A medicina e o Brasil real

Medicos_Manifestacao04

A sociedade de classes se manifesta no serviço médico: para os muito pobres, nenhum médico; para os muito ricos, hospitais de ponta.

Roberto Amaral em seu blog

A furiosa campanha corporativista dos médicos contra a vinda de colegas estrangeiros procura alarmar o País. No entanto, a atração de profissionais do exterior é prática antiga a que muito devem os Estados Unidos, a Rússia e muitos outros países. Não podemos ceder a essa manifestação de egoísmo classista, sob pena de ofender os direitos básicos da grande maioria de nosso povo, principalmente quando se sabe que um dos gargalos do nosso desenvolvimento é a carência de mão de obra qualificada.

Pesquisa do Ipea, realizada com 2.273 pacientes do SUS, mostrou que a falta de médicos é o principal problema de 58% dos brasileiros dependentes da rede pública. Temos algo como 300 mil médicos no exercício da profissão e 700 municípios (15% do total) sem um único profissional de saúde. Em outros 1,9 mil municípios, “3 mil candidatos a paciente disputam a atenção de menos de um médico por 30 segundos por pessoa”! (IstoÉ, 10/7/2013).

O Brasil possui a vergonhosa média de 1,8 médicos por mil habitantes. Nossa vizinha e sofrida Argentina, 3,2; Portugal e Espanha, em crise, 4. Não citarei cifras de Cuba. Mesmo essa média é enganosa, pois, se o Rio de Janeiro possui 3,4 médicos por mil; São Paulo, 2,49; e Minas Gerais, 1,81. O Acre tem 0,94 médico por mil; o Amapá, 0,76; o Pará, 0,77; o Piauí, 0,92; o Maranhão, 0,58 (!); Amazonas, Bahia, Ceará e Tocantins têm 1 médico por mil habitantes (IBGE, 2012, CFM), o que evidencia a má distribuição dos médicos pelo nosso território. A propósito, das 130 mil vagas oferecidas a médicos pelo serviço público nos últimos dez anos, apenas 90 mil foram preenchidas.

Mas o doutor Kalil, o médico da Corte e dos afortunados, é “terminantemente contra” a vinda de médicos estrangeiros porque, para haver medicina, é preciso haver “hospital bem estruturado” (Folha de S.Paulo, 10/7/2013). Mas o que é, na realidade brasileira, “um hospital bem estruturado”? Não explica e ficamos sem saber.

O cerne da crise da assistência médica, no Brasil, não está, lamentavelmente, apenas, no minguado número de médicos e em sua precária distribuição. Está, antes, na própria qualidade da formação médica, a começar pela ausência das cadeiras de ética e deontologia na grande maioria dos cursos. O formando de hoje é “treinado” para transformar a residência em especialização da subespecialização ditada pelo mercado, e ter seu consultório particular, se possível fechado aos que ainda podem pagar planos de saúde. SUS, ora isso é nome feio.

Na verdade, a sociedade de classes se manifesta em sua dramática injustiça no serviço médico de um modo geral: para os muito pobres, médico nenhum; para os pobres, os médicos formados em cursos privados, muitos deles “cursos de fim de semana”. Para a classe média os médicos com residência e especialização, os que aceitam os planos de saúde. Para a alta classe média e a pequena burguesia, os médicos formados nas escolas públicas, quase sempre com bolsa de iniciação científica pública, com residência (com bolsa de estudos fornecida por entidade pública) em bons hospitais (embora os hospitais-escola estejam em crise e os, demais, como as Santa Casas e quejandas sejam péssimos), e mestrado, especialização e doutorado (com bolsa de estudos do CNPq, da Fapesp ou da Faperj ou de alguma outra agência estadual) no exterior, de preferência. Para os ricos ou membros da “nova classe”, os Sírio Libanês, os Einstein ou… Boston.

O leitor se deu conta de que entre os hospitais brasileiros de excelência não se mencionam mais os públicos? Talvez a única exceção sejam o Incor em São Paulo (hoje uma fundação) e o Inca no Rio, ambos sempre a braçados com crises financeiras.)

O formando em medicina, principalmente em universidade pública, nas quais, em regra, os cursos são bons, é preparado psicológica e eticamente para trabalhar num Sírio Libanês, tendo a seu lado equipamento de última geração e alimentando a expectativa de fama profissional. Eles vivem nos seriados tipo doutor Kildare ou House. Não é só Brasília que ignora o Brasil real. Do alto de seu prestígio, o cardiologista oficial da Corte, com a bata de doutor do Sírio, nos diz que o mais importante não é médico, mas equipamentos. Mas de que servem equipamentos sem médicos? E diga-nos esse doutor, qual país do mundo, incluindo os EUA e as maravilhas sociais dos países escandinavos, pode oferecer condições ideais de trabalho para seus médicos e atendimento médico universal gratuito fundado na parafernália eletrônica? E quando poderá este País de 200 milhões de habitantes e mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados assegurar hospital para todos os brasileiros e para todos os brasileiros a ciência médica praticada no Sírio? Condições de trabalho, queremos todos, não só os médicos, querem os motoristas de ônibus, os advogados que enfrentam uma Justiça que não funciona, os enfermeiros que sofrem nas mãos de médicos, os engenheiros, os agrônomos, os operários de chão de fábrica, os professores, sem salários, sem laboratórios, sem transporte, toda gente. Melhoria do transporte coletivo é também melhoria das condições de trabalho. Isto não é pleito de uma classe, mas exigência de uma sociedade em busca de progresso que depende de seu enriquecimento e simultânea distribuição de renda.

Pergunto ao doutor Kalil: quem foi esse senhor dos fatos que decidiu que só uns poucos, essa minoria da minoria privilegiada, tenham direito à sua clínica cardiológica, e os outros não tenham direito a clínica nenhuma, porque seus médicos esperam hospitais “adequadamente aparelhados” etc. etc.? No sertão, um estetoscópio e um aparelho de tomada de pressão arterial já salvam vidas.

Afinal, o doutor Kalil, bom médico que é, deve ter cedo aprendido que medicina é diagnóstico, e que, mesmo sem dispor do precioso auxílio de equipamentos (não que os dispensemos) e de exames (que não que os dispensemos), o bom médico é capaz de, ao menos, dar conforto aos seus pacientes e, sempre que possível, levá-los à cura. A alternativa ao médico nenhum é o curandeirismo, a indicação do balconista da farmácia, a indicação do vizinho…

O Brasil real não é aquele oferecido pelos hospitais Sírio Libanês ou Einstein, que não são, sequer, a realidade da capital paulista. O Brasil real é o Brasil da periferia de Rio, de São Paulo e de todas as capitais, para não falar do Norte de Minas Gerais, do semiárido nordestino, do vazio do Centro-Oeste, da Amazônia inóspita. O Brasil real não pede especialistas em subespecialidades, nem carece de “máquinas de última geração” para fazer partos, tratar disenteria, consertar uma perna quebrada, aliviar um mal-estar, diagnosticar uma tuberculose, uma cardiopatia, uma “barriga d’água”… Precisa, sim, de clínicos, milhares de clínicos e generalistas, que tenham tempo de conhecer seus pacientes. Pergunta-nos para em seguida responder o doutor Adib Jatene: “O que queremos de um médico? Que ele saiba diagnosticar o que você está sentindo. Que ele saiba analisar a sua dor, a febre, sem precisar de tecnologia” (O Estado de S.Paulo, 9/7/2013). O resto é o resto: corporativismo de quinta categoria.

Diz ainda o doutor Jatene, a quem devoto respeito, que, onde tem hospital tem médico. Invertendo o juízo ficamos sabendo: onde não há hospital, não há médico. Donde a solução ser construir hospitais e tê-los, e mantê-los de alta qualidade em todos os municípios do Brasil. Evidentemente, se possível privados, e se possível de padrão próximo ao do Sírio Libanês. Quando isso será possível? Digamos, otimisticamente, que daqui a 50 anos. E até lá? Admitamos, só para raciocinar com os doutores, que já tivéssemos hoje esses hospitais. Onde iríamos buscar os médicos? Hoje, formamos 18 mil médicos ao ano, o que não atende nem à demanda, nem à qualidade, nem assegura distribuição para o interior.

Saberá o doutor Kalil que o Brasil possui 5.570 (número que vai aumentar brevemente) municípios, alguns com população maior que a de vários países do mundo (São Paulo capital tem 12 milhões de habitantes), e alguns, como Altamira, no Pará tem território quase duas vezes maior que o de Portugal? Saberá que Roraima tem 15 municípios e Minas Gerais 853? Saberá de que Brasil está falando? Que fazer?

O doutor Jatene responde. Investir, no curto prazo, na “importação” de jovens médicos estrangeiros, submetidos a reavaliação, e na formação complementar de dois anos, porque hoje formamos apenas médicos candidatos à residência médica – que formam especialistas – e esses médicos não vão atender às nossas necessidades, pois precisamos de médicos para atender à população sem necessariamente ter de usar a tecnologia. Essa formação complementar seria focada em urgência e emergência. É preciso investir na formação para que esse profissional vá trabalhar dois anos no atendimento básico da população do Estado em que se formou. Temos faculdades de Medicina em todos os Estados. Todos. Só que os médicos se formam e não ficam em suas cidades, eles vêm fazer residência no Sul e no Sudeste (O Estado de S.Paulo, 9/7/2013). E no Sudeste ficam.

A medida, vou mais adiante, deveria valer para todos os profissionais formados em escolas públicas ou, se em escolas privadas, com bolsa de estudo público. O concludente ou saldaria o custo do investimento público ou permaneceria dois anos à disposição do Estado, que indicaria, atendendo evidentemente à sua formação acadêmica, onde iria trabalhar. Depois disso, vá ser rico onde quiser.

***

Leia também:

Máfia de branco: Agora eles querem sabotar o Programa Mais Médicos

Médicos da Venezuela e de Cuba estão entre os primeiros no Revalida

Os ingleses querem médicos de fora. Nós, não…

Paulo Moreira Leite: O extremismo dos doutores

Jânio de Freitas: De galinhas e medicina

Folha mente: Brasil continua as negociações com Cuba para contratação de médicos

Governo federal lança o Programa Mais Médicos

Cremesp paga táxi e hora extra para funcionários irem a ato de médicos na Paulista

Ipea: Medicina é carreira com maior remuneração

Guia para entender a vinda de médicos estrangeiros

Eliane Brum: Ser doutor é mais fácil do que se tornar médico

Breno Altman: Conservadorismo de branco é atraso

Paulo Moreira Leite: Os médicos e os números por trás do preconceito

***

Tags: ,

2 Respostas to “A medicina e o Brasil real”

  1. Jésus Araújo Says:

    Muito boa a análise de Roberto Amaral. Médico é para diagnosticar (para isto, interrogar, examinar, fazer anamnese ; os médicos de hoje abreviam as entrevistas e têm horror de tocar os corpos dos pacientes, mandam-nos logo para os exames, para as as chapas). E os problemas do interior, em geral, não são graves (no meu tempo de interior, eu, que sou leigo, distribuía – quando a política não me impedia consegui-los – sulfato ferroso e adipato de piperazina, e as pessoas estavam bem); os casos mais graves seriam encaminhados a centros maiores dotados de mais recursos, numa hierarquia do atendimento médico (os municípios têm estrutura para isso). Isto foi tentado e abandonado há muitos anos: posto de saúde nos municípios, hospitais regionais nas cidades-polo e alguns centros de excelência para recolher o mais difícil. O hospital regional de Caratinga ficou nas estruturas, demolidas, suponho, com a expansão da cidade. Outra coisa: há recursos fáceis para investir na saúde em um país que paga aos banqueiros e rendeiros em geral 45% do orçamento? Que remete lucros crescentes das empresas estrangeiras (Ah! A lei da remessa de lucros, a gota dágua que derrubou Jango, a coleira que nenhum governante louco tem coragem de pôr no pescoço do gato)? E o fim da CPMF de R40 bi, dos quais ao menos a metade ia para a saúde (quantos dos que reclamam apoiaram, por motivos partidários, sua extinção)? E tanta desoneração de tributos para empresas estrangeiras riquíssimas, como para a Ford na Bahia, depois que Olívio Dutra tentou defender os interesses da população gaúcha e pagou caro por isso)? Etc.? Etc;?

  2. Ari Miguel Says:

    Os médicos dizem que o governo não investe em saúde, mas a realidade não é esta. Sabemos que a saúde publica não é a ideal, muito já foi feito se compararmos o que havia até os anos 90 mas, ainda há muito por fazer para que os cidadãos possa ter uma saúde de excelência e que suas necessidades sejam atendidas. Com relação as reclamações dos médicos, eles próprios são beneficiários de bolsa medicina, são beneficiários de ajuda financeira para concluírem um curso de medicina, e que a grande maioria, em torno de 90% destes beneficiários da bolsa medicina (veja a ironia) são formados de classes média alta, e os das classes mais baixas, tem que pagar por que as universidades federais estão cheias de ricos usufruindo de verbas governamentais. Vejam o exemplo dos investimentos do governo para formar um médico numa universidade federal em comparação com uma universidade privada.
    Valor da mensalidade de uma universidade privada: R$ 5.250,00 X 12 = R$ 63.000,00 (ano)
    R$ 63.000,00 X 8 (anos) = R$ 504.000,00 (valor que o governo gasta para formar um médico.
    Eles ainda acham que o governo não investe em saúde?
    Qual é o retorno que esses médicos que recebem bolsa medicina dá para a sociedade?

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: