Ombudsman da Folha diz que jornalistas da casa não conhecem a periferia e são “branquinhos”

Cobertura eleitoral se apoia demais em pesquisas e desobriga a reportagem de percorrer os bairros distantes para entender o que querem os mais pobres. Quanto mais se afasta do centro da cidade, mais evidente fica a fragilidade da reportagem. A Folha não entende e não conhece a periferia de São Paulo, que responde por 40% dos votos. Talvez seja um reflexo da própria Redação, formada majoritariamente por brancos (e brancas), de alta escolaridade, que vivem no cinturão privilegiado de São Paulo -composição que se repete nas grandes redações.

Suzana Singer, via Folha online

O que prometia ser uma cobertura sem emoção, com o veterano José Serra confortavelmente à frente dos concorrentes, acabou se mostrando um grande desafio. A primeira fase da corrida eleitoral em São Paulo termina hoje [7/10] sem que tenha ficado claro o que motivou o sobe-desce dos candidatos.

A cada reviravolta nas pesquisas, surgia uma nova teoria. Celso Russomano se desidrataria quando começasse o horário eleitoral gratuito na televisão, já que tinha bem menos tempo que o PT e o PSDB. Não aconteceu.

A rejeição a Serra era condenatória porque traduzia o descontentamento com a gestão de Kassab na prefeitura. Nas últimas semanas, o tucano recuperou vários pontos.

O crescimento de Fernando Haddad estava lento, muito inferior ao desempenho dos candidatos petistas do passado. Agora, ele tem chance de passar para o segundo turno.

Uma vez na liderança, Russomano era explicado como representante do novo consumidor da classe C. Sem que nenhum escândalo surgisse, despencou dez pontos.

O que esse monte de teses de vida curta mostra é que falta reportagem. As pesquisas ganharam tanta importância na cobertura eleitoral que “dispensaram” os jornalistas de correr a cidade, ouvir eleitores e tentar captar mudanças de humor.

A forte rejeição a Kassab, que pode ter contaminado Serra, surpreendeu a todos. Por que a população está tão insatisfeita? Para entender isso, a Folha oferece mais pesquisa, numa série de seis cadernos, chamados de “DNA paulistano”. É um levantamento rico, cheio de dados de cada região da cidade, mas não ajuda a entender o macro.

Para medir a influência da religião, do “mensalão”, do Lula, da Dilma, dá-lhe pesquisa. É verdade que nem um exército de repórteres conseguiria ouvir tanta gente a ponto de concluir algo estatisticamente relevante. Só que a frieza dos índices não é suficiente.

A queda de Russomano, por exemplo, pode estar ligada a sua proposta para a tarifa de ônibus (cobrar proporcionalmente ao trecho percorrido). Quando isso foi divulgado, a Folha deu pouco destaque, sem se dar conta de que esse é um tema sensível aos mais pobres.

Quanto mais se afasta do centro da cidade, mais evidente fica a fragilidade da reportagem. A Folha não entende e não conhece a periferia de São Paulo, que responde por 40% dos votos. Talvez seja um reflexo da própria Redação, formada majoritariamente por brancos (e brancas), de alta escolaridade, que vivem no cinturão privilegiado de São Paulo -composição que se repete nas grandes redações.

O sucesso de um artigo publicado em julho no “Tendências/Debates” mostra o tamanho do buraco a ser preenchido (http://migre.me/b1mRc). Leandro Machado, que contribui para o site “Mural”, descreveu, em primeira pessoa, o que é ser da nova classe C. “Sou ex-pobre. Todos querem me vender geladeira agora. O trem ainda quebra todo dia, o bairro alaga. Mas na tevê até trocaram um jornalista para me agradar”, contou.

Para entender o que está acontecendo na cidade e decifrar o que dizem os números das pesquisas, é preciso dar voz à periferia.

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