Ao repetir chavões arquiconservadores, como o da democracia em “risco”, ele vai se tornando um Serra com topete.
Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo
Não acredito que FHC esteja, de fato, orientando Aécio na caminhada deste rumo às eleições de 2014. FHC é vaidoso, está desatualizado, sofre ao se ver tão cedo relegado a uma nota de rodapé na história dos presidentes brasileiros.
Ele seguiu a receita de Thatcher e hoje se vê no que ela deu nos países em que não houve uma drástica mudança de rota. Bem, FHC tem muitos defeitos, mas bobo, definitivamente, não é. Não é possível que ele esteja por trás das tolices em série proferidas por Aécio.
Num espaço de poucos dias Aécio conseguiu se pronunciar contra a reeleição – foi FHC quem a trouxe de volta, sabemos todos a que preço –, levantou alarme sobre a inflação e agora repete a ladainha dos dias de Lacerda segundo a qual a democracia está em “perigo”.
Não faltariam bons argumentos para Aécio criticar Dilma e o PT. Exemplo: um levantamento divulgado esta semana mostrou que o Brasil, entre 40 países, ficou em penúltimo em educação. A Finlândia estava no topo, para confirmar a admirável supremacia da sociedade escandinava.
Aécio poderia falar nisso. Dez anos de PT e é isso que temos a mostrar ao mundo em educação? Poderia também citar outro estudo segundo o qual o Brasil é o quarto país mais desigual da América Latina. Se você é quarto na Europa, é uma coisa desagradável, mas dá para engolir. Mas ser quarto numa região já em si tão desigual como a América Latina é vexatório.
Haveria, sim, muita coisa relevante a falar. Mas para isso Aécio teria de ler. Ou melhor, de ler as coisas certas.
Aécio parece estar repetindo coisas que são faladas por Jabor, escritas por Merval, repetidas por Reinaldo Azevedo – enfim, todos aqueles clichês arquiconservadores por trás dos quais se esconde apenas o desejo de manter privilégios indefensáveis.
E repete o mesmo erro incrível de Serra nestes anos todos: deixou o PT sozinho para falar do tema mais importante não apenas do Brasil, mas do mundo contemporâneo: justiça social.
Rapidamente, se transforma num Serra com topete. Não pelo que tem feito, que sem dúvida poderia e deveria ser mais, mas pelas besteiras que os adversários vão cometendo em série, Dilma tende a ter em 2014 uma das vitórias mais fáceis da história das eleições presidenciais.
Se for para o segundo turno, vai ser uma surpresa.
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