Primeiro médico cubano chegou em 1995 no interior de São Paulo

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Faz 18 anos que Eduardo chegou ao Brasil.

Formado em 1982 pela Faculdade de Medicina de Cuba, Eduardo Francisco Mestre Rodriguez fez parte da primeira equipe de médicos importados de Cuba.

Rose Mary de Souza, via Portal Terra

Em 1995, ele foi convidado a elaborar um estudo de implantação de Programa de Saúde da Família no Brasil e ficaria seis meses no País. Mas já faz 18 anos que o generalista e epidemiologista Eduardo Francisco Mestre Rodriguez, 56 anos, trocou Cuba, sua terra natal, pela paisagem montanhosa de Pedreira, de 41 mil habitantes e a 130 quilômetros de São Paulo. Hoje, está tão “abrasileirado” que fala e compreende bem o português, casou-se com uma brasileira e tem residência fixa na cidade.

Ele se recorda do pioneiro convênio de atração de médicos cubanos para o território brasileiro. Raríssimos prefeitos se interessaram em conhecer o sistema de cooperação entre Cuba e Brasil, lembra. Na época, além de Pedreira, o município de Niterói (RJ) também contratou uma equipe de médicos de Cuba. Mas ao findar o contrato de cooperação, todos voltaram. Menos o doutor Eduardo, como é conhecido na cidade.

“Eu fui bem recebido, as pessoas me trataram com tanta hospitalidade na prefeitura, entre os médicos, pela comunidade, fiz amigos, me senti apoiado em realizar o meu trabalho e decidi aceitar a proposta para ficar”, conta Rodriguez.

Formado em 1982 pela Faculdade de Medicina de Cuba, ele fez parte da primeira equipe de médicos importados de Cuba. Ele lembra quando chegou e começou a fazer um diagnóstico da cidade a pedido do então prefeito Hamilton Bernardes, que esteve em duas legislaturas (1993-1996 e 2005-2012). Rodriguez deixou a prefeitura com a mudança do prefeito.

Seis cubanos e uma missão

Para estudar o município e conhecer o sistema de saúde da cidade, precisou de ajuda: chamou quatro colegas cubanos, inclusive um dentista e um diretor da faculdade onde estudou e trabalhou. Ao findar a pesquisa e apresentar o diagnóstico – e assim que os colegas retornaram a Cuba –, Rodriguez foi convidado a ficar para implantar e desenvolver o Programa de Saúde da Família a partir dos dados do município que já dispunha. E aceitou.

De 1995 a 2007, foi o coordenador do serviço de Saúde de Família. Entre 2003 a 2004, ocupou um cargo de direção na Secretaria Municipal de Saúde. De 2007 a 2012, assumiu a direção da Saúde Mental, uma área que desconhecia, mas que passou a organizar a condução das equipes. Teve carta branca para aplicar os conhecimentos adquiridos em Cuba, distribuiu tarefas e exigiu eficiência e resultados dos projetos.

“Solicitamos a contratação de mais agentes de saúde e uma melhor valorização da profissão com aumento de salários, afinal são pessoas que estão nas ruas de sol a sol. São importantes, necessários”, conta. Outros pedidos chegavam aos gabinetes: ampliação de serviços da saúde, mais remédios, mais vacinas, abertura de novos postos de saúde, atendimento residencial, etc.

Sociedade colaborativa

Rodriguez lembra que a aproximação com as comunidades foi fundamental. Na sua opinião, o município de Pedreira é privilegiado, já que não faz parte de uma região carente, faz limites com cidades industrializadas e grandes centros urbanos como Campinas e São Paulo. Em Pedreira, não encontrou situação de risco como extrema pobreza, mas notou que havia necessidade de maior aproximação dos gestores de saúde perante a população.

“Nosso trabalho foi realizado com a cooperação de todos, foi assim que aprendi em Cuba: integrar as ações. Para isso, foi preciso juntar a vontade política com a colaboração da família, da comunidade, participação de ONGs, de associações de bairros, igrejas – e falo de todas as religiões e credos: a católica, evangélica, a espírita –, conversar com todas, que, por sua vez, iam conversar com seus membros.”

Na sua opinião, o médico tem que literalmente tocar o paciente, estar perto, saber ouvi-lo, e não somente contar com os resultados de exames de laboratórios. “O paciente às vezes quer somente falar de suas dores, tem a necessidade de ser ouvido. Ele tem problemas, tantas agonias que o afligem”, diz.

Um médico presente e perto do paciente é uma atitude desejável àqueles que vão atuar no Programa de Saúde da Família. “Muitas vezes, o médico já identifica um problema de saúde só de sentir o hálito do paciente. Só de ver a cor do vômito, se tem sangue ou não, para melhor detalhar um diagnóstico.”

Samba, feijoada, casamento, apartamento e carro

Rodriguez ficou na prefeitura de Pedreira até o final de 2012, quando houve a troca de prefeito após as eleições. Hoje ele atua como consultor de saúde do Instituto de Pesquisas Especiais para a Sociedade (Ipes), uma entidade ligada à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), formado por várias áreas profissionais, com ações voltadas a comunidades carentes.

Por opção pessoal, ele não pediu licença para clinicar e não dispõe de registro no Conselho Regional de Medicina. Há quase duas décadas no Brasil, o doutor Eduardo se sente integrado e muito feliz em Pedreira. “Adoro o Brasil, tem um povo alegre como em Cuba, expansivo, carinhoso, gosto muito de morar em Pedreira, fiz muitos amigos. Sempre me convidam para sair, jantar. Na rua encontro pessoas que conheci quando atuava na secretaria de Saúde”, diz.

A barreira da língua foi quebrada ao longo dos anos, mas jamais foi um impedimento. A cultura e os costumes foram assimilados com o tempo, mas foi a cozinha que o conquistou de vez. “Gosto de feijoada, adoro caipirinha, pizza, os lanches de todos os lugares. Sim, gosto de salsa, mas tenho curtido muito mais pagode.”

A predileção pelo ritmo de dança brasileira é acentuada pela funcionária pública brasileira Maria Luiza de Moura Godoy, sua mulher desde 2002. O casal reside em apartamento próprio e possui um automóvel ano 2009.

Maria Luiza era viúva e trouxe os dois filhos adultos do antigo casamento. Um já está casado, e outro vai no mesmo caminho. Rodriguez também se divorciou, e os dois filhos, que já concluíram o curso universitário, moram com a ex-mulher em Cuba. “Eles vêm me visitar nas férias e nós já fomos algumas vezes para lá também.”

***

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3 Respostas to “Primeiro médico cubano chegou em 1995 no interior de São Paulo”

  1. Arlete Souza Says:

    Mas agora o governo é do PT. NÃO PODE!!

  2. Jésus Araujo Says:

    Que pena não terem sido efetivadas as vindas de médicos cubanos decididas no governo FHC, contratadas pessoalmente pelo ministro da saúde José. Serra em Cuba. Teríamos ganhado um bom tempo em benefício do povo brasileiro. Concordam comigo?

  3. Gabriel Says:

    Inteligente: Não voltou para Cuba…..

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