Banqueiros babam com disruptura de Marina

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Saul Leblon, via Carta Maior

Marina Silva sentou-se à direita da santíssima trindade dos mercados. Em amigável périplo pela mídia, a ex-senadora se declara uma convicta defensora do sacrossanto “tripé”. Que vem a ser uma espécie de enforcador à distância. Sendo o pescoço, a sociedade. E os mercados, a mão que controla a correia.

A coleira dentada permite que o dinheiro grosso submeta governos, partidos e demais instâncias sociais a um comando de desempenho monitorado por três variáveis.

A saber:

1. regime de metas de inflação, ancorado no chicote dos juros “teatrais”, se necessários, assevera Marina em flerte com o “choque” monetarista;

2. câmbio livre, leia-se, nenhum aroma de controle de capitais; vivemos, afinal, em um período de pouca volatilidade e incerteza global… e

3. o superávit “cheio” – o nome honesto disso, convenhamos, é arrocho fiscal: corte de investimentos públicos estratégicos para garantir o prato de lentilhas dos rentistas.

Marina descobriu que quando abre a boca encanta os banqueiros. Mas começa a ter dificuldade com o vocabulário.

Como exprimir o que se propõe a fazer no Brasil sem colidir com as boas intenções de seus apoiadores?

Ao jornal Valor Econômico, que lhe ofereceu uma página na segunda-feira, dia 14, a parceira de Eduardo Campos defende uma disruptura. Que diabo ela quer dizer com isso?

Marina quer dizer a mesma coisa que o Globo disse sábado, em manchete garrafal: “PSDB melhorou serviços e PT reduziu desigualdade”. Ou seja, o passado passou. Cada um fez o que pode.

Agora é olhar para frente, juntar o que presta e descartar o resto. O nome da travessia, ensaia o Globo, é Campos/Marina. Ou disruptura, arrisca a sedutora ex-senadora.

Vamos abstrair do interior da palavra “serviços” detalhes que agridem a apaziguadora manchete do Globo. Por exemplo, o “apagão” de 2001. Ao custo de 2% do PIB, ele promoveria um corte de 20% do serviço de energia elétrica oferecido aos brasileiros. Que, todavia, pagaram pelo serviço não prestado.

Outra dissonância entre a história vivida pela população e o jornalismo Globo: a área sofrível do saneamento básico. No ano passado, o Brasil aplicou R$8,3 bilhões na expansão desse serviço. É pouco. A média necessária para universalizar o acesso em 20 anos seria da ordem de R$20 bilhões ao ano.

Ainda assim representa dez vezes mais o valor destinado há uma década, quando, segundo O Globo, tivemos um ciclo de fastígio nos serviços.

Marina passa ao largo dessas miudezas.

“Como eu e Eduardo reconhecemos tanto as coisas boas do governo do PT e do PSDB, talvez sejamos a esperança de provocar uma disruptura.

Ei-la, na segunda-feira, dia 14, em bate-bola afinado com a manchete do domingo. Nas palavras da ex-senadora, trata-se agora de buscar “uma agenda que não mude porque mudou o governo”. Escavar um fosso entre a representação política da sociedade e o poder efetivo sobre o seu destino, é tudo o que as plutocracias almejam, urbi et orbi.

Se alguém trata isso com leveza e sedução, como resistir?

“Impressionante”; “cativante”, disseram clientes endinheirados do Credit Suisse, banco que patrocinou um encontro a portas-fechadas com a ex-ministra na sexta-feira, dia 11.

Há notável coerência entre desdenhar dos partidos e entregar o destino da sociedade a uma lógica que se avoca autossuficiente e autorregulável. Marina passeia por um Brasil plano. Mas o mundo não é plano. E o relevo econômico do Brasil inclui-se entre as encostas mais acidentadas pela ação secular de predadores, ora cativados pela ex-ministra.

Os ouvidos para os quais as vozes de Marina, Campos e Aécio soam como música – assim como soava a de Palocci, em 2003 – sabem que drenar R$223 bilhões em juros de um organismo social marcado por carências latejantes de serviços e infraestrutura não é sustentável.

O valor refere-se ao total das despesas com juros da dívida pública (nas três esferas da federação) pagos em 12 meses até outubro. Representa uns 5% do PIB. Mais de dez vezes o custo do Bolsa Família, programa que beneficias 14 milhões de famílias, 55 milhões de pessoas.

Ou quatro vezes o que supostamente custaria a implantação da tarifa zero no transporte coletivo das grandes cidades brasileiras. Ou ainda dezoito vezes mais o que o programa Mais Médicos deve investir até 2014, sendo: R$2,8 bilhões para construir 16 mil Unidades Básicas de Saúde e equipar 5 mil unidades; ademais de R$3,2 bilhões para obras em 818 hospitais e aquisição de equipamentos para outros 2,5 mil, além de R$1,4 bilhão para obras em 877 Unidades de Pronto Atendimento.

Repita-se: daria para fazer isso 18 vezes com o valor destinado ao rentismo em um ano.

Não serve de consolo dizer que no final do governo FHC gastava-se quase 10% do PIB com juros. O investimento público direto da União em logística e infraestrutura social era um traço. Agora oscila em torno de 1% (descontado o Minha Casa).

Muito distante do desejável para uma sociedade que atingiu o ponto de saturação na convivência com serviços insuficientes e de baixa qualidade. O ponto é: como Marina que supostamente herdou os votos dessa insatisfação, pretende lidar com assimetrias descomunais, apoiada na defesa algo deslumbrada, tosca e jejuna, do “tripé”?

“Se o tripé ficou comprometido, é preciso restaurá-lo”, sentenciou quase blasé aos clientes embasbacados do Credit Suisse. Ao abraçar a utopia neoliberal Marina aspira ser uma pluma imune ao atrito que contrapõe os interesses populares aos da elite brasileira. Exerce na verdade o surrado papel da bigorna histórica, sobre a qual amplos interesses são submetidos aos golpes da marreta impiedosa do dinheiro.

Para isso está sendo cevada. Ao que parece, tomou gosto pela ração. E já ensaia comer sozinha.

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