Leandro Fortes: As almas penadas da ditadura

Ditadura_Militar22_Milicos

Leandro Fortes

Na sessão de devolução simbólica do mandato presidencial de João Goulart, realizada na quarta-feira, dia 18, no Congresso Nacional, um episódio lamentável foi registrado por todos, embora o assunto tenha sido deixado de lado para não ofuscar o brilho do evento.

Na hora em que o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, entregou o diploma a João Vicente, filho de Jango, todos aplaudiram, à exceção de três convidados e um deputado.

Os três convidados eram os comandantes das Forças Armadas do Brasil. Por antiguidade: almirante Júlio Soares de Moura Neto, da Marinha; general Enzo Peri, do Exército; e brigadeiro Juniti Saito, da Aeronáutica. O deputado, claro, era Jair Bolsonaro, essa patética figura que, a cada eleição, as viúvas da ditadura militar mandam para a Câmara.

Não houve, por assim dizer, nenhum ato de insubordinação dos comandantes militares. Ninguém é obrigado a bater palmas para nada nem para ninguém, embora os três comandantes estivessem ao lado da principal convidada do evento, a presidenta Dilma Rousseff, comandante suprema das Forças Armadas.

Emocionada, Dilma, presa e torturada na ditadura, aplaudiu não apenas o ato em si, mas toda a simbologia envolvida, de repúdio a um regime que sufocou a democracia, torturou e assassinou brasileiros.

O que houve foi, além de um gesto combinado de má educação e mesquinhez humana, um sinal importante de que, passadas quatro décadas desde o golpe militar de 1964, a caserna brasileira continua alinhada à ideologia dos golpistas de então.

Todos os ministros civis da Defesa, inclusive o atual, Celso Amorim, têm ignorado esse fato, como se desimportante fosse.

Não é.

Nas escolas militares, uma geração vem contaminando a outra com doutrinas primárias, mas poderosas, oriundas dos tempos da Guerra Fria. Baseiam-se, entre outras barbaridades, num anticomunismo tão anacrônico como risível, mas levado a sério como se o Brasil estivesse perto de virar uma nação soviética, em pleno século 21.

Ao se negarem a bater palmas para a memória de Jango, presidente deposto por uma quartelada e, suspeita-se, assassinado no exílio, o almirante, o general e o brigadeiro deram um péssimo exemplo e envergonham a Nação.

Mas receberam elogios rasgados de seus camaradas de farda. Deram, ainda, um recado errado aos jovens alunos e cadetes das escolas preparatórias e academias militares do País.

Já passou da hora de o governo intervir na formação dos futuros oficiais brasileiros e resgatá-los dessa armadilha ideológica alimentada por lideranças senis dos clubes militares.

Dominada por uma direita tacanha e obsoleta, a caserna precisa, com urgência, formar militares de esquerda.

***

NOTA DO BLOG: OS BONS PAGAM PELOS MAUS

Para fomentar um debate salutar, o Limpinho sempre publicou os comentários assinados pelos leitores em seus posts – a favor e contra. Porém, este excelente texto do jornalista Leandro Fortes causou um fato que causou estranheza.

Dezenas – isso mesmo, dezenas – de comentários vieram “assinados” por “pessoas” com nomes, na melhor das hipóteses, curiosos que se diziam militares reformados (se fossem bons não precisavam de reforma!), participantes da Marcha da Família, apartidários (sic) etc., mas que no fundo são reacionários e anticomunistas em busca de espaço para colocar seu pensamento tacanho que, em pleno século 21, não tem mais cabimento.

Por isso, excepcionalmente, todos os comentários deste post não serão publicados. Tudo tem limites nessa vida, menos a punição aos assassinos da ditadura militar.

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3 Respostas to “Leandro Fortes: As almas penadas da ditadura”

  1. pintobasto Says:

    Yara, os militares sempre foram mais honestos que os políticos. Com raras exceções, todos os políticos são ladrões!
    Fidel Castro ou seu irmão Raul nunca foram ditadores nojentos. Administram o país com mão de ferro para garantir a independência. e a ascensão social de todo o povo.

  2. Yara Batista Fioretti Says:

    sr.Pablo! me mostre um militar, mesmo o presidente João Figueiredo, que enriqueceu. O sr.deve estar equivocado, e ao escrever, estava pensando nessa corja do PT e de outros partidos de hoje, e essa presidente que não encherga o sufoco do povo e torra o nosso dinheiro no exterior, em hotel de luxo e principalmente, DOANDO nosso dinheiro a esse país comandado por um ditador nojento!
    Yara Batista Fioretti

  3. Pablo Says:

    Magnifico jornalista leandro fortes. Quero deixar registrado que não ocorreu somente, assassinatos, torturas, desaparecimentos de pessoas contrarias aquele regime tirano cruel, fascista sanguinário e decadente. Foi um governo corrupto que desviou recursos públicos pra contas bancarias no exterior, Eu sei que dinheiro que vinha de fora esses milicos da elite burguesa pegava e mandava pra contas bancarias na suíça. Carros oficiais do governo e aviões da fab foram usados pro trafico de drogas.

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