Nos dias que antecederam seu assassinato, o presidente estadunidense explorava ativamente uma aproximação com Cuba e trabalhava em segredo com Fidel Castro.
Peter Kornbluh, especial para o La Jornada, lido Carta Maior
O aniversário de número 50 da morte violenta do presidente estadunidense John F. Kennedy nos projeta um segredo longamente guardado: após o assassinato em Dallas, Fidel Castro enviou uma mensagem por canais discretos a Washington pedindo para reunir-se com a comissão oficial que investigava o magnicídio, para dissipar os crescentes boatos de que Cuba era a responsável. A comissão, encabeçada pelo presidente da Suprema Corte de Justiça estadunidense, Earl Warren, enviou um de seus advogados, o afro-estadunidense William Coleman, em missão clandestina para reunir-se com o líder cubano em um barco no Caribe.
Coleman contou, em entrevista ao repórter investigativo Philip Shenan, a primeira relacionada com esta reunião ultrassecreta, que falaram durante três horas. Apesar de pressionar o líder cubano no tema dos vínculos de Lee Harvey Oswald com Cuba e sua misteriosa visita à embaixada cubana no México antes do assassinato, Coleman informou a Warren: não encontrei nada que me fizesse supor que existem provas de que ele [Fidel Castro] o fez. De fato, pese ao acontecido em Playa Girón, a crise dos mísseis, os complôs para assassinar gente em Cuba e o bloqueio comercial, Fidel Castro insistiu em que admirava o presidente Kennedy.
Segredos e teorias conspiratórias
Nos Estados Unidos, o aniversário da morte do jovem presidente gerou uma cobertura massiva nos meios de comunicação: documentários especiais para a televisão, uma onda de livros e artigos novos, um novo filme feito em Hollywood.
Inevitavelmente, surgem novas teorias que discutem mais uma vez as possíveis conspirações relacionadas com quem matou Kennedy e por quê. A Comissão Warren concluiu que Oswald, solitário enlouquecido que se declarava marxista, agiu sozinho quando disparou no presidente. Mas o sigilo do governo estadunidense, em particular que a CIA retivesse informação de seus esforços ultrassecretos para assassinar Fidel Castro, e da vigilância que exerceu sobre Oswald quando visitou a Cidade do México (protegendo suas operações de coleta de informação de inteligência no México), levantou suspeitas de que alguém encobria algo. A Casa Branca tampouco compartilhou detalhes extraordinários, como que a atitude de Kennedy em relação a Cuba teve um giro significativo, sendo Cuba um país central em qualquer discussão histórica do impactante assassinato do presidente em Dallas.
Quase imediatamente depois do assassinato cometido no dia 22 de novembro de 1963, os inimigos da Revolução Cubana começaram a plantar acusações de que o pró-castrista Oswald havia conspirado com Cuba para matar o presidente. Em Nova Orleans, onde Oswald criou o comitê “Joguemos Limpo com Cuba” (de apenas um membro), um grupo de exilados com respaldo da CIA, chamado Direção Revolucionária Estudantil (Revolutionary Student Directorate), publicou um boletim no dia 23 de novembro, com um retrato de Fidel Castro junto a uma foto de Oswald.
Seis dias depois do assassinato, o diretor da CIA, John McCone, informou ao novo presidente, Lyndon Johnson, que um agente de inteligência nicaraguense no México, Gilberto Alvarado, havia advertido a nossa estação [no México] com grande detalhe sobre o suposto fato de que no dia 18 de setembro viu Oswald receber 6,5 mil dólares na embaixada cubana na cidade do México. Alvarado afirmava que o dinheiro era o pago para matar o presidente.
A CIA suspeitou de imediato da credibilidade desta informação porque o FBI tinha provas concretas de que Oswald estava em Nova Orleans no dia 18 de setembro; os documentos de imigração mostravam que não havia viajado ao México até 26 de setembro. Alvarado foi retido em uma casa de segurança da CIA e depois entregue às autoridades mexicanas para que continuassem interrogando-o. Este não passou no detector de mentiras dessa agência e se retratou de suas afirmações. De acordo com o relatório ultrassecreto da CIA “O assassinato do presidente Kennedy”, Alvarado admitiu diante das autoridades mexicanas que seu relato era uma fabricação desenhada para provocar que os Estados Unidos tirassem Fidel Castro de Cuba a chutes.
Fidel Castro também observava acontecer uma conspiração, muito diferente. No dia 23 de novembro transmitiu uma declaração pela rádio cubana na qual qualificava o assassinato de Kennedy de conspiração maquiavélica contra nosso país, que tentava justificar, de imediato, uma agressiva política contra Cuba… construída com o sangue ainda morno e o corpo insepulto de seu presidente, tragicamente assassinado. “Oswald”, declarou Fidel Castro, “pode ter sido um instrumento dos setores mais reacionários que estiveram tramando esta sinistra conspiração, e que podem ter planejado o assassinato de Kennedy por estar em desacordo com sua política internacional.”
No momento em que acontecia essa dramática declaração, Fidel Castro sabia algo da política internacional de Kennedy que o resto do mundo não soube: nos dias que antecederam o seu assassinato, o presidente estadunidense explorava ativamente uma aproximação com Cuba e trabalhava em segredo com Fidel Castro para instaurar negociações secretas com o fim de melhorar as relações. Em novembro de 1963, Cuba não tinha razões para assassinar Kennedy porque estava envolvida na criação de uma diplomacia por canais secretos que poderia ter conduzido à normalização das relações. No mesmo momento em que se cometeu o assassinato, Fidel Castro mantinha uma reunião com um emissário que Kennedy havia enviado a La Habana em missão de paz.
Conversas secretas Cuba-EUA
As conversações entre Cuba e Estados Unidos começaram, ironicamente, após um flagrante ato de agressão de Washington: a invasão paramilitar de Playa Girón.
Depois da vitória cubana sobre uma incursão armada que contou com apoio da CIA, o presidente e seu irmão Robert Kennedy enviaram ao advogado James Donovan para negociar a liberação de mais de mil membros da incursão que foram capturados. Durante o curso de várias sessões de negociação, no outono de 1962 Donovan conduziu um acordo para abastecer a ilha com 62 milhões de dólares em alimentos e remédios em troca da liberação dos prisioneiros. Este homem não apenas obteve a liberdade dos prisioneiros, mas a confiança de Fidel Castro.
Na primavera de 1963, Donovan regressou a Havana várias vezes para negociar com Fidel Castro a liberação de duas dúzias de estadunidenses – três deles agentes da CIA – presos em cárceres cubanos sob acusação de espionagem e sabotagem. Durante o curso destas reuniões, pela vez primeira vez Fidel Castro expôs o ponto da restauração de relações. Dada a acrimonia e a hostilidade do ocorrido no passado recente, como poderiam os Estados Unidos e Cuba procederem com o assunto? perguntou a Donovan.
Lee Harvey Oswald que, segundo a pesquisa oficial, disparou no presidente. Sabe como os porco espinhos fazem amor? Respondeu Donovan.Com sumo cuidado. E é assim que vocês e os Estados Unidos deveriam proceder com esse assunto.
Quando o relatório de Donovan sobre o interesse de Fidel Castro em sentar-se para conversar a fim de normalizar relações chegou à mesa de Kennedy, a Casa Branca começou a considerar a possibilidade de um enfoque doce em direção a Fidel Castro. Os ajudantes de maior graduação argumentaram que os Estados Unidos deveriam exigir de Fidel Castro que deixasse para trás suas relações com os soviéticos como precondição de qualquer conversa. Mas o presidente se impôs; ordenou seus assistentes mais próximos que começassem a pensar em temos mais flexíveis ao negociar com Fidel Castro, e deixou claro, segundo alguns documentos revelados pela Casa Branca, que se mostrou muito interessado em prosseguir nesta opção.
Em abril de 1963, em sua última viagem a Cuba, Donovan apresentou a Fidel Castro uma correspondente da ABC News, Lisa Howard, que havia viajado a Havana para realizar um especial televisivo sobre a revolução cubana. Howard substituiu Donovan como interlocutora central neste prolongado esforço secreto para entabular as primeiras conversações sérias, frente a frente, para melhorar as relações. Em seu retorno de Cuba, a CIA se reuniu com ela em Miami e a interrogou sobre se havia um claro interesse de Fidel Castro no melhoramento das relações. Em um memorando ultrassecreto que chegou à mesa do presidente, o diretor adjunto da CIA, Richard Helms, informou: definitivamente Howard quer impressionar o governo estadunidense com dois dados: Fidel Castro está pronto para discutir uma aproximação e ela está pronta para discutir o assunto com ele, se o governo dos Estados Unidos pedir.
Como era de se esperar, a CIA se opôs fortemente a qualquer diálogo com Cuba. A agência tinha a autoridade institucional para prosseguir com seus esforços de frear a revolução por meios encobertos. Em um memorando apressado que foi enviado à Casa Branca no primeiro de maio de 1963, o diretor da CIA, John McCone, solicitou que não se desse, pelo momento, nenhum passo na aproximação e pressionou para que Washington fosse o mais limitado em suas discussões em torno de um processo de acordo com Fidel Castro.
Mas no outono de 1963, Washington e La Habana ativamente empreenderam passos em direção a negociações reais. Em setembro, Howard utilizou uma festa em sua casa de Manhattan, na rua 74 leste, como cobertura para a primeira reunião entre um funcionário cubano (o embaixador nas Nações Unidas Carlos Lechuga) e um funcionário estadunidense (o embaixador adjunto na ONU William Attwood).
Attwood disse a Lechuga que pelo menos havia interesse da Casa Branca nas conversações secretas, se existia algo do que falar. Também apontou que a CIA maneja a política com Cuba. Após a reunião, Fidel Castro e Kennedy utilizaram Howard como intermediária para começar a passar mensagens em torno dos possíveis acordos para efetuar uma sessão de negociações entre ambas as nações.
No dia 5 de novembro, o sistema de gravações secretas do Salão Oval de Kennedy registrou uma conversação com seu assessor em segurança nacional McGoerge Bundy, sobre se enviar William Attwood (que nesse momento servia como adjunto do embaixador estadunidense Adlai Stevenson nas Nações Unidas) para reunir-se em segredo com Fidel Castro.
Bundy disse ao presidente: Attwood tem agora um convite para ir falar com Fidel Castro sobre as condições e termos sob os quais estaria interessado em discutir suas relações com os Estados Unidos. Se escuta o presidente aceder à ideia, mas pergunta se é possível tirar Attwood da nômina antes que vá, para saneá-lo, fazendo-o ver como um cidadão qualquer, em caso de que vazasse o rumor da reunião secreta.
No dia 14 de novembro, Howard combinou que Attwood fosse a sua casa e falasse por telefone com o assistente principal de Fidel Castro, Rene Vallejo, tentando obter a agenda dos cubanos para uma reunião secreta, em La Habana, com o comandante cubano. Vallejo aceitou transmitir uma proposta ao embaixador Lechuga, que informaria os estadunidenses. Quando Attwood passou esta informação a Bundy na Casa Branca, este lhe disse: quando receber a agenda, o presidente vai querer ver-me na Casa Branca para decidir o que dizer e se há que ir [à Ilha] ou como proceder.
Isso foi em 19 de novembro, lembra Attwood. Três dias antes do assassinato.
O ato final de Kennedy
Mas Kennedy também enviou a Fidel Castro outra mensagem de potencial reconciliação. Seu emissário, o jornalista francês Jean Daniel, se reuniu com Kennedy em Washington para discutir o assunto Cuba. O presidente lhe deu uma mensagem para Fidel Castro: são possíveis melhores relações, e ambos países devem trabalhar para pôr fim às hostilidades. No dia 22 de novembro Daniel passou essa mensagem a Fidel Castro, e os dois a discutiam com otimismo no almoço quando Fidel Castro recebeu um telefonema informando que haviam disparado contra Kennedy.
“Isso é terrível”, disse Fidel Castro a Daniel, dando-se conta de que sua missão havia sido abortada pela bala de um assassino. Ali ficou a missão de paz. Então Fidel Castro previu com precisão: vão dizer que nós o matamos.
Entre as controvérsias que continuam em torno de possíveis teorias conspirativas, o que se perde na discussão histórica do assassinato é que o último ato de Kennedy como presidente foi aproximar-se de Fidel Castro e oferecer a possibilidade de uma relação bilateral diferente entre La Habana e Washington. Cinquenta anos depois, o potencial que Kennedy avistou, em relação a uma coexistência entre a revolução cubana e os Estados Unidos, tem ainda que cumprir-se. Como parte da comemoração de seu legado, devemos recordar, reconsiderar e revisar sua visão de um cessar as hostilidades no Caribe.
Peter Kornbluh dirige o Projeto de Documentação sobre Cuba no Arquivo de Segurança Nacional em Washington e é coautor, junto a William Leo Grande, do livro de próxima aparição Talking with Cuba: The hidden history of diplomacy between the United States and Cuba.
Tradução: Liborio Júnior.
Tags: Cuba, EUA, Fidel Castro, John F. Kennedy

27 de novembro de 2013 às 18:59
[…] See on limpinhoecheiroso.com […]