O que Aécio faria do Brasil que temos hoje?

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Saul Leblon, via Carta Maior

Encarregado de fazer o contraponto à la carte para a mídia, Aécio Neves sequer roçou a grande pergunta embutida no feixe de avanços sociais e econômicos reunidos pela Fundação Perseu Abramo, para o evento de quarta-feira, dia 20, “10 anos do PT”.

A pergunta é: “Se voltasse ao poder, o que o conservadorismo faria do Brasil que temos hoje?”

A omissão não deve ser debitada à superficialidade pessoal do provável candidato tucano em 2014. Colunistas da cota reservada a José Serra sibilam essa interpretação.

Maldade.

O fato de Aécio ter omitido preferências não significa que não as tenha. Ele as tem. São as mesmas de seus rivais de partido; as mesmas dos vulgarizadores de seu credo na mídia. As mesmas marteladas pelos professores-banqueiros encarregados de pavimentar a candidatura conservadora até 2014.

Fácil é defendê-las em artigos acadêmicos. Palatável, discorrer sobre elas em colunas dirigidas aos iniciados da mesma igreja. Complicado assumi-las em uma tribuna pública. Quase inviável assoalhar um palanque presidencial com o seu conteúdo.

A tarefa consiste em desqualificar e desautorizar grandezas sociais de uma mutação histórica dificilmente reversível pelas urnas. Para ir direto ao ponto mais agudo de uma dinâmica inconclusa mas incontrolável:

As favelas brasileiras reúnem 12 milhões de habitantes e formam hoje um mercado de R$56 bilhões.

O equivalente a uma Bolívia.

Não é propaganda do PT. É o resultado da pesquisa feito pelo DataFavela em 2011. Ela mostra que 65% das populações faveladas pertencem agora ao que se convencionou denominar de nova classe média, ou classe C.

Em 2002 o percentual era de 37%. Favela continua sendo favela.

Mas o recheio humano mudou. E aí reside o paradoxo de uma dinâmica infernal para aécios e assemelhados.

O mesmo ocorre nas periferias metropolitanas que continuam sendo periferias conflagradas.

Ou nos bairros distantes que continuam carentes de serviços essenciais.

E também nos conjuntos habitacionais, vilas e arruamentos rurais do resto do país.

Que continuam sendo tratados como resto do país.

A população aí residente saiu do rodapé da renda para o segmento do consumo popular. Representa agora 52% do Brasil.

O dado banalizou-se.

Mas não a completa extensão do paradoxo político que encerra.

Não o desconforto eleitoral que constrange o discurso do conservadorismo.

A ponto de Aécio recitar frases de efeito que não tem nenhum efeito.

A ponto de Lula, Dilma e o PT, de um modo geral, apostarem que esse impulso ainda pode encher as velas de mais uma vitória eleitoral. Guiada pela promessa do passo seguinte dessa história: a cidadania plena.

Mesmo difuso e ainda sem projeto – que cabe ao PT esclarecer – o aceno tem receptividade expressiva.

Milhões de brasileiros que formariam um país do tamanho da Argentina deixaram de ser meros sobreviventes de um naufrágio de 500 anos.

Chegara à praia.

Querem mais.

Como dizer-lhes: “Não, o regime de metas de inflação não comporta vocês”.

Ou, como preferem os professores-banqueiros do PSDB:

“O populismo petista aqueceu a demanda para além do hiato do produto (potencial produtivo acionável na economia; que eles interpretam como um grandeza inelástica)”.

A receita para reverter o desmando é a plataforma que os tucanos e assemelhados hesitam em explicitar em palanque.

Um lactopurga feito de choque de juros e cortes no salário real; a começar pelo salário mínimo.

Quase tão simples assim.

A dificuldade reside no fato de que o “voluntarismo petista” consumou um colégio eleitoral que hoje elege sozinho um presidente da República, se quiser.

De modo que o problema não é Aécio.

Um Aécio careca enfrentaria a mesma dificuldade.

O balanço reunido pelo PT (clique aqui) envolve escolhas e desdobramentos que vão além das platitudes da má vontade conservadora.

A tal ponto que argui a zona de conforto da própria agenda progressista.

Para que o fim da miséria seja só o começo, como promete a provável bandeira da reeleição da Presidenta Dilma, há perguntas à espera de uma resposta.

Sobre uma delas o governo se debruça exaustivamente nesse momento.

Trata-se de viabilizar um novo ciclo de investimentos que redesenhe os contornos de um país previsto originalmente para acomodar apenas o terço superior da renda.

A nova cartografia escapa às receitas técnicas que seduzem uma parte do governo.

Reequilíbrios macroeconômicos são indispensáveis.

Mas as soluções imaginadas cobram um protagonista social que as legitimem e ferramentas que as executem.

A hegemonia numérica da chamada classe C sobreviveu à crise mundial do capitalismo porque, entre outras coisas, Lula e Dilma colocaram os bancos estatais a seu serviço.

No ano passado, o Banco do Brasil expandiu em 25% a sua carteira de crédito, à base de agressiva redução dos juros.

A Caixa Econômica Federal ampliou a sua em arrojados 42%.

Para desgosto da mídia que vaticinou prejuízos calamitosos, o BB e a CEF registraram lucros recordes em 2012.

As taxas de inadimplência foram inferiores às da banca privada que, exceto o Bradesco, viu seus lucros minguarem em relação a 2011.

Bancos estatais dominam agora 47% do mercado de crédito no país.

Dispor de ferramentas autônomas permitiu ao governo criar um fenômeno de consumo indissociável da aspiração por cidadania plena.

Isso mudou a pauta política do país ao dificultar sobremaneira o discurso conservador.

Qual seria o equivalente na batalha do investimento?

Por enquanto não existe.

Daí as dificuldades dilacerantes que empurram o governo de concessão em concessão. Com resultados ainda imponderáveis.

Como compartilhar esse desafio com quem tem mais interesse num desenlace progressista e bem sucedido: milhões de brasileiros à procura de um país onde caiba a sua cidadania?

A cartilha dos “10 anos do PT” deixou esse capítulo em aberto.

Cabe ao V Congresso do partido escrevê-lo em 2014.

Mas é quase tarde. É preciso correr e começar já.

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4 Respostas to “O que Aécio faria do Brasil que temos hoje?”

  1. " F I N I T U D E " Says:

    […] O que Aécio faria do Brasil que temos hoje? […]

  2. JOSE JESUS GOMES ARAUJO Says:

    A pergunta que não pode ser calada: como realizar uma política de investimento pesado com um orçamento que destina 44% dos recursos ao pagamento de banqueiros e rendeiros em geral?

    Atenciosas saudações, acompanhada de cumprimentos pela excelente exposição.

    Prof. Jésus Araújo

      A esperança tem duas filhas lindas: a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las. (Santo Agostinho)    

    >________________________________ > De: novobloglimpinhoecheiroso >Para: professor.jesus@yahoo.com.br >Enviadas: Domingo, 24 de Fevereiro de 2013 22:32 >Assunto: [Novo post] O que Aécio faria do Brasil que temos hoje? > > > WordPress.com >bloglimpinhoecheiroso publicou: ” Saul Leblon, via Carta Maior Encarregado de fazer o contraponto à la carte para a mídia, Aécio Neves sequer roçou a grande pergunta embutida no feixe de avanços sociais e econômicos reunidos pela Fundação Perseu Abramo, para o evento de quarta-feir” >

  3. Marcos Pinto Basto Says:

    Vindos desse Paraíso de Sevandijas Delapidadores do Brasil, podem mandar quantos quiserem que o latão de lixo da república é muito grande!

  4. Clovis Pacheco Filho Says:

    Aébrio, Never! Pó parar!

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