Médico que diz que estrangeiros são enganação tem dois filhos “importados” de Cuba

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Paulo de Argollo Mendes está no poder há 15 anos. Recentemente foi reeleito para mais um mandato como presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, o triênio 2013-2015.

Conceição Lemes, via Viomundo

Quem passa pelo Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) nem precisa perguntar qual a posição da entidade sobre a “importação” de médicos estrangeiros. O banner cobrindo praticamente toda a frente do edifício-sede sede, em Porto Alegre, fala por si só.

Com 15 mil associados – apenas estão fora da base Santa Maria, Rio Grande, Novo Hamburgo e Caxias –, seu presidente é o médico Paulo de Argollo Mendes. Há 15 anos no poder, ele foi reeleito para mais um mandato, o triênio 2013-2015.

Acordo ‘demagógico’ e ‘ideológico’”, classificou Argollo em 7 de maio, dia seguinte à revelação do ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, de que o governo brasileiro negociava um pacto para trazer 6 mil médicos cubanos.

Medico_SindicatoRS01Em entrevista ao Viomundo, Argollo reforça: “Nós somos frontalmente contrários à vinda médicos estrangeiros, é enganação, pura demagogia. Se um médico estrangeiro cometer eventual barbaridade, quem vai pagar? É uma insegurança absoluta para o próprio paciente.”

Ele acrescenta: “O governo quer trazer médicos pela porta dos fundos, dispensando o Revalida [Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos]. Eu fico achando que eles são incompetentes, pois se não fossem, o governo não evitava o Revalida. São médicos de segunda classe para tratar pacientes de segunda, porque é assim que o governo enxerga os pacientes do SUS.”

Felizmente, em tempos de internet, as máscaras caem muito rápido.

O presidente do Simers tem dois filhos médicos: Paulo Clemente de Argollo Mendes e Marco Antônio de Argollo Mendes. De 1997 a 2004, cursaram medicina no Instituto Superior de Ciências Médicas de Camagüey, em Cuba. Naquela época, papai Argollo derretia-se em elogios a Cuba e à medicina cubana.

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Documentos como o acima, obtidos pela Renovação Médica, possibilitaram a inscrição no Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers), de dezenas de médicos cubanos, sem prova de revalidação.

Em 2005, os filhos de Argollo formados em Cuba, em ações separadas, entraram na Justiça contra a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, porque a UFRGS se recusou a validar automaticamente o diploma de médico de ambos.

Pleitos: registro automático do diploma independentemente do processo de revalidação e indenização de R$20 mil a título de danos morais sofridos. Na época, não existia ainda o Revalida. Cada universidade federal fazia a sua própria validação.

“Não é contrassenso o senhor execrar a ‘importação’ de médicos, já que seus filhos estudaram em Cuba, entraram na Justiça para não fazer a revalidação do diploma no Brasil e ainda cobraram da Universidade Federal do Rio Grande do Sul R$20 mil por danos morais?”, esta repórter questionou-lhe.

“Não”, diz candidamente Argollo. “Primeiro, porque eles validaram o diploma se eu não me engano em Fortaleza. Foi a primeira universidade federal que abriu inscrição. Segundo, quando foram para Cuba, havia um acordo bilateral entre Brasil e Cuba para revalidação automática de diplomas. Enquanto eles estavam lá, o governo Fernando Henrique revogou esse convênio. Então, eles tinham o direito adquirido.”

Realmente, Brasil e Cuba eram signatários de um acordo, cujos estados-parte assumiram o compromisso de registro automático dos diplomas emitidos pelas instituições de ensino superior. No Brasil, a decisão foi promulgada pelo Decreto Presidencial nº 80.419, de 27 de setembro de 1977.

Porém, em 15 de janeiro de 1998, o Brasil comunicou à Unesco o término do pacto, que foi extinto exatamente um ano depois. Em 30 de março de 1999, o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) revogou o Decreto nº 80.419/77.

Reiteradas decisões da Justiça Federal (aqui, aqui e aqui) negaram os pleitos dos irmãos Argollo; a um deles o juiz determinou ainda o pagamento das custas e honorários advocatícios da outra parte. Alguns trechos delas:

A colação de grau do autor ocorreu em 2004 (fl. 31), ou seja, em momento posterior à revogação do Decreto Presidencial nº 80.419/77, de modo que inexiste direito adquirido ao registro do diploma independentemente de processo de revalidação.

[…]

[…] como, no caso, o demandante não possuía, ao tempo da edição do Decreto nº 3.007/99, o diploma expedido pela universidade estrangeira, não há como pretender valer-se das disposições da convenção internacional para eximir-se do cumprimento dos requisitos exigidos pela legislação pátria.

[…]

Resolução nº 1, de 28 de Janeiro de 2002, a realização de avaliação é necessária para verificar o real preparo do estrangeiro. Nesse sentido, deve o autor prestar a referida avaliação para obter a revalidação de seu diploma.

Conclusão: os filhos de Argollo são médicos “ importados” de Cuba e tentaram entrar pela porta dos fundos, já que não queriam validar o diploma no Brasil.

Será que, em função disso, a priori, os filhos mereceriam ser tachados de incompetentes e médicos de segunda classe, como o pai-sindicalista tenta carimbar hoje os “estrangeiros”?

Argollo, relembramos, acusou ainda o anunciado acordo Brasil-Cuba de ser “ideológico”.

Então, será que quando os filhos estudaram no Instituto Superior de Ciências Médicas de Camagüey, ele não sabia que o regime político de Cuba é o comunismo? Ou será que foi enganado pela propaganda vermelha?

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7 Respostas to “Médico que diz que estrangeiros são enganação tem dois filhos “importados” de Cuba”

  1. Ifr Says:

    É sempre bom lembrar que a vacina contra hepatite B foi feita e entregue ao mundo por Cuba. Qual vacina fez o Brasil?

  2. Mary Says:

    Marcos Pinto Bastos, foi muito bem colocado a realidade que nós vivemos, apesar de não morar no interior, sempre volto a minha terra natal e tenho amigos que vivem em várias partes do interior. O DESCASO é total, vão para o interior e logo viram fazendeiros. Espero que com a vinda de médicos do exterior o atendimento seja melhorado e o paciente visto como ser humano. Usam e abusam de seus contratos no SUS. Na torcida e sempre me colocando informanda se a mudança ocorrerá. Médicos de SUS enchem as burras das prefeituras que tem péssimos gestores (a maioria).

  3. Mary Says:

    Melo, os médicos no geral não estão desempenhando seu papel como juraram fazer. Meu pai foi “ASSASSINADO” em um Hopsital tido como referência. Entrou com o laudo de disnutrição e pegou infecção hospitalar, padeceu por mais de 48 dias, sendo que o deixaram em uma UTI (após sua morte foi fechado pela vigilância sanitária, onde tinha barata e formigas) e tiraram férias por 18 dias. Procurei um ongologista de cabeça/pescoço em maio e só havia vaga para 7 de julho. (Já tive CA por 2 vezes)..E vem dizer que não precisamos de médicos??? Há em Goias cidades com Hospitais equipados sim, e o que falta?? MÉDICOS de verdade. E sei que fará diferença sim, o SUS terá médicos comprometidos com a saúde e a população estará atenta. Não quero falar por outras pessoas, mas pode ter certeza que estarei aqui toda semana cobrando, elogiando, fazendo críticas, dando sugestões, vivo no meio do povo que necessita de bons profissionais.

  4. Marcos Pinto Basto Says:

    Melo, como você muito generosamente me colocou no meio a população menos esclarecida, recomendo-lhe que leia melhor o que escrevi pois baseia-se no que se passa no SUS, lugar onde a população menos esclarecida e mais pobre, é forçada a recorrer. Ainda há médicos no Brasil, mas é muito mais comum tropeçar com doutores preocupados com status social que nunca dissecaram um cadáver, nem conhecem programas de anatomia digital e não passam no exame de avaliação profissional. Dos políticos profissionais responsáveis por grandes dificuldades da saúde pública, só os médicos possuem a força de os corrigir, os doutores alinham com eles nas administrações fraudulentas.

  5. Melo Says:

    Marcos Pinto Basto, o mau atendimento de alguns profissionais que você citou claramente existe, mas generalizar e colocar isso como “melhor retrato” significa que você realmente acha essa a causa de tudo. O melhor retrato da medicina pública é, na verdade, a falta de hospitais decentes, medicamentos, política de saúde correta, médicos com plano de carreira ( concursos, férias, 13º salário, aposentadoria ), e melhor distribuição dos profissionais. Colocar a culpa nos profissionais e importar médicos dá mais impacto eleitoral, sai mais barato e é mais rápido que corrigir as omissóes do governo, lógico. Fica mais fácil desviar o foco e impressionar a população menos esclarecida dentro da qual você está incluído. Condeno qualquer um que queira entrar aqui sem o Revalida. Aquele que for aprovado, brasileiro ou não, será bem-vindo.

  6. Ricardo Says:

    Sim , deveriam ser tachados de incompetentes

  7. Marcos Pinto Basto Says:

    Esse Argollo Mendes é mais um a contestar medida governamental para melhorar o atendimento médico em regiões de difícil acesso ou mais distantes das maiores cidades, mas visa também melhorar o atendimento do SUS em todo o País.
    O melhor retrato da medicina pública do Brasil é o SUS com a grande maioria de seus médicos atendendo mal quem ali procura tratamento para seus males. Atendem mal e colaboram com todas as manobras das administrações municipais que visam espaçar o atendimento entre duas consultas do mesmo paciente de modo a conter a demanda sem ter que contratar mais médicos. Por isso que as filas aumentam ao invés de diminuírem e provocam a morte de muitos doentes em estado grave que deveriam ter atendimento prioritário. O SUS não faz medicina preventiva e a corretiva é muito ruim por culpa exclusiva dos médicos. A população pode dar sua opinião!.

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