Paulo Moreira Leite: Quando os corvos vestem branco

Corvo03_Branco

Fernando Brito, via Tijolaço

Paulo Moreira Leite publicou no sábado, dia 24, na IstoÉ, um artigo que só merece uma qualificação: magistral. A argumentação é cerebral, mas a indignação é figadal.

Porque quem escreve e fala não pode, sob pena de emburrecer ou desumanizar-se – o que não é o mesmo, mas é parecido – deixar de pensar, como não pode deixar de sentir, com funda humanidade.

Temos, neste caso dos médicos cubanos, duas faces.

Uma, velha, velhíssima: um anticomunismo arcaico, que já era doentio há 50 anos, na Guerra Fria, e hoje é, simplesmente, lunático. Parece que, como há 59 anos, naquele 24 de agosto fatídico, a razão está sob ataque dos corvos, agora em penas brancas.

Outra, mais e mais e mais velha ainda: o desprezo pelos seres humanos pobres, cujos direitos – inclusive os mais básicos, como a saúde e a vida – devem esperar que o “mercado” os resolva.

O tema voltará e voltará por muitos dias, até que a realidade desmanche os preconceitos, os benefícios anulem o ódio e faça a brutalidade recuar das bocas para os coraçÑoes miúdos desta gente.

Reproduzo o artigo magistral, repito, de Moreira Leite:

Em vez Havana?

O debate sobre a chegada de médicos cubanos é vergonhoso.

Paulo Moreira Leite

Do ponto de vista da saúde pública, temos um quadro conhecido. Faltam médicos em milhares de cidades brasileiras, nenhum doutor formado no País tem interesse em trabalhar nesses lugares pobres, distantes, sem charme algum – nem aqueles que se formam em universidades públicas sentem algum impulso ético de retribuir alguma coisa ao País que lhes deu ensino, formação e futuro de graça.

Respeitando o direito individual de cada pessoa resolver seu destino, o governo Dilma decidiu procurar médicos estrangeiros. Não poderia haver atitude mais democrática, com respeito às decisões de cada cidadão.

O Ministério da Saúde conseguiu atrair médicos de Portugal, Espanha, Argentina, Uruguai. Mas continua pouco. Então, o governo resolveu fazer o que já havia anunciado: trazer médicos de Cuba. Como era de prever, a reação já começou.

E como eu sempre disse neste espaço, o conservadorismo brasileiro não consegue esconder sua submissão aos compromissos nostálgicos da Guerra Fria, base de um anticomunismo primitivo no plano ideológico e selvagem no plano dos métodos. É uma turma que se formou nesta escola, transmitiu a herança de pai para filho e para netos. Formou jovens despreparados para a realidade do País, embora tenham grande intimidade com Londres e Nova Iorque.

Hoje, eles repetem o passado como se estivessem falando de algo que tem futuro. Foi em nome desse anticomunismo que o País enfrentou 21 anos de trevas da ditadura. E é em nome dele, mais uma vez, que se procura boicotar a chegada dos médicos cubanos com o argumento de que o Brasil estará ajudando a sobrevivência do regime de Fidel Castro. Os jornais, no pré-64, eram boicotados pelas grandes agências de publicidade norte-americanas caso recusassem a pressão norte-americana favorável à expulsão de Cuba da OEA. Juarez Bahia, que dirigiu o Correio da Manhã, já contou isso.

Vamos combinar uma coisa. Se for para reduzir economia à política, cabe perguntar a quem adora mercadorias baratas da China comunista: qual o efeito de ampliar o comércio entre os dois países? Por algum critério – político, geopolítico, estético, patético – qual país e qual regime podem criar problemas para o Brasil, no médio, curto ou longo prazo?

Sejamos sérios. Não sou nem nunca fui um fã incondicional do regime de Fidel. Já escrevi sobre suas falhas e imperfeições. Mas sei reconhecer que sua vitória marcou uma derrota do império norte-americano e compreendo sua importância como afirmação da soberania na América Latina. Creio que os problemas dos cidadãos cubanos, que são reais, devem ser resolvidos por eles mesmos.

Como alguém já lembrou: se for para falar em causas humanitárias para proibir a entrada de médicos cubanos, por que aceitar milhares de bolivianos que hoje tocam pedaços inteiros da mais chique indústria de confecção do País?

Denunciar o governo cubano de terceirizar seus médicos é apenas ridículo, num momento em que uma parcela do empresariado brasileiro quer uma carona na CLT e liberar a terceirização em todos os ramos da economia. Neste aspecto, temos a farsa dentro da farsa. Quem é radicalmente a favor da terceirização dos assalariados brasileiros quer impedir a chegada, em massa, de terceirizados cubanos. Dizem que são escravos e, é claro, vamos ver como são os trabalhadores nas fazendas de seus amigos.

Falar em democracia é um truque velho demais. Não custa lembrar que se fez isso em 64, com apoio dos mesmos jornais que 49 anos depois condenam a chegada dos cubanos, erguendo o argumento absurdo de que eles virão fazer doutrinação revolucionária por aqui. Será que esse povo não lê jornais?

Fidel Castro ainda tinha barbas escuras quando parou de falar em revolução. E seu irmão está fazendo reformas que seriam pura heresia há cinco anos. O problema, nós sabemos, não é este. É material e mental.

Nossos conservadores não acharam um novo marqueteiro para arrumar seu discurso para os dias de hoje. São contra os médicos cubanos, mas oferecem o quê? Médicos do Sírio Libanês, do Einstein, do Santa Catarina?

Não. Oferecem a morte sem necessidade, as pragas bíblicas. Por isso não têm propostas alternativas nem sugestões que possam ser discutidas. Nem se preocupam. Ficam irresponsavelmente mudos. É criminoso. Querem deixar tudo como está. Seus médicos seguem ganhando o que podem e cada vez mais. Está bem. Mas por que impedir quem não querem receber nem atender?

Sem alternativa, os pobres e muito pobres serão empurrados para grandes arapucas de saúde. Jamais serão atendidos, nem examinados. Mas deixarão seu pouco e suado dinheiro nos cofres de tratantes sem escrúpulos.

Em seu mundo ideal, tudo permanece igual ao que era antes. Mas não. Vivemos tempos em que os mais pobres e menos protegidos não aceitam sua condição como uma condenação eterna, com a qual devem se conformar em silêncio. Lutam, brigam, participam. E conseguem vitórias, como todas as estatísticas de todos os pesquisadores reconhecem. Os médicos, apenas, não são a maravilha curativa. Mas representam um passo, uma chance para quem não tem nenhuma. Por isso são tão importantes para quem não tem o número daquele doutor com formação internacional no celular.

O problema real é que a turma de cima não suporta qualquer melhoria que os debaixo possam conquistar. Receberam o Bolsa Família como se fosse um programa de corrupção dos mais humildes. Anunciaram que as leis trabalhistas eram um entrave ao crescimento econômico e tiveram de engolir a maior recuperação da carteira de trabalho de nossa história. Não precisamos de outros exemplos.

Em 2013, estão recebendo um primeiro projeto de melhoria na saúde pública em anos com a mesma raiva, o mesmo egoísmo. Temem que o Brasil esteja mudando, para se tornar um país capaz de deixar o atraso maior, insuportável, para trás. O risco é mesmo este: a poeira da história, aquele avanço que, lento, incompleto, com progressos e recuos, deixa o pior cada vez mais distante.

É por essa razão, só por essa, que se tenta impedir a chegada dos médicos cubanos e se tentará impedir qualquer melhoria numa área em que a vida e a morte se encontram o tempo inteiro.

Essa presença será boa para o povo. Como já foi útil em outros momentos do Brasil, quando médicos cubanos foram trazidos com autorização de José Serra, ministro da Saúde do governo de FHC, e ninguém falou que eles iriam preparar uma guerrilha comunista. Graças aos médicos cubanos, a saúde pública da Venezuela tornou-se uma das melhores do continente, informa a Organização Mundial de Saúde. Também foram úteis em Cuba.

Os inimigos dessas iniciativas temem qualquer progresso. Sabem que os médicos cubanos irão para o lugar onde a morte não encontra obstáculo, onde a doença leva quem poderia ser salvo com uma aspirina, um cobertor, um copo de água com açúcar. Por isso incomodam tanto. Só oferecem ameaça a quem nada tem a oferecer aos brasileiros além de seu egoísmo.

***

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6 Respostas to “Paulo Moreira Leite: Quando os corvos vestem branco”

  1. Clovis Pacheco Filho Says:

    A verdade é que a chegada destes médicos cubanos,. exemplificados na pessoa do doutor negro vaiado em Fortaleza junto com seus colegas, pelos mauricinhos e pats de jaleco e aventais brancos é a clara demonstração de todas as nossas mazelas.

    Mazelas físicas e morais. Os médicos cubanos eram para curar doentes que estão abandonados à própria sorte, ou melhor, à própria desgraça.

    São vaiados por puro corporativismo, por parte dos que deveriam atender tais abandonados, mas não o fazem para não se distanciarem de clínicas lucrativas, perto das praias e dos xopins cênteres.

    E, ao invés de esconderem suas caras, envergonhados por seu egoísmo e desídia, pats e mauricinhos vão dar mais uma demonstração de sua mesquinhez, ao dar vaias e fazer barraco na frente dos colegas estrangeiros.

    O povo humilde, todavia, irá agradecer aos doutores cubanos!

  2. Giordano Says:

    chupa essa, tucanalha!!!

  3. Paulo Moreira Leite: Quando os corvos vestem branco | O LADO ESCURO DA LUA Says:

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  4. Paulo Moreira Leite: Quando os corvos vestem branco | C O O LTURA Says:

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  5. Marcos Pinto Basto Says:

    Como disse Eliane Brum, ser doutor é mais fácil que se tornar médico! E assim temos muito mais espertalhões brandindo um diploma de médico que seres humanos superiores que cuidam da saúde de seus semelhantes! Estes são os médicos brasileiros, solidários com seus colegas cubanos, cidadãos conscientes alheios a politicagens alheias aos interesses da grande maioria do Povo, sempre os mais pobres que sofrem muito com a falta de atenção de governos anteriores, Falha enorme que D.Dilma começou a corrigir com o muito oportuno e inteligente Mais Médicos.
    Os dirigentes das associações da classe médica, numa atitude que fere o comportamento ético dum médico e até dum cidadão comum, começaram atacando o Governo, os médicos cubanos que são todos voluntários e mais aqueles solidários com o programa Mais Médicos. Salta à vista que os médicos brasileiros perderam grande dose de humildade e sabedoria ao pactuarem com pretensos líderes da classe

  6. Therezinha Says:

    Muito bom!!! Precisamos de mais textos como este publicados!!!

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