O canibalismo comunista da Veja

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A pintura do século 18 mostra a construção de Jamestown, a primeira cidade “canibal-comunista”, local que deu origem à expressão “comunista come criancinha”.

Juremir Machado, via Correio do Povo

Praticamente nenhuma pessoa séria leva a revista Veja a sério. Sabe-se que é uma publicação humorística. Faz um humor meio sem graça, apelativo, rasteiro, como é o humor dominante na mídia brasileira atual. Mas há um traço de original nesse humor: ele é ideológico. Na semana semana, porém, Veja caprichou no ridículo. O texto “Os ossos do socialismo” é uma obra-prima de charlatanismo, de reacionarismo delirante e de besteirol histórico. Segundo o repórter, que assina a matéria, há uma relação direta entre canibalismo e comunismo. Em 1609, os primeiros colonos ingleses instalados em Jamestown, na América do Norte, loucos de fome, comeram seus semelhantes.

Arqueólogos descobriram os ossos de Jane, vítima do canibalismo de seus parceiros de aventura no Novo Mundo. A revista Veja não tem a menor dúvida: “Jane foi devorada por seus pares como consequência do fracasso do modelo de produção coletiva implantado nos primeiros anos da colonização dos Estados Unidos. A propriedade era comunitária e o fruto do trabalho era dividido igualmente entre todos. Era, portanto, uma experiência que antecipava os princípios básicos do comunismo. Deu no que deu”. Uau! A cadeia estabelecida é imperativa: o coletivismo levou à preguiça, que levou à improdutividade, que levou à fome, que levou ao canibalismo. A saída viria com a propriedade privada. É reportagem para Prêmio Esso de estupidez.

O autor tem a segurança dos tolos encantados com o lugar que ocupam na escala social: “Se não fosse o sistema fracassado, a situação dificilmente teria chegado a esse ponto”. Todos os demais aspectos de adaptação e de conjuntura são desconsiderados. O reducionismo ideológico surge como uma iluminação. A solução chega com um novo administrador, que impõe à propriedade privada: “A decisão despertou os traços hoje bem conhecidos do capitalismo norte-americano: o empreendedorismo e a aptidão para a competição”. Disso teria decorrido que, em 1775, os norte-americanos “já eram mais altos que os ingleses”. Tem gente batendo os dentes nos consultórios de dentista, onde Veja é campeã de leitura, de tanto rir. É um riso nervoso.

Nem os primatas do Pânico fariam melhor.

Para a pragmática revista Veja, no coletivismo, entre trabalhar e comer seus semelhantes, as pessoas escolhem a segunda opção. Um colono comeu a esposa grávida. Veja, enfim, descobriu a origem da expressão “comunista comedor de criancinha”. Na verdade, encontrou algo mais grave, o comunista comedor de feto. Sem contar que Duda Teixeira chegou ao elo perdido, a origem sempre procurada do capitalismo, o estalo: “Foi essa mudança, nascida do trauma de um inverno em que colonos caíram na selvageria que permitiu aos Estados Unidos se tornar o maior gerador de riqueza do planeta e o berço do capitalismo moderno”. O capitalismo nada mais é que uma reação ao canibalismo comunista. Agora é científico.

Não fosse grosseiro, eu diria: é a coisa mais idiota que li.

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2 Respostas to “O canibalismo comunista da Veja”

  1. Benevenuto Nadal Says:

    Eu acho que deveria existir um “premio” para os textos mais idiotas… Então vejamos; o mundo dispões de assunto para escrever “zilhões” de textos, uns menos outros mais inteligentes, até aí tudo normal. No entanto como pode uma revista como essa, acumular tantos jornalistas/colunistas de “baixíssimo calibre”, a ponto de escrever assuntos “tão idiotas”, coisas que idiotas (no sentido literal), teriam muito trabalho para escrever, tamanha é a idiotice dos textos… No entanto de todas essas idiotices, eu tiro uma conclusão; “com a derrocada dessa porcaria, que ainda sobrevive a custas de alguns políticos inescrupulosos, na seqüência acontecerá um “CANIBALISMO”, descomunal de seu patrimônio, pelos próprios herdeiros e “pseudo colaboradores”, na verdade mercenários… É esperar para ver…

  2. Marcos Pinto Basto Says:

    Não sei quem foi o autor dessa conclusão sobre a nascença do canibalismo, mas posso garantir que se trata de um terráqueo que foi parido numa cocheira de tropa de burros que carregavam café e acabou levando um coice na cabeça que lhe quebrou o alvéolo dum chifre. Cresceu mocho marrando de lado e jamais descobrirá porque a porta de saída do labirinto onde o jogaram.

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