Marcha da Família conta com apoio de Geraldo Alckmin

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Via Correio do Brasil

Concentrada na capital paulista, com o apoio explícito do governador do Estado, Geraldo Alckmin, a extrema direita programou para o sábado, dia 22, no Centro de São Paulo, a reedição da marcha que procurou justificar socialmente o golpe militar de 1964: a Marcha da Família, com Deus pela Liberdade. Analistas políticos ouvidos pela reportagem do Correio do Brasil não apostam R$0,10 no sucesso da passeata, mas, se veem com naturalidade o apoio que tem recebido de meios de comunicação ligados aos setores mais retrógrados da sociedade brasileira, como o diário conservador paulistano Folha de S.Paulo, chamaram atenção para o envolvimento de uma tevê pública na divulgação do libelo golpista, que defende uma nova tomada do poder por parte dos militares.

Os vídeos publicados nas redes sociais mostram contradições e muita confusão ideológica por parte dos organizadores, o que beira o ridículo. Em seu vídeo de convocação para o ato, uma das integrantes fala contra a desigualdade social, enquanto outro “coxinha”, como são chamados os direitistas reacionários, em entrevista à Folha, critica a distribuição de renda no país: “Imagina todo mundo tendo condições de viver num mundo igualitário, não existe isso”.

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Uma das organizadoras da marcha golpista, Trevisani aparece ao lado do governador Alckmin.

Uma foto divulgada no perfil que a manifestante de ultradireita mantinha em seu perfil do Facebook, removido há pouco, a colocava ao lado do governador do Estado, Geraldo Alckmin, no que parece ser um evento da extrema direita. Ao fundo outro rapaz que foi entrevistado no vídeo da Folha. No caso, a presença do governador Alckmin, ainda que não confirmada, oficialmente, indica ainda participação da extrema direita religiosa, posto ser de domínio público sua participação na Opus Dei, a facção da Igreja Católica mais à direita.

Além de Alckmin, já se manifestaram abertamente favoráveis à manifestação golpista outros representantes da direita nacional como o colunista da Folha Olavo de Carvalho, o deputado Jair Bolsonaro (PP/RJ) e a jornalista Rachel Sheherazade que recentemente justificou e defendeu a agressão contra um jovem negro amarrado em um poste no Rio de Janeiro.

Para enfrentar os golpistas, setores da esquerda convocaram, para o mesmo local e horário, a Marcha Anti-Golpista e antifascista. A concentração será dia 22, na Praça da Sé, no Centro de São Paulo, às 15 horas.

Incitação ao crime

Em sua página, na internet, o jornalista Fernando Brito, editor do site O Tijolaço, questiona a presença pública de manifestantes que, abertamente, incitam o crime. “Qual a dosagem de ódio e insanidade que determina que alguém passou da linha?”, questiona. Brito exemplifica o caso do fotógrafo Bruno Toscano:

“Bruno é uma das sumidades que apareceram num vídeo como organizadores da Marcha da Família com Deus 2, o Retorno. É ele de óculos escuros, despejando asneiras como ‘não votaria em alguém menos preparado intelectualmente do que eu’, ‘imagina eu tendo uma Ferrari, você tendo uma Ferrari, todo o mundo tendo uma Ferrari’ e ‘quem é o dono do mundo é o barão Rothschild’. Se fosse só mais um maluco anticomunista falando bobagens, tudo bem. Mas Bruno é mais do que isso. Um apologista da violência com obsessão pela ‘ameaça socialista’, os gays, clamando por um golpe militar e pedindo sangue”, afirma, em seu artigo.

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Bolsonaro apoia a ditadura militar no Brasil.

“Já era uma figura carimbada na internet, foi processado e denunciado algumas vezes no Facebook. Nascido em Belém do Pará e morando em São Paulo, era administrador de uma página no FB chamada Revoltados Online. No ano passado, convocou seus amigos para um ato contra o Foro de São Paulo que acabou em pancadaria. Skinheads e neonazistas partiram para cima de militantes de esquerda. Uma senhora de 56 anos apanhou”.

“Adora ameaças e bravatas: ‘Vamos lançar uma campanha: Cuspa na cara de um político, ministro e abutre togado… É o que 99% deles merecem… Já que cuspiram na cara de nossos bravos militares que impediram a comunização do Brasil na década de 60… Se eles podem, porque não podemos???’. Também sugere justiçamentos: ‘Está mais do que na hora dos PTraíras serem fuzilados em praça pública de preferência… Assim como os italianos fizeram com Mussoline (sic)’. No pacote de imbecilidades entram também, claro, as doenças de sempre, como homofobia, racismo (há uma série inacreditável sobre nordestinos) e irresponsabilidade generalizada. O ex-prefeito de Belém Edmilson Rodrigues, do PSOL, o processou depois de ser acusado de ‘roubar o leite das crianças’ e de ter ‘enriquecido ilicitamente’. Claro que quem o leva a sério são os fanáticos de extrema-direita que, no final das contas, não enchem um micro-ônibus, apesar do barulho que fazem. Mas basta um para uma besteira acontecer. Basta um palhaço, como Bruno. Um palhaço perigoso, que comete diariamente o incitamento de crimes de ódio e intolerância sob o governo que ele chama de ditadura”, alerta Fernando Brito.

Tevê pública

O jornalista Paulo Nogueira, editor do site Diário do Centro do Mundo, também aborda a questão sob o ângulo do apoio que um evento, marcadamente golpista, recebe de uma emissora estatal de tevê: “Os contribuintes de São Paulo estão pagando para que a tevê pública do Estado, a TV Cultura, divulgue a Marcha da Família. O evento é organizado por golpistas e terroristas assumidos, embora a tevê os tenha pintado com tintas graciosas. O tal Bruno Toscano, que ganhou destaque no jornal impresso, no UOL, e agora é estrela da TV Cultura, tem longa ficha criminal”.

Nogueira também aponta a presença de “Maycon Freitas, eleito pela (revista semanal de ultradireita) Veja no ano passado como ‘a voz que emergiu das ruas’. Hoje ele se assume, com orgulho, de direita, e também defende uma intervenção militar. ‘Provisória’, diz ele, sem saber que repete o que também diziam em 64. É evidente que a mídia está procurando salvar a marcha de um fracasso absoluto. Tenta-se, a todo custo, promovê-la, por motivos que não seria difícil imaginar. A TV Folha até tentou fazer um contraponto: uma entrevista com Clovis Rossi falando mal da marcha, mas a tentativa é só para disfarçar”.

“Há 50 anos, a Folha de S.Paulo assumia-se francamente em favor da derrubada do presidente eleito, João Goulart. Para isso, o jornal, assim como quase todos os grandes meios de comunicação da época, se valiam de uma verdadeira alquimia verbal: os golpistas eram chamados de democratas e o golpe foi chamado de movimento de retorno à democracia. Foi o maior engodo da história do Brasil. E foi preparado meticulosamente, ao longo de muitos anos, contando com gordo financiamento dos Estados Unidos. Agora sabemos que a cúpula militar foi subornada. Há relatos de generais recebendo ‘malas de dólares’ pouco antes do golpe”, segue Nogueira.

É curioso que a Folha, que jamais se desculpou pelo apoio ao golpe, agora dê tanto espaço a Bruno Toscano, um dos organizadores da Marcha da Família, a qual defende, entre outras coisas, justamente uma nova “intervenção militar”, conclui o jornalista Miguel do Rosário, editor do site O Cafezinho.

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