Moradores de rua protestam contra proibição do sopão em São Paulo

Convite no Facebook para o “sopão da gente diferenciada” na Praça da Sé,
região central de São Paulo, no dia 6 de julho.

Larissa Leiros Baroni

A fila se forma antes mesmo de a van chegar. Alguns esperam ansiosos pela única refeição do dia; outros, mesmo que tenham almoçado, marcam presença como prevenção, já que não sabem o que os espera no dia seguinte. Há ainda aqueles que buscam um alimento quente para a noite fria da capital paulista, característica do inverno. Às 20h30 – em ponto –, os voluntários da Turma da Sopa chegam ao viaduto Condessa de São Joaquim, no centro de São Paulo, para servir cerca de 300 moradores de ruas.

As duas panelas de 50 litros demoraram menos de 40 minutos para acabar. Carne, abobrinha e batata eram alguns dos ingredientes da sopa de legumes, que transbordava seu cheiro por todo o quarteirão. Muitos pegaram a fila mais de uma vez. Teve até moradores que garantiram a marmita do dia seguinte – seja em um pote plástico ou em uma garrafa pet cortada ao meio.

A ação se repete sagradamente das segundas às quintas-feiras há aproximadamente 19 anos, conforme informou o voluntário Fernando Arruda, que coordenou a distribuição nos trabalhos da quinta-feira, dia 28.

Mas essa tradição pode estar ameaçada. A Secretaria Municipal de Segurança Urbana planeja acabar com o sopão nas ruas de São Paulo.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, a distribuição de sopas realizada por 48 instituições nas ruas do centro deverá ser proibida em um prazo de 30 dias. O sopão, de acordo com a proposta, passará a ser distribuído exclusivamente em uma das nove tendas da Prefeitura, conhecidas como espaços de convivência social, que atendem pessoas sem teto na capital.

A notícia, além de ter gerado protestos nas redes sociais e inspirado um “sopaço”, também causou alvoroço entre os moradores de rua. Ao identificarem a presença de nossa equipe no local, muitos – com o prato de sopa na mão – gritavam: “Fora Kassab”. Um deles até compôs uma música em forma de protesto: “Kassab vai para lá; não fica mais cá; em outro vamos ‘votá’“.

Para a aposentada Cecília Pereira dos Santos, 74 anos, o fim do sopão ou mesmo a transferência de sua distribuição seria “uma tragédia”. Ela sai diariamente do Butantã – onde mora sozinha e com apenas um salário mínimo e meio no bolso por mês – para ter direito a sua única refeição “robusta” diária. “Como a sopa e guardo o pão que eles oferecem de complemento para o café da manhã do dia seguinte”, conta ela, que lamenta ao se recordar que a ONG não atua três dias por semana. “Nesses dias? Tento me virar como posso.”

Cecília diz desconhecer o endereço das nove tendas da prefeitura, mas afirma que essa possível transferência deixará muitas pessoas, além de desabrigadas, com fome. “Se for muito longe, para mim vai ser inviável.”

A mesma indignação foi expressa por Priscila dos Santos, 19 anos, que mora na rua há cerca de um ano. “Além de não darem comida para a gente, querem proibir os outros de nos ajudarem?”, questiona ela, que diz comer no Bom Prato quando consegue juntar algum dinheiro, mas “quando estou dura o sopão é que me salva”.

O secretário de Segurança Urbana, Edsom Ortega, segundo publicação da Folha de S.Paulo, afirmou querer atrair os moradores de rua para os abrigos, que chegam a ter 2.800 vagas ociosas em alguns períodos do ano. Ao ser informada desta explicação, Priscila soltou uma gargalhada e disse: “Muitas vezes já fui procurar vaga em um albergue e ouvi dizer que o local estava cheio, mesmo sabendo de pessoas de dentro que estava vazio”, relata a moradora de rua.

Posição da prefeitura

Na quinta-feira, dia 28, depois da repercussão negativa da iniciativa, a Prefeitura divulgou uma nota na qual afirmou que a distribuição de alimentos não será proibida, apenas restrita.

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