De Deodoro da Fonseca a Joaquim Barbosa: As farsas do 15 de novembro

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Edson Santos em seu blog

Insatisfeitas com a abolição, que um ano antes havia lhes tirado o “direito” de explorar a mão de obra negra escravizada, as elites brasileiras patrocinaram o arranjo político-militar que em 15 de novembro de 1889 derrubou a monarquia. Já senil, o marechal Deodoro da Fonseca foi colocado praticamente de pijamas sobre um cavalo para “liderar” o grupo de militares que assumiu o poder no País. O golpe, no entanto, assumiu caráter heroico nas narrativas de viés conservador e a data passou a ser comemorada com feriado nacional.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, buscou apropriar-se do simbolismo do 15 de novembro para promover embuste semelhante, desta vez alçado à condição de espetáculo midiático, com a expedição dos mandatos de prisão dos réus condenados na Ação Penal 470 às vésperas do feriado. O fez sem aguardar a conclusão do julgamento e, numa clara violação dos direitos dos réus, sem possibilitar à defesa as condições de estabelecer o contraditório, garantia consagrada pela tradição jurídica brasileira. Assim como os latifundiários e os escravocratas que se uniram para derrubar quem lhes havia privado da mão de obra farta e gratuita, alinharam-se ao gesto autoritário de Joaquim Barbosa os setores mais reacionários das elites nacionais, cujo ódio de classes de reflete na cobertura histérica que a mídia oligopolizada vem dedicando ao episódio.

Não são poucos os bem-nascidos que se ressentem por terem de dividir aeroportos, universidades e, principalmente, espaços de poder e decisão política com o povo. Por ser protagonista de um processo de ruptura com o passado que incorporou à sociedade de consumo e de direitos mais de 35 milhões de brasileiros, o Partido dos Trabalhadores se transformou no principal alvo dos conservadores ressentidos.

Na falta de uma alternativa viável para apresentar aos brasileiros, estas forças conservadoras recorrem à mesma bandeira da moralidade desfraldada no passado contra outros governos progressistas, como JK, Vargas e João Goulart. Por personificarem o PT, José Genoíno e José Dirceu são agora levados a um linchamento público que desconsidera a luta destes dois grandes brasileiros contra a ditadura militar e seu protagonismo no processo de transformação política que, após a eleição de Lula (alvo inicial da AP 470), culminou com a elevação da sociedade brasileira a um patamar de direitos e oportunidades nunca antes experimentado em nossa história.

Todos nós, não apenas os petistas, mas todos que defendem a democracia, a liberdade e a justiça social, temos o dever de manifestar nossa insatisfação contra o desfecho da AP 470, um julgamento político, de exceção, que entrará para a história como mais uma farsa dos novembros de nossa política.

***

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4 Respostas to “De Deodoro da Fonseca a Joaquim Barbosa: As farsas do 15 de novembro”

  1. Dayse Silva Says:

    Infelizmente, os fatos tendem a se repetir, com algumas diferenças, porém, não fundamentais.
    Uma das razões, como disse, certa vez, meu velho Professor, é que o nosso povo não lê, apenas vê.
    Mas dia haverá que este povo colocará o seu destino nas próprias mãos, porque lê e vê com a sua própria consciência.

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  4. Clovis Pacheco Filho Says:

    Quais foram as elites brasileiras escravistas que manobraram Deodoro para que fosse proclamada a nossa tragicômica república?

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