Os filhos de 1964: Memórias e exumações

Medici02Os filhos de 64 tiveram a construção de sua memória informada pelo ambiente da ditadura que, em muitas cidades e comunidades do País, tinha a forma aparente de algo um tanto inocente. Saudar o “presidente” Médici (foto) com bandeirinhas e cartazes era um dos atos dessa peça perversa.

Marco Weissheimer, via Sul21

Há quem não veja com bons olhos a exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart, achando que há uma dimensão de espetáculo demasiada que teria como uma de suas consequências esconder a situação de tímidos avanços que o Brasil registra no tema da memória, da justiça e da verdade sobre o golpe de 1964. Muito espetáculo e pouco resultado, em resumo.

É uma crítica respeitável, até porque está compromissada com a tese da necessidade de o Brasil levantar o tapete e mostrar a sujeita da ditadura que ainda está escondida do amplo conjunto da população. No entanto, a decisão de exumar os restos mortais de Jango tem o mérito de abrir espaços e oportunidades para que os avanços tímidos que tivemos, quando comparados ao que outros países como a Argentina fizeram, se tornem um pouco menos tímidos. Os caminhos da memória são tortuosos e às vezes descobrem ou constroem atalhos em espaços e circunstâncias inesperadas.

Uma dessas circunstâncias inesperadas diz respeito ao interesse das novas gerações sobre o que aconteceu em 1964. De lá para cá, já se passaram quase 50 anos. Os milhares de jovens que saíram às ruas do País este ano provavelmente pouco conhecem desse período e das implicações da ditadura para o presente do País. Há um vazio, ou vários vazios, na memória que a sociedade tem do golpe e da ditadura. Preencher esses vazios é um condição necessária para entender vários dos problemas que levaram tanta gente para as ruas nos últimos meses.

A qualidade da representação política que temos, a lógica que rege o funcionamento dos partidos, a concentração de propriedade e de renda no País, a concentração dos meios de comunicação nas mãos de umas poucas famílias, a concentração da terra: todos esses temas estão ligados ao que ocorreu em 1964 e nos anos seguintes. Construir a memória desse período, portanto, não é uma tarefa menor ou secundária e tudo o que puder contribuir para ela é mais do que bem-vindo.

Não são apenas os jovens de hoje que desconhecem o que ocorreu no Brasil naqueles anos. Quem nasceu naquele período, como eu, provavelmente tem uma memória precária sobre aqueles dias. E a precariedade aí não diz respeito apenas à ausência de informações ou de lembranças, mas pela construção de uma memória informada pelo ambiente da ditadura que, em muitas cidades em comunidades do País, foi apresentado como algo um tanto inocente e mesmo idílico. Eu enquadraria minha infância e início da adolescência nesta categoria.

Minhas memórias mais antigas da ditadura tem a ver com os desfiles de sete de setembro, onde éramos obrigados a ensaiar em tardes quentes, marchando pelas ruas de Passo Fundo. Fomos levados – eu devia ter seis ou sete anos – para as ruas acenar pequenas bandeiras do Brasil saudando a passagem do presidente Médici pela cidade. Na época me disseram que era o presidente. A palavra ditador não frequentava o nosso vocabulário. Tem a ver também com as músicas patrióticas que também cantávamos alegremente na escola, como “este é um brasil que vai pra frente” ou mesmo cantos militares, como o hino da Força Expedicionária Brasileira, “por mais terras que eu percorra, não permita deus que eu morra sem que volte para lá…”, que, por alguma razão fazia parte dos nossos livros didáticos.

Um dos personagens que habitam minha memória desse período é o “Tio Edu”, que é como era chamado, carinhosamente, o coronel Edu Vila de Azambuja, interventor da ditadura na cidade, ou prefeito como diziam. Alunos mais pobres de escolas públicas, que não tinham a oportunidade de ir para a praia nas férias tinham como opção as colônias de férias no quartel do exército da cidade, onde entre alguns jogos e exercícios físicos, aprendiam a importância da disciplina e do amor à pátria. Há toda uma geração que viveu neste meio, com essas informações e com esse cenário. Não havia, em muitos casos, como no meu, sequer a consciência de que vivíamos em uma ditadura. Não era um tema que penetrava o dia-dia. Imagino que esse microcosmo que vivi em Passo Fundo tenha se repetido em centenas e mesmo milhares de outras localidades. Uma infância tranquila, mesmo idílica, em meio a uma ditadura.

Isso só vai mudar ao final da adolescência quando, para desespero de meus pais, passei a militar no Alicerce da Juventude Socialista, a organização de juventude da Convergência Socialista na época. Dali em diante, os olhos e ouvidos foram se abrindo e tive o gosto de participar de algumas “ações contra a ditadura”. As aspas se justificam pela timidez das mesmas. Mas, mesmo tímidas, valeram um fichamento no “setor de inteligência” do quartel do exército da cidade, uma medalha que recebi com muito orgulho.

Quais foram as implicações sociais desses buracos na memória de milhões de pessoas? É algo difícil de quantificar, mas certamente possível de qualificar: a falta de memória, a desinformação, a deformação e a alienação não costumam ser bons construtores de cidadania e de democracia. Há muito, portanto, a ser dito sobre aquele período. A ser dito e ouvido, e visto, e pensado. O nosso déficit neste tema é tão grande que não corremos o risco de uma overdose de memória e de informação.

Qual foi mesmo a história da ditadura em Caxias do Sul, onde nasci e vive até os quatro anos, ou em Passo Fundo, onde vivi todo o restante da ditadura? Quantas pessoas foram presas, torturadas, desaparecidas, mortas, ou perderam seus empregos e tiveram que se mudar para longe por causa de suas opiniões políticas? Em cada cidade, em cada comunidade do Brasil, há uma história a ser contada para responder essas e outras perguntas. Já existem alguns relatos, mas eles estão longe compor o livro do qual o País necessita. Nós, os filhos de 1964, talvez possamos dar uma importante contribuição neste sentido. Até porque, no nosso caso, não se trata apenas de contar as histórias ocultas da ditadura, mas sim de descobrir a nossa própria história individual, marcada por experiências surrupiadas em um ambiente onde o militar interventor na cidade era carinhosamente chamado de “tio”. Esse “tio” terá sido responsável por alguma tortura, prisão ou morte? Não sei. Talvez. Essa é uma de tantas histórias que aguardam ser contadas.

Para que isso ocorra, há, entre outras coisas, um trabalho de exumação a ser feito. Uma exumação dos restos de uma memória abastecida com histórias contadas por militares que se apresentavam como tios, por professores que integravam a Escola Superior de Guerra e por uma imprensa que foi, em sua maioria, cúmplice e apoiadora ativa do golpe e da ditadura. Essa exumação da memória estropiada é trabalho para muitos anos, para toda a vida talvez. Que a exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart sirva de estímulo para que outras exumações sejam feitas. Nós, os filhos de 1964, deveríamos ser os principais interessados em abrir essas gavetas.

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Uma resposta to “Os filhos de 1964: Memórias e exumações”

  1. Os filhos de 1964: Memórias e exumações | O LADO ESCURO DA LUA Says:

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