Eleições 2014: Quem dá mais?

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Dilma precisa bater forte no “deus mercado” para que o Brasil não perca os avanços sociais conseguido até agora.

O que de pior poderia acontecer ao Brasil nesse momento seria reduzir a eleição de outubro a uma gincana para a escolha do melhor amigo dos mercados. Na semana passada, Eduardo Campos abriu seu baú e mostrou um pedaço dos dotes que pretende oferecer à praça.

Em troca de apoio e indulgência dos mercados, o neto que envergonharia o avô quer entregar um mandato fixo ao Banco Central, com metas plurianuais de inflação e superávit fiscal. Uma espécie de outro país dentro do Brasil.

Ao lado de um presidente da República escolhido pelo voto direto, teríamos um presidente da República do dinheiro. Com autonomia e dotado de ferramentas calibradas e com abrangência suficiente para induzir e condicionar o destino do desenvolvimento, os limites da democracia, a sorte da sociedade.

Assessores do tucano Aécio Neves, sendo o economista Edmar Bacha o mais loquaz entre eles, não deixam por menos. Um revival do PSDB no poder faria tudo isso e muito mais, asseguram pregoeiros de bico longo. Por exemplo: deflagraria um choque de “eficiência” com a derrubada em série de tarifas sobre importações. O que sobrasse da indústria local e do emprego seria de primeira linha, garantem.

Outro arquiteto de países paralelos, o tucano Pérsio Arida, acha pouco a independência do BC. Para ir além, sugere a independência da própria moeda nacional em relação ao governo. Seu projeto, antigo fetiche do neoliberalismo verde-amarelo, é assegurar a conversibilidade automática do real em relação ao dólar.

Viraria um anexo do dólar. Terceirizar a moeda de uma nação é o equivalente econômico a renunciar ao monopólio da força por parte do Estado: abdica-se de um dos instrumentos cruciais na defesa do interesse público para entregar a sua gestão ao apetite privado. A política monetária vira uma espécie de Ucrânia nas mãos dos francos atiradores dos mercados.

O governo Dilma, sob as turquesas das agências de risco e da guerra de expectativas da mídia e do capital financeiro, falou a língua que eles entendem na quinta-feira, dia 20. A oito meses das eleições, o governo cortou R$44 bilhões em investimentos, rebaixou a expectativa de crescimento do PIB para 2,5% e fixou o superávit fiscal em 1,9% do PIB.

O monólogo que anuncia “tempos difíceis” vai impondo sua ordem unida na frente da produção, do dinheiro, do emprego e da própria política. Por tempos difíceis entenda-se a ampliação da margem de manobra dos capitais especulativos, que passam a ter na cambaleante recuperação das economias ricas um ponto de fuga adicional.

Graças a ele, amplificam seu já robusto poder de chantagem sobre nações, governos e candidatos do mundo em desenvolvimento. Ninguém sabe exatamente qual o fôlego ou a consistência da dita recuperação.

Depois de quase sete anos de colapso da ordem neoliberal, os indicadores mostram um saldo de terra arrasada no emprego e nos índices sociais e saneamento financeiro. Por exemplo: hoje os fundos de investimento e de pensão tem 31% mais dinheiro do que o saldo anterior à crise. Com uma bolada equivalente a 75% do PIB mundial, eles detém um poder de comando apreciável sobre bolsas, moedas, governos e economias carentes de capitais, de um modo geral.

A narrativa conservadora faz o resto ao festejar o poder coercitivo adicional dessa alavanca, a cada suspiro na “recuperação” das economias ricas. O cheiro da virada de ciclo já basta. Massas monstruosas de capitais se movimentam pelo mercado, ou apenas ameaçam fazê-lo, “precificando” hoje um amanhã que ninguém tem a certeza de quando virá nem como será. Não importa: a incerteza é a água dos cardumes especulativos.

Governos, povos e nações precisam de chão firme: planejamento, regulação, metas de investimento, planos de crescimento de longo prazo. O dinheiro grosso e os magos da arbitragem, ao contrário, respiram melhor debaixo do oceano da incerteza. Ao não se confrontar as duas lógicas sanciona-se um esbulho.

O do jornalismo econômico, por exemplo, que mantém intacta a fé nas virtudes do laissez-faire, como se 2007/2008 nunca tivessem existido no calendário econômico mundial.

A crítica cerrada ao Brasil por “ter abandonado” as reformas amigáveis abafa uma pergunta básica: “Onde estaria o país hoje se sua condução na crise tivesse sido obra dos sábios tucanos, por exemplo?”

O espelho europeu oferece a inquietante pista de que seríamos agora um grande Portugal. Ou uma dilatada Espanha – um superlativo depósito de desemprego, ruína fiscal e sepultura de direitos sociais, com bancos e acionistas solidamente abrigados na sala VIP do estado mínimo (para os pobres).

Incorporar os imperativos das agências de risco, sem abrir uma discussão com a sociedade sobre os desafios da transição em curso no desenvolvimento brasileiro, pode gerar no imaginário social o efeito de uma gigantesca empresa demolidora.

Marretas sabidas golpeiam dia e noite a confiança erigida ao longo de uma década de construção negociada da democracia social no país. O desafio progressista é fazer o contraponto desse desmonte.

Mesmo ao ceder no varejo – quando inevitável – é crucial reafirmar as linhas de passagem no atacado e distinguir um projeto de desenvolvimento da mera contabilidade pró-mercados.

O quadro latino-americano e mundial sinaliza uma inflexão de tempo histórico. Não por acaso o site de O Globo de quinta-feira, dia 20, editava como irmãs siamesas as imagens dos conflitos em Caracas e em Kiev. A mensagem é nada sutil: afrontar o mainstream leva ao caos.

Não por coincidência, no mesmo dia, Obama emitia ordens imperativas a Maduro e ao governo da Ucrânia. Mitigada a crise no front interno das nações ricas, cuida-se de restabelecer a ordem nos quintais indóceis.

É nesse ponto que o timing das ações do governo – de qualquer governo – faz enorme diferença na reordenação em marcha da correlação de forças. Cada gesto, cada decisão, cada anúncio adquire uma dimensão estratégica; a forma como as providências são comunicadas, ademais de sua projeção e escopo mais geral, sobre o qual não pode pairar dúvida, ganha importância decisiva na disputa pelos corações e mentes da sociedade.

Uma crise de incerteza tem um tempo certo para ser abortada, ou derrotará o governo – a produção, o emprego e o imaginário social. Os tempos são outros; a globalização tornou tudo mais difícil, alega-se.

E é verdade. Mas é verdade também que a lógica dos mercado não vai resolver os problemas que ela mesma criou. Não se pode amesquinhar o único espaço no qual esse poder imperial se defronta com um outro de igual para igual: a luta política na democracia.

O governo Dilma disse aos mercados na quinta-feira, dia 20, como pretende zelar pelos seus interesses. É preciso que diga, a partir de agora – e de forma contundente na campanha –, como um novo mandato progressista vai construir hegemonia dos interesses sociais mais amplos na travessia para o novo ciclo de desenvolvimento brasileiro.

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2 Respostas to “Eleições 2014: Quem dá mais?”

  1. alderijo Says:

    Jamais poderemos regredir ao ponto em que os malditos neoliberais tucanos, levaram o país nos 8 anos de DESgoverno entreguista tucano!

  2. emerson57 Says:

    grande post!
    vou recomendar aos meus amigos.
    junto,
    como leitura adicional, indico isso:
    http://informacaoincorrecta.blogspot.com.br/2014/02/i-p-t.html
    abraço.

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