V de Velhacos: O ultrarreacionarismo do Anonymous do Brasil

Anonymous09

Eles são a negação do herói de V de Vingança.

Via Diário do Centro do Mundo

O texto abaixo foi publicado, originalmente, no site Vaidapé. O autor é o estudante Paulo Motoryn, um dos líderes do Movimento Passe Livre em São Paulo. O Diário o deu em junho, e ele ganha nova atualidade agora, num 7 de Setembro que promete [prometia!] ser agitado.

No caminho para o quinto grande ato contra o aumento da tarifa, organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL-SP), encontrei quatro pessoas com aquela máscara que caracteriza o grupo Anonymous Brasil.

Como já estava com medo da apropriação do movimento por grupos que não eram progressistas, resolvi prestar atenção no que diziam.

Como ainda estávamos no metrô, só um deles já vestia a máscara, uma referência a Guy Fawkes, um famoso conspirador inglês, e que foi popularizada no Brasil pelo filme V de Vingança. Todos eram típicos jovens de classe média. Mas o problema está muito longe de morar aí.

Um deles, o mais agitado e que falava mais alto, criticava o Bolsa Família: “Não pode ser esmola. Tinha de obrigar o neguinho a tirar 10 na escola. Aí eu queria ver eles racharem de estudar para levar a grana para casa”, disse. Certamente, não parou para refletir por qual motivo ele próprio teve a vida que qualquer beneficiário do Bolsa Família pediu a deus (com “d” minúsculo) e nunca foi obrigado a tirar 10 para usufruir do dinheiro de seus pais.

Desde o primeiro ato do Passe Livre, algumas máscaras do Anonymous já podiam ser vistas pelas ruas paulistanas. Mas o número de mascarados cresceu exponencialmente no desenrolar dos atos e eles passaram a ser um dos símbolos da revolta nacional.

Na última quarta-feira, após a revogação do aumento das passagens do transporte público, objetivo único e claro dos atos promovidos pelo MPL, o Anonymous lançou um vídeo com “as 5 causas” pelas quais o povo deveria continuar nas ruas: o arquivamento da PEC 37, a saída de Renan Calheiros do Congresso, investigação e punição por corrupção nas obras da Copa, criação de lei que trata corrupção como crime hediondo e fim do foro privilegiado.

É preciso dizer que absolutamente nenhuma dessas causa tem como principal objetivo reduzir as desigualdades sociais?

Pior.

No vídeo, deixam claro que nenhuma das propostas tem caráter político-ideológico, mas sim moral.

Ora, nem precisava dizer.

A bandeira da corrupção, implícita nas cinco causas, é o moralismo descarado. Ou alguém realmente acha que só o fim da corrupção vai tornar o Brasil socialmente justo?

A luta contra a corrupção não altera as estruturas de poder vigentes e não combate, por exemplo, o oligopólio das concessões públicas, ineficientes e altamente lucrativas.

O Anonymous Brasil simboliza a guinada conservadora que os atos do MPL sofreram em São Paulo.

O Passe Livre, que mira o acesso universal ao transporte público – bandeira fundamentalmente progressista e não moralista –, foi fraudado pela mídia e por grupos que não têm como principal objetivo uma mudança estrutural na sociedade brasileira.

A luta e a ocupação das ruas deve continuar. Mas antes devemos discutir as bandeiras que queremos levantar, para não fortalecer interesses que não os dos mais pobres e das minorias.

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2 Respostas to “V de Velhacos: O ultrarreacionarismo do Anonymous do Brasil”

  1. V de Velhacos: O ultrarreacionarismo do Anonymous do Brasil | C O O LTURA Says:

    […] See on limpinhoecheiroso.com […]

  2. Jésus Araujo Says:

    A direita, como sempre sem discurso (ou sem discurso que possa ser apresentado ao povo e receber sua adesão), despolitiza a política, substituindo-a pelo discurso moralizante desde a velha UDN de Carlos Lacerda na década de 50. É verdade que o problema da corrupção é grave. Sua solução (haverá solução sem que todos os políticos sejam santos, sobretudo num país que cultiva o jeitinho e louva a esperteza?) não afetará as estruturas injustas, como observa Jânio de Freitas. Um discurso moralista vem a propósito, dispensa de discutir os graves problemas político-sociais do pais, desinteressante para os privilegiados do sistema. Outro tema do discurso da direita é a competência; dizem-se mais competentes gestores da coisa pública (Serra, no Nordeste, jurando que manterá o bolsa -família, mas o fará melhor; até na Venezuela, Capriles garantindo que manterá, com mais competência, a herança de Chaves). Moralismo e competência. Que mais?

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