50 anos do golpe: Uma visita ao DOI-Codi, centro do terror nos anos de chumbo

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Adriano Diogo no lugar em que foi torturado, no anos 1970.

Via DW

As paredes são gelo e cinza. Nesse espaço quase sem cor, nos tempos da ditadura, outro tom comum era o vermelho sangue. Apesar de parcialmente abandonado, o antigo edifício do DOI-Codi em São Paulo, um dos principais centros de tortura do regime militar, ainda mete medo. O local foi palco da morte de 52 presos políticos, inclusive do jornalista Vladimir Herzog. Ali também ficou detida, em 1970, a presidente da República, Dilma Rousseff.

Hoje não restam manchas de sangue. Apenas rachaduras e poeira, marcas do tempo. Cinquenta anos depois do golpe, o espaço virou um enorme depósito de móveis, pneus, caixas, tintas, papéis e equipamentos. As salas guardam também lembranças, que reabrem as feridas dos sobreviventes e despertam fantasmas – assustando até mesmo os funcionários da delegacia que ainda hoje ali funciona.

É justamente por essa carga histórica que a antiga sede do DOI-Codi foi recentemente tombada e há uma iniciativa para transformá-la em memorial em homenagem às vítimas. A reportagem da DW esteve no local, acompanhada de um ex-militante político que lá esteve preso, para conferir as condições e conhecer um pouco da história do que pode ser um futuro centro de memória.

Tortura
No início, de 1969 a 1972, o órgão de inteligência e repressão política, subordinado ao Exército, estava localizado num pequeno edifício no terreno do atual 36º Distrito Policial da Polícia Civil de São Paulo. Atualmente, o sobrado da rua Tutoia, 921, na zona sul da cidade, está desativado e, também por isso, sofreu poucas modificações.

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Local abriga hoje uma delegacia.

As escadas que levam às antigas salas de interrogatório, onde eram realizadas as torturas, permanecem iguais. Em alguns ambientes, o piso, as paredes, as janelas basculantes e os batentes de madeira são originais. O prédio é composto por dois andares, com cerca de seis cômodos em cada um deles. Segundo o relato de presos políticos, paredes foram removidas e outras erguidas, descaracterizando parte do local.

Apesar das mudanças, os ex-militantes conseguem reconhecer onde foram interrogados. Um deles, Ivan Seixas, de 59 anos, foi capturado com o pai, Joaquim Alencar, também perseguido político na época. Os dois foram torturados juntos quando Ivan tinha apenas 16 anos. Os cômodos eram separados por uma fina divisória, e eles podiam escutar os gritos um do outro.

A mãe e as irmãs de Ivan, levadas até o DOI-Codi, também puderam ouvir o golpe final, que tirou a vida de Joaquim em 17 de abril de 1971. “Um dos torturadores gritou para o outro: ‘Não era para matar agora’. Depois eles desceram com o corpo e um policial perguntou: ‘Quem é esse presunto?’. E o outro respondeu: ‘Esse era o Roque’, nome de guerra do meu pai. E escutei eles rirem”, conta Ivan, reproduzindo o som macabro das risadas.

No DOI-Codi, Ivan conta que levou choques e golpes, atado a um pau de arara – instrumento de tortura em que a pessoa fica pendurada de cabeça para baixo, presa a um cano de metal pelas mãos e joelhos. “Quebraram uma das minhas costelas, e por isso tenho um problema nas costas até hoje.” Depois passou ainda seis anos preso, em uma “via crucis de presídios e casas de detenção”.

Tombamento
Em nome desses eventos passados e sequelas presentes, Ivan entrou com o pedido de tombamento do edifício em 2009, apoiado por entidades de defesa dos direitos humanos. A iniciativa é o primeiro passo para a criação de um memorial em homenagem às vítimas, reivindicação da sociedade civil ainda pendente de avaliação pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

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A antiga sala de Carlos Alberto Ustra.

“Fazer do DOI-Codi um espaço de memória é também uma forma de condenar os torturados, de dizer que a sociedade não tolera isso”, afirma Ivan, hoje coordenador da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo.

A notícia sobre o tombamento, em recortes de jornal, está numa das paredes da delegacia. “É para informar”, explica um dos investigadores. Apesar da cordialidade dos agentes da corporação, entrar no espaço não foi fácil. Na primeira tentativa, imediatamente após o tombamento do prédio, a comitiva, que a DW acompanhou, foi barrada. Foi necessário formalizar um pedido em ofício junto à Secretaria de Segurança para obter uma autorização.

Para Deborah Neves, historiadora responsável pelo estudo técnico do tombamento do DOI-Codi, há uma mudança na mentalidade e na prática de preservação de “locais de memórias difíceis”. Ela afirma que o próprio pedido do tombamento, que partiu da sociedade civil, demonstra isso.

A historiadora defende que o espaço tem um valor simbólico. “O DOI-Codi paulista foi pioneiro no país. Naquele lugar surgiu o modelo de repressão que se replicou durante a década de 70, baseada na mentalidade do AI-5.”

É justamente por esse conteúdo simbólico que o presidente da Comissão da Verdade paulista e deputado estadual pelo PT, Adriano Diogo, quer retirar o 36º DP que funciona até hoje no terreno. “É como se uma usina de gás alemã funcionasse em um campo de concentração”, diz Adriano, de 64 anos.

O terreno foi cedido ao Exército em 1979 por decreto do governador de São Paulo na época, Paulo Maluf. A proposta de Adriano é revogar a decisão e retirar o DP para dar lugar ao memorial.

Delegacia
A delegacia era a porta de entrada dos presos, que aguardavam nas celas para serem encaminhados ao sobrado do DOI-Codi e interrogados. Posteriormente, já nos anos 70, o órgão se mudou para dentro da delegacia, onde foi preparada uma sala de tortura com proteção acústica.

“Mesmo assim era possível escutar os gritos”, conta Ivan. “Eles não se preocupavam em esconder. Com todo aquele barulho dia e noite, era um inferno para os moradores dos prédios ao redor.” Segundo Ivan, era comum ver corpos jogados no pátio, que eram depois colocados em carros para o transporte. Tudo à vista dos vizinhos.

“Quando meu pai e eu chegamos ao DOI-Codi, demos muito azar. Era troca de turno, e havia uns 50 soldados no pátio. Fomos espancados ali mesmo. Foi tão forte que até a algema que unia o meu pulso ao do meu pai se rompeu.” Ivan diz que, nesta ocasião, os vizinhos reclamaram, mas os soldados responderam com rajadas de metralhadora para o alto, o que rapidamente silenciou os protestos.

Embrião da repressão
Junto ao mesmo pátio, num terreno anexo, hoje ocupado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), está localizado o berço da Operação Bandeirantes (Oban), embrião do DOI-Codi. A área, cuja entrada fica na rua Tomás Carvalhal, também abrigava a sala do então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do órgão e primeiro oficial condenado por sequestro e tortura durante o regime militar. O espaço, também desativado, está repleto de pneus e poeira.

Foi Ustra quem recebeu Adriano Diogo, em 1973, na delegacia, do outro lado do pátio. Segundo o relato do ex-militante, ele foi torturado pessoalmente pelo major durante os 90 dias em que passou confinado a uma solitária no local. “Imagina como você fica fragilizado por estar sem roupa, sem banho, comendo no escuro igual a um cachorro por três meses. Eu fiquei verde por falta de sol. Enlouqueci, conversava comigo mesmo”, lembra.

A antiga solitária, com apenas uma fresta na porta de ferro para passar alimentos, é hoje outro espaço de depósito. A área é usada pela administração da seccional, assim como as antigas celas, transformadas em escritórios.

Após muitas reformas, a decoração mais moderna, que inclui teto de vidro, pisos brancos e jardim de inverno, é quase exitosa em apagar a lembrança do cárcere de outros anos. Não para Adriano, que se sente constantemente mal ao longo da visita. “Eu quero esquecer isso aqui”, desabafa, num sinal de que quer apressar o percurso pelo terreno.

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A solitária é hoje um depósito.

Naquele edifício, Adriano conta que teve de assistir à própria mulher ser torturada. “Eles tinham um sadismo e uma preferência em humilhar sexualmente as mulheres. Faziam questão de torturá-las nuas, apalpavam na frente do companheiro.” O ex-militante ficou preso ainda mais um ano, após sua passagem pelo DOI-Codi. Quando saiu, se dizia “paralisado pelo horror”: “Não dá para passar uma borracha nisso.”

Em outro ponto mais preservado da delegacia, ele mostra que a memória continua viva. Gesticula, recriando os móveis e instrumentos de tortura de antes. “Aqui tinha um cano de metal, onde os presos ficavam pendurados por algemas, esperando a vez no interrogatório.”

Das memórias de Adriano saem palmatórias, paus de arara e barris de afogamento, para desconforto dos delegados e investigadores que acompanhavam a comitiva, formada pelo deputado, sua assessora e a reportagem da DW. Pelo menos um policial para cada visitante. Todos eles novos demais para terem vivido a época da ditadura. “Se os policiais ficam constrangidos, imagina a gente”, assinala Adriano.

Fantasmas

Embora a história dos edifícios seja assustadora para muitos, os policiais afirmam que não se sentem mal em trabalhar ali. “É tranquilo, já nos acostumamos”, diz uma. Já outros consideram o terreno mal-assombrado.

Ivan assegura que a situação chegou a tal ponto que ele foi chamado, muitos anos atrás, para exorcizar os fantasmas. “Disseram que eu tinha que ajudar. Eu ria e concordava. Disse que, se os espíritos falassem comigo, perguntaria onde estão os ossos. Eles me repreendiam, como se eu não estivesse levando a sério, mas eu estava”, conta, sorrindo.

Ao que parece, hoje os fantasmas estão dispersando. “Antes os ares daqui eram muito pesados. Agora já está tranquilo”, conta um policial mais velho. O motivo da melhora? “A passagem do tempo. E também diminuiu depois que indenizaram a família do Fiel”, afirma, referindo-se ao operário Manoel Fiel Filho, assassinado no DOI-Codi.

Ainda assim, um dos investigadores assegura que, durante o plantão da noite, os funcionários não sobem para o segundo andar. O ambiente de histórica repressão também incomoda Adriano. Apesar da paciência e esforço em acompanhar a reportagem ao local, depois de cerca de uma hora, ele não aguenta mais. “Quero ir embora daqui”. E sai.

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