Breno Altman: Conservadorismo de branco é atraso

Medicos20_PaulistaVia Brasil 247

As manifestações de médicos, na terça-feira, dia 16, revelam um núcleo duro e mobilizado das elites brasileiras. Sua influência nos meios de comunicação, na sociedade e nas instituições já ameaça o programa de saúde recentemente lançado pelo governo. A julgar pelas emendas apresentadas na Câmara dos Deputados, a desfiguração desse projeto será inevitável.

O Palácio do Planalto pode estar pagando um preço por ter agido de forma atabalhoada, sem consultar e articular as correntes mais progressistas da medicina, o que seria obrigatório para batalha dessa envergadura. Mas a reação não é contra eventuais falhas de interlocução: sua natureza reside em defender privilégios corporativos, contrapostos aos interesses do país e aos direitos da cidadania.

As três principais bandeiras nas marchas dos jalecos brancos são elucidativas. São contra a extensão da residência em dois anos, com obrigatoriedade de servir o Sistema Único de Saúde. Não concordam com a vinda de doutores estrangeiros para cobrir déficit de profissionais, especialmente nos rincões do País. Reivindicam a derrubada do veto presidencial sobre o chamado Ato Médico, que fixava supremacia da categoria em relação a outros trabalhadores do universo sanitário.

São reivindicações de quem olha para o próprio umbigo. Insuflada pelos extratos mais ricos e articulados com o conservadorismo, a mobilização médica não entra na briga para a melhoria da saúde pública. Seus maiores aliados são os que comandaram campanha para eliminar a CPMF e retiraram cerca de R$40 bilhões anuais para o financiamento do setor.

Não passa de deslavada hipocrisia quando se afirma que o problema não é a falta de médicos, mas a carência de estrutura nos hospitais e centros de atendimento. As dificuldades são inegáveis, isso é fato. No contexto deste embate, porém, não passam de álibi para que o andar de cima possa fazer sua vida sem reciprocidade com os milhões de brasileiros que suaram a camisa e pagaram impostos para garantir a existência de boas faculdades públicas de medicina.

O Brasil tem um número pífio de médicos, na proporção de 1,8 para cada mil habitantes. Na Inglaterra, esse índice é de 2,7. Em Cuba, de 6. Nos últimos dez anos, surgiram 147 mil novas vagas no mercado de trabalho, mas apenas 93 mil profissionais foram formados. Há 1.900 municípios com menos de um médico por 3 mil habitantes. Em outras 700 cidades, não há doutores com residência fixa. Nem é preciso dizer que esses 2.600 municípios sem assistência adequada estão entre os mais pobres e distantes dos grandes centros.

O governo criou o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), para levar médicos ao interior e aos subúrbios. A demanda era de 13 mil trabalhadores, mas apenas 3.800 postos foram preenchidos, apesar do salário de R$8 mil que é oferecido, agora aumentado para R$10 mil no Programa Mais Médicos. Até mesmo bairro periféricos de cidades importantes, como Porto Alegre e São Paulo, não conseguem atrair interessados.

Parte expressiva da categoria, diplomada em instituições do Estado, não está nem aí para a hora do Brasil. Não quer sair de sua zona de conforto e se acha no direito de pensar apenas em carreira pessoal e montar um rentável consultório privado em alguma metrópole.

Entidades da área, especialmente o Conselho Federal de Medicina, fazem de tudo para impedir a ampliação do número de faculdades (em nome da qualidade de ensino, é claro) e a contratação de médicos estrangeiros ou formados no exterior. A reserva de mercado, para essa gente, está acima da saúde pública.

E essa gente é muito diferenciada. Enquanto 40% do total de alunos da Universidade de São Paulo frequentou colégios públicos, na Faculdade de Medicina essa origem restringe-se a 2% dos matriculados. Na turma de 2013, nenhum deles era negro. Médicos ricos querem ficar mais ricos atendendo os ricos. Como os pobres têm bem menos chances de ganhar o canudo, esses que se lasquem.

O governo tentou resolver o problema apenas por métodos de atração. Não encontrou auditório. Resolveu, então, adotar um modelo semelhante àquele adotado, há décadas, por países tão distintos quanto Israel e Cuba, instituindo uma variante de serviço civil obrigatório, ainda que bem remunerado.

A formação de um médico, na universidade pública, custa ao redor de R$800 mil para o tesouro da União e dos estados. Nada mais justo que haja alguma forma de retribuição pelo aporte realizado por toda a sociedade para cada indivíduo que virou doutor. Dois anos de reembolso, com um razoável contracheque, é uma bagatela. Vale lembrar que o dever do Estado é com o povo, não com os médicos.

Talvez os estudantes das faculdades privadas pudessem estar isentos dessa medida, mas todo o cuidado é pouco para evitar que os endinheirados aproveitem brechas para escapar de sua obrigação social, trocando de curso. Uma ou outra correção cabe ser feita, mas o ministro da Saúde e a presidente Dilma Rousseff estão cumprindo sua tarefa constitucional.

O que falta, além de mobilizar os setores da saúde favoráveis às providências adotadas, é travar uma batalha de valores mais firme sobre o programa em discussão. Por enquanto, parece que a preocupação principal é acalmar a ira de médicos ensandecidos pelo egoísmo de classe. O objetivo principal deveria ser debater os deveres de solidariedade dos que recebem privilégios e os direitos de todos a receber assistência médica de qualidade.

Não se pode dar moleza a porta-vozes da ignorância e má-fé. Quando personagens como Cláudio Lottenberg e Miguel Srougi se voltam contra a vinda de médicos cubanos, há pouco o que acrescentar. Mentem descaradamente sobre a qualidade desses especialistas, cuja proficiência é atestada pela Organização Mundial da Saúde e pelas 65 nações nas quais trabalham para suprir deficiências locais.

Afinal, seria um horror para o reacionarismo de branco assistir médicos da ilha de Fidel, muitos entre eles negros, pegando no batente em locais para os quais seus colegas brasileiros viram as costas e tapam o nariz. A nudez de seu comportamento lhes seria insuportável.

Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel.

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3 Respostas to “Breno Altman: Conservadorismo de branco é atraso”

  1. arivald santos ribeiro Says:

    A QUESTÃO NÃO É APENAS DE INSUFICIÊNCIA NUMÉRICA DE PROFISSIONAIS DE MEDICINA, MAS TAMBÉM, E PRINCIPALMENTE, QUANTO A SUA DISTRIBUIÇÃO POR REGIÃO DO PAÍS E QUANTO AS ÁREAS DE ATUAÇÃO.
    NO TOCANTE À DISTRIBUIÇÃO REGIONAL, OBSERVAMOS UMA CONCENTRAÇÃO NAS REGIÕES SUL E SUDESTE EM DETRIMENTO DAS DEMAIS REGIÕES. A ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE, ONDE SE RESOLVE CERCA DE 80% DOS PROBLEMAS DE SAÚDE E FUNCIONA COMO ORGANIZADOR DE TODO O SISTEMA DE SAÚDE HIERARQUIZANDO O ACESSO AOS DEMAIS NÍVEIS DE COMPLEXIDADE, ESTÁ AMPLAMENTE PREJUDICADO DESTE PROFISSIONAL SEJA PELA DEFICIÊNCIA DE PROFISSIONAIS COM UMA FORMAÇÃO GENERALISTA QUE O CASO REQUER, SEJA PELA QUANTIDADE INSUFICIENTE DESTES PROFISSIONAIS QUE OPTAM POR SE DEDICAR NESTA IMPORTANTE ÁREA DE ATUAÇÃO DA SAÚDE PÚBLICA BRASILEIRA.

  2. SUSCETÍVEL FEBRIL Says:

    […] Breno Altman: Conservadorismo de branco é atraso […]

  3. Jésus Araújo Says:

    A conclusão do texto exprime a realidade. E não haveria outro fator, a comparação que, inevitavelmente, se fará entre a competência dos médicos nativos e dos de fora? Não esquecer que, no último exame dos médicos recém-formados, 54% foram reprovados (mas poderão exercer a medicina; quem é reprovado na prova da OAB não pode exercer funções jurídicas, o que mostra que a defesa do patrimônio é mais importante que a defesa da vida). Medicina é a arte de curar, não a capacidade de interpretar exames. E, contra-argumentando, os casos mais difíceis seriam enviados para centros com maiores recursos; as prefeituras do interior possuem estrutura para isso. Mas será pouca coisa
    Aos países que obrigam à prestação de serviço (e até por uma remuneração menor que a oferecida pelo programa do governo brasileiro, uma ajuda de custo) deve-se acrescentar a Inglaterra. Antigamente, era assim (Cronin. Pela Vida de um Médico) e como o país, apesar da catástrofe Tatcher, continua mantendo uma das melhores medicinas do mundo, suponho que continua. Tanto assim que aquele assaltante de banco que se homiziou no Brasil, preferiu, quando descobriu que estava canceroso, a prisão inglesa à liberdade no Brasil.

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