Leandro Fortes: Em Goiás, os arapongas se bicam

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A pedido de Cachoeira, Disanto (esq.) faz a contra-arapongagem na arapongagem do governo Perillo. Tutti buona gente.

Em Goiás, a espionagem cruzada entre a turma de Marconi Perillo e o grupo de Carlos Cachoeira.

Leandro Fortes, via CartaCapital e lido no Diário do Goiás

A central de grampos montada para beneficiar o governador de Goiás, Marconi Perillo, revelado há um mês por CartaCapital, não é a única ação clandestina em funcionamento no estado. A arapongagem tornou-se tão comum em terras goianas que ninguém mais sabe quem está a serviço de quem. Trata-se de prova inequívoca da existência de um novo modelo de delinquência, o crime desorganizado. As evidências constam de uma nova troca de mensagens descobertas na esteira das investigações do escândalo: o esquema montado pelos radialistas Luiz Gama e Eni Aquino, com o apoio crucial do hacker conhecido como “Mr. Magoo”, foi descoberto por espiões a serviço do bicheiro Carlos Cachoeira. Resultado: os grampeadores Gama e Aquino acabaram grampeados.

A tramoia nonsense pode ser acompanhada pelas mensagens diretas de Twitter e de e-mail vazadas por “Mr. Magoo”. Tudo começa em setembro de 2012, quando arapongas ligados a um empresário italiano radicado em Goiânia, Nazir Ângelo Disanto, amigo de Cachoeira, ao descobrir o esquema, cobram explicações dos radialistas.

Antes, um breve histórico. Em junho do ano passado, em sessão na CPI do Cachoeira, Perillo respondeu a uma pergunta do deputado federal carioca Miro Teixeira. O parlamentar queria saber se o governador conhecia Disanto. “Não”, foi a resposta. Estranho. O grupo Perlatenda, do italiano, fornece equipamentos médicos para o Hospital de Urgências de Goiânia, administrado pela Organização das Voluntárias de Goiás, entidade presidida pela primeira-dama Valéria Perillo. Além disso, Disanto é sócio de Cachoeira e do empresário Walter Paulo Santiago no Jóquei Clube de Goiânia. Santiago, dono da Faculdade Padrão, intermediou a venda de uma casa do governador para Cachoeira (a mesma onde o bicheiro foi preso pela Polícia Federal em fevereiro do ano passado). Fica difícil imaginar que os dois não se conhecessem, ao menos de vista. A capital de Goiás não chega a ser uma metrópole e contam-se nos dedos os eventos sociais frequentados pela “elite” local.

“O Exmo. Governador tem o dever de em primeiro lugar cuidar do estado. Não precisava desgastar-se por um simples e humilde ignoto. Aprendi um ditado no Brasil: Manda quem tem poder, obedece quem tem juízo”, escreveu de forma enigmática o empresário italiano, no mesmo dia, em sua conta no Twitter.

Acusado de comercializar ilegalmente aparelhos de grampo, Disanto é velho conhecido da Polícia Federal. Ele é citado em várias conversas de Cachoeira interceptadas durante a Operação Monte Carlo. Em um dos diálogos captados, em 20 de maio de 2011, entre o vereador de Goiânia Santana Gomes (PMDB) e Cachoeira, o italiano é descrito como personagem influente no governo goiano. Teria sido, por exemplo, responsável pela nomeação de João Furtado, então secretário estadual de Segurança Pública e hoje chefe de gabinete de Perillo. Gomes garantiu ao bicheiro: o empresário havia doado R$8 milhões para a campanha do tucano em 2010. Aparentemente, Disanto não sabia da existência de outra central clandestina de grampos no estado. Os dois esquemas se cruzaram por acaso, em setembro de 2012, quando um hacker a serviço do empresário percebeu uma tentativa de invasão de seu perfil no Twitter. Era “Mr. Magoo”, de olho em uma encomenda de Gama e Aquino: recolher o máximo de informações de um certo @Opoltico.

Em 20 de outubro, Gama iniciou uma troca desesperada de mensagens com “Mr. Magoo” a respeito. Dias antes, ele recebera por e-mail um pacote completo de suas mensagens reservadas trocadas com o hacker, sinal de que alguém havia invadido seus computadores e roubado todas as informações sobre o funcionamento da central de grampos montada para beneficiar Perillo. Segundo Gama, as mensagens lhe foram repassadas por alguém chamado Joaquim, servidor do Palácio das Esmeraldas supostamente responsável pela manutenção dos notebooks do gabinete do governador. A fonte original das informações, contudo, era outro hacker, o cinegrafista Luiz Cláudio Cavalcante, conhecido no Twitter pelo perfil @Opoltico.

Cavalcante é funcionário da Agência Goiana de Comunicação, órgão responsável pelos pagamentos iniciais da central de grampos, de acordo com diversas mensagens trocadas entre Gama, Aquino e “Mr. Magoo”. Recentemente, foi cedido à emissora de tevê da Assembleia Legislativa de Goiás. Ocupa ainda o cargo de assessor do vereador Paulo Magalhães, do PV de Goiânia. Segundo Gama afirma em suas mensagens, o verdadeiro ofício de @Opoltico é atuar como hacker a serviço de Disanto, a quem o radialista costuma chamar de “israelita rei da espionagem” (ele confunde a nacionalidade do empresário).

“Esse Luiz [Cláudio Cavalcante, @Opoltico] é amigão do Dr. Nazir”, explica Gama a “Mr. Magoo”. “Esse Nazir é de Israel e tem equipamento até do inferno. Ele contrata os melhores hackers do Brasil, sempre”, completa o radialista, em seu estilo inconfundível. Em seguida, pede a “Mr. Magoo” a invasão do perfil @Opoltico e a busca de informações sobre o real conhecimento de Cavalcante a respeito do esquema. Solicita adicionalmente um grampo no telefone de Joaquim, o servidor público. “Tem alguma coisa errada! O Joaquim está recebendo todas as DMs (Direct Messages do Twitter) que você fala comigo. Aí é brincadeira!”, revolta-se o grampeador grampeado.

O esquema de Gama havia sido descoberto pela turma de Disanto no feriado de 7 de setembro. Pelo Twitter, @Opoltico pediu ao radialista, em tom de ironia, para o “competente Mr. Magoo” deixá-lo em paz. Segundo Cavalcante, apenas naquele dia o hacker da grampolândia de Perillo havia tentado invadir seu perfil 12 vezes. “Ai, que canseira, viu?”, lamenta-se o cinegrafista em uma das mensagens.

Pego de surpresa, Gama tentou desmentir. “Deve ser outra galera que está tentando te invadir”, mente, na troca de mensagens com Cavalcante. “A nossa turma fez curso com os caras da PF. Serviço de inteligência agora tá 10”, justifica-se. O araponga de Disanto não se faz de rogado e ignora a desculpa do radialista. “Vi um e-mail com nomes. E lá constava meu perfil”, esclarece, antes de se despedir.

Preocupado com a possibilidade de vazamento das mensagens hackeadas por Cavalcante, Gama e Aquino montaram uma salvaguarda de fachada. No início de novembro, o radialista grampeador ensaiou uma queixa na Polícia Civil de Goiás: reclamou de um suposto grampo contra ele. Nada foi apurado, claro. A Secretaria de Segurança estava sob o comando do delegado Joaquim Mesquita, ex-superintendente da Polícia Federal em Goiás. O fato parece ter redobrado o ânimo da equipe de arapongas de Perillo.

Deduz-se, por várias mensagens trocadas entre o casal e Mr. Magoo, que a chegada de Mesquita ao governo, em outubro de 2012, deu à grampolândia um suporte institucional poderoso. Em uma conversa com o hacker, no fim de outubro, Aquino afirma ter ordenado à polícia goiana uma investigação dos suspeitos de terem invadido e vazado informações do computador pessoal do marido, entre eles um assessor de Perillo, Elaino Garcia. “Agora ficou mais fácil, é só eu colocar a polícia para quebrar o sigilo telefônico”, avisa a radialista, por e-mail, a Mr. Magoo.

Na Assembleia Legislativa de Goiás, a iniciativa do deputado petista Mauro Rubem de instalar uma CPI para apurar os grampos foi atropelada pelos governistas, maioria absoluta no Parlamento goiano. Um aliado de Perillo, o deputado tucano Marcos Martins, ex-diretor da Polícia Civil do Estado, adiantou-se e protocolou antes o pedido de instalação da comissão. Martins chegou a ser mencionado no relatório final da Operação Monte Carlo. Seria um dos delegados a soldo de Cachoeira em Goiás. Ou seja, a CPI vai sair, mas totalmente controlada pelo governador e por um grupo interessado em enterrar a investigação.

Cavalcante não atendeu aos pedidos de entrevista. Nem o empresário Disanto.

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2 Respostas to “Leandro Fortes: Em Goiás, os arapongas se bicam”

  1. Giordano Says:

    Alguém aí, além do gurgel, tem dúvida da mais fina malandragem que viceja no governo do mafioso perillo?

  2. Teco Says:

    A exemplo do governador, Disanto não tem nada.

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