STF notifica ministro da Educação a se explicar sobre “brasileiro canibal”

16 de fevereiro de 2019

O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez. Foto: Ernesto Rodrigues/Estadão.

Ana Carla Bermúdez, via UOL em 14/2/2019

A ministra Rosa Weber, do STF (Supremo Tribunal Federal), mandou notificar o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, a prestar esclarecimentos, caso queira, sobre uma entrevista dada por ele à revista Veja. O prazo estabelecido por ela é de dez dias.

Na entrevista, o ministro Véles Rodríguez disse que “o brasileiro viajando é um canibal”.

[O brasileiro] rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola.

A decisão de Rosa é de segunda-feira [11/1], mas só foi tornada pública ontem [13/2]. Ela atende a um pedido do advogado Marcos Aldenir Ferreira Rivas, que apresentou uma interpelação judicial contra Vélez Rodríguez no STF, acusando-o de ter cometido os crimes de calúnia e difamação.

“As acusações do senhor Vélez, além de demonstrarem que dito alienígena não é merecedor da naturalização brasileira que lhe foi concedida, muito menos o é de ser ministro de Estado da Educação, que é, sem dúvida, o mais importe Ministério do Governo Federal, na medida que sobre este órgão repousa a competência para tomar as decisões que influenciarão as futuras gerações dos brasileiros”, escreveu o advogado.

“Evidente que as palavras do Interpelado [Vélez Rodríguez], ainda que utilizadas no singular e propositadamente de forma genérica (o brasileiro viajando) deixam dúvida sobre qual brasileiro especificamente se refere, que além da absoluta falta de moral e cívica, as quais diz ele querer implantar nas escolas brasileiras, dito indivíduo imputa por duas vezes conduta tipificada como crime”, disse ainda na petição apresentada ao STF.

Procurado pelo UOL, o MEC informou que Vélez Rodríguez responderá assim que for notificado, o que, segundo a pasta, não aconteceu até o momento.

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“Brasileiros viajando são ladrões e canibais”: Mais do que demitido, ministro da Educação deveria ser expulso do Brasil

“Publicidade macabra”: Violência no RJ explode um ano após intervenção federal

16 de fevereiro de 2019

O decreto que impôs a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro está completando um ano; R$1,2 bilhões foram investidos, mas resultados foram pífios, violência segue em alta e poder das milícias foi amplificado.

Ivan Longo, ia Revista Fórum em 15/2/2019

O decreto assinado por Michel Temer que impôs a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro completa(ou), no sábado [16/2], um ano. Mas não há nada o que comemorar pelo aniversário.

Entre fevereiro e dezembro de 2018, sob o comando do general interventor Braga Neto, militares das Forças Armadas e policiais militares protagonizaram um verdadeiro espetáculo publicitário que custou muitas vidas e não cumpriu o seu propósito: reduzir a violência e o poder do crime organizado no estado.

“Tratou-se de um comercial macabro, publicitário, que visava produzir resultados eleitorais”, disse, em entrevista à Fórum, a especialista em Segurança Pública e pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jacqueline Muniz.

Na quarta-feira [11/2], dia em que se completaram 11 meses do assassinato – ainda sem respostas – de Marielle Franco, o Observatório da Intervenção, entidade criada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC/Ucam), divulgou um relatório em que faz um balanço completo dos resultados da presença das Forças Armadas no Rio de Janeiro ao longo do ano passado.

Os indicadores elucidam que a intervenção praticamente não trouxe benefícios, não conseguiu apresentar resultados positivos e fez alguns indicadores de violência explodirem – bem como amplificou e espalhou o poder das milícias e do crime organizado.

A conclusão do Observatório trazida pelo relatório é que a intervenção federal é uma experiência que não deve ser repetida em nenhum outro lugar do Brasil.

“A intervenção foi uma tentativa cara e inócua de mudar um contexto complexo, usando táticas antigas ao invés das reformas estruturais e políticas inovadoras que seriam necessárias. É, claramente, um modelo que não deveria ser repetido em outras situações de crise no Brasil”, afirma a coordenadora do projeto, a cientista social Silvia Ramos.

Aos dados
O general interventor, em dezembro, comemorou o fim da intervenção e afirmou que o sentimento era de “missão cumprida”. A alegria do militar se deve a um resultado pífio: as mortes violentas durante a intervenção federal, de acordo com o Observatório, foram reduzidas em meros 1,7% com relação ao mesmo período do ano anterior. Esse é o melhor resultado que a iniciativa conseguiu alcançar. E mesmo assim há nuances: enquanto no geral as mortes violentas foram reduzidas, no interior do estado houve uma explosão: um aumento de 15,8%. Ou seja, a criminalidade apenas se espalhou.

“Se a questão era o enfrentamento ao chamado crime organizado, não se mudou esse status quo. Na verdade, o que houve foi uma redistribuição. Se tirou um território que era do Comando Vermelho e deu para a milícia. O que se assistiu foi uma dança das cadeiras, redesenhando um novo tratado de Tordesilhas no Rio de Janeiro”, analisa Muniz, que detalhou o que chama de “tratado de Tordesilhas” no estado em uma entrevista concedida à Fórum em julho do ano passado.

Superado o ambíguo dado de redução das mortes violentas, o relatório do Observatório passa a apresentar dados alarmantes: de todas as mortes violentas no período – 6.041 ao todo – 22,7% foram cometidas por agentes do Estado. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2018, a média nacional é de 8,1%.

Essas mais de 6 mil mortes causadas por policiais ou membros do Exército representam um aumento de 33,6% com relação ao mesmo período em 2017.

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“Houve um aumento da capacidade de matar. Então, conclui-se que subiu o risco de morte violenta no Rio de Janeiro”, explica a pesquisadora da UFF.

A explosão da violência, de acordo com o relatório, vitimou também os policiais: ao todo, entre fevereiro e dezembro de 2018, 99 PMs foram mortos, sendo que 75,7% deles eram de baixa patente. A maioria foi morta enquanto estava fora de serviço.

A intervenção federal fez ainda os roubos de rua aumentarem em 1% e no interior do estado houve uma explosão de 13% nesta modalidade de crime.

Jacqueline Muniz explica que a lógica da intervenção é a de operações, que não é baseada no verdadeiro trabalho de policiamento, patrulhamento e inteligência, que atende apenas à causa midiática, e provoca uma escassez de policiais nas ruas – fator que fez não só com que a sensação de insegurança se mantivesse como os roubos aumentassem.

“Uma operação que diz que mobilizou 300 pessoas, que é a media, na verdade mobilizou 1.200. Porque dura 24 horas, você tem três turnos e a cobertura da folga. Então, conta de efetivo tem que multiplicar por 4. Isso quer dizer que para cada operação você produz escassez de patrulhamento na esquina. Entendeu o motivo pelo qual os crimes de rua seguiram em patamares elevados?”, explica a pesquisadora.

Um dado apresentado pelo relatório que os mentores da intervenção se vangloriam é a diminuição de roubos de carga: uma queda de 17,2%. O Observatório, no entanto, chama a atenção para o fato de que houve um aumento de 19,1% deste tipo de roubo na Grande Niterói (Niterói, São Gonçalo e Maricá) e de 46,5% no interior do estado. “Um claro deslocamento do crime da Capital para o interior”, aponta o relatório.

Jacqueline Muniz também apresenta outro fato que relativiza o dado: “Temos que lembrar que, neste período, houve uma greve de caminhoneiros com um conjunto de negociações que impactou o país, e teve acordos políticos para garantir preço da gasolina, diesel, etc. Não vai descontar isso? A economia do crime não desaqueceu, ela mudou de dono, ela redefiniu. E o Estado seguiu funcionando como uma agência reguladora das práticas criminosas em rede”, pontua.

Milícia se fortalece e se espalha
Para completar, a intervenção federal ainda propiciou uma diminuição de 8,2% na apreensão de armas e os tiroteios aumentaram em 56%. Neste ponto está a sensação de “terror” produzida pela intervenção e que contribui para o fortalecimento das milícias.

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De acordo com Jacqueline, essa produção de insegurança reduz a capacidade do indivíduo de “produzir coesão e ação coletiva”, o que o leva a buscar um “salvador de ocasião”. Neste sentido, a milícia entra como um agente terceirizado do Estado.

“A milícia reduziu sua atividade? O controle encolheu? Os grupos criminosos reduziram sua atividade? Como sabemos isso? Através dos valores de suas mercadorias, como as drogas e os serviços. Ninguém fica sem luz na favela. Ninguém fica sem gás. Ninguém fica sem água. Esses serviços são públicos, mas a população da favela paga duas vezes: paga o Estado e paga o crime. Isso mudou? Essa economia milionária serve de caixa 2 para as campanhas eleitorais no Rio de Janeiro faz tempo. Elegendo senadores, deputados, governadores”, argumenta.

“A milícia cresceu. É a polícia dos bens, e não do bem. Feita de atores do estado. Então, tira o traficante de estimação e entra o miliciano? O que assistimos no Rio de Janeiro é um crescimento das milícias que hoje, se fala por aí, ultrapassou os 40% de controle territorial”, completa a especialista.

Confira a íntegra do o balanço do Observatório da Intervenção aqui.

Renovação real da Câmara dos Deputados foi de apenas 21%, diz estudo do Instituto Cultiva

16 de fevereiro de 2019

Sessão plenária da Câmara dos Deputados. Foto: Luís Macedo/Câmara dos Deputados.

Para o sociólogo Rudá Ricci, diretor do Instituto Cultiva – que elaborou o estudo –, essa pretensa renovação, que não houve, pode frustrar eleitorado e gerar uma crise de representação no País.

Plinio Teodoro, via Revista Fórum em 15/2/2019

Um estudo inédito, elaborado pelo Instituto Cultiva e antecipado com exclusividade pela Fórum, mostra que a pretensa renovação política buscada pela população foi frustrada com o resultado das eleições 2018, especialmente na Câmara Federal, onde os deputados reeleitos e recém-eleitos fazem os primeiros movimentos sob o governo Jair Bolsonaro (PSL).

Segundo o estudo, encomendado pelo Sindicato Nacional dos Analistas/Tributários da Receita Federal do Brasil (Sindireceita), entre os 513 deputados federal, o índice de renovação foi de apenas 21% – bem aquém dos 47% propalados na grande mídia. Dos 242 deputados federais eleitos que não estavam na legislatura passada, 130 (53,7% do total de deputados federais considerados novos) já tinham mandato anterior como deputados estaduais, vereadores, prefeitos, governadores, vice-governadores.

Para o sociólogo Rudá Ricci, diretor do Instituto Cultiva, a inovação buscada pelo eleitorado não refletiu nos resultados da eleição. “O que eu gostaria de ressaltar é que o eleitorado vem procurando inovar radicalmente. Se você pegar as eleições municipais e agora em 2018, a intenção é clara. O que o eleitor não sabe é que votou em gente tradicional achando que era novo”.

Quando analisados ainda o perfil dos que estão realmente em primeiro mandato, segundo o estudo, 20 novos deputados têm vínculos diretos com políticos tradicionais, assessorando ou fazendo parte de clãs políticos. Assim, os deputados federais sem vínculos passados com mandatos ou vinculados à interesses de políticos tradicionais são apenas 92, ou seja, um índice de renovação de apenas 17,93%.

“Se eu for citar um por um, tem empresário do setor de supermercados, do setor ótico, você tem presidente de redes de faculdades. Você tem pessoas como Hélio Fernando Lopes (o Hélio Negão), do PSL/RJ, que sempre defendeu Bolsonaro. Ou seja, o perfil dos novos “novos”, pende para a direita. E eles devem se vincular ao bloco tradicional que já foi reeleito ou que tem vínculos com clãs que estão mais à direita”, diz o sociólogo.

Nascidos na era Lula
Segundo Rudá, o eleitorado que deseja essa mudança nasceu na era Lula e quer essa renovação para retomar os benefícios que perdeu, especialmente no governo de Michel Temer (MDB). No entanto, apostar em Jair Bolsonaro (PSL), que se elegeu sob o manto do novo, mesmo estando há quase três décadas na política pode causar uma perigosa frustração.

“Há uma instabilidade importante no Brasil, pois este eleitorado que nasceu no período Lula, num momento de consumo, ele quer de novo viajar de avião. E no último período, ele perdeu. Então, esse eleitorado conservador que quer inovação se ele perde o governo Bolsonaro, percebendo que é igual ao Temer – em termos de pauta econômica –, se ele perde o Congresso, que ele achou que é inovador e não vai ser, e se a esquerda não consegue se alterar para falar com ele, nós estamos num período de crise de representação. E é daqui a pouco, no segundo semestre”, diz Rudá.

Para o sociólogo, é o momento de os partidos do campo progressista mudarem o discurso para se alinharem aos temas que estão sendo debatidos nesse eleitorado que pode ficar órfão de representatividade em breve.

“Tem um deslocamento entre a representação institucional efetiva – que o eleitor queria que fosse nova e eu tô tentando provar que não é. Só 21% é que de fato são novos. E o eleitorado que continua procurando o novo por estar cansado de tudo que é tradicional. Se a esquerda conseguir casar com essa parte do eleitorado maioritária que quer inovação, ela vai precisar mudar também”.

Segundo ele, a mudança tem que se dar não somente no discurso. “(É necessário) mudar o estilo, parar de priorizar o movimento sindical e movimentos sociais tradicionais, vai ter que entrar no discurso da segurança, do emprego, do sucesso individual”.

Assista a entrevista do sociólogo Rudá Ricci à Fórum.

Bebianno caiu: O Sistema Bolsonaro de Televisão garante que ele sairá na segunda

16 de fevereiro de 2019

“Se eu cair, Bolsonaro cai junto”. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

Bolsonaro já teria, inclusive, deixado o ato de exoneração assinado. O presidente esteve com Bebianno no início da noite de sexta [15/2].

Via Revista Fórum em 15/2/2019

Depois de muitas idas e vindas, o Jornal do SBT divulgou na noite da sexta-feira [15/2] que Gustavo Bebianno deixará oficialmente o cargo de ministro da Secretaria Geral da Presidência, na segunda-feira [18/2].

Bolsonaro já teria, inclusive, deixado o ato de exoneração assinado. O presidente esteve com Bebianno no início da noite.

Mais cedo, Bolsonaro havia concordado em manter o ministro no cargo, depois de reuniões com vários integrantes do primeiro escalão do governo e do PSL, como Hamilton Mourão, Joice Hasselman, Carlos Alberto dos Santos Cruz, Augusto Heleno e Onyx Lorenzoni.

Rispidez
De acordo com informações da coluna Painel, da Folha de S.Paulo, a conversa entre Bolsonaro e Bebianno teria sido ríspida. O fator decisivo para a saída do ministro, conforme integrantes do Planalto, foi o vazamento de diálogos privados, exclusivos da Presidência, entre Bolsonaro e Bebianno.

Apesar de, a princípio, ter seguido a vontade dos outros ministros, o presidente decidiu chamar Bebianno para uma reunião e uma conversa definitiva.

Conforme interlocutores, Bolsonaro acredita que ocorreu quebra de confiança e que a demissão se tornou inevitável. Seria, ainda, uma espécie de compensação pelo afastamento de Carlos Bolsonaro das questões ligadas diretamente ao governo.

Irregularidades
Bebianno havia divulgado na quinta [14/2] uma nota de esclarecimento, na qual desmente que tenha cometido irregularidades no repasse de recursos do Fundo de Financiamento de Campanha, em 2018, para candidatas laranjas do PSL.

“Reitero meu incondicional compromisso com meu país, com a ética, com o combate à corrupção e com a verdade acima de tudo”, dizia a nota.

A Polícia Federal apura a denúncia de que os recursos do fundo seriam destinados para laranjas. Bebianno era presidente do PSL durante a campanha eleitoral.

Em tempos de Bolsonaro, a despeito de o SBT e a Record se comportarem como porta-vozes do governo, convém aguardar o Diário Oficial de segunda-feira. Até lá, tudo pode mudar.

***

“EU POSSO CAIR. CASO ISSO ACONTEÇA, BOLSONARO CAI JUNTO”, AMEAÇA BEBIANNO
Ministro já havia alertado o governo: “Não se dá um tiro na nuca do seu próprio soldado. É preciso ter um mínimo de consideração com quem esteve ao lado dele o tempo todo”.
Via Revista Fórum em 14/2/2019

Ao que tudo indica, Gustavo Bebianno, ministro da Secretaria Geral da Presidência, resolveu contra-atacar, após ser chamado de mentiroso por Carlos Bolsonaro, com apoio de seu pai, Jair. O deputado federal Paulo Teixeira (PT/SP) tuitou uma ameaça de Bebianno ao presidente.

‘“Eu posso cair. Caso isso aconteça, Bolsonaro cai junto!’” Conversa de Gustavo Bebiano com um jornalista de Brasilia hoje de manhã”, postou Teixeira.

“Não sou moleque”.
Depois disso, Bebianno voltou a falar em tom de ameaça sobre o presidente. Em entrevista à revista Crusoé, o ministro disparou: “Não sou moleque, e o presidente sabe. O presidente está com medo de receber algum respingo”.

Antes disso, Bebianno já havia enviado um recado ao governo. “Não se dá um tiro na nuca do seu próprio soldado. É preciso ter um mínimo de consideração com quem esteve ao lado dele o tempo todo”, afirmou, em conversa com interlocutores. “Não vou sair escorraçado pela porta dos fundos”, declarou Bebianno, de acordo com o jornalista Gerson Camarotti, da GloboNews.

Laranjal do PSL e corte em idoso pobre podem frear Previdência de Bolsonaro

16 de fevereiro de 2019

Foto: Marcos Corrêa/PR.

Em vez de agir como um líder nacional, o presidente da República mandou o ministro Gustavo Bebianno para o “paredão”, num reality show BBB (Bolsonaro and Bolsonaro Brother), consumido como barraco político pelas redes sociais.

Leonardo Sakamoto em 15/2/2019

O mercado ficou felizão com a proposta do governo Jair Bolsonaro de estabelecer como idades mínimas para a aposentadoria 65 anos, para homens, e 62, para mulheres – excitação que se manifestou com um pico no principal índice da Bolsa de Valores. Antes de surfar desconectado do mundo real, contudo, o tal mercado deveria se atentar a outros dois números: R$400 mil e R$998,00.

O primeiro diz respeito à força política e à credibilidade para aprovação da emenda constitucional da Reforma da Previdência no Congresso Nacional, considerando a crise em que se meteu o Palácio do Planalto. Esse detalhe é importante: não foi o PT, não foi Satanás, não foi a Venezuela, foi o próprio partido do governo que plantou laranjas e foi o próprio Bolsonaro que jogou álcool para tentar apagar o incêndio.

Recapitulando: investigações da Folha de S.Paulo mostraram evidências que o PSL cultivou um laranjal nas últimas eleições, com repasses de dinheiro público a candidaturas de fachada sob responsabilidade do então presidente do partido, Gustavo Bebianno – que, por enquanto, segue como ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência. Na quarta [13/2], o vereador Carlos Bolsonaro – antigo desafeto de Bebianno – realizou um linchamento público da credibilidade do ministro – ação que foi endossada por seu pai, no melhor estilo “bullying da quinta série B”. Admira a primeira-dama não ter sido chamada na escola para levar os dois e colocá-los de castigo.

Mesmo se Bebianno cair, novas histórias de laranjas continuarão aparecendo para se somar à da candidata de fachada que recebeu R$400 mil para sua campanha à deputada federal, mas teve apenas 274 votos, tendo usado gráfica que não consegue comprovar o serviço. Ou da história da remessa de R$250 mil para outra laranja. Ou ainda o caso envolvendo acusações semelhantes contra o deputado licenciado e ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio, que – diga-se de passagem – não foi mandado por Bolsonaro ao “paredão” como Bebianno.

A instabilidade reduz a força do governo em aprovar matérias complexas e torna mais “caro” o processo, principalmente entre parlamentares do centrão que estão esperando o governo negociar cargos de segundo e terceiro escalões e veem o valor de seus votos aumentarem com o quiproquó. E a situação em si desgasta a própria credibilidade do governo: alguém que quer economizar dinheiro na Previdência não poderia ser acusado de desviar recursos públicos.

Qual a extensão não só do laranjal do PSL, como de outros partidos da base aliada, e o quanto ela coloca em xeque mandatos parlamentares e, portanto, votações importantes no Congresso, ainda é uma incógnita. Da mesma forma: se o presidente foi incapaz de ter uma conversa, frente a frente, com um de seus ministros e com seu próprio filho para resolver a questão assim que ela começou, conseguirá chefiar a articulação para mudar o sistema de aposentadorias do país?

O segundo número diz respeito à insensibilidade social de uma Reforma da Previdência que diz querer acabar com os privilégios, mas pode mirar também os pobres entre os mais pobres.

É muito difícil imaginar que uma alteração do caráter da aposentadoria especial rural voltada a trabalhadores pobres da agricultura familiar, pescadores, coletoras de babaçu, entre outros, passará tranquilamente. Pelo contrário, a resistência à medida seria muito forte no Congresso e na sociedade.

Hoje, eles podem pedir uma aposentadoria de um salário mínimo mensal (R$998,00) quando atingirem 60 anos (homens) e 55 (mulheres) e 15 anos de comprovação de trabalho, não de contribuição. O imposto previdenciário é recolhido, em tese, no momento da venda de sua produção.

Durante a tramitação da proposta de Michel Temer, esse foi um dos pontos que mais gerou polêmica. Pois, apesar de nunca terem sido laranjas, esses trabalhadores chegam ao bagaço muito antes da maioria da população, depois de começarem a trabalhar muito cedo para nos produzir alimentos. Há políticos favoráveis à Reforma da Previdência com base eleitoral em regiões do interior do país que sabem que se votarem a favor de aumentar a idade mínima para esse público ou alterar a forma de contagem de tempo de trabalho, podem a esquecer reeleição. Milhões de pessoas sobrevivem com os recursos da aposentadoria rural e alterações poderiam trazer problemas para a economia de milhares de comunidades.

Da mesma forma, se o governo propuser a desvinculação do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que garante um salário mínimo mensal a idosos com mais de 65 anos que estão abaixo da linha da pobreza, também terá dificuldade para aprovação o pacote.

O BPC não é uma aposentadoria, mas um benefício assistencial e não demanda contribuição anterior. Considerando que uma massa de trabalhadores pobres, mas não tão pobres, que atuam na informalidade, terá mais dificuldade para se aposentar por conta das mudanças nas regras de aposentadoria, o governo Michel Temer tentou jogar para 70 a idade mínima, mas acabou desistindo e mantendo tudo como está em sua proposta.

Agora, o governo Bolsonaro pode tentar mexer nisso tudo que tá aí. A minuta da versão heavy metal que circulou da Reforma da Previdência propõe que pessoas “em condição de miserabilidade” recebam R$500,00, a partir dos 55 anos, e R$750,00, a partir dos 65. Quem contribuiu pelo menos dez anos ao INSS, teria direito a R$150,00 a mais aos 70. Ou seja, menos do que é hoje. Campanhas publicitárias para vender isso à sociedade vão jogar glitter para tentar fazer isso brilhar, mas no fundo seguirá sendo o que parece mesmo, um retrocesso.

A expectativa de vida no Brasil aumentou e tende continuar aumentando, bem como os índices de sobrevida após os 65 anos, mas emprego para essa faixa etária ainda é mito. Mesmo que o governo diga que estará separando o que é aposentadoria do que é assistência para justificar a desvinculação do salário mínimo, poucas coisas são tão negativas quanto reduzir o cobertor de proteção a idosos miseráveis, o que pode levar a uma ingrata surpresa.

Para buscar soluções tanto à sangria de credibilidade por conta das denúncias de laranjais e da forma como vem tratando-as quanto para pontos socialmente sensíveis da Reforma da Previdência, o governo terá que agir, batendo perna e conversando com muita gente para convencê-las. Ou seja, fazer política como a conhecemos há milhares de anos. Bravatas, propaganda e bullying nas redes sociais são sempre armas poderosas. Mas centrar sua estratégia nisso, como vem fazendo a Presidência, é o equivalente a limpar uma sala de cristais com um taco de baseball.

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