principais poços de petróleo em operação nos EUA) e com ligações modais para todo os EUA.

Em 2006, a Petrobras pagou US$360 milhões para entrar no negócio, sendo US$190 milhões por 50% das ações e US$170 milhões pelos estoques da refinaria. No balanço da Petrobras de 2006, o valor total para a aquisição da refinaria de Pasadena, incluindo despesas tributárias, ficou estabelecido em US$415,8 milhões.

Isso tudo aconteceu no início de 2006. Ao final do mesmo ano, o negócio foi abalado com a descoberta do pré-sal no Brasil. Até então a Petrobras tinha planos de investir na refinaria de Pasadena para adaptá-la ao refino de óleo pesado vindo do Brasil. A companhia planejava abocanhar um pedacinho do mercado de refino dos EUA, de longe o maior do mundo.

Com a descoberta do pré-sal, houve uma revolução nos planos da Petrobras. Todo o capital da empresa teve de ser imediatamente remanejado para o desenvolvimento de exploração em águas profundas e prospecção nas áreas adjacentes às primeiras descobertas. A refinaria de Pasadena teria que esperar.

Aí veio 2008 e a crise financeira que fez evaporar os créditos no mundo inteiro. A Astra, provavelmente já aborrecida porque a Petrobras havia deixado Pasadena de lado e espremida pelo aperto financeiro que asfixiava empresas em todo mundo, decide sair do negócio. E obtém uma vitória judicial espetacular na Corte norte-americana, obrigando a Petrobras a pagar US$296 milhões pelos 50% da Astra, mais US$170 milhões de sua parcela no estoque.

Esses estoques de petróleo e derivados, sempre é bom lembrar, não constituíram prejuízo à Petrobras, porque foram consumidos e vendidos. A esse montante foram acrescidos mais US$173 milhões, correspondente a garantias bancárias, juros, honorários e despesas processuais.

Com isso, o total a ser pago pela Petrobras elevou-se a US$639 milhões. Como a Petrobras recorreu, naturalmente, a decisão final saiu apenas em junho de 2012, após acordo extrajudicial. O total, agora acrescido de mais juros e mais custos legais, ficou em US$820 milhões.

A refinaria continua lá, funcionando. É um ativo da Petrobras. A presidente da Petrobras relatou a ministros do TCU que teria recebido propostas de venda da refinaria de US$200 milhões, mas rejeitou as ofertas. O momento não é bom para vender. Neste momento deve ter um monte de gente esfregando as mãos e querendo explorar a “crise política” para comprar Pasadena a preço de banana. O valor das refinarias nos EUA voltou a subir bem rápido, na esteira da recuperação da economia norte-americana e talvez, ao cabo, a Petrobras consiga vendê-la por um preço vantajoso ou então converte-la numa refinaria mais lucrativa. Se me permitem um palpite talvez infeliz, eu acho que a Petrobras não deveria vender a refinaria de Pasadena, porque ela pode a se tornar estratégica para o escoamento dos derivados do pré-sal no mercado norte-americano.

A descoberta sucessiva de novos campos do pré-sal demandam cada vez mais capital da Petrobras, a qual não pode, por isso, desviar nenhum recurso para investir na refinaria de Pasadena, cuja capacidade de refino permanece em torno de 100 a 120 mil barris por dia. Mas quando o pré-sal começar a jorrar, daqui a poucos anos, o dinheiro deixará de ser um problema para a Petrobras, que precisará de bons lugares para investir, e nada melhor que uma refinaria que ela já tem, no coração do maior mercado do mundo.

O problema principal da refinaria de Pasadena, portanto, foi a descoberta do pré-sal, conforme a própria Petrobras respondeu, em fevereiro de 2013. Só que esse problema também será a solução.

***

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Ex-presidente da Petrobras grava sua própria entrevista e publica versão não editada pela Globo

Sérgio Gabrielli, que já havia inovado quando criou blog da estatal para se precaver de distorções pela imprensa. É uma oportunidade de eleitor comparar a versão com a informação

Via RBA

O ex-presidente da Petrobras. Sérgio Gabrielli, pediu a um assessor que gravasse, na íntegra, a entrevista que concedeu a uma equipe da TV Globo e que foi exibida pelo Jornal Nacional na noite de quinta-feira, dia 20. Na entrevista, descreve em que condições foi efetuada a compra da refinaria de Pasadena pela estatal em 2006. E defende o negócio.

Não é a primeira vez que Gabrielli adota medidas de precaução contra possíveis gestos de distorção da informação por parte da imprensa. Quando presidia a estatal, criou o Blog da Petrobras, em que publicava na íntegra as perguntas que lhe eram dirigidas por jornalistas e suas respectivas respostas. Na época, a tática preventiva irritou os veículos. Mas acabou se consolidando como uma estratégia inovadora de comunicação empresarial.

Uma boa medida em defesa de uma empresa do porte da Petrobras, que é rodeada de riscos. Por ser controlada pelo Estado, é objeto de disputa política, e os que torcem pelo desgaste de seu controlador de ocasião muitas vezes jogam pesado com a informação, sem se importar muito com o impacto das notícias nas bolsas, na imagem da empresa e, consequentemente, da oscilação do preços de das ações e do próprio valor da companhia. O se importando muito também.

No submundo das notícias e do mercado de capitais, a associação de interesses mais que políticos para jogara para cima ou para baixo o preço da ações não é exatamente uma raridade. E se o esquema tático consegue num só lance o sucesso especulativo e o impacto político, mais que um gol, é uma cesta, vale dois.

Assista ao vídeo bruto, publicado ontem pelo jornalista Miguel do Rosário em seu blog O Cafezinho a entrevista sem edição.

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3 Respostas to “A história de Pasadena que a “grande mídia” não contou”

  1. joão batista Says:

    Cuidado com a mídia do copo vazio nunca plantaram um pé de alface e tem lado politico e sempre atrapalharam o desenvolvimento do Brasil,trabalham para os grandes interesses.E Brasil está economicamente muito bem,diziam que não tinha tecnologia para retirar óleo do pré sal,pois é aqui em sjcampos BR Revape desde abril de 2013 já é refinado 360 mil barris dia pre sal poço Tupi.Povão cuidado com teóricos da imprensa.E pra Brasil ficar 10 é fazer reforma penais e acabar com 40 recursos,leis penais no Brasil é da época da charrete.Trabalhadores e colaboradores da Petrobras vocês são show de bola,com muito entusiasmo e luz de Deus para todos.

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