Até quando o futuro pode esperar?

Saul Leblon, via Carta Capital

O artigo de domingo, dia 2, de FHC no Estadão é uma das excrescências mórbidas de que falava o italiano comunista Antônio Gramsci. Morto em 1937, ele ensinou: “O que caracteriza uma crise é justamente o fato de que o velho já morreu e o que é verdadeiramente novo não consegue nascer; nesse interregno, aparecem toda uma série de sintomas mórbidos”.

Que poderia haver de mais sintomaticamente mórbido nesse arrastado colapso do que um ex-presidente tucano vir a público pontificar lições de ética, finanças e desenvolvimento tendo como régua e compasso o governo e o credo que o ralo da história digere há quatro anos?

FHC, Serra e outros valem-se do limbo pegajoso dos dias que correm para insistir em políticas e agendas condenadas, mas ainda não substituídas no plano mundial – o que dificulta sua ruptura definitiva também no Brasil.

Debater com FHC nesse ambiente movediço traz a angústia das reiterações inúteis. “O velho já morreu”, dizia Gramsci. Mas o novo não consegue nascer.

A quebra do Banco Lehman Brothers completa quatro anos no dia 15 de setembro. A falência do quarto banco de investimento dos EUA rompeu o sistema financeiro mundial e desencadeou a deriva da qual somos passageiros desde 2008. Sugestivamente, na terça-feira, dia 5 de setembro, começa também a convenção do Partido democrata nos EUA, da qual Obama sairá candidato à reeleição.

Visto como esperança de recomeço no terremoto de 2008, o democrata tornou-se também um ponto dentro da curva. Mais tragável que o antecessor ou o adversário, sem dúvida. Mas a nicotina mentolada de que é feito provou-se insuficiente para arejar o quadro asfixiante da maior crise capitalista desde 1929. O ano de 2008 não encontrou seu Roosevelt. E parece cada vez mais improvável que encontre um new New Deal capaz de afrontá-lo a partir do centro rico.

George Soros, o mega-especulador de cuja argúcia não se deve duvidar, declarou em recente entrevista ao El País que teme pelo desfecho político da deterioração em marcha. Sobretudo na Europa, coalhada de governos histericamente ortodoxos. Profundamente pessimista com o futuro do euro, vítima da incapacidade alemã de assumir-se como um “Roosevelt na União Europeia”, Soros, a 20ª maior fortuna do planeta, inquieta-se com os fantasmas que povoam seu ângulo de visão privilegiado. Um pouco como aconteceu depois da Depressão de 1929, ele adverte, o salve-se quem puder será entremeado de nacionalismos econômicos e totalitarismo político.

A margem de manobra se estreita de uma ponta a outra do impasse.

O extremismo mercadista dobrou a aposta neoliberal em sua versão arrocho. O resultado desespera eleitores que se voltaram à direita desde 2008. Espanha, Portugal, Itália, Grécia etc. fazem água e há desemprego por todos os lados. Ninguém leva a sério “os esforços”’ do direitista Rajoy para esfolar a Espanha até o osso, em troca de maior confiança dos mercados. Os mercados tiraram mais de €240 bilhões da economia espanhola só no primeiro semestre deste ano.

Não é exatamente convidativo, tampouco, o horizonte de forças que se opõem à razia conservadora, mas o fazem na margem, sem afrontar o cuore da austeridade suicida. O liquidificador dos interesses contrariados e das expectativas insatisfeitas tende a moê-los com virulência até superior à mastigação lenta dedicada às administrações direitistas.

Na França, o socialista recém-eleito François Hollande vê seu espaço de governo estreitar-se sob duplo torniquete: de um lado, a voz rouca de 3 milhões de desempregados; de outro, pressões do bureau do euro para cortar €33 bilhões do orçamento público.

O ambiente é cada vez mais abafado na sala VIP do mundo. Mas a brisa da esperança que sopra da América Latina tampouco exibe vigor, por enquanto, para fixar uma nova rota de longo curso, à margem do engessamento neoliberal. A AL – Brasil à frente – logrou em pleno colapso preservar baixas taxas de pobreza e desemprego, com alguma retomada de investimento.

Havia a expectativa de que o vendaval da crise pudesse amainar mais depressa devolvendo fôlego a essa travessia lenta e gradual, feita de redistribuição do crescimento com maior convergência de direitos e oportunidades.

A visibilidade dessa zona de conforto político torna-se a cada dia mais opaca.

Tudo indica que os avanços sociais tendem a se tornar mais difíceis. Sobretudo porque, após vitórias significativas contra a pobreza, ir além implica afrontar a desigualdade. Essa requer mudanças estruturais na alocação do estoque da riqueza existente para ser alterada (seja na esfera fundiária, urbana, patrimonial ou financeira).

Não é um mantra ideológico. Que ninguém se iluda com fábulas amenas de retorno a um mundo de desconcentração financeira amigável à produção e ao desenvolvimento. Regulação não significa diluição, mas sim subordinação do capital financeiro aos desígnios da sociedade e seu retorno ao papel de alavanca da produção.

A concentração de capitais – a formação de grandes fundos de recursos – é um traço intrínseco à dinâmica capitalista. Num certo sentido é também uma necessidade da escala de financiamento requerida pelas demandas por infraestrutura, planos de universalização de serviços e direitos, ademais da reordenação ambiental.

Essa agregação de grandes volumes de recursos terá de ser feita por alguém. O colapso neoliberal mostra para onde a coisa caminha quando os mercados ficam livres e capturam o crédito, o financiamento e o juro para estripulias especulativas dissociadas do circuito da produção.

A alternativa com capacidade para fazê-lo de maneira socialmente democrática é o Estado.

O prolongamento da crise exige que ele ocupe espaços crescentes na economia. Sem esse salto político será impossível comandar a retomada do crescimento e colocar os mercados e a serviço da sociedade. Não se cumpre esse papel indutor e planejador sem fundos públicos em escala correspondente.

Segundo o relatório da Cepal, “Mudança estrutural para a igualdade: uma visão integrada do desenvolvimento”, a carga fiscal média vigente na América Latina, de 18% a 19%, trava esse passo.

Na Europa e na América Latina, incluindo-se o caso específico do Brasil, a alavanca fiscal emperrada reflete um flanco mais grave: o desarmamento político das forças sociais que deveriam assumir a tarefa de acionar o papel hegemônico da iniciativa pública. Ou seja, erguer as linhas de passagem para equacionar a crise com uma socialização democrática dos recursos disponíveis.

É o cerne do impasse de que fala Gramsci.

A questão que se coloca aos partidos progressistas é de urgência transparente: quanto tempo o futuro ainda pode esperar antes que manifestações mórbidas, como a de FHC, tentem se impor à sociedade com sua agenda zumbi? A ver.

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