Macunaíma é meu pastor, nada me faltará

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O povo brasileiro é violento e ponto final. Chega de hipocrisia. É curioso que grande parte das pessoas que estão “assustadas” com a violência não perdem uma luta de MMA.

Laurez Cerqueira, via Brasil 247

Curiosa essa perplexidade com a violência. Quando a violência explode em ondas como a de agora ouve-se muito dizer que nunca antes na história deste país se viu coisa igual. O senhorio posa de vestal coberto com o manto do “homem cordial”, um tipo que escamoteia a violência em templos religiosos e de consumo, forjando a felicidade do país tropical, abençoado por deus e bonito por natureza.

O povo brasileiro é violento e ponto final. Chega de hipocrisia. Quando os brancos europeus desembarcaram nas praias brasileiras, esfarrapados, desdentados, fedorentos, cheios de escorbuto, sífilis, e sedentos por sexo, índios e índias viviam nus, em perfeita harmonia com mares, rios, florestas, em paz com sua divindade espalhada ao redor. Mas era um paraíso perigoso. Por aqui havia algumas tribos de antropófagos, chegados a uma coxa humana suculenta. Comeram até o bispo Sardinha.

Os católicos trataram de arrancar as crenças pagãs dos índios e substituir pelo deus único. Instalou neles o pecado e a culpa. Foram ocupando as terras, corrompendo os gentios com badulaques, exterminando nações inteiras. O sangue correu por campos e florestas. Como índio não tinha alma, na visão dos brancos europeus, virou esporte sair aos domingos para caçar nativos. Atiravam para ver o tombo.

Tentaram submetê-los à base do chicote. Como não conseguiram, partiram para a África e escravizaram os negros. As marcas da barbárie continuam vivas. Tanto que a arquitetura “moderna” reproduz o modelo colonial nas residências brasileiras. Ou seja, mantém a senzala na divisão sala, cozinha e dependência de empregados. Um cubículo onde enfiam os trabalhadores domésticos e assumem o tratamento “nós e eles”. Tudo isso encarado como “normal”.

Essa mesma violência, herança da escravidão, permanece nas relações sociais, principalmente no trabalho. Quem não conhece a exploração, o tratamento desumano, o assédio moral de patrões e chefes? Nas relações entre marido e mulher, entre pais e filhos? Quem não sabe de pessoas destruídas psicologicamente por assédio moral? Pessoas que vagam no dia a dia, no vaivém da casa para o trabalho, do trabalho para casa, tomadas por sofrimento pesaroso, provocado por humilhação e desqualificação.

Aqui vale uma ressalva: em partidos de esquerda, sindicatos e outras entidades, o assédio moral ocorre até com requintes de crueldade. Justo as organizações que se propõem como instituições de pedagogia política libertária. Há relatos inimagináveis. O educador Paulo Freire denominava isso de “opressão do oprimido”. Ou seja, muitos dos que sofreram opressão tendem a tornar-se opressores ainda mais violentos.

No Congresso Nacional tramitam projetos de lei para tipificar o assédio moral, mas grupos, sobretudo aqueles de apoio ao patronato, não permitem sua aprovação.

Violência, aplausos e negócios

Curioso também é que grande parte das pessoas que estão “assustadas” com a violência, por exemplo, não perdem uma luta de MMA, essa “rinha humana” que faz os espectadores vibrarem quando os lutadores são brutais. Quanto mais lambuzados de sangue, mais a plateia vibra. As imagens fazem disparar a audiência nos meios de comunicação. Os donos de tevê, portais, jornais, revistas e patrocinadores movimentam seus negócios milionários e enchem os bolsos de dinheiro.

Muitos dizem que essa rinha é um esporte, que “educa”, que tem regras, mas não dizem que as regras foram feitas pelos próprios empresários que exploram os negócios dos eventos violentos.

O que se vê por aí são jovens adotando como referência os lutadores de MMA, cultuando o machismo e a violência como afirmação de virilidade. A referência de beleza agora é a aparência de mau, violento. Músculos e tatuagens alimentam o delírio narcísico, potencializado com a telinha dos celulares, que se tornaram espelhos hedonistas da modernidade.

Com essa estética ressurge um conservadorismo ancestral, medieval. E o que tem a ver a luta de MMA com a violência? A violência sob aplausos de torcidas aguerridas, aos gritos de: “Mata! mata! mata!”

Os mesmos assistem às missas, aos cultos aos domingos e às lutas de MMA, cada um com seu duplo. Nas torcidas de futebol, no trânsito, nos shows, nas festas, a violência explode, gera imagens chocantes para a felicidade dos donos dos meios de comunicação. Estes exploram os infortúnios e as lágrimas à exaustão, com posturas hipócritas, moralistas, de bom mocismo, para faturar ainda mais com a audiência. Uma retroalimentação que domina corações e mentes.

Nos programas de tevê, apresentadores falam diretamente com cerca de 40 a 70 milhões de pessoas todos os dias, em comentários e editoriais, como se fossem autoridades no assunto. Muitos instigam à barbárie, como fez recentemente a apresentadora Sheherazade, do SBT, ao incitar a população à violência. Nas redes sociais, jornalistas a defenderam com unhas e dentes, num corporativismo cego, a ponto de a considerar uma “grande profissional”. O que se pode esperar desse jornalismo?

Enfim, a violência é latente, recrudesce em ondas coloridas de sangue, de tempos em tempos, e expõe a hipocrisia da sociedade.

Como disse o modernista Oswald de Andrade, “ninguém escapou da vagina fraudulenta e do pênis opressor”. O mito do “homem cordial” do grande historiador Sérgio Buarque de Holanda se desfez. Por que não optamos por amarrar o jirau no firmamento, virado no brilho inútil das estrelas, como queria Macunaíma, nosso herói sem caráter, imaginado pelo escritor Mário de Andrade? O balanço do ranger rede pode bem lembrar moda de viola, dizia.

“Ai que preguiça!”

Laurez Cerqueira é autor, dentre outros trabalhos, de Florestan Fernandes – vida e obra e O outro lado do real.

***

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Uma resposta to “Macunaíma é meu pastor, nada me faltará”

  1. Macunaíma é meu pastor, nada me faltará | EVS NOTÍCIAS. Says:

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