Luciano Martins Costa: A medicina dos brancos

Cuba_Medicos23_ExportaLuciano Martins Costa, via Observatório da Imprensa

A Justiça Federal negou liminar ao Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, que pretendia conceder registros provisórios somente aos médicos estrangeiros ou formados no exterior que tenham seus diplomas validados no Brasil. Segundo a 5ª Vara Federal de Belo Horizonte, a anunciada intenção da entidade, de negar o registro aos profissionais recrutados pelo Programa Mais Médicos, representaria uma prática de reserva de mercado e causaria prejuízos aos doentes e usuários do Sistema Único de Saúde. A decisão vale para todo o país e estabelece um paradigma de realidade numa discussão que já havia resvalado para o terreno das pantomimas.

O presidente do CRM de Minas Gerais é o mesmo que havia declarado que seus afiliados deveriam se negar a atender pacientes cuja saúde sofresse qualquer problema após o trabalho dos médicos estrangeiros. Essa e outras atitudes, como as vaias e declarações preconceituosas contra os cubanos que fazem treinamento em Fortaleza, provocaram repercussão negativa na opinião pública, segundo análises publicadas pelos jornais nas edições de quinta-feira, dia 29/8.

A notícia da decisão judicial foi destacada pelo jornal O Estado de S.Paulo, que publica também uma declaração da presidente da República condenando as manifestações de preconceito contra os profissionais trazidos ao Brasil pelo Programa Mais Médicos.

Aos poucos, a imprensa vai municiando seus leitores com mais informações e menos declarações, embora ainda predominem nas páginas dos diários as frases deste ou daquele personagem. Ainda no Estado e também na Folha de S.Paulo podem-se ler textos sobre o teor do contrato firmado entre o governo brasileiro e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) para o recrutamento de médicos cubanos.

A Folha de S.Paulo destaca em seu noticiário o fato de o convênio com a Opas para importar profissionais de Cuba ter sido assinado antes do lançamento oficial do Programa Mais Médicos. Mas essa diferença no calendário não tem a menor relevância, uma vez que o programa vinha sendo preparado desde 2011. Trata-se, claramente, de uma picuinha a mais no extenso rol das traquinagens jornalísticas que fazem o estilo do jornal paulista.

As raízes do preconceito

Os textos sobre o acordo com a Opas são esclarecedores e desautorizam as manifestações que se referem a “trabalho escravo”, financiamento de ditaduras e outras bobagens abrigadas pela imprensa. Mesmo assim, alguns articulistas ainda gastam papel para demonstrar sua pouca afinidade com expressões como “solidariedade” e “interesse público”.

Um conhecido tributarista, que costuma ser convocado pela imprensa para falar de qualquer coisa, chama os profissionais arregimentados pela Opas de “agentes públicos de Cuba que se intitulam médicos”. Na sua opinião, a Venezuela se tornou uma “semiditadura” depois que aquele país passou a importar médicos cubanos.

Por trás dessa e outras expressões de insensibilidade com relação às carências da saúde pública, pode-se encontrar informações interessantes para compreender a furiosa reação das entidades médicas brasileiras contra a importação de profissionais formados em outros países. O Globo, por exemplo, foi buscar nos dados estatísticos do IBGE os fundamentos para uma constatação preocupante: “Medicina ainda é curso de perfil elitista no Brasil”, diz o título da reportagem.

Trata-se de uma análise que mostra como, embora a população brasileira seja formada por 50,7% de cidadãos que se declaram pretos ou pardos, somente 1,5% dos médicos se consideram pretos e 13,4% se classificam como pardos.

Pesquisadores citados pelo jornal carioca ponderam que a vaia com que um grupo de médicos brasileiros recebeu os profissionais cubanos em Fortaleza, e a manifestação de uma jornalista do Rio Grande do Norte, que comparou as médicas daquele país a empregadas domésticas, resultam desse distanciamento elitista.

Embora programas sociais como o sistema de cotas para vagas nas universidades tenham amenizado essa diferença étnica nas escolas de medicina, esse é um setor do campo acadêmico que continua sendo reserva de jovens das classes mais abastadas, portanto, predominantemente brancos.

Por mais que rebusquem o dicionário e escarafunchem seus neurônios em busca de razões aceitáveis para condenar o programa, os representantes da classe médica do Brasil e seus apoiadores na imprensa não conseguem dissimular que, na verdade, falam em nome dessa elite preconceituosa.

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3 Respostas to “Luciano Martins Costa: A medicina dos brancos”

  1. Luciano Martins Costa: A medicina dos brancos | C O O LTURA Says:

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  2. Marcos Pinto Basto Says:

    Abundam doutores, mas faltam médicos, sobretudo médicos com honestidade moral para exercerem tão nobre profissão! O Brasil ainda tem médicos, mas são poucos e não merecem sofrer o desdém que a classe médica brasileira passou a sofrer depois de desabridos comentários sobre os médicos cubanos, muitas críticas maldosas e insultos criminosos. Usaram de baixaria completa, coisa de gente com péssima formação moral e intelectual. Os médicos cubanos que chegaram ao Brasil são profissionais muito competentes com um conceito sobre medicina que se baseia no humanismo e os brasileiros usam o monetarismo, paciente tem dinheiro é atendido, não tem dinheiro, é esquecido!
    Só quem já andou pelos SUS, sabe como os brasileiros são tratados ou destratados. Todos aqueles que se opõem à vinda de médicos cubanos, deveriam ir ao estado do Tocantins escutar a opinião do Povo de lá! Não escrevo mais para classificar todos os que são contra a saúde pública do Povo!

  3. Therezinha Says:

    Este dirigente mineiro só esta reproduzindo o que já acontece nos hospitais, onde os pacientes, mesmo com planos de saúde, morrem se em uma emergência não estiverem com as carteirinhas ou com talões de cheque. Os hospitais se recusam a atender e os médicos também!!! qual a novidade??? A novidade é que hoje, eles estão assumindo abertamente o que já praticam faz tempo!!! A vida humana é uma conta bancária, tem grana tem socorro imediato não tem morre na sala de espera. O SUS, bem ou mal, demorado ou não, atende! E quando deixa de atender é por má vontade dos médicos, pelos dedos de silicone, etc..
    Melhor seria se estes profissionais, tivessem humildade e trabalhassem, em vez de se meter onde não tem interesse e capacidade de ajudar.!!
    O não atender é a rotina , devemos nos preocupar se eles começarem a atender de repente!!!

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