Venezuela e Brasil não podem retroceder

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Lopez e Aécio são sinônimos de retrocesso.

Saul Leblon, via Carta Maior

A oito meses da eleição de outubro, a presidenta Dilma tem a aprovação de 55% dos brasileiros, diz a pesquisa da CNT divulgada na terça-feira, dia 18. O dado ficou três pontos abaixo dos 58% registrados na enquete anterior – festeja a emissão conservadora.

É fato. Mas em 2006, com a mesma contagem regressiva no calendário, o então Presidente Lula tinha uma taxa de aprovação menor: 53% de aprovação. A de Fernando Henrique Cardoso, em fevereiro de 2002, patinava em 40,5%.

O endosso ao desempenho da presidenta, portanto, sugere que a população sabe diferenciar a diretriz mais geral, das oscilações conjunturais e setoriais que fizeram com que o índice de ótimo e bom do seu governo ficasse em 36,4% (39% na última avaliação), saltando para mais de 74% quando à percepção positiva se agrega o sentimento dos que percebem a gestão como “regular”.

O diagnóstico favorável encontra lastro na pesquisa de intenção de votos da CNT: com 43,7%, Dilma teria sua eleição garantida no 1º turno, contra qualquer adversário, caso o pleito fosse hoje.

O pleito é em outubro e os 43,7% ficam sugestivamente numa faixa intermediária entre o seu potencial de crescimento (até os 55% da avaliação pessoal) e os 36,4% do endosso mais assertivo ao conjunto do governo.

Ademais do intervalo de oito meses há uma copa do mundo no meio do caminho. Cerca de 85% dos brasileiros acreditam que ocorrerão manifestações durante o evento, cujos gastos, pouco explicados pela comunicação institucional, tem a reprovação da maioria.

A unanimidade negativa nesse aspecto é pontual, insuficiente para criar uma sentimento de oposição ao governo, o que é corroborado por outra sugestiva maioria: 82% dos brasileiros não pretendem participar das eventuais mobilizações de protesto. O que aparenta um paradoxo insere-se numa expectativa de continuidade com avanços.

A vasta maioria dos eleitores espera, como é natural, que um próximo governo incorpore mudanças no comando do país. Mas apenas 37% desejam uma guinada radical, o que supostamente validaria um outro projeto sob um novo comando político.

Em resumo, o conservadorismo, qualquer que seja a sua tonalidade, necessita de algo mais para produzir aquilo que seus partidos, togas, o dispositivo midiático, o rentismo e a energia auxiliar de mascarados – que a exemplo do general da ditadura querem que o país exploda – não foram capazes de providenciar até agora: o descrédito em um projeto negociado de construção da democracia social no Brasil.

Erra, no entanto, quem atribuir a tarefa da reeleição ao piloto automático da inércia publicitária.
Quando a democracia desautoriza suas demandas, o conservadorismo não desiste.

As distâncias e contextos são apreciáveis, mas o que se assiste na Venezuela nesse momento é pedagógico do quão elástico é o apego liberal à democracia quando ela o desfavorece.

O bolivarianismo por certo acumula erros e limitações sabidos. Sem a liderança carismática de Chavez as inconsistências encontraram um catalizador na inexperiência de um Maduro desprovido de tempo, recursos e tolerância para empreender retificações inadiáveis. Entre elas, um ajuste cambial em processo (lá como cá, na Argentina e no resto da América Latina).

Ele adiciona nitroglicerina inflacionária a uma inquietação social extremada pelo golpismo, que tem em Leopoldo Lopez sua expressão caricatural: o ex-prefeito de Chacao, foi um dos operadores de rua do fracassado golpe contra Chavez, em 2002.

Um democrata.

O fato é que a mudança de ciclo na economia mundial enseja o aparecimento desses “heróis das ruas”, na medida em que estreitou o espaço de manobra dos governos progressistas da América Latina.

Seja na Venezuela, na Argentina e mesmo no Brasil esse é o elemento novo com que contam as oposições para pavimentar uma volta ao poder até agora desprovida de chão firme no embate com os projetos e resultados em andamento.

O ajuste internacional embalado pela cambaleante recuperação econômica nos países ricos sacode esse equilíbrio em três frentes simultaneamente: o custo de financiamento externo dos países em desenvolvimento tende a crescer com o ensaio de retorno dos capitais aos EUA e Europa; a confortável valorização das moedas locais – mantida assim como recurso de acomodação dos conflitos sociais via importações baratas—tornou-se inviável sob risco de colapsar exportações e esfarelar contas externas já pressionadas pelo menor ingresso de capitais; os preços das commodities cujo fastígio contribuiu para lubrificar a expansão do emprego, projetos sociais, crédito e consumo, refluem sob o duplo torniquete da alta dos juros e da menor demanda chinesa.

Ademais de frear a mobilidade social, as medidas de reacomodação requeridas pressionam a inflação e desafiam a capacidade do setor público de realizar os investimentos cobrados pela expansão da demanda popular.

Não é um processo linear, nem atinge todos os países em desenvolvimento de maneira uniforme.

“Os vulneráveis”, como gosta de proclamar o ressentimento conservador ao nivelar Brasil e Turquia, por exemplo, são tão idênticos quanto um tuiuiú e um tico-tico.

Mas as transições de ciclo de desenvolvimento nunca foram feitas à frio, nem a salvo de um acirramento político dos conflitos de interesse.

O que o conservadorismo busca no Brasil é antecipar os sacolejos desse processo para com ele animar uma aspiração eleitoral até agora desautorizada, como mostram os números da CNT.

Longe de dispor do combustível à mão disponível na Venezuela ou mesmo na Argentina –juntos os dois países tem reservas cambiais pouco superiores a 15% dos quase US$400 bilhõesdo Brasil – o tudo ou nada local aposta no poder “premonitório” dos mercados para se viabilizar.

Os mercados dispõem de distintos mecanismos para precificar imediatamente, no presente, as especulações de dificuldades futuras que eles próprios cogitam, ou são por eles magnificadas.

O martelete incansável do dispositivo midiático é um deles e a guerra de expectativas está nas manchetes: elas gritam onde eles querem chegar e para onde pretendem arrastar o país

Agências de risco são outra coleira poderosa dessa engrenagem destinada a adestrar governos e submeter as nações à supremacia de uma lógica que une interesses do rentismo local e internacional.

Uma espécie de cães farejadores dessas massas de capital fictício, elas latem alertando para eventuais perigos mais adiante e com isso promovem as fugas em massa de fundos investidores.

Mesmo erradas no diagnóstico, como agora ao nivelarem o Brasil aos “vulneráveis”, acabam produzindo os desdobramentos de seu vaticínio equivocado. São quase autossuficientes na sua dupla ação.

Não se trata, ademais, de um poder equacionável exclusivamente na esfera econômica e financeira, exceto se atendido integralmente em seus desígnios, em colisão frontal com as urgências nacionais.

Alguns números liberados pela Associação Internacional de Fundos de Investimento (citados entre outros pelo jornal El País) resumem o poder de coação subjacente a essa engrenagem.

No final de 2013, o patrimônio administrado pelos fundos de investimento e os fundos de pensões equivalia a 75,5% do PIB mundial; hoje, essas trincheiras da lógica especulativa detém 31% mais dinheiro do que antes da crise de 2007; tem bala suficiente para comprar todas as empresas do planeta cotadas em bolsa – ou para destruí-las com ordens de vendas maciças.

O mesmo duplo efeito se aplica aos títulos públicos detidos por essas máquinas de reproduzir o capital fictício.

As agências de risco são os cães de guarda dessa usinagem financeira.

Seria um suicídio anunciado desafiar o conjunto sem dispor de um contraponto à previsível fuga de capitais – um fundo emergencial compatível só teria viabilidade no âmbito dos Brics, com participação ativa das reserva chineses; o que existe hoje é um ensaio disso e reúne apenas US$100 bilhões.

O caminho que resta entre a rendição incondicional cobrada pelo conservadorismo e o voluntarismo irresponsável é a construção de um poder político dotado de força e consentimento social para resistir, ganhar tempo e promover uma transição negociada em direção a um novo ciclo de desenvolvimento.

Trata-se de estender urgências e ajustes no tempo; suavizar os custos da transição e não abdicar dos objetivos maiores em jogo: a construção da democracia social no país.

Enfim, tudo o que não cabe no ultimatismo inflamável dos Black Blocs de máscara ou de gravata de seda.

Não há no horizonte brasileiro um Leopoldo Lopez pronto. Mas conservadorismo tenta substituí-lo pelo ultimato das agências de risco. E as divisões autodestrutivas da esquerda podem lubrificar a montagem de um similar nacional.

***

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Uma resposta to “Venezuela e Brasil não podem retroceder”

  1. Venezuela e Brasil não podem retroceder | EVS NOTÍCIAS. Says:

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