O guru André Lara Resende e a profecia tucana

Dolar_venda01Via Brasil que vai

Acostumamo-nos há muito com a circulação de teses que prognosticam um futuro desastroso para a humanidade e as admitimos até no plano das ciências naturais e das ciências humanas. Parecem razoáveis pelo fato de soarem coerentes com a lógica dos sistemas com que aprendemos ordenar o funcionamento do mundo. Pois se estes são regidos pela funcionalidade autônoma e ao mesmo tempo integrada de seus subsistemas, nada impediria que disfunções internas levassem à perda de organicidade e mais adiante à desorganização completa.

Desde quando o mito restou superado como meio de pôr ordem no mundo é que o terror de que algo dê sistemicamente errado surge colocado no horizonte das possibilidades para tolher certa disposição de ânimo inata ao ser humano de prosseguir seja reordenando o nexo de coerências com que guia sua compreensão do mundo seja pura e simplesmente agindo sob o impulso do pragmatismo para pôr em prática novas realidades.

Esse terror quase místico de que algo dê errado assombra o homem desde os tempos da caverna e alojou-se definitivamente no plano da razão como último refúgio da incerteza. Desse sentimento perverso e difuso nutrem-se não apenas de boa ou má-fé as religiões como também os que têm o status social derivado do fato de pensarem para os empoderados uma ordem social que continue a ser-lhes favorável.

A reflexão vem à mente em função do mais recente artigo do economista André Lara Rezende no jornal Valor Econômico, que elabora uma espécie de teoria do fim do mundo para a economia mundial em que as disparidades seriam congeladas porque os países mais ricos do mundo, tendo ingressado numa fase de amadurecimento tecnológico pleno teriam tornado quimérico o chamado steady growth (crescimento sustentável) e absolutamente inócuos os melhores esforços postos em prática por governos na busca do crescimento econômico e eliminação das disparidades sociais.

O olhar messiânico do artigo de Lara Resende estabelece-se desde seu título “Além da conjuntura” e é pacientemente tecido em mais de dez laudos nos quais abundam citações ao falecido economista John Maynard Keynes, que inspira o ativismo de governos de países em desenvolvimento mundo afora nos esforços para debelar os influxos deste que mais parece um novo ciclo longo prazo de estagnação das grandes economias ocidentais desde o último verificado no início do século passado.

Lara Resende parece vivamente impressionado – e é dele que extrai o grosso de seu arrazoado – com o livro do economista norte-americano Robert Gordon, cujo título vai na mesma direção do artigo do brasileiro O crescimento já era? (em tradução livre). Basicamente, o norte-americano repete o dito caipira nativo que diz que aonde a vaca vai o boi vai atrás.

Isso porque Gordon espreme os escritos de Keynes para fundamentar sua tese capital de que o grande motor do sistema capitalista, o investimento, teria fundido em consequência da chegada dos países ricos no que ele chama de fronteira tecnológica do crescimento, um estágio a partir da qual os investimentos minguariam e o crescimento perderia sustentabilidade.

Não se sabe se é do resenhado ou do próprio Lara Resende a tentativa de inocentar Keynes do “desvio” de haver postulado a primazia dos estímulos ao crescimento da economia, com o argumento de que o pensador inglês nunca havia considerado o crescimento um fenômeno de natureza continuada mas um processo com limites claros, no limiar dos quais o homem viveria uma era de riqueza traduzida não no acúmulo indefinido de riqueza s porém na diminuição do tempo dedicado ao trabalho e ao cultivo do espírito.

No mesmo diapasão alegam resenhista e resenhado que parte da teoria de Keynes (de que forma lidar com a crise econômica mundial da década de 1920) teria sido tomada pelo todo, passando a ser visto erroneamente como o cerne da teoria Keynesiana, quando, na verdade Keynes dedicava-se à época em elaborar para as gerações, fascinadas com as teses socialista, cenários de um capitalismo pós-crescimento em que o trabalho daria lugar nas economias avançadas ao cultivo do espírito.

Desse mal-entendido é que viria, segundo eles, toda a ladainha em favor do crescimento a qualquer custo das economias centrais e periféricas e a imersão completa de governos numa visão de curto prazo que perderia de vista o quadro mais amplo de uma estagnação definitiva do capitalismo em que pouco restaria afazer senão administrar diferenças.

Como que querendo fugir à previsível pecha de “catastrofista” que o artigo poderia lhe imputar Lara Resende desvia-se da aplicação economicista que dá ao termo “crescimento sustentável”, ou estagnação econômica de longo prazo, para fazer o epíteto de “catastrofista” recair sobre os ambientalistas, os quais, segundo o autor, possuem uma visão fundamentalista da inevitabilidade de hecatombes naturais, de per si nem um pouco evitáveis por meio de estratégias de crescimento baseadas na ideia de crescimento ambientalmente sustentável por eles cunhada.

Ah sim, Lara Resende afasta-se dos neoclássicos fazendo-lhes o que a princípio parece ser uma crítica, a de não verem os limites estabelecidos pela fronteira tecnológica à contínua expansão dos mercados, uma espécie de marca invisível a que teria chegado a humanidade impedindo-a de produzir e distribuir mais riquezas ao ponto de erradicar as desigualdades.

Afasta-se, no entanto, para reencontrá-los no giro seguinte porque nada vê de errado com os movimentos dos mercados para acomodar oscilações de curto prazo da economia. O mal está nas ingerências de governos que tornam in fine a alocação de recursos e a repartição de bens desorganizadora dos próprios mercados nessa nova era de assimetrias irreversíveis.

O que fica em definitivo de toda a elucubração de Lara Resende é que esse muito barulho por nada a que se entregam países em desenvolvimento, como o brasileiro, faz sentido apenas na superfície e acena no mais longo prazo com algo que não podem em definitivo promover, a ascensão dos mais pobres e o desenvolvimento nacional.

Vale dizer, as políticas públicas que buscam lidar com a crise internacional – que no entendimento do teorista é a última do capitalismo antes do congelamento definitivo das desigualdades entre nações e indivíduos – apenas desorganizam o Estado, ampliam os conflitos redistributivos e, por conseguinte, a balbúrdia social.

A ninguém escapa que André Lara Resende tem sido o pensador par excellence do tucanato, que se posta todo engalanado para ouvir o que tem a dizer o ex-menino prodígio do plano real. Pois se desta vez abraçarem isso que mais parece um constructo teórico da impotência a que chegou um intelectual orgânico a soldo do capital financeiro, o PSDB e seus satélites estarão abrindo mão de fazer política, porque nada mais terão a oferecer senão o conformismo diante da inelutável desigualdade que propõem gerenciar.

Tags: , , , , ,

2 Respostas to “O guru André Lara Resende e a profecia tucana”

  1. FATOS & FOTOS Says:

    […] O guru André Lara Resende e a profecia tucana […]

  2. Marcos Pinto Basto Says:

    Escumalha organizada cuja finalidade maior é entregar o Brasil de mão beijada aos EUA. Têm meio caminho andado, só que estão muito longe de pensar o que lhes espera no futuro. Todas as teorias do André Lara Resende naufragam na sustentabilidade da economia brasileira que necessita apenas ser resguardada de predadores como ele e seus mandantes.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: