Emir Sader: O suicídio da imprensa brasileira

Jornais_FotoEmir Sader, via Carta Maior

A imprensa brasileira está sob risco de desaparição e, de imediato, de sua redução à intranscendência, como caminho para sua desaparição.

Mas, ao contrário do que ela costuma afirmar, os riscos não vêm de fora – de governos “autoritários” e/ou da concorrência da internet. Este segundo aspecto concorre para sua decadência, mas a razão fundamental é o desprestígio da imprensa, pelos caminhos que ela foi tomando nas últimas décadas.

No caso do Brasil, depois de ter pregado o golpe militar e apoiado a ditadura, a imprensa desembocou na campanha por Collor e no apoio a seu governo, até que foi levada a aderir ao movimento popular de sua derrubada.

O partido da imprensa – como ela mesma se definiu na boca de uma executiva da Folha de S.Paulo – encontrou em FHC o dirigente político que casava com os valores da mídia: supostamente preparado pela sua formação – reforçando a ideia de que o governo deve ser exercido pela elite –, assumiu no Brasil o programa neoliberal que já se propagava na América Latina e no mundo.

Venderam esse pacote importado, da centralidade do mercado, como a “modernização”, contra o supostamente superado papel do Estado. Era a chegada por aqui do “modo de vida norte-americano”, que nos chegaria sob os efeitos do “choque de capitalismo”, que o País necessitaria.

O governo FHC, que viria para instaurar uma nova era no Brasil, fracassou e foi derrotado, sem pena, nem glória, abrindo caminho para o que a velha imprensa mais temia: um governo popular, dirigido por um ex-líder sindical, em nome da esquerda.

A partir desse momento se produziu o desencontro mais profundo entre a velha imprensa e o País real. Tiveram esperança no fracasso do Lula, via suposta incapacidade para governar, se lançaram a um ataque frontal em 2005, quando viram que o governo se afirmava e, finalmente, tiveram de se render ao sucesso de Lula, sua reeleição, a eleição de Dilma e, resignadamente, aceitar a reeleição desta.

Em vez de tentar entender as razoes desse novo fenômeno, que mudou a face social do País, o rejeitou, primeiro como se fosse falso, depois como se se assentasse na ação indevida e corruptora do Estado. A velha mídia se associou diretamente com o bloco tucano-demista até que, se dando conta, angustiada, da fragilidade desse bloco, assumiu diretamente o papel de partido opositor, de que aqueles partidos passaram a ser agregados.

A velha mídia brasileira passou a trilhar o caminho de seu suicídio. Decidiu não apenas não entender as transformações que o Brasil passou a viver, como se opor a elas de maneira frontal, movida por um instinto de classe que a identificou com o de mais retrógrado o País tem: racismo, discriminação, calúnia e elitismo.

Não há mais nenhuma diferença entre as posições da mídia – a mesma nos principais órgãos – e os partidos opositores. A mídia fez campanha aberta para os candidatos à Presidência do bloco tucano-demista e faz oposição cerrada, cotidiana, sistemática, aos governos do Lula e da Dilma.

Tem sido a condutora das campanhas de denúncia de supostos casos de corrupção, tem como pauta diária a suposta ineficiência do Estado – como os dois eixos da campanha partidária da mídia.

Certamente a internet é um fator que acelera a crise terminal da velha mídia. Sua lentidão e o fato de os jovens não lerem mais a imprensa escrita favorecem essa decadência.

Mas a razão principal é o suicídio político da velha mídia, tornando-se a liderança opositora no País, editorializando suas publicações do começo ao final, sendo totalmente antidemocráticas na falta de pluralismo sequer nas páginas de opinião, assumindo um tom golpista histórico na direita brasileira.

Caminha assim inexoravelmente para sua intranscendência definitiva. Faz campanha, em coro, contra o governo da Dilma e contra o Lula, mas estes têm apoio próximo aos 80%, enquanto irrisórias cifras expressam os setores que assimilam as posições da mídia.

Uma pena, porque a imprensa chegou a ter, em certos momentos, papel democrático, com certo grau de pluralidade na história do País. Agora, reduzida a um simulacro de “imprensa livre”, ancorada no monopólio de algumas famílias decadentes, caminha para seu final como imprensa, sob o impacto da falta de credibilidade total. Uma morte anunciada e merecida.

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5 Respostas to “Emir Sader: O suicídio da imprensa brasileira”

  1. rubem Says:

    Senhores, já dizia o velho “deitado”: Quem “escreve” o que quer, deixa de ser lido!!!!

  2. Clovis Pacheco Filho Says:

    Na ilustração, consta “O Dia”, mas não a “Folha de São Paulo”… Devemos concluir que esse jornaleco já morreu, mesmo?

  3. anisioluiz2008 Says:

    Reblogged this on O LADO ESCURO DA LUA.

  4. odilon José Fernandes Says:

    Para o bem do país e da sociedade é bom que profissionais imparcial de à imprensa nova que ressurgir o caráter democrático e igualitário justos.

  5. Marcos Pinto Basto Says:

    E a internet vai-lhe dar o golpe de misericórdia que há tanto tempo pede. Nunca vi tanta falsidade nos noticiários de grande mídia!

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