Juíza de Curitiba proíbe visita de médico de Lula

26 de abril de 2018

Via Jornal GGN em 25/4/2018

A juíza Carolina Lebbos proibiu que Lula recebesse a vista de seu médico na sede da PF. A visita não era social, era para exames de rotina já que Lula tem 72 anos e já passou por um câncer. É rotineiro na vida do ex-presidente as visitas ao seu médico para passar por exames clínicos, o que não acontece desde que foi preso em Curitiba.

A juíza está se aprimorando. Já proibiu visitas de amigos e de autoridades e lideranças políticas. Proibiu a presidente Dilma Rousseff, o Nobel da Paes Adolfo Pérez Esquivel, Leonardo Boff, além de uma comissão de deputados. Ela é responsável pela Vara de Execução Penal a que Lula está submetido. A proibição se deu hoje, dia 25, e foi denunciada pelo deputado federal Paulo Pimenta (PT/RS), líder da bancada do PT na Câmara.

No despacho, a juíza negou a entrada do médico na sede da PF, argumentando que “não há indicação de urgência”. Ela desconsiderou o pedido da defesa que argumentou que outros presos ali na sede da Polícia Federal recebem periodicamente a visita dos médicos por eles indicados.

Paulo Pimenta, da tribuna da Câmara, pergunta: “quem é a juíza para decidir se alguém tem o direito ou não de receber a visita de um médico?”. Pimenta e outras lideranças políticas denunciam sem descanso o confinamento e isolamento a que Lula está sendo submetido e como vem sendo tratado de maneira diversa a outros presos no mesmo local.

Lula está na sede da PF de Curitiba desde o dia 7 de abril.

STJ aceita ação contra desembargadora que atacou Marielle e Wyllys

26 de abril de 2018

A desembargadora também espalhou fake news sobre a vereadora Marielle Franco.

A ministra Nancy Andrighi acatou a queixa-crime movida contra Marília Castro Neves por pedir “paredão de fuzilamento” contra deputado.

Via CartaCapital em 25/4/2018

O Superior Tribunal de Justiça aceitou uma queixa-crime apresentada pelo deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ) contra a desembargadora Marília Castro Neves, 20ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que pediu um “paredão de fuzilamento” em suas redes sociais contra o parlamentar.

Em despacho, a ministra Nancy Andrighi reconhece a queixa-crime contra a desembargadora pela prática do crime de injúria majorada. A magistrada determinou um prazo de 15 dias para Neves se manifestar sobre o caso. A intimação já foi disponibilizada ao Ministério Público Federal. O advogado responsável pelo caso é o deputado petista Wadih Damous.

Em suas redes sociais, a desembargadora espalhou notícias falsas sobre a vereadora do PSOL Marielle Franco, assassinada em 14 de março, ao afirmar que ela estaria “engajada com bandidos”. Neves afirmou ainda que a parlamentar foi “eleita pelo Comando Vermelho”.

Em seguida, ao comentar uma outra publicação no Facebook, ela defendeu um “paredão profilático” para Wyllys. Ela disse que o parlamentar não valeria “a bala que o mate e o pano que limpe a lambança”, e ainda fez uma piada homofóbica em seguida. Após outro usuário afirmar que “quanto ao paredão, de costas, ele adoraria”, Neves afirmou: “Tenho dúvidas… o projétil é fininho”.

Histórico de agressões
Não é de hoje que a desembargadora utiliza as redes sociais para divulgar sua ignorância. Certa vez, ela tripudiou de uma professora portadora de Síndrome de Down. “O que será que essa professora ensina a quem??? Esperem um momento que eu fui ali me matar e já volto”.
Ela também costuma fazer pouco caso de questões como assédio sexual e direitos das minorias. Em 2015, ele criticou mobilizações relacionadas às pautas. “Assédio sexual é o quê? Paquera no trabalho???? Francamente!!!! Será que não temos nada mais importante pelo que lutarmos???? Uma pia de louça para lavarmos???”, escreveu. Na mesma publicação, questionou o que seriam as chamadas “minorias” e defendeu que as mulheres são “numericamente superiores aos homens”.

A desembargadora já afirmou também que o líder negro Zumbi dos Palmares é um “mito inventado”, que serviria para “estimular um racismo que o Brasil até então não conhecia”.

Em outra oportunidade, já questionou em suas redes sociais o conceito de social-democracia. Ela disse que “custa a crer que seres letrados sequer considerem a existência disso”. Segundo ela, ou é social ou é democracia porque “socialistas veneram a ditadura”.

Polícia Federal mostra que não aprendeu nada com o suicídio de ex-reitor da UFSC

26 de abril de 2018

Família, amigos, colegas de trabalho e a sociedade que acompanharam a tragédia pelo noticiário ficaram, hoje, sabendo de 23 indiciados e se perguntaram: e contra o Cancellier, existiu algo de fato? E tudo o que os investigadores divulgam é que o ex-reitor só não foi indiciado porque já não pode mais ser eventualmente alcançado pela Justiça.

Cíntia Alves, via Jornal GGN em 25/4/2018

Sete meses se passaram desde a deflagração espetaculosa da Operação Ouvidos Moucos, que acabou levando ao suicídio o ex-reitor da UFSC Luiz Carlos Cancellier, após ter sido preso sem provas. E a Polícia Federal decidiu mostrar que aprendeu muito pouco ou mesmo nada com aquele episódio que chocou o País e trouxe à tona um debate sobre abuso de poder.

Na quarta-feira, dia 25/4, o Diário Catarinense informou que a PF, enfim, apresentou um relatório indiciando 23 pessoas por suposto desvio de verbas de um programa de educação à distância.

Os erros começam por aí.

O relatório da PF não está completo e tampouco foi divulgado com transparência. O delegado do caso prometeu uma segunda versão com os valores e detalhes do esquema. Até lá, alguns veículos de imprensa foram abastecidos apenas com o nome dos indiciados e um pequeno resumo das suspeitas em torno de cada um.

Cancellier só não figura na lista porque, segundo a PF, o suicídio resultou na “extinção da punibilidade”. Sim. Esta é a única informação a respeito do ex-reitor no contexto dessa fase da investigação.

Família, amigos, colegas de trabalho e a sociedade que acompanharam a tragédia pelo noticiário ficaram, hoje, sabendo de 23 indiciados e se perguntaram: e contra o Cancellier, existiu algo de fato? O que a polícia tinha contra ele? E tudo o que os investigadores divulgam é que ele não foi indiciado porque já não pode mais ser eventualmente alcançado pela Justiça.

Não é menos questionável o modo como se deu a notícia do indiciamento do filho de Cancellier, Mikhail.

Segundo o G1, Mikhail Vieira de Lorenzi Cancellier foi indiciado porque “não soube explicar a origem de R$7.102 transferidos para sua conta por Gilberto Moritz, recursos que foram oriundos do projeto Especialização Gestão Organizacional e Administração em RH, que era coordenado por Luiz Carlos Cancellier de Olivo, que também ordenou a despesa do projeto”.

Neste pequeno trecho, a PF não se preocupou em dizer quais elementos provam que o depósito de R$7 mil tem origem espúria. Dizer que os recursos foram “oriundos do projeto Especialização em Gestão Organizacional e Administração em RH” não explica como o valor pode ser considerado ilícito.

Mais do que indiciar o filho de Cancellier na imprensa sem apontar o crime, a PF agiu como se o investigado tivesse o dever de provar que é inocente. É isto que se entende quando alguém é indiciado porque “não soube explicar um depósito”. A lei, ao contrário disso, diz que esse ônus é de quem acusa.

A advogada de Mikhail disse que o indiciamento foi uma “surpresa” e que ainda faltam “maiores documentações” na investigação da Polícia Federal.

Outros advogados apontaram ao Diário Catarinense que o relatório da Polícia Federal pode conter de erros ou até mesmo ser parcial.

O defensor de Rogério Nunes, ex-coordenador do núcleo UAB (Universidade Aberta do Brasil) na USFC, afirmou que o indiciamento está “incompleto”, “com apenas um pedaço das coisas.”

Ele explicou que os professores não estão associados em quadrilha, mas sim reunidos em grupos de pesquisa que recebem dinheiro do programa de estudos quando têm um projeto.

Outro advogado, que atua em favor do dono de uma empresa de transporte acusada de superfaturar serviços afirmou que houve “pouca compreensão” por parte da PF quanto ao que foi relatado por seu cliente.

A maioria dos indiciados não se manifestou sobre o indiciamento. Todos agora estão expostos em jornais, na TV e na internet, num momento do jornalismo em que suspeitas, mesmo que não detalhadas, imperam nas manchetes.

Com um ex-colega morto num ato político e desesperado contra a espetacularização das investigações da PF, os indiciados deveriam ao menos ter direito a um relatório completo e uma divulgação transparente, pois o contrário disso é que arrasta o psicológico para o fundo do poço. Sem essa sensibilidade, a PF mostra que perdeu mais uma oportunidade de aprender com os próprios erros.

Eleitorado paulista quer Lula nas eleições: Sem ele, 26% votará branco ou nulo, diz Ibope

26 de abril de 2018

Via Jornal GGN em 25/4/2018

O eleitorado de São Paulo, conhecido por ser reduto tucano, mais uma vez mostra-se conservador para as escolhas à Presidência da República: Jair Bolsonaro (PSL) figurando em primeiro lugar, seguido do governador Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede) e Joaquim Barbosa (PSB). Isso se fosse excluída a opção Lula: caso contrário, também em São Paulo o petista é a preferência de 20% dos eleitores.

A pesquisa foi feita pelo Ibope, por encomenda da Band, e em boa parte de seus questionamentos excluiu Lula dos candidatos à Presidência nas eleições 2018. Sem Lula, não há grande expressividade para os postulantes da direita: Bolsonaro alcança 16% das intenções e Alckmin 15%. Marina aparece com 11% e Joaquim Barbosa (PSB) com 9%.

No caso de excluir Lula, o Ibope selecionou como “alternativa” do PT o ex-prefeito Fernando Haddad. Sem campanhas e sem falas do próprio diretório nacional do partido, Haddad surge com 3%, atrás das intenções daqueles que votariam em Ciro Gomes (PDT), com 4%. Neste mesmo cenário hipotético sem Lula, Michel Temer recebe 2% das intenções de votos do eleitorado paulista.

E uma boa parcela dos entrevistados, 26%, indica que irá votar nulo ou em branco, se forem estas (sem Lula) as opções de candidatos nas urnas deste ano.

Quando o ex-presidente aparece como candidato, dois cenários o colocam na liderança de 20% a 22% das intenções de votos. Atrás aparecem Alckmin e Bolsonaro, empatados com 14% ou com uma distância de dois pontos percentuais.

As entrevistas foram feitas com 1.008 pessoas do Estado de São Paulo, entre os dias 20 e 23 de abril, pelo Ibope, por ecnomenda da TV Bandeirantes. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais e para menos.

Abaixo, os números com Lula e depois sem Lula.

COM LULA E MEIRELLES
Luiz Inácio Lula da Silva (PT): 20%
Jair Bolsonaro (PSL): 14%
Geraldo Alckmin (PSDB): 14%
Joaquim Barbosa (PSB): 9%
Marina Silva (Rede): 9%
Ciro Gomes (PDT): 4%
Álvaro Dias (Podemos): 2%
João Amoêdo (Novo): 1%
Flávio Rocha (PRB): 1%
Rodrigo Maia (DEM): 1%
Manuela D’Ávila: 1%
Fernando Collor de Mello (PTC): 1%
Levy Fidélix (PRTB): 1%
Aldo Rebelo (Solidariedade): 0%
Guilherme Boulos (PSOL): 0%
Henrique Meirelles (MDB): 0%
Paulo Rabello de Castro (PSC): 0%
Brancos e nulos: 18%
Não sabem: 4%

COM LULA E TEMER
Luiz Inácio Lula da Silva (PT): 22%
Jair Bolsonaro (PSL): 14%
Geraldo Alckmin (PSDB): 12%
Marina Silva (Rede): 9%
Joaquim Barbosa (PSB): 8%
Ciro Gomes (PDT): 3%
Álvaro Dias (Podemos): 2%
João Amoêdo (Novo): 1%
Guilherme Boulos (PSOL): 1%
Flávio Rocha (PRB): 1%
Rodrigo Maia (DEM): 1%
Manuela D’Ávila (PCdoB): 1%
Michel Temer (MDB): 1%
Aldo Rebelo (Solidariedade): 0%
Fernando Collor de Mello (PTC): 0%
Levy Fidélix (PRTB): 0%
Brancos e nulos: 19%
Não sabem: 5%

SEM LULA, COM HADDAD E TEMER
Jair Bolsonaro (PSL): 16%
Geraldo Alckmin (PSDB): 15%
Marina Silva (Rede): 11%
Joaquim Barbosa (PSB): 9%
Ciro Gomes (PDT): 4%
Fernando Haddad (PT): 3%
Álvaro Dias (Podemos): 2%
Michel Temer (MDB): 2%
Aldo Rebelo (Solidariedade): 1%
Manuela D’Ávila (PCdoB): 1%
Rodrigo Maia (DEM): 1%
Levy Fidélix (PRTB): 1%
João Amoêdo (Novo): 0%
Guilherme Boulos (PSOL): 0%
Flávio Rocha (PRB): 0%
Fernando Collor de Mello (PTC): 0%
Paulo Rabello de Castro (PSC): 0%
Brancos e nulos: 26%
Não sabem: 7%

SEM LULA, COM HADDAD E MEIRELLES:
Jair Bolsonaro (PSL): 15%
Geraldo Alckmin (PSDB): 15%
Marina Silva (Rede): 12%
Joaquim Barbosa (PSB): 10%
Ciro Gomes (PDT): 6%
Fernando Haddad (PT): 3%
Álvaro Dias (Podemos): 2%
Henrique Meirelles (MDB): 1%
Aldo Rebelo (Solidariedade): 1%
Flávio Rocha (PRB): 1%
João Amoêdo (Novo): 1%
Levy Fidélix (PRTB): 1%
Manuela D’Ávila (PCdoB): 1%
Rodrigo Maia (DEM): 1%
Guilherme Boulos (PSOL): 0%
Fernando Collor de Mello (PTC): 0%
Paulo Rabello de Castro (PSC): 0%
Brancos e nulos: 25%
Não sabem: 5%

No outono, Aécio ficou só, enquanto Dilma era aplaudida no Brasil e no exterior

26 de abril de 2018

Aécio Neves experimenta hoje sua maior solidão, sua ruína era anunciada.

Mário Magalhães, via The Intercept Brasil em 25/4/2018

O escritor e jornalista Gabriel García Márquez bronqueava com títulos jornalísticos que parafraseiam títulos de livros dele. O colombiano depreciava-os como um velório da criatividade. No princípio, vá lá, talvez soassem como sacadas espertas as variações em torno de Cem anos de solidão, Crônica de uma morte anunciada, O general em seu labirinto e Ninguém escreve ao coronel (tradução da edição brasileira, com inversão do sujeito, melhor do que o original em castelhano El coronel no tiene quien le escriba). Logo as citações se repetiram demais, quedaram previsíveis, senilizaram.

Aécio Neves experimenta hoje sua maior solidão, sua ruína era anunciada, o senador agoniza em seu labirinto, quase ninguém lhe escreve ou procura-o. Mas seria mediocridade abusiva apelar no título ao clichê maldito por Gabo. Lembrei-me de outras obras, dos anos 1960, embora com personagens principais sem semelhanças com o candidato presidencial sobrepujado em 2014: o filme de faroeste E o bravo ficou só, com Charlton Heston, e o livro Em agosto Getúlio ficou só, de Almir Matos.

Aécio nunca estivera só. Raros figurões do poder foram tão adulados no Brasil do século 21 quanto ele. Sem que o senador tenha sofrido condenação judicial, nem em primeira instância, os bajuladores se escafederam. Alguns, também no jornalismo, reeditaram um expediente maroto para copidescar suas biografias: quanto mais adocicada a sabujice de outrora, mais acres são as críticas quando os fatos se impõem.

Em 17 de abril, a 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal tornou Aécio Neves réu pelos alegados crimes de corrupção passiva e obstrução de Justiça. O senador defendeu-se: “Estou sendo processado por ter aceitado um empréstimo de um empresário, portanto recursos privados, de origem lícita, para pagar os meus advogados. Não houve dinheiro público envolvido, ninguém foi lesado nessa operação”.

Na entrevista, não sobressaíram palavras, e sim a imagem melancólica: o abandono do neto de Tancredo por seus correligionários. Nenhum papagaio conhecido pousou em seus ombros, nenhum tucano de plumagem vistosa posou ao seu lado. Nem a tintura capilar renovada disfarçou a perda de viço de Aécio. Ele ficou só.

Na saída do plenário do Senado, o peessedebista Ricardo Ferraço esquivou-se do antigo candidato cuja campanha coordenara quatro anos atrás no Espírito Santo: “Os fatos são extremamente graves. O Supremo julgou adequadamente”. Outros senadores tucanos se alhearam do acusado. “Este é um assunto privado do senador Aécio Neves e nada tem a ver com o partido”, driblou Roberto Rocha, do Maranhão. Ataídes Oliveira, do Tocantins, bisou a ladainha: “É um problema pessoal do senador Aécio”.

Nenhum tiro teve calibre tão alto como o do ex-governador Geraldo Alckmin. O virtual concorrente do PSDB à Presidência disparou, ao abordar possível postulação eleitoral do réu: “Claro que o ideal é que não seja candidato, é evidente”. Sem mandato parlamentar, Aécio perderia o escudo do STF, cuja lerdeza para julgar volta e meia se confunde com salvo-conduto.

Cusco moribundo
A abertura da ação penal contra Aécio prestou-se a argumento para a propaganda de que a Justiça não distinguiria colorações políticas, seria igual para todos. O pau que dá em Chico (Lula) daria em Francisco (Aécio). Mera ilusão.

Ao receber a denúncia do Ministério Público Federal, o STF feriu, se não um cachorro morto, um cusco moribundo. Desde a delação de donos e executivos do grupo controlador da Friboi, Aécio fora descartado para corridas de fundo. Sua ambição passou a ser escapar do xilindró. Já não era protagonista.

Dilma Rousseff, ao contrário, ocupava a Presidência ao ser deposta pelo Legislativo com a cobertura escancarada do Judiciário. O Supremo assegurou Eduardo Cunha na Câmara até que o muso, cara e coração do impeachment consumasse o golpe. O STF vetou a última cartada política e administrativa de Dilma – a nomeação de Lula como ministro – para permanecer no cargo para o qual havia sido ungida por sufrágio popular. Dilma presidente não equivale a Aécio decaído.

É improcedente a comparação de Lula, objeto de condução coercitiva ordenada por Sérgio Moro, com Aécio, tipo imune a conduções coercitivas e dado a confraternizar em público com o juiz de Curitiba. O ex-presidente foi preso no momento em que as pesquisas de opinião o reconheciam como favorito na eleição de outubro ao Planalto.

São animais distintos o que esbanja saúde e late altivo e aquele anêmico, desamparado como cão sarnento até por velhos companheiros. Sem falar na ausência de provas convincentes no processo de Lula. Parte da imprensa que endossou sentença e acórdão agora se refere ao “triplex atribuído a Lula”. Antes, bancava sem cerimônia que o proprietário do imóvel do Guarujá é ou era o ex-presidente. Ato falho ou copidesque de biografia?

É Alckmin quem está no jogo do qual Aécio foi eliminado, a despeito de medida amiga do STF em 2017, com voto de desempate da ministra Cármen Lúcia. O presidente nacional do PSDB e ex-governador de São Paulo expõe a vida como ela é. Executivos da Odebrecht narraram que a empresa presenteou Alckmin com R$10,7 milhões. Se o padrão adotado com petistas prevalecesse, o dito “Santo” das planilhas da empreiteira seria alvo da operação Lava-Jato.

Mas a Procuradoria Geral da República recomendou que o caso fosse classificado como eventual crime eleitoral – caixa 2 –, legalmente menos grave que propina. A PGR combateu o habeas corpus que impediria a prisão de Lula antes do esgotamento dos recursos no processo do triplex. O Superior Tribunal de Justiça decidiu que a investigação sobre o suposto agrado da Odebrecht deve correr, para gáudio de Alckmin, na Justiça Eleitoral.

Tucanos e petistas conservam identidades em muitas bandalheiras, mas não nos modos como o Judiciário os trata.

Aeroporto de Cláudio
Ao dar o chega-pra-lá em Aécio, Alckmin balaqueou: “Somos bem diferentes do PT”. Trocando em miúdos, o PSDB não transigiria com trambiques. Para dar razão ao postulante presidencial, seria necessário ignorar a campanha de 2014. Em julho daquele ano, o repórter Lucas Ferraz revelou as tramoias no uso do aeroporto de Cláudio, município de Minas. Como reagiram os tucanos? Negando as irregularidades bandeirosas e incensando Aécio.

Mais atrás, a reeleição de Fernando Henrique Cardoso em 1998 havia sido possível graças à compra de votos de deputados para referendar a emenda constitucional que liquidou o mandato único de presidente.

Quem inaugurou o mensalão foi o PSDB, pioneiro no esquema que o PT expandiria e azeitaria. Só agora, duas décadas depois do toma-lá-dá-cá, e onze após a primeira acusação formal do Ministério Público, chega ao fim o processo contra Eduardo Azeredo. Com Lula, a Justiça foi Senna. Com o ex-governador, Rubinho. Certo jornalismo chama um mensalão de mineiro, e não tucano, e o outro de petista. A seletividade não é exclusiva de juízes.

Há quem se queixe da falta de informações anteriores sobre o comportamento de Aécio. Como se os relatos sobre o aeródromo de Cláudio e outros episódios obscuros não tivessem sido divulgados em 2014. Muita gente só lê, ouve e vê o que quer.

Tinha sido assim no tempo de Fernando Collor de Mello candidato e presidente. Quando as manchetes estamparam a ladroagem gerenciada por Paulo César Farias, uma turma choramingou: como se poderia saber antes quem de fato era Collor? Hipocrisia. Na campanha de 1989, a repórter Elvira Lobato escrutinara as jogadas colloridas em Alagoas. Não faltou aviso.

O infortúnio de Aécio tem sabor mais apimentado porque gravações em áudio e vídeo documentaram as armações. Em março do ano passado, no Hotel Unique, em São Paulo, o senador catou R$2 milhões com o empresário Joesley Batista. Indicou, para buscar o dinheiro, seu primo Frederico Pacheco de Medeiros. “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação”, disse o tucano. Não falaram em transferência bancária convencional. A Polícia Federal filmou a entrega de R$500 mil em notas de R$50.

Depois de Aécio ser declarado réu, o acerto filmado pareceu marola diante da ressaca de novidades. De acordo com Osmar Serraglio, ex-ministro da Justiça, o tucano pressionou pela nomeação de determinado delegado federal para apurar o caso. Joesley informou ter desembolsado por dois anos um mensalinho de R$50 mil a Aécio. Registrou que na campanha de 2014 lhe repassara R$110 milhões. Um chefão da Andrade Gutierrez afirmou que bolaram um contrato com empresa de amigo do senador, no valor de R$35 milhões, para transferir recursos a Aécio. Marcelo Odebrecht teria mimoseado o ex-presidente do PSDB com R$50 milhões, ofertados por duas construtoras.

Lula insurgiu-se contra a acusação no processo do triplex, foi condenado, e multidões o defendem com gritos de “Lula livre!”. Aécio sustenta que pediu empréstimo pessoal ao capo da JBS, e ninguém o acode, apesar de ele não ter sido nem julgado. Os partidários de um creem em inocência. Os de outro, não. Devem ter seus motivos.

“A culpa não é minha: eu votei no Aécio”.
O destino pregou outra peça, ao tornar Aécio réu exatos dois anos depois da sessão da Câmara que deu sinal verde para o impeachment de Dilma. O obsceno 17 de abril de 2016 em que torturador da ditadura foi homenageado por deputado opositor da presidente torturada na ditadura. A moldura da memória enquadra naquele domingo o sorriso mais arrebatado de Eduardo Cunha. E, nas ruas daquela época, o retrato da faixa “Somos milhões de Cunhas”.

No maio seguinte, na guilhotina montada no Senado, Aécio discursou pelo “Fora, Dilma” e enfatizou valores como “ética” e “correção na gestão da coisa pública”. O mesmo Senado que derrubou Dilma por “pedaladas fiscais” preservou Aécio depois das gravações pornográficas permitidas por Joesley e cupinchas.

Num protesto pelo impeachment, em Belo Horizonte, o senador bravateara: “Basta de tanto descompromisso com a verdade!”. Noutra manifestação, Ronaldo Fenômeno vestiu a camiseta com a inscrição “A culpa não é minha: eu votei no Aécio”.

Em 2014, Aécio se apresentara “resgatando a ética na política”. Ao seu lado, a senadora Ana Amélia o aclamou como “nosso presidente”. Romário paparicou-o como quem “vai lutar pela moralização do esporte”. Bernardinho louvou a luta “por ideais”. Raimundo Fagner elogiou-o como “um brasileiro que gosta do Brasil”. Jair Bolsonaro desfilou com adesivo pró-Aécio no peito. Luciano Huck juntou-se ao candidato para acompanhar a contagem dos votos. Ainda na campanha, o senador encenou: “O nosso presente tem sido uma coleção de decepções”.

No segundo turno, a ex-ministra Marina Silva associou-se a Aécio. Com o adesivo de número 45 colado na roupa, ela anunciou a adesão e ouviu o candidato apregoar “transformação de valores”, “de postura”. Trocaram beijos no rosto, Aécio beijou-lhe as mãos.

Marina disse dias atrás que, em 2014, “muitos candidatos disputavam não a Presidência, mas o comando de uma organização criminosa”. Sobre o processo relativo à delação da JBS, FHC assinalou, num carinho que não mitiga a solidão política do novo réu: “A citação diz respeito ao que se deu na esfera privada. […] No caso do Aécio, pegou dinheiro emprestado”. O ex-presidente qualificou como justa a prisão de Lula. Da maioria do caudaloso séquito aecista na campanha presidencial e na agitação pró-impeachment, escutou-se o silêncio.

Quatro dias depois da reeleição de Dilma, o PSDB questionava a legalidade do triunfo. Em 30 de outubro de 2014, o partido recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral requerendo “auditoria especial” na contagem dos votos. No sábado seguinte ao domingo da eleição, manifestantes reivindicaram impeachment e, uma parcela deles, “intervenção militar”. Em 2016, aclamaram Aécio como um grande vitorioso. A maior derrotada foi Dilma.

Balanço sincero da história
Enquanto Aécio caminha para o cadafalso, se a Justiça camarada não o socorrer, Dilma é ovacionada por milhares de pessoas em manifestações no Brasil. Pelo “fora, Temer”, contra a cadeia para Lula, pela revogação da prisão. Sua “honorabilidade está intacta”, escreveu o jornalista Elio Gaspari, no que não é balanço do governo da ex-presidente, mas constatação de decência.


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