Paulo Moreira Leite: Joaquim, Pedro 1º e o racismo

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Um eventual candidato Joaquim Barbosa corre o risco de se tornar vítima do racismo à brasileira?

Paulo Moreira Leite em seu blog

Na entrevista a Miriam Leitão publicada no domingo, dia 28, em O Globo, Joaquim Barbosa usou a questão racial para definir seu futuro político. Tanto para falar de uma eventual candidatura presidencial, como para explicar reportagens recentes a seu respeito, o presidente do STF colocou o tema no centro das explicações e argumentos.

Não é a primeira vez que Joaquim age dessa forma. Num de seus primeiros conflitos com jornalistas, assim que se tornou presidente do STF, ele reagiu com truculência quando um repórter – negro – perguntou se ele estaria mais tranquilo depois de ter sido confirmado no mais alto posto da mais alta corte de Justiça do País.

Referindo-se ao repórter como “brother”, o ministro o acusou de estar usando estereótipos racistas ao fazer a pergunta. Referindo-se a outra jornalista que faz reportagens sobre o STF, definiu-a como branquela.

Em sua entrevista, Miriam Leitão perguntou: “O Brasil está preparado para um presidente da República negro?”

“Não”, disse Joaquim. E prosseguiu: “Porque acho que ainda há bolsões de intolerância muito fortes e não declarados no Brasil. No momento em que um candidato negro se apresente, esses bolsões se insurgirão de maneira violenta contra esse candidato.”

Referindo-se a reportagens recentes sobre seu filho – e também sobre seu apartamento em Miami –, o presidente do Supremo afirmou: “Já há sinais disso na mídia. As investidas da Folha de S.Paulo contra mim já são um sinal. A Folha de S.Paulo expôs meu filho, numa entrevista de emprego. No domingo passado, houve uma violação brutal de minha privacidade. O jornal se achou no direito de expor a compra de um imóvel modesto nos Estados Unidos. Tirei dinheiro de minha conta bancária, enviei o dinheiro por meios legais, previstos na legislação, declarei a compra no Imposto de Renda. Não vejo a mesma exposição da vida privada de pessoas altamente suspeitas da prática de crime.”

Reforçando a ideia de que sofre uma forma de perseguição, Joaquim Barbosa analisou:

“Há milhares de pessoas públicas no Brasil. No entanto, os jornais não saem por aí expondo a vida privada dessas pessoas públicas. Pegue os últimos dez presidentes do Supremo Tribunal Federal e compare.”

Em outro parágrafo, o presidente do STF criticou a atuação dos jornais, com um raciocínio que, pronunciado por personalidades ligadas ao governo, dificilmente deixaria de ser apontado aflitivamente como ameaça à liberdade de imprensa:

“É um erro achar que um jornal pode tudo. Os jornais e jornalistas têm limites. São esses limites que vêm sendo ultrapassados por força desse temor de que eu eventualmente me torne candidato.”

Joaquim também ameaçou:

“Nos últimos meses, venho sendo objeto de ataques também por parte de uma mídia subterrânea, inclusive blogs anônimos. Só faço um alerta: a Constituição brasileira proíbe o anonimato, eu teria meios de, no momento devido, por meio do Judiciário, identificar quem são essas pessoas e quem as financia. Eu me permito o direito de aguardar o momento oportuno para desmascarar esses bandidos.”

Há muito a falar sobre essa entrevista.

Eu acho que, do ponto de vista dos valores democráticos, a ideia – “O Brasil está preparado para Joaquim?” – contém um viés estranho. É como se Joaquim Barbosa, até hoje um eventual candidato a presidente, numa lista com pelo menos quatro nomes fortes entre os oposicionistas, não fosse um concorrente igual a todos os outros, mas a encarnação de um destino necessário para o bem de um país que, no entanto, estaria relutando em reconhecer suas prerrogativas.

Numa democracia, não é um país que pode ou não estar preparado para um presidente. Antes, é um candidato a presidente que deve se mostrar preparado para governá-lo. Isso implica, como primeiro passo, ter preparo para vencer eleições, o que só é possível pelo debate político. Sem esse debate, não estamos falando de eleição, mas de coroação.

Há quase dois séculos, em 1823, Pedro 1º chegou a dizer que só iria defender a Constituição “se ela fosse digna do Brasil e digna de mim”. Lula, o mais popular político brasileiro da história, já foi envolvido em visão semelhante. Durante três campanhas presidenciais (1989, 1994 e 1998), vários dirigentes do PT adoravam dizer que Luiz Inácio Lula da Silva não conseguia eleger-se porque havia preconceito contra um trabalhador de fábrica, sem diploma universitário nem grande educação formal.

Como é natural em sociedades capitalistas, a questão de classe pode ser omitida, disfarçada, distorcida, mas é sempre fundamental. Lula enfrentava – e enfrenta até hoje, apesar de tudo – um preconceito pesado em função de sua origem.

Era o eleitor que não estava preparado? Ou era o candidato?

A pergunta deixou de fazer sentido quando Lula deixou de se apresentar como predestinado – “trabalhador vota em trabalhador”, dizia na primeira campanha – e conseguiu oferecer uma proposta política abrangente, coerente com sua biografia e suas relações com os trabalhadores, capaz de falar aos interesses do conjunto da sociedade, em especial dos brasileiros mais humildes. Foi assim que se tornou um candidato imbatível, com três vitórias presidenciais consecutivas no currículo.

A pergunta de fundo é outra. Um eventual candidato Joaquim corre o risco de se tornar vítima do racismo à brasileira?

Minha resposta é depende. No mundo da cultura moderna, o preconceito é uma sobrevivência real, mesmo em declínio. Perde funcionalidade, embora ajude a manter hierarquias e privilégios.

Em função disso pode ser reconstruído, enfraquecido, fortalecido ou combatido ao sabor das circunstâncias e conveniências de cada momento, a partir de opções culturais, políticas e históricas aquele universo que se chama indústria cultural, onde os jornais, revistas e tevê ocupam um lugar central.

Até novelas podem servir para debater questões dessa natureza, nós sabemos. Atitudes preconceituosas podem ser estimuladas com maior ou menor sutileza, em determinado momento e tratadas de forma crítica, como estigma, em outro.

A lendária “falta de preparo” de Lula para governar o País foi uma observação permanente de seus adversários – e da maioria dos meios de comunicação – antes e depois da vitória de 2002. A tese cumpria a função política de criar uma rejeição acima de qualquer análise racional. Nem sei se todos observadores acreditavam naquilo que diziam e escreviam. Suas palavras expressavam a visão política de quem considerava que as ideias que Lula trazia na bagagem não eram convenientes a seus interesses.

A partir deste critério é preciso reconhecer, para além de todos os méritos e talentos individuais, que Joaquim Barbosa só tornou-se uma personalidade popular, a ponto de ser reconhecido em pesquisas eleitorais, porque foi endeusado pelos meios de comunicação durante o julgamento do “mensalão”. Não quero julgar cada uma de suas sentenças ou acusações. Mas fatos são fatos.

Chega a ser preocupante saber que Joaquim não está satisfeito com o tratamento que recebe dos meios de comunicação. Fica até difícil imaginar até onde vai seu palmômetro.

Em 40 anos de jornalismo, nunca vi aplauso igual desde que Joaquim aceitou a denúncia contra os réus do “mensalão”. Em 2012, durante o julgamento, foram quatro meses consecutivos de aplausos, elogios, imagens dramáticas e reportagens favoráveis. Revistas competiam para ver quem fazia a comparação mais favorável e produzia o editorial mais elogioso. Jornalistas tarimbados e jornais de prestígio renunciaram a qualquer espírito crítico para fazer uma cobertura unilateral e tendenciosa, contra os réus e contra os argumentos da defesa.

Ainda agora, quando os acórdãos trouxeram supressões e alterações que chamam a atenção de todo leitor mais atento, não vejo quem ouse discutir – com seriedade – os argumentos que questionam a consistência de várias decisões.

Em agosto, quando o julgamento deve ser retomado, os meios de comunicação irão cobrar de Joaquim aquilo que ele já deixou claro que pretende oferecer: penas duríssimas, condenações longas, prisões, muitas prisões, e mais prisões, e revisões magras – se houverem.

Não vejo divergências nem discordâncias. O jogo está definido.

Com ênfase e convicção, espera-se que Joaquim faça aquilo que lhe pedem e será bem tratado. O jogo é político. Interessa, a partir de agosto, reconstruir o ambiente de espetáculo do segundo semestre de 2012, preparando a sucessão presidencial, em 2014.

Com a clareza que mestres de sua estatura podem exibir, o professor Umberto Eco, que aprendi a ler na rebeldia de minha pós-adolescência, e tive a honra de contratar para ser colunista da Época quando era diretor de redação, acaba de publicar um artigo onde diz que “nos dias de hoje, um país pertence a quem controla os meios de comunicação”. (O título do artigo, curiosamente, é “Por uma guerrilha da semiótica”).

Se houver interesse numa candidatura presidencial de Joaquim Barbosa, decisão que envolve diversas considerações de ordem política, o presidente do STF será autorizado a mobilizar o eleitorado negro para tentar dar votos à oposição. Basta conversar com esses cidadãos para encontrar, em todos eles, uma admiração real pela posição que Joaquim Barbosa ocupa. A carta racial terá, neste caso, grande utilidade eleitoral, não tenham dúvida. Joaquim poderá falar a uma parcela imensa de brasileiros que recebe um tratamento discriminatório desde a abolição da escravatura.

Será um debate riquíssimo, quando se recorda que, em nome de sua herança, Dilma Rousseff terá inúmeras realizações a apresentar, inclusive um programa de cotas que possíveis aliados de Joaquim combateram de todas as formas, inclusive com recursos ao Supremo e intelectuais recrutados especialmente para o mesmo fim.

Inventora da falsa doutrina da “democracia racial”, a cúpula da sociedade brasileira saberá esconder o próprio racismo se isso for conveniente para seus interesses.

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4 Respostas to “Paulo Moreira Leite: Joaquim, Pedro 1º e o racismo”

  1. Marcos Pinto Basto Says:

    Quinzão! Não te falei!Não? Viajou na maionese e vai derrapar na margarina!

  2. Jacques Chaban Says:

    Quem mandou o capacho que se prestou a Capitão do Mato da Casa Grande, querer se sentar à mesa e ceiar do mesmo banquete que se servem os oligarcas. Ora, ele é negro e jamais teria assento nessa mesa, a não ser que fosse para ter um comportamento poodleano. Quem mandou pagar com dinheiro público um empregado da Globo para acompanhá-lo à um convescote internacional, e chegando lá falar que a mídia brasileira é de direita? Prepara-te JB. Já estão começando a te empurrar para a vala, pois você já cumpriu o seu dever com a Casa Grande. E a mesma não precisa mais de ti!!!

    Parafraseando Cartola:

    “De cada amor tu herdarás só o cinismo
    Quando notares estás a beira do abismo
    Abismo que cavaste aos teus pés”

  3. Marcos Pinto Basto Says:

    Como escrevi em vários sites,Joaquim Barbosa é um competente jurista com vasta cultura, viajado e falando duas línguas estrangeiras. Ao ser nomeado ministro do STF, tornou-se exemplo de modernização da administração pública nacional que acolhia assim um representante da raça negra, tão espezinhada durante séculos e ainda sofrendo escondidas segregações. Foi preocupação de Lula guindar Joaquim Barbosa ao cargo de ministro do STF!
    Então a direita empedernida que emperra o atual governo, promoveu grande e intenso trabalho de cooptação de Barbosa para suas hostes, com um jogo de intrigas que deveria ter sentido imediatamente, mas muito precipitadamente, entrou na armação do Roberto Gurgel e durante o julgamento do mensalão, ficou embriagado pelos elogios desmedidos da mídia e embarcou na maior canoa furada que o Gurgel lhe ofereceu para atravessar um revolto por ondas de ódio ao PT, a Lula e a todos os réus do julgamento.que prosseguiu sem provas materiais e testemunhais das acusações feitas aos réus. Usaram então uma teoria de pressuposição de crimes cometidos que envolvia o roubo de dinheiro público, furto ou desvio de verbas do tesouro nacional nunca identificadas e descriminadas. UMA MINISTRA DECLAROU QUE NÃO TINHA PROVAS, MAS SUA CONDIÇÃO LHE PERMITIA CONDENAR OS RÉUS!
    Sua declaração tirou toda a seriedade do julgamento. Nenhum dos réus é santo, mas na situação política do momento, foram condenados a duras penas que não tinham razões plenamente claras para serem aplicadas. Foi um julgamento movido por ódios partidários!

  4. anisioluiz2008 Says:

    Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

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