WikiLeaks: Por que o caso Assange é crucial

John Pilger e Julian Assange

Via Outras Palavras

Em 30 de maio, a Suprema Corte do Reino Unido recusou o apelo final de Julian Assange contra sua extradição para a Suécia. Em um movimento sem precedentes, a corte cedeu à equipe do editor do WikiLeaks a permissão de entrar com recurso em duas semanas. Na véspera do julgamento, o jornal sueco Dagens Nyther entrevistou o repórter, escritor e documentarista John Pilger, que vem acompanhando de perto o caso Assange. A seguir a entrevista completa, que teve apenas uma parte publicada na Suécia.

Julian Assange vem lutando contra a extradição para a Suécia em inúmeras cortes britânicas Por que você acha importante sua vitória?

John Pilger: Porque a tentativa de extraditar Assange é injusta e politica. Eu li todas as provas deste caso e é claro, em termos de justiça factual, que não houve nenhum crime. O caso não teria chegado tão longe se não fosse pela intervenção de Claes Borgstrom, um político que viu uma oportunidade quando o promotor de Estocolmo descartou quase todas as acusações. Borgstrom estava no meio de uma campanha eleitoral. Quando questionado por que o caso estava interessado em levar adiante o caso, se as duas mulheres disseram que o sexo [com Julian Assange] tinha sendo consensual, ele respondeu: “Ah, mas elas não são advogadas.” Se a Suprema Corte inglesa rejeitar o recurso, a única esperança será a independência dos tribunais suecos. No entanto, como revelou o jornal britânico Independent, Estocolmo e Washington já começaram as discussões sobre a “entrega temporária” de Assange aos EUA – onde ele enfrentará duvidosas acusações e a perspectiva de confinamento solitário ilimitado. E por quê? Por dizer verdades épicas. Cada sueco que se preocupa com a justiça e a reputação de sua sociedade deveria se preocupar profundamente com isso.

Você disse que os direitos humanos de Julian Assange foram violados. De que maneira?

John Pilger: Um dos direitos humanos mais fundamentais – da presunção de inocência – foi violado repetidas vezes no caso Assange. Não condenado por crime algum, ele tem sido vítima de assassinato de reputação — pérfida e desumana — e de difamação política, da qual há fartas evidências. Eis o que o advogado britânico mais destacado e experiente em direitos humanos, Gareth Peirce, escreveu: “Dada a extensão da discussão publica, muitas vezes embasada em pressupostos totalmente falsos (…) é muito difícil preservar para [Assange] qualquer presunção de inocência. Paira sobre ele não apenas uma, mas duas espada de Dâmocles de extradição, que podem entregá-lo a duas jurisdições diferentes. Por dois crimes supostos, nenhum dos quais é crime em seu próprio país. E sua segurança pessoal tornou-se um risco, nas circunstâncias em que é acusado.

Você, assim como Julian Assange, parece não ter confiança no sistema judicial sueco. Por quê?

John Pilger: É difícil ter a confiança num sistema acusatório tão contraditório que usa flagrantemente a mídia para atingir seus objetivos. Pronuncie-se não a Suprema Corte inglesa a favor ou contra Assange, o fato de este caso ter chegado à mais alta instância deste país é, por si só, uma condenação à competência e da motivação daqueles que esperam impacientemente aprisioná-lo, depois de já ter tido muitas oportunidades para questioná-lo corretamente. Que desperdício é tudo isso.

Se Julian Assange é inocente, como ele diz, não teria sido melhor se ele tivesse ido a Estocolmo para resolver as coisas?

John Pilger: Assange tentou “resolver as coisas”, como você coloca. Desde o início, ele ofereceu-se várias vezes para ser interrogado – primeiro na Suécia, em seguida no Reino Unido. Solicitou e recebeu a permissão para deixar a Suécia. Portanto, não faz sentido alegar que ele evitou o interrogatório. A promotoria que desde então o persegue recusou-se a dar qualquer explicação sobre o porquê de não ter feito os procedimentos-padrões, que a Suécia e o Reino Unido adotam.

Se a Suprema Corte decidir que Julian Assange pode ser extraditado para a Suécia, que consequências e riscos você vê para ele?

John Pilger: Primeiro, gostaria de chamar atenção para minhas observações sobre o senso comum sueco de equidade e justiça. Ele está infelizmente ofuscado pela elite sueca, que forjou ligações sinistras e obscuras com Washington. Essas pessoas poderosas têm todos os motivos para ver Assange como uma ameaça. Por um motivo: sua alardeada reputação de neutralidade foi repetidamente exposta como fraude, nos documentos norte-americanos vazados pelo WikiLeaks. Um documento revelou que “a extensão da cooperação [militar e de inteligência da Suécia com a Otan] não é amplamente conhecida” e, a menos que se mantenha secreta “tornaria o governo vulnerável à crítica interna”. Outro documento foi intitulado “WikiLeaks coloca a neutralidade na lata do lixo da história”. O público sueco não tem direito de saber o que os poderosos dizem secretamente em seu nome?

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