João Pedro Stédile: O golpe no Paraguai foi armação contra o Mercosul

O coordenador do MST afirma que atiradores de elite mataram camponeses e policiais.

Júlio Gardesani, ABCD Maior

O economista João Pedro Stédile, membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), denuncia uma armação que facilitou o golpe que depôs o presidente do Paraguai, Fernando Lugo. Stédile, em visita à região, disse ao ABCD Maior que as balas encontradas nos corpos de camponeses e policiais, após um confronto por terra, foram disparadas por atiradores de elite. Para o dirigente do MST, o objetivo do golpe foi desestabilizar o Mercosul.

ABCD Maior – O conflito agrário que culminou com a morte de policiais e camponeses na divisa com o Brasil foi utilizado pela oposição paraguaia para derrubar o presidente Lugo. O senhor concorda com isso?

João Pedro Stédile – As pessoas precisam ter claro que houve um golpe de estado no Paraguai, que estava preparado pelas oligarquias desde o primeiro dia da posse. Lá, assim como no México, não existe segundo turno. As oligarquias foram surpreendidas com a vitória popular de Lugo. Assim, desde o primeiro dia de governo, as oligarquias tentam depor Lugo de todas as maneiras possíveis. Até o golpe, a direita já tinha registrado 23 tentativas de impeachment. O episódio do conflito de terra, que envolvia trabalhadores sem terra paraguaios, foi na verdade um conflito que muito acontece no Brasil e também na América Latina. O problema foi a armadilha que a oposição a Lugo preparou: durante o processo de despejo, começou a haver tiroteios que pegou a todos de surpresa, policiais e também camponeses, que resultou em 18 mortos. A questão é que as balas que mataram os policiais e os sem terra tinham a mesma origem: rifles de franco-atiradores. O que houve foi uma emboscada. Os atiradores de elite atingiram os dois lados construindo uma comoção nacional, que os órgãos de imprensa multiplicaram por dez e, assim, criaram um clima para o impeachment.

Este golpe deve servir de atenção para outros países da América Latina ou causar instabilidade política na região?

Todas as forças progressistas e democráticas do Brasil devem se preocupar com o que aconteceu no Paraguai. Uma armação da direita mais reacionária possível, que contou com os serviços de inteligência dos Estados Unidos. Independentemente dos governos de plantão, seja Clinton, Bush ou Obama, os Estados Unidos operam de acordo com os interesses do capital norte-americano. Nos últimos quatro anos, os Estados Unidos trabalham sistematicamente para colocar barreiras ao avanço dos governos progressistas na América Latina. Este movimento teve início em países mais frágeis, como Honduras, Equador, Peru e agora no Paraguai. Na verdade, o que ocorreu no Paraguai tinha outro objetivo mais perigoso: debilitar o Mercosul. Vale lembrar que o Senado paraguaio já tinha conseguido barrar a entrada da Venezuela, o que não faz sentido algum, já que ninguém mais precisa tanto do comércio com os países latino-americanos do que o Paraguai. O que eles almejam é frear o Mercosul, que é um contraponto aos acordos bilaterais depois que os Estados Unidos perderam a Alca [Área de Livre Comércio das Américas]. Mas o tiro saiu pela culatra, já que o Brasil, a Argentina e o Uruguai aprovaram a entrada da Venezuela no organismo.

No Paraguai, grandes jornais chegaram a acusar o Brasil de intromissão. Existe imperialismo brasileiro na América Latina?

Sou contrário a usarmos a categoria de que a economia brasileira é imperialista, seja com a Bolívia ou com o Paraguai, pois o conceito de economia política do imperialismo não se aplica ao Brasil. Imperialismo é quando uma economia é tão forte que o país precisa buscar o controle de outros mercados externos. O que ocorre por aqui é que o Brasil ainda é uma economia subordinada a um imperialismo maior. Isso não quer dizer que empresas brasileiras não operam no exterior.

E no Brasil, como estão as discussões sobre a reforma agrária?

A reforma agrária está completamente parada no Brasil. No período Lula ainda houve algumas desapropriações, o que causou uma euforia na base com muitas ocupações e acampamentos. Mas isso não ocorre, infelizmente, no governo Dilma. Entre os motivos está a hegemonia do agronegócio na economia brasileira. Com a crise do capitalismo, ao invés de o agronegócio se fragilizar, ele se fortaleceu. Acabamos tendo um volume muito grande de capital estrangeiro sendo aplicado na agricultura, como nas megaproduções de soja ou etanol. Além disso, o governo Dilma ainda não se deu conta, por estar dominado no segundo escalão por um quadro de tecnocratas, que a reforma agrária é um instrumento poderosíssimo para erradicar a pobreza. Para completar, a mídia burguesa nos faz um combate permanente, que assusta o governo.

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