Golpe de 1964: Ranieri Mazzilli, o político Modess

Ranieri_Mazzilli01L. A. Pandini em seu blog

Creio que a maioria absoluta dos brasileiros simplesmente desconhece o rosto ao lado. Mas quem acompanhou política na década de 1960 tem grandes possibilidades de se lembrar dele. Este senhor chamava-se Pascoal Ranieri Mazzilli. Paulista de Caconde, deputado federal pelo PSD, foi presidente da Câmara dos Deputados entre 1958 e 1965 e assumiu por duas vezes a presidência da República.

Seu primeiro mandato começou com a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961. Ranieri Mazzilli assumiu a Presidência interina porque o vice-presidente, João Goulart, havia viajado para a China em missão oficial.

Aqui, cabe um parênteses. A Constituição que vigorou entre 1946 e 1964 previa eleições diretas para presidente e vice-presidente da República, separadamente. Curiosamente, proibia a reeleição do presidente em mandatos consecutivos, mas não fazia restrição ao vice. Jango, do PTB (nada a ver com o PTB de hoje), elegeu-se vice-presidente em 1955, na chapa de Juscelino Kubitschek (PSD), e concorreu novamente em 1960, desta vez como vice do marechal Henrique Lott, também do PSD. Jânio disputou a eleição pela UDN, partido conservador de feroz oposição aos governistas PSD e PTB. De olho na popularidade de Jango, os janistas estimularam a dobradinha “Jan-Jan” (Jânio-Jango), abandonando ao relento o senador Milton Campos, candidato a vice de Jânio. E o povo elegeu a chapa clandestina “Jan-Jan”, criando a estranha situação de termos um presidente eleito de oposição e um vice-presidente eleito da situação.

A aliança Jan-Jan acabou logo após a eleição. Ao assumir a Presidência, em janeiro de 1961, Jânio deixou claro que não pretendia contar com qualquer colaboração de seu vice. Em agosto, enviou Goulart à China em missão oficial, mas na verdade pretendia apenas se ver livre do vice-presidente por algum tempo. O próprio Jânio, em entrevista concedida em 1985, declarou: “Só não o mandei para Marte ou para a Lua porque não haveria como transportá-lo.” E Jânio renunciou exatamente quando Jango estava na Malásia, iniciando a viagem de volta. Detalhes pitorescos sobre o momento em que a comitiva recebeu a notícia da renúncia de Jânio podem ser conferidos no livro O Dia em que Getúlio matou Allende, do jornalista Flávio Tavares.

Jango era malvisto pelos setores conservadores devido a sua histórica ligação com Getulio Vargas e as suas posições políticas. Iniciou-se um movimento dos militares e da UDN para impedir sua posse. Setores favoráveis à posse de Jango mobilizaram-se para resistir ao que, na prática, se configurava como um golpe de estado. É dessa época a “rede da legalidade” montada por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul.

O impasse durou até que uma emenda parlamentarista foi aprovada às pressas: com isso, Jango assumiria a Presidência, mas teria seus poderes reduzidos. Em 7 de setembro, duas semanas após a renúncia de Jânio, Ranieri Mazzilli passou a faixa presidencial a Jango.

Ranieri_Mazzilli02_Jango

Mazzilli (à dir.) passa a faixa a Jango.

A emenda parlamentarista foi derrubada após um plebiscito realizado em janeiro de 1963. Cerca de 80% dos eleitores decidiram que João Goulart deveria governar sob regime presidencialista. E assim foi até a deposição de Jango com o golpe de estado que se consumou em 1º de abril de 1964.

No dia seguinte, Ranieri Mazzilli assumiu mais uma vez a Presidência da República − como na anterior, em meio a uma séria crise institucional. Desta vez, foi um presidente apenas protocolar: o poder real foi exercido por uma junta militar até o dia 15 de abril, quando o marechal Castelo Branco foi “eleito” pelo Congresso (já mutilado por dezenas de cassações e exílios políticos) e inaugurou o ciclo de ditadores militares que só terminaria em 1985.

Mesmo em meio ao ambiente tenso gerado pelo golpe militar, o humor brasileiro não deixou por menos. Alguém comparou Ranieri Mazzilli ao Modess, o então novíssimo absorvente íntimo feminino: “Está sempre no melhor lugar, nos piores dias, para evitar derramamento de sangue.”

Não tenho registros de como Ranieri Mazzilli reagiu a essa comparação. Ele morreu em 1975, aos 65 anos de idade.

PS.: Vale registrar uma sugestão de campanha publicitária feita pelo humorista Juca Chaves: “Modess. Não é a melhor coisa do mundo, mas está bem próxima”.

***

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2 Respostas to “Golpe de 1964: Ranieri Mazzilli, o político Modess”

  1. Lucinete Maia Maia Says:

    MARAVILHA ESSA MATÉRIA. OBRIGADO.

  2. anisioluiz2008 Says:

    Reblogged this on O LADO ESCURO DA LUA.

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