EUA: Terra dos ladrões, lar dos escravos

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Obama: o mercado vai bem, o povo vai mal.

Adultos em idade produtiva compõem a maioria dos lares nos EUA que depende de ajuda estatal para alimentação: de cada sete pessoas, uma recebe vale-refeição.

Saul Leblon, via Carta Maior

A economia dos EUA caminha a duas velocidades. A expansão em 2013 foi tímida: 1,9% de crescimento. No último trimestre avançava a bordo de uma taxa anualizada de 3%, mas ainda abaixo dos 4% preconizados pelos otimistas.

O consumo cresce, mas os pedidos de seguro desemprego também. Um dos principais patrimônios dos EUA, a classe média afluente, derrete. Os empregos são de baixa qualidade, a precariedade impera: a curva de crescimento dos salários, comparativamente a dos lucros, mostra a relação mais baixa da história dos EUA.

Pessoas em idade de trabalhar agora compõem a maioria dos norte-americanos que dependem do vale-refeição do governo para comer. Trata-se de uma ruptura de padrão: a norma, depois da depressão dos anos 30, era uma clientela feita de crianças e idosos. Um em cada sete norte-americanos recebe ajuda alimentar.

O conservadorismo no Congresso quer cortar US$4 bilhões/ano do programa – que hoje soma US$80 bilhões/ano, o dobro do valor de cinco anos atrás. Lá como cá, o mercadismo entende que isso gera “dependência e abuso”.

Esse o mundo real.

Na atividade papeleira a história é outra: a banca colhe bons lucros, as bolsas decolam. Bônus milionários voltaram a tonificar os pelos dos lobos de Wall Street. Lembremos: são quase cinco anos de injeção mensal de US$85 bilhões nas mãos da matilha financeira. Nesta semana, a ração foi mitigada com um segundo corte: o FED depositará US$65 bilhões mensais na cuia dos lobos.

Do acúmulo efervescente parte o frisson responsável, em boa medida, por acionar a viagem de volta dos capitais estacionados em vários pontos do planeta. A matilha fareja carne fresca no habitat original; prepara-se para ocupar posições.

O ensaio de êxodo explica a instabilidade cambial nas economias em desenvolvimento. Atinge, sobretudo, dependentes de fluxos especulativos, que não conseguem segurar a fuga de capitais.

Céticos dizem que há uma, várias, para dizer a verdade, bolhas embutidas em uma recuperação inflada na circularidade do dinheiro descolado do sistema produtivo. A julgar pelo que disse Obama no tradicional discurso sobre o estado da arte do país, a suspeita guarda pertinência.

Após saudar a retomada nos indicadores, o democrata emendou um desabafo sobre o panorama debaixo da ponte: “A desigualdade se aprofundou. A mobilidade ascendente se estancou, e há pessoas demais que não estão trabalhando”, lamentou.

O paradoxo do renascimento sem vida foi desdenhado na abordagem midiática. Preferiu-se focar o esforço de Obama para recuperar o tônus eleitoral de um prestígio esfarelado por cinco anos de hesitações sob o garrote implacável do conservadorismo.

A contabilidade política do democrata equipara-se atualmente a de Bush em final do mandato: apenas 40% dos norte-americanos o apoiam; somente 30% enxergam motivos para otimismo com o país.

O fato de Obama não ter conseguido até hoje reajustar o salário mínimo norte-americano, congelado há 15 anos, diz muito sobre a natureza de uma recuperação sem povo a bordo. Ou pelo menos mantido longe da primeira classe. Parodiando um general da ditadura sobre o “milagre brasileiro”: nos EUA, os mercados vão bem, o povo vai mal.

“Deem um aumento à América”, exortou Obama, em busca da anuência do Congresso para seu projeto de lei que eleva em 40% o salário mínimo – hoje 20% menor do que o vigente no governo Reagan, lamentou.

A título de comparação 1: nos últimos 12 anos, o salário mínimo brasileiro teve aumento de 70% acima da inflação. O desemprego nos EUA – oficial – é de 6,5%. Lambe os dois dígitos entre os negros e hispânicos.

A título de comparação 2: nos últimos dez anos, caiu à metade o número de desempregados no Brasil; foi criado um Portugal inteiro de vagas (11,6 milhões) com carteira assinada; ao final de 2013, nas seis principais regiões metropolitanas, a taxa de desemprego atingiria a sua mínima histórica: 5,4%. Não por acaso, a inadimplência recuou ao menor nível desde 2011, mesmo com o estoque de crédito na economia tendo crescido 14,5% no ano passado, para somar um volume equivalente a 56,5% do PIB (girava em torno de 25% no ciclo tucano).

As chances de Obama sensibilizar uma câmara dominada pelos republicanos desde 2010 são equivalem às de Dilma em convencer o Tea Party tupiniquim de que não se deve jogar fora a maior defesa do país nessa transição de ciclo mundial: seu imenso mercado interno.

No desencontro entre essas duas trajetórias desenha-se a encruzilhada que divide as avaliações sobre a pretensão brasileira de se construir enquanto nação justa e soberana, em plena era dos capitais globalizados.

O consenso que esbraveja contra a gastança aqui e contra o vale-refeição lá tem uma receita um pouco diferente de futuro: cabe aos “livres mercados” a tarefa de aplainar o terreno, ordenar os alicerces e modelar a distribuição da renda e da riqueza na sociedade.

“Tirar o governo do caminho”, como gosta de dizer o Tea Party, seita norte-americana que se avoca intimidades mediúnicas com a mão invisível do mercado.

“Um governo mais leve”, evoca a linguagem atucanada por aqui, quase um esperanto do jornalismo isento, abraçado agora também pelo neto que constrangeria o avô se vivo fosse.

A decepção de Obama ao constatar que a tão aguardada recuperação não revitalizou a sociedade na mesma proporção que agitou os índices Down Jones, ilustra a dificuldade de se atribuir ao mercado aquilo que ele não sabe fazer.

O conjunto sugere que a presidenta Dilma deveria analisar detidamente as características da convalescença em curso da maior crise do capitalismo desde 1929.

Convém atentar para as armadilhas do caminho, antes de endossar aquele pedaço do seu entorno que mal consegue disfarçar o entusiasmo com a janela de oportunidade para ressuscitar a dobradinha feita de “arrocho monetário e fiscal”.

O discurso do Obama é o reconhecimento de uma emergência social. Algumas informações colhidas de reportagens da Associated Press e do jornal El Pais:

● o governo dos EUA gasta atualmente US$80 bilhões por ano com ajuda alimentar – o dobro do valor registrado há cinco anos;

● desde os anos 80, a dependência de ajuda para alimentação cresce mais entre os trabalhadores com alguma formação universitária – sinal de que sob a égide dos mercados desregulados, a ex-classe média afluente não consegue sobreviver sem ajuda estatal;

● cerca de 28% por cento das famílias que recebem vale-refeição são chefiadas por uma pessoa com alguma formação universitária;

● hoje o food stamps atende 1 de cada sete norte-americanos;

● de 2000 a 2011, salários baixos e desigualdade foram responsáveis por 13% da expansão do programa – contra 3,5% entre 1980 e 2000;

● pesquisas relativas ao período de 1979 e 2005 (ciclo neoliberal anterior à crise) revelam que 90% dos lares norte-americanos viram sua renda cair nesse período; apenas 1% das famílias ascendeu à faixa superior a meio milhão de dólares.

● 21% dos menores norte-americanos vivem em condições de pobreza atualmente.

O alarme anti-arrocho emitido por essas estatísticas não invalida o fato de que o Brasil precisa construir uma nova máquina de crescer. Mais que nunca, porém, deixa claro que essa não é uma obra a se terceirizar aos livres mercados, como percebeu um Obama engessado em tibieza pessoal, mas não só nela.

Numa economia longamente descarnada de sua base industrial, e desfibrada por taxas de sindicalização operária as mais baixas da história, a correlação de forças reservou-lhe pouca margem de manobra. Exceto apelar algo pateticamente à boa vontade… dos mercados.

O Brasil vive um momento histórico distinto. Se a trepidação global ajustar a paridade do real na faixa dos R$2,45 por dólar, como quer o governo, na verdade será bom para regenerar seu tecido industrial e vitaminar o saldo comercial.

Pressões inflacionárias que assaltem a economia pelo canal dos bens importados, porém, não podem ser descarregadas exclusivamente no ombro dos assalariados.

Ganho de produtividade extraído da prensa dos holerites tem sido a norma em uma receita de capitalismo indiferente ao trunfo de seu mercado de massa.

Não é mais assim. E os dados de 2013 sobre consumo, emprego e renda evidenciam o ganho da mudança processada desde 2003. A produtividade imprescindível à renovação dessa engrenagem requer a construção de um outro percurso.

Certamente ele será mais longo que o ajuste instantâneo oferecido pelo ferramental ortodoxo. Mas se afigura também mais consistente do ponto de vista político – e mais sólido se bem sucedido na inserção do país em cadeias tecnológicas de abrangência global, associada à expansão da infraestrutura local.

A única forma de modular uma travessia desse tipo, sob comando democrático da sociedade e do Estado, é pela negociação política.

O engessamento de Obama demonstra que apostar na indulgência do conservadorismo parlamentar para pavimentar esse caminho leva ao desmanche político.

Dilma tem os instrumentos dos quais Obama se ressente e Roosevelt dispunha nos anos 30/40. O Brasil preserva em seu metabolismo uma estrutura de organização social e sindical que precisa e poder ser rejuvenescida. Dispõe de um governo progressista que mudou, para melhor, a face da sociedade em uma década e pouco à frente do Estado.

As eleições de 2014 configuram excelente oportunidade para as duas pontas renovarem seu estoque de força e consentimento na repactuação da democracia social brasileira.

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2 Respostas to “EUA: Terra dos ladrões, lar dos escravos”

  1. pintobasto Says:

    E ainda não viram nada. Quando os latino-americanos começarem a sentir sua força dentro dos EUA, muita coisa vai mudar na vida dos yankees.

  2. EUA: Terra dos ladrões, lar dos escravos | EVS NOTÍCIAS. Says:

    […] See on limpinhoecheiroso.com […]

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