Recordar é viver: Celso Lafer descalço em aeroporto exemplifica submissão de FHC aos EUA

FHC_Lafer_Descalco

Fábio Brandt, via UOL, texto publicado em 20/6/2011

Estudo divulgado nesta terça-feira [14/6/2011] pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) cita o episódio em que o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer teve de tirar os sapatos em um aeroporto norte-americano como exemplo da submissão do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) aos EUA. O Ipea é um órgão de pesquisas vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. O texto é de autoria do professor-adjunto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro Carlos Milani.

O texto divulgado pelo instituto cita o caso em que Celso Lafer tirou os sapatos no aeroporto de Miami, em 31 de janeiro de 2002, como exemplo da relação entre Brasil e EUA durante o governo tucano. “Este comportamento [tirar os sapatos], reiterado nos aeroportos de Washington e Nova Iorque durante esta visita oficial, poderia ser considerado uma simples anedota, não fosse Celso Lafer o chanceler brasileiro”, diz o estudo. O Ipea ressalta no início do documento que as opiniões emitidas na publicação são de “exclusiva e inteira responsabilidade dos autores” e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do instituto.

O artigo avalia que Fernando Henrique conduziu as relações com os EUA “na base da reciprocidade moderada” e se limitou a discordar dos norte-americanos em “alguns aspectos econômicos setoriais”. A maior tensão da gestão FHC com os EUA teria ocorrido já no fim do mandato, quando o Brasil discordou da política antiterrorismo do governo Bush, adotada após os atentados de 11 de setembro de 2001. Foi justamente nessa época que ocorreu o episódio no aeroporto de Miami.

Celso Lafer é citado em outra passagem do estudo, que lembra “sinais menos anedóticos de submissão política”. Trata-se da “sugestão nos discursos oficiais do chanceler [Celso Lafer] de que o Brasil participasse da intervenção no Iraque com base na solidariedade com os Estados Unidos”, diz o texto.

Governo Lula

O governo Lula, segundo o texto do Ipea, rompeu com a submissão aos EUA que esteve presente na política externa de seu antecessor. De acordo com o artigo, o governo petista adotou desde seu início, em 2003, a “reciprocidade” no lugar da “reciprocidade moderada” de FHC.

Essa política fez com que o Brasil entrasse em atrito com os EUA em assuntos como a integração dos países das Américas e a participação dos emergentes em instâncias internacionais. Além disso, o texto cita o “artigo difamatório [contra Lula] publicado pelo repórter Larry Rohter no The New York Times, como sintomático do desgaste das relações entre os países.

Após a mudança promovida por Lula, afirma o artigo, a relação Brasil-EUA deixou de ser prioritária e norteadora da política externa nacional, apesar de continuar sendo relevante. A avaliação do estudo é que esse cenário se mantém mesmo com a melhoria das relações bilaterais após a eleição de Barack Obama.

“Apesar da admiração mútua entre Obama e Lula relatada na mídia internacional, a agenda inicial que anunciara potencial cooperação perdeu paulatinamente a relevância até atingir o estágio de respeito mútuo e normalização institucional”, afirma o texto.

***

Celso_Lafer03_Sem_Sapatos

Folha de S. Paulo – 28/2/2002

Segurança nos EUA faz Lafer tirar sapato

Um critério inusitado virou termômetro da importância que os EUA dão aos demais países no cenário internacional: a diplomacia dos sapatos.

Desde que o inglês Richard Reid foi preso em dezembro passado tentando detonar explosivos em seu tênis num voo entre Paris e Miami, alguns ministros de Relações Exteriores foram obrigados a remover seus sapatos para inspeção ao passarem pela segurança de aeroportos durante visitas oficiais aos EUA.

A lista dos “chanceleres descalços” inclui o brasileiro, Celso Lafer, e o russo, Igor Ivanov. Mas não se limita a homens. A chanceler chilena, Maria Soledad Alvear Valenzuela, submeteu-se ao mesmo constrangimento quando embarcou de Miami para Washington, em janeiro passado, para negociar uma zona de livre comércio entre os dois países.

Diplomatas do Brasil e da Rússia queixaram-se, de formas e em graus diferentes, ao Departamento de Estado. Alegaram que esses episódios ferem princípios do direito internacional e regras de protocolo. Acima de tudo, alegaram os dois países, existiria uma seletividade perversa no rigor antiterror dos aeroportos norte-americanos: os EUA estariam poupando do constrangimento ministros de governos mais afinados com a Casa Branca.

Segundo apurou a Folha, a “diplomacia dos sapatos” divide os chanceleres em três grupos distintos. Além dos ministros que são obrigados a removê-los, há aqueles que são dispensados não porque são chanceleres, mas por motivos aleatórios. O exemplo típico é o do ministro das Relações Exteriores da Argentina, Carlos Ruckauf, que ficou livre do embaraço por não ter caído na malha fina dos seguranças do aeroporto de Miami, de onde embarcou para Washington em busca de dinheiro do FMI (Fundo Monetário Internacional).

O terceiro grupo, o dos privilegiados, é composto por chanceleres que recebem tratamento especial nos aeroportos. São escoltados ou recebem autorização para passarem somente por máquinas de raio X.

“Nosso chanceler (Jack Straw) chegou aos EUA no dia 30 de janeiro, e nosso consulado em Nova Iorque encarregou-se de sua liberação para o voo seguinte, para Washington”, disse à Folha Alex Hawl, da embaixada britânica em Washington. Tratamento idêntico ou similar foi dado aos ministros de Relações Exteriores canadense, William Graham, e mexicano, Jorge Castañeda, quando vieram a Washington.

No caso de Lafer, o protesto brasileiro foi manifestado diretamente ao chefe da sessão de América Latina do Departamento de Estado, Otto Reich, durante recepção na residência oficial do embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa.

A recepção ocorreu na noite do dia 30 de janeiro, e o próprio Lafer estava presente. Barbosa relatou a Reich o constrangimento de Lafer. Reich pediu desculpas, prometeu que pensaria no assunto, mas falou do difícil contexto criado pelos atentados. Explicou que o Departamento de Estado não tem autoridade sobre a segurança interna dos aeroportos dos EUA.

Horas depois, em 31 de janeiro, quando embarcava para Nova Iorque do aeroporto Ronald Reagan, em Washington, Lafer teve que tirar novamente os sapatos e entregá-los a uma agente de segurança. Ficou descalço (e muito irritado) por alguns minutos.

No total, Lafer foi obrigado a tirar os sapatos três vezes. Ele fora a Washington tentar convencer o governo Bush da posição brasileira no conflito comercial entre os dois países envolvendo exportações siderúrgicas [destaque do Limpinho].

O problema com o russo Ivanov ocorreu no aeroporto Logan, em Boston. O chanceler do ex-adversário dos EUA na Guerra Fria ficou descalço (e também muito irritado) na frente de outros passageiros de um voo comercial.

Os ministros “descalços” são de países aliados dos EUA. Não fazem parte do “eixo do mal” (Irã, Iraque e Coreia do Sul) de Bush e vieram aos EUA cumprir agendas que incluíam encontros com o secretário de Estado, Colin Powell. Um ministro das Relações Exteriores não é um viajante comum. Além de ter imunidade diplomática, representa a imagem e o interesse de governos estrangeiros.

Diplomatas russos e brasileiros com os quais a Folha falou concordam que, pelas circunstâncias atuais, os EUA têm o direito de exigir dos ministros estrangeiros que passem com suas malas por máquinas de raio X. Nos dias de hoje, disse um desses diplomatas, ninguém pode garantir que sua bagagem de mão esteve protegida durante todo o tempo. O problema, dizem eles, estaria na obrigação de tirar os sapatos.

Consultado pela Folha, um porta-voz do Departamento de Estado disse entender a irritação dos ministros estrangeiros. Informou que, depois do episódio envolvendo o chanceler russo, o subsecretário de Estado Richard Armitage ficou “indignado” e iniciou gestões para compatibilizar a segurança nos aeroportos, que não é subordinada a Powell, ao protocolo recomendado em viagens de autoridades estrangeiras.

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4 Respostas to “Recordar é viver: Celso Lafer descalço em aeroporto exemplifica submissão de FHC aos EUA”

  1. José Guimaraes Martinez Says:

    Foi um episódio lamentável…… para o Brasil……esse FHC foi uma página negra para o Brasil…foi uma vergonha e não foi só ele, todos, ou seja a ELITE, os RICOS e os PSEUDOINTELECTUAIS, todos eram e ainda são subservientes aos EUA…AINDA BEM QUE O NOSSO LULA CHEGOU E ACABOU COM ISSO….(martinez.guimaraes1@gmail.com)

  2. Clovis Pacheco Filho Says:

    Que vexame o Lafer passou! E aceitou, ao invés de se recusar, protestar e reembarcar para o Brasil!

  3. Recordar é viver: Celso Lafer descalço em aeroporto exemplifica submissão de FHC aos EUA | " F I N I T U D E " Says:

    […] Recordar é viver: Celso Lafer descalço em aeroporto exemplifica submissão de FHC aos EUA […]

  4. Maria Libia Says:

    Sinceramente eu gostaria de entender porque esses representantes do Brasil não gostam do Brasil. Nunca, em 500 anos, pensaram no povo, e agora procuram, de todas as formas, a
    destruir o que esta sendo construído. Alguém pode me fazer entender esses apátridas?

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