Uma foto da ditadura que o Brasil não viu

Armando Rozário, via Clínica Literária e lido no Observatório da Imprensa

Tudo aconteceu há 45 anos. O título original do artigo que segue esta introdução é “Uma foto de capa roubada – Fatos & Fotos, abril de 1968”, e começa com uma frase que nos remete a tudo o que não queremos que aconteça, nunca mais. Mas desejar o óbvio é pouco. É preciso também destacar o trabalho de personagens quase anônimos que trabalharam durante a ditadura com a missão de revelar para o mundo, diariamente, as truculências daquele regime.

Armando Rozário foi um desses personagens, atrás das lentes de uma Leica, e transportando nos ombros para o Brasil, desde Macau, China e Hong Kong, China, ex-colônias de Portugal e Inglaterra, uma experiência que o País precisava naqueles tempos. O fotojornalismo era precário de várias formas, da prática em campo, na revelação dos rolos de filmes, nas redações dos jornais, a questões de direitos autorais, que eram ignorados, naquela época.

Armando Rozário nasceu em Hong Kong, de pai português e mãe sino-francesa, foi educado em inglês e formou-se em fotografia em Hong Kong (Photo Art Centre), com curso por correspondência com a American School of Photography (Chicago) 1948-1949. Em 1955 desembarcou no Brasil, então com 23 anos de idade, e foi trabalhar na Manchete. Quem conta a sua biografia, em detalhes, é Ruy Castro, em Ela é carioca (Companhia das Letras), uma enciclopédia com 231 perfis de lugares e pessoas que construíram o mito Ipanema, entre elas Armando Rozário. A propósito, ele foi um dos fundadores da Banda de Ipanema.

Mas o artigo que segue, uma tradução de um depoimento do próprio Armando Rozário, está longe de lembrar festas e alegria de um bairro que, segundo Tom Jobim, “o Brasil não seria feliz enquanto todos não pudessem morar em Ipanema”. Trata-se da história de uma foto documental, de um episódio sórdido e marcante da história da ditadura, no Brasil, do dia 4 de abril de 1968. Uma história narrada com pinceladas fortes do estilo Hemingway, que fotografava com palavras exatamente o que via, ouvia e sentia, em seus textos sempre baseados em fatos reais, como a peça de teatro Quinta Coluna, escrita enquanto estava entrincheirado no Hotel Florida, em Madri, sob forte bombardeio numa das escaramuças da Guerra Civil Espanhola (1937). Ei-la.

Luís Peazê

Tudo aconteceu há 45 anos. Era o dia 4 de abril de 1968, eu trabalhava para a revista semanal Fatos & Fotos, cobrindo a missa de 7º dia, na Igreja da Candelária, para o estudante Edson Luís de Lima Souto. [O estudante secundarista brasileiro assassinado pela Polícia Militar durante um confronto no restaurante Calabouço, centro do Rio de Janeiro, em 28 de março de 1968. Edson foi o primeiro estudante assassinado pela ditadura militar. Sua morte marcou o início de um ano turbulento de mobilizações contra o regime militar que endureceu até decretar o chamado AI-5.]

Levei uma câmara Leica M3 e três objetivas de diferentes distâncias focais: uma 35mm, uma 50 mm e uma 135mm. Também levei, em minha mochila, uma unidade compacta de flash eletrônico, uma Mighty Lite, que pode ser recarregada rapidamente a cada descarga. Tinha comigo quatro rolos de filmes Tri-X, cada um com 36 exposições, e dois rolos de Ektachrome, cada um com 20 exposições.

Milhares de pessoas estavam no entorno da igreja, no centro do Rio, quando eu cheguei, meia hora antes de começar a cerimônia religiosa. A igreja já estava lotada, centenas de pessoas aguardavam a missa começar. Cliquei um rolo inteiro em preto & branco (Tri-X), enfocando principalmente as expressões de tristeza estampadas nas faces dos estudantes que estavam dentro da igreja. Utilizei a objetiva normal de 50mm e a tele de 135mm. Quando terminei de clicar o primeiro rolo, decidi aguardar do lado de fora da igreja. Estava curioso, queria ver a chegada da polícia.

Enquadramento perfeito

Não precisei esperar muitos minutos, ouvi alguém gritar que a cavalaria da Polícia Militar já se aproximava da intersecção da Avenida Rio Branco com a Avenida Presidente Vargas.

Olhei naquela direção e vi uma coluna de montarias a aproximadamente 100 metros da igreja. As condições de luz estavam reduzindo, mesmo assim carreguei minha Leica com um rolo de Ektachrome (64 ASA), adaptei na câmara a objetiva angular de 35mm. A conectei também com a minha unidade de flash. Ajustei a posição “F” da objetiva da câmara para 3.5 (abertura total) e ajustei a velocidade para 1/50 avos de segundo. Pré-ajustei a distância da objetiva para 3 metros. E aguardei ansiosamente.

De repente ouvi algumas vozes, movi meus olhos para a esquerda e vi uma linha de padres e estudantes saindo da igreja. Movi os olhos para a direita e vi a coluna da cavalaria, dúzias de policiais militares, armados com espadas em seus cinturões. Os padres marchavam pacificamente com seus braços interligados… Estavam a aproximadamente 20 metros à minha esquerda. Os policiais montados à minha direita trotearam decididamente na direção da linha de pessoas que saiam da igreja. Apenas uns 50 metros separavam os dois grupos oponentes.

Tomei uma decisão. Decidi fotografar o exato momento do confronto iminente. Dei um passo à frente, esperando no espaço onde o encontro pudesse acontecer. Minha câmera e o flash estavam prontos para disparar. Os dois grupos se aproximaram. Os padres e estudantes gritavam alto que aquilo era uma marcha pacífica.

De repente, os policiais montados galoparam e fecharam o espaço entre os dois grupos. O oficial no comando, um tenente, gritou alto para que as pessoas dispersassem. Dentro de poucos segundos o oficial estava cara a cara com a linha de protestantes. Ele olhou para baixo e viu um padre a sua frente, com os braços abertos, implorando pela segurança das pessoas. O policial montado desembainhou sua espada da cintura, levantou a espada com um gesto ameaçador, e ameaçou dar um golpe na cabeça do padre.

Nesse decisivo momento eu estava a aproximadamente 4 metros da cena. O padre estava no canto esquerdo do meu visor e o policial montado, no canto direito. Pressionei o obturador naquele exato momento. Senti que aquela imagem poderia ser a capa da próxima edição da Fatos & Fotos.

Poucos segundos mais tarde, os policiais montados haviam dispersado a multidão com as suas espadas em punho. Cliquei algumas imagens desse acontecimento, mas o mais importante já estava em minha câmara. Uma imagem latente, uma imagem ainda não revelada. A imagem composta verticalmente do encontro do oficial com o padre.

Então decidi ir para a redação da Bloch Editores o mais rápido possível, com minha valiosa imagem na câmera. Caminhei até a Lapa, uns dois quilômetros, e com sorte consegui tomar um táxi. Ele me levou diretamente para Rua Frei Caneca, 511. Lá eu entreguei os dois rolos de filmes diretamente no laboratório, para serem revelados, apontando que o filme colorido era o mais importante. Dentro de 70 minutos eu pude ver o resultado. A mais importante imagem havia sido perfeitamente enquadrada na posição vertical, o foco era perfeito e a exposição, também.

Dedos-duros

Cortei o filme em tiras de seis exposições cada e mostrei a melhor para o editor da revista. O diretor de arte me acompanhou ao laboratório. A fotograma/slide foi colocada em um suporte de negativos/slides do ampliador Leitz Focomat Ic, e projetada em uma folha de layout da capa da revista.

A foto foi aprovada pelos editores e enviada para os scanners para preparar a separação de cores, os fotolitos e as chapas de impressão da gráfica. Meia hora mais tarde eu fui informado de que os “cromos” de minha foto haviam sumido (sic). Não apenas a foto, mas as chapas de impressão haviam também desaparecido.

Quem eram os meus colegas, editores e diretores da Bloch Editores em abril de 1968? Eram, entre outros, Adolpho Bloch, Arnaldo Niskier, Justino Martins, Raul Giudicelli, Richard Sasso, Wilson Passos, Aaron Weissman, Sérgio de Souza, Hélio Santos e Gervásio Baptista. Alguns deles talvez se lembrem do que aconteceu naquela noite na Rua Frei Caneca, 511.

É importante mencionar que alguns (uns poucos) jornalistas da Bloch Editores foram informantes da Marinha e do Exército em 1968.

Fatos & Fotos de 4 de abril de 1968: minha foto de capa ficou desaparecida para sempre.

Armando Rozário é fotógrafo.

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3 Respostas to “Uma foto da ditadura que o Brasil não viu”

  1. Jésus Araújo Says:

    Não estive lá, mas a descrição e as fotos dos jornais da época tornaram o fato inesquecível. A missa pelo Edson, celebrada, se não me engano, por Dom Arns e, depois, as pessoas saindo da Sé Catedral cercadas por um cordão de padres com as mãos unidas, formando um cordão a protegê-las. A cena é inesquecível. Poderia ter havido aí um massacre. Que nunca mais nosso país passe pela brutalidade e estupidez de uma ditadura. Já bastam as três que tivemos.

  2. odilon José Fernandes Says:

    É excelente que se fale muito dos acontecimentos dos anos de chumbo. Pois a sociedade formada naquele regime não promoveram o restabelecimento da democracia do saber, os governos new liberais e globalizadores ditaram a cultura e manteve o modelo de educação do regime militar, como em regime democrático o cidadão precisa ser mais inteligente para conviver bem com todas as classes, o modelo antigo acrescido de coerção não contempla os cidadãos em formação na aprendizagem do uso da liberdade estabelecida pela democracia. A nova geração de professores, ministros e alguns políticos estão trazendo essa liberdade novamente, mas é truncada, atrapalhada e perseguida pela classe que herdou o poder da ditadura, dando a impressão que se a sociedade for lúcida sabida e consciênte eles jamais saberão governar.

  3. Rita Candeu Says:

    ótima postagem
    temo que falar muito sobre o que aconteceu durante a ditadura
    poucos sabem o que se passou

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