Aposentado aos 33 anos, Bolsonaro não tem autoridade moral para mexer na Previdência

22 de fevereiro de 2019

Miguel Enriquez em 20/2/2019

Para quem esperava participar de uma sessão memorável, a aparição relâmpago de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, na manhã de quarta-feira [20/2], onde compareceu para entregar oficialmente a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Reforma da Previdência, foi o anticlímax.

Desgastado pelo constrangedor festival de mentiras e manipulações que resultou na demissão do ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno, Bolsonaro entrou mudo e saiu calado do prédio que frequentou nos últimos 28 anos como um obscuro e improdutivo parlamentar, evitando qualquer contato com a imprensa.

Ao contrário do que se esperava, “meu capitão”, como o chama mesmo depois da humilhação Bebianno, cancelou a ideia de fazer um pronunciamento público no plenário, em defesa do projeto.

Optou por entregá-lo, a portas fechadas, no gabinete do presidente da Câmara, Cesar Maia, na presença do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e de um punhado de representantes dos partidos que apoiam o seu governo no Congresso.

Ali, Bolsonaro fez uma espécie de “mea culpa” afirmando que errou ao ter se posicionado contra a reforma quando era deputado federal, alegando desconhecimento da real situação da Previdência.

Na cara dura, fiel ao seu estilo mistificador, se esqueceu que durante a campanha eleitoral do ano passado afirmou mais de uma vez que o desequilíbrio nas contas públicas não tinha qualquer relação com Previdência.

Num extremo de retórica, chegou, mesmo, a praticamente jurar que jamais atuaria para levar miséria aos aposentados por exigência do mercado financeiro.

Ao estelionato eleitoral, praticado para engambelar e angariar os votos dos eleitores que viriam a ser prejudicados pela reforma, soma-se a má consciência do capitão ao aceitar a proposta elaborada por seu posto Ipiranga. o ministro da Economia Paulo Guedes.

Resumidamente, a PEC, que precisará passar pela aprovação na Câmara e no Senado, estabelece que os brasileiros que ganham acima de um salário mínimo precisarão contribuir por 40 anos para conseguir aposentar-se com 100% do salário-teto do INSS, atualmente de R$5.839, além de fixar a idade mínima de 62 anos para as mulheres e 65 anos para os homens.

Seguramente, um motivo de constrangimento das novas regras para Bolsonaro vem de sua própria história.

Afinal, desde que foi afastado das fileiras do Exército, em 1988, com apenas 15 anos de serviço e 33 anos de idade, o atual presidente passou a receber uma aposentadoria de capitão, que hoje chega a R$9.135 mensais, 63% acima do teto do INSS.

Ou seja, Bolsonaro recebe esse benefício, ao qual já tem direito de acrescentar uma aposentadoria após 28 anos de mandato parlamentar, de aproximadamente R$27 000, além dos R$30.934 dos proventos de presidente, há nada menos de 31 anos.

E a julgar pela expectativa de vida para os brasileiros na faixa dos 60 anos de idade, que chega a 82,3 anos, de acordo com o IBGE, Bolsonaro, nascido em 1955, continuará, em tese, a receber a aposentadoria como capitão ao menos pelos próximos 18 anos.

Sem dúvida, caso se confirmem, essas quase seis décadas de benefício contínuo do Exército serão um recorde que, por mais que aumente a longevidade da população brasileira, jamais será batido por qualquer contribuinte enquadrado nas novas regras da Previdência Social propostas pelo governo dos homens de bem.

Vai para o Guiness ou não vai?

REPERCUSSÃO NAS REDES SOCIAIS

Milícias e fuzis: O homem de bolsonaro para a reforma agrária

22 de fevereiro de 2019

Leonardo Fuhrmann, via The Intercept Brasil em 20/2/2019

Em julho de 2003, um grupo de fazendeiros do Pontal do Paranapanema, no oeste paulista, resolveu posar para o Jornal Nacional com armas em punho. Eles anunciavam a formação de um “centro de treinamentos” onde se preparavam para resistir às ações do MST. Lula havia chegado ao poder – e, com ele, crescia o temor de uma reforma agrária. O objetivo era apresentar poderio paramilitar para intimidar os camponeses, com armas proibidas no Brasil ou de uso restrito às Forças Armadas.

Segundo investigações da polícia e da CPI da Terra, de 2005, os milicianos rurais eram ligados a Luiz Antônio Nabhan Garcia, fazendeiro da região e presidente da UDR, a União Democrática Ruralista. Hoje, ele é secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura – em outras palavras, o responsável demarcações de terras e a reforma agrária.

Assim que assumiu o cargo, Nabhan seguiu a cartilha do governo e chamou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, de “organização criminosa”. Diz que não negociará com os sem-terra. E defendeu a revisão dos assentamentos de 350 mil famílias nas últimas três décadas e o fim das escolas rurais do movimento, responsáveis pelo ensino a 200 mil crianças e adolescentes. “Fabriquinhas de ditadores”, classificou.

Devem passar por sua mesa a distribuição – ou não – de terras e a produção nos assentamentos – ao quais ele se refere como “favelas rurais”. Além da verborragia, que o aproxima de Bolsonaro, Nabhan também tem um histórico com “jagunços”, milicianos armados usados para proteger terras de possíveis invasores, na conflituosa região do Portal do Paranapanema, no oeste paulista.

Carabinas, pistolas, fuzis e munição
A ligação de Nabhan Garcia com a violência na região está documentada e detalhada na tese de livre-docência do historiador Adalmir Leonídio, defendida na Esalq-USP em 2010. O Pontal do Paranapanema tem um longo histórico de crise fundiária, mas foi no início do governo Lula que a tensão entre os fazendeiros e o MST se acentuou.

“Os grandes fazendeiros se mobilizavam para evitar a reforma agrária”, diz Leonídio. Alguns integrantes do grupo, segundo a reportagem do Jornal Nacional, eram “jagunços e pistoleiros trazidos do Mato Grosso”. Já o Estadão noticiou que a milícia, capaz de operar com fuzis AR-15, praticava “tiro ao alvo”. Foi um escândalo. A Polícia Federal reagiu e o Senado também, com a abertura de uma CPI para investigar as milícias rurais da região.

A manchete é sobre o MST, mas quem aparece na foto são os fazendeiros armados para enfrentarem os sem-terra.

A manchete é sobre o MST, mas quem aparece na foto são os fazendeiros armados para enfrentarem os sem-terra.

Dias depois, o fazendeiro Manoel Domingues Paes Neto foi preso em flagrante pela Polícia Federal por porte ilegal de armas. Sua família é amiga de Nabhan e dona de uma fazenda próxima à dele, em Sandovalina. Foram apreendidas com Paes Neto carabinas, pistolas, fuzis e munição. Segundo ele, parte do armamento pertencia a Nabhan. E os capangas eram bombeiros e policiais militares, aposentados e da ativa, a grande maioria do Mato Grosso do Sul.

Segundo o depoimento de Paes Neto, a reportagem havia sido gravada em uma das fazendas de Nabhan Garcia, a São Manoel. O fazendeiro também contou que foi convidado por Nabhan, junto com o pai, para participar da foto; ambos declinaram, pois já eram investigados por outros crimes. E mais: disse que o próprio Nabhan García aparecia na foto junto aos milicianos – ele seria o quinto da esquerda para a direita, com o rosto coberto, como os outros, usando um boné da Mercedes-Benz.

Agindo como homem
Nabhan negou todas as acusações e alegou que o depoimento havia sido obtido sob tortura. Depois de receber assessoria jurídica da União Democrática Ruralista, Paes também passou a negar as informações dadas e afirmar que foi coagido a fazê-las. Ele chegou a registrar em cartório a acusação contra a delegada Míriam Takano.

Na Comissão Mista Parlamentar de Inquérito da Terra, concluída em 2005, a delegada se defendeu das acusações. Lembrou que o depoente estava acompanhado de seu advogado quando apontou Nabhan e outros fazendeiros como responsáveis pelo armamento. E disse que Paes foi levado ao Instituto Médico Legal, que não constatou nenhum sinal de violência.

O relatório final da comissão, apresentado pelo deputado João Alfredo, do PSOL cearense, defendeu o indiciamento de Nabhan e de outros fazendeiros pelos crimes. Deu em nada. O texto foi rejeitado pela bancada ruralista, que acabou aprovando um relatório alternativo, com ataques aos sem-terra, sem responsabilizar os ruralistas. O relatório dos ruralistas, encabeçado por Abelardo Lupion, do DEM paranaense, outra figura que vem ganhando destaque no governo Bolsonaro, tornou-se o oficial.

Paes não quis posar para a foto da milícia rural porque já havia sido preso, em 1997, por atirar em um grupo de sem-terras. Ele e quatro jagunços da fazenda São Domingos foram autuados em flagrante. Um homem e uma mulher ficaram gravemente feridos, por disparos na barriga, e um adolescente de 13 anos foi atingido de raspão na cabeça.

Uma entrevista dada pela mãe de Paes ao jornal Oeste Notícias dá a dimensão de como os fazendeiros da região viam esses casos de violência. Ela se dizia “apreensiva e orgulhosa” com a prisão do filho. Dizia que “ele fez o que deveria ser feito” e que esperava que ele continuasse da mesma forma, “agindo como homem”.

Soltos dias depois, os jagunços foram retirados da delegacia no carro de Nabhan, como mostravam imagens de TV anexadas ao relatório rejeitado pela CPI. Como presidente da União Democrática Ruralista, ele organizou um churrasco para comemorar a libertação de Paes e deu declarações em sua defesa à imprensa.

Paes e seu pai, Osvaldo, foram presos novamente em 2000, quando foram apreendidas 21 armas e mais de 5 mil cartuchos dentro da fazenda, inclusive uma submetralhadora. Ele ainda se envolveria em outro caso de violência em 2004, quando agrediu a coronhada um funcionário da fazenda, João de Souza Filho, o João Bambu. Com a vítima desacordada, as agressões teriam prosseguido. Uma faca e um martelo sujos de sangue foram encontrados no local. O Ministério Público apresentou denúncia contra Paes por tentativa de homicídio, mas a Justiça em primeira instância o condenou por lesão corporal gravíssima “por deformidade permanente”. Nas redes sociais, Paes aparecia no ano passado fazendo campanha pela eleição de Bolsonaro.

Terra empapada de sangue é terra boa
A violência dos ruralistas no Pontal tem uma razão histórica: a maioria das terras da região foi obtida na base de fraudes e da lei do mais forte. Segundo um levantamento feito em 1995 pelo Instituto de Terras do Estado de São Paulo, pelo menos 440 mil hectares dos 900 mil hectares da região eram de terras públicas irregularmente ocupadas. Nos anos 1980, o governador Franco Montoro já havia tentado regularizar as terras da região, em acordo com os fazendeiros.

Nos anos 1990, foi a vez de Mário Covas propor um novo plano. Os resultados foram pequenos e novas fraudes foram descobertas. Como Covas queria regularizar todas as fazendas com até 100 hectares, muitos ruralistas fracionaram suas fazendas para entrar no acordo sem ter de devolver um milímetro sequer para o verdadeiro dono da terra – o governo.

Se eram conquistadas na base de crimes, as grandes fazendas da região foram mantidas com o uso de violência, seja contra indígenas expulsos das terras onde moravam ou para afastar posseiros menores. Esse método era muito anterior à organização do MST no Pontal, iniciada nos primeiros anos da década de 1990. A tese de Adalmir Leonídio para a Esalq-USP mostra que, desde os anos 1930, a região era alvo dos chamados quebra-milho, precursores dos capangas e jagunços que atuaram na região nas décadas seguintes.

Uma frase atribuída ao coronel Alfredo Marcondes Cabral, um dos líderes políticos da região em meados do século passado, mostra o pensamento desses grandes grileiros: “Terra empapada de sangue é terra boa”.

Fundada em meados dos anos 1980 para combater os planos de reforma agrária apresentados nos primeiros anos da redemocratização, a União Democrática Ruralista teve entre seus primeiros líderes o hoje governador goiano Ronaldo Caiado, do DEM, e Plínio Junqueira, ambos de famílias tradicionais na política e donas de grandes áreas de terras. A ascensão de Nabhan se deu em função da proximidade com Junqueira e do discurso contundente.

“Ele se destacava pela clareza para apresentar suas ideias e a capacidade midiática”, diz Leonídio.

Os grupos paramilitares armados sempre tiveram apoio da União Democrática Ruralista. Desde o início, a entidade promoveu leilões de gado para arrecadar armas para a formação de grupos. A regional do Pontal do Paranapanema foi uma das primeiras a serem criadas, e muitos dos líderes da UDR eram da região. No Paraná, onde o vice-presidente da entidade, Marcos Menezes Prochet, foi condenado como mandante do assassinato de um líder sem-terra cometido no final dos anos 1990, os fazendeiros chegaram a anunciar a criação do Primeiro Comando Rural – nome inspirado no Primeiro Comando da Capital, o PCC.

Em campo, o historiador Adalmir Leonídio flagrou placas do MST que denunciavam as ameaças na Fazenda São Bento, no Portal do Paranapanema. Foto: Adalmir Leonídio/CC.

Em campo, o historiador Adalmir Leonídio flagrou placas do MST que denunciavam as ameaças na Fazenda São Bento, no Portal do Paranapanema. Foto: Adalmir Leonídio/CC.

“Havia outros fazendeiros que tentavam fazer acordo com o governo e os sem-terra, mas a política deles era se armar”, diz Leonídio. Pelo menos três presidentes da UDR antes de Nabhan já defendiam o armamento e o uso da força pelos ruralistas. Nos anos 1990, equipes de reportagem do SBT e da Agência Estado foram atacados por jagunços de fazendas da região.

Comandante da PM na cidade de Teodoro Sampaio na época, o oficial Renato Ryukiti Sanomiya chegou a relatar que teve de disparar uma rajada de metralhadora para o ar para mostrar que os policiais tinham armamento suficiente para resistir a um ataque dos jagunços.

Em agosto de 2004, o então ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva, denunciou ao Ministério Público Estadual a presença de 70 jagunços armados na fazenda Nazaré, em Marabá Paulista. Segundo ele, o grupo ameaçava de morte integrantes do MST acampados em uma fazenda vizinha. Sabrina Bitencourt, mediadora de conflitos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, constatara a presença do bando. O prefeito da cidade acionou Nabhan na UDR, que divulgou uma nota contra o ouvidor e ameaçou processá-lo, por “denunciação caluniosa e por infringir o princípio da legalidade”.

Em reportagem de O Estado de S.Paulo, Nabhan disse na época que os proprietários contrataram “alguns funcionários, e não jagunços, para evitar crimes de danos, destruição, furto e incêndio”.

Armado até no sono
Nabhan era especulado na época da transição como um nome forte para o ministério de Jair Bolsonaro. Com a nomeação da deputada Tereza Cristina, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, como ministra da Agricultura, Nabhan se contentou com um cargo no segundo escalão. Nada mal para quem conseguiu menos de 12 mil votos para deputado federal em 2006, sua única experiência em eleições.

Como secretário de assuntos fundiários, cabe a Nabhan negociar demarcações de terras indígenas, quilombolas e com movimentos sociais como o MST – cujos acampamentos ele chama de “favelas rurais”. Nabhan já prometeu “passar a limpo as questões fundiárias no Brasil“ e diz que não há dinheiro para a reforma agrária.

Em um governo que prega o armamento da população e a expansão das fazendas em territórios tradicionais, entende-se porque Nabhan – que já disse dormir sempre com uma arma ao alcance – tenha sido escolhido como mediador.

Tentamos contato com Nabhan Garcia para comentar os fatos desde segunda-feira [18/2]. Entramos em contato com a assessoria do Ministério da Agricultura e diretamente com o secretário, por telefone e e-mail. Se ele responder, este texto será atualizado.

Papa Francisco excomunga padre bolsonarista acusado de abusar de ex-freiras

22 de fevereiro de 2019

O goiano Jean Rogers Rodrigo de Sousa, conhecido como padre Rodrigo Maria, já escreveu texto contra o PT e gravou vídeo pedindo votos para Bolsonaro antes das eleições.

Via Revista Fórum em 21/2/2019

O papa Francisco excomungou o padre goiano Jean Rogers Rodrigo de Sousa, conhecido como padre Rodrigo Maria, por suspeita de abuso sexual contra ex-freiras e ex-noviças. Em função da medida, ele deixará de ser padre após 19 anos, de acordo com informações do Terra.

Sousa é acusado de estuprar e molestar, ao menos, 11 mulheres ligadas à organização que fundou: Fraternidade Arca de Maria. A decisão é a pena mais grave que a Igreja Católica pode impor a um integrante do clero e conclui uma investigação canônica contra ele, que havia sido transferido para o Paraguai.

Durante a campanha eleitoral, que antecedeu as eleições de 2018, Sousa divulgou um vídeo no qual pede votos para Jair Bolsonaro, por ser “o único candidato que combate o comunismo e é contra a ideologia de gênero e a política LGBT”.

“Golpe do PT”
Antes disso, em 2016, Sousa escreveu um “artigo”, cujo título é “Cristãos contra o golpe do PT”. Em um trecho do texto, ele diz: “É preciso reagir com energia. E além de rezar (o melhor seria o exorcismo), temos que, protestar nas ruas e na internet. Devemos utilizar de todos os meios legítimos para retirar Dilma, Lula, o PT e todos os que cometeram ilícitos”.

“O juiz federal Sérgio Moro, juntamente com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, têm feito excelente trabalho para desbaratar toda essa organização criminosa composta por empresários, doleiros, políticos e outros que, liderados pelo PT, se apropriaram do Estado brasileiro para se enriquecerem e sobretudo manter um projeto de poder”.

Eduardo Bolsonaro
Um dos filhos do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro replicou uma mensagem de Sousa no Twitter, onde o ex-padre fala em “invasão socialista na igreja”:

“Padre Rodrigo Maria denuncia a invasão socialista na igreja – já notável na CNBB – fato que vai contra os princípios da própria igreja católica”, tuitou Eduardo.

Assistam ao vídeo onde ex-padre pede votos para Bolsonaro.

Dallagnol sai em defesa de Moro e diz que caixa 2 “nem sempre é corrupção”

22 de fevereiro de 2019

“Há casos sem prova de contrapartida, ou seja, é doação ou não foi possível provar corrupção como raiz do pagamento”, tuitou o procurador da Lava-Jato, defendendo o fatiamento do pacote anticrime de Sérgio Moro.

Via Revista Fórum em 21/2/2019

Principal comandante do braço do Ministério Público na Operação Lava-Jato, o procurador Deltan Dallagnol saiu em defesa do amigo, ex-juiz e atual ministro da Defesa, Sérgio Moro, na quinta-feira [21/2] e disse que a prática de caixa 2 “nem sempre é corrupção”.

“O propósito de criminalizar caixa 2 de modo independente decorre do fato de q nem sempre é corrupção – há casos sem prova de contrapartida, ou seja, é doação ou não foi possível provar corrupção como raiz do pagamento. Ou seja, a previsão endurece o tratamento de práticas escusas (SIC)”, tuitou Dallagnol, sobre o desmembramento do crime de caixa 2 do chamado pacote anticrime apresentado por Moro.

Agora ministro, o ex-juiz mudou de ideia sobre o assunto na terça-feira [19/2], após ficar sensibilizado com os apelos dos parlamentares para retirada do caixa 2 do projeto apresento ao Congresso.

Em reportagem publicada em 2017, o então juiz da Lava-Jato, declarou em uma palestra para estudantes brasileiros na Universidade de Harvard, que o caixa 2 era “pior do que a corrupção”.

No entanto, na terça-feira [19/2], Moro disse o seguinte: “Caixa 2 não é corrupção. Existe o crime de corrupção e o crime de caixa 2. Os dois crimes são graves”, afirmou, durante breve coletiva, depois do anúncio do “fatiamento” dos projetos anticrimes do governo.

““Houve reclamações por parte de agentes políticos de que o caixa 2 é um crime grave, mas não tem a mesma gravidade corrupção, que crime organizado e crimes violentos. Então, acabamos optando por colocar a criminalização num projeto à parte”, disse o ministro.

REPERCUSSÃO NAS REDES SOCIAIS

Responsável pelo laranjal de Minas, ministro do Turismo imita Flávio Bolsonaro e pede arrego ao STF

22 de fevereiro de 2019

Leonardo Sakamoto em 21/2/2019

Após Flávio Bolsonaro solicitar ao Supremo Tribunal Federal que a investigação que apura as “movimentações atípicas” de seu ex-assessor Fabrício Queiroz fosse suspensa e tramitasse na corte por ele ter assumido o cargo de senador, eis que o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, decidiu seguir pela trilha aberta por seu correligionário após denúncias de que plantou um laranjal em Minas Gerais.

Recorreu ao STF para que a investigação do Ministério Público mineiro sobre candidaturas de fachada do PSL, na qual ele é alvo, passe para a corte por ele ter foro privilegiado. Da mesma forma que a de Flávio, sua defesa pediu que, até que o Supremo tome uma decisão, a investigação seja suspensa. O ministro sorteado foi Luiz Fux, o mesmo que concedeu a liminar a Flávio Bolsonaro durante o recesso da corte – liminar cassada pelo ministro Marco Aurélio Mello no primeiro dia da volta aos trabalhos do Judiciário.

No ano passado, o próprio Supremo fixou regra para que sejam julgados pela corte apenas casos envolvendo autoridades federais referentes ao exercício do mandato e em razão deste. Contudo, dúvidas sobre o enquadramento dos casos são resolvidas pelo próprio STF – e tanto a defesa de Flávio quanto a de Marcelo jogaram com isso. O ministro Luiz Fux, a propósito, votou a favor da restrição do foro em 2018.

Com isso, ganharam tempo. No caso de Flávio, o suficiente para assumir o cargo como senador eleito em uma casa que proteger os seus. No caso de Marcelo, fica a dúvida do tempo para quê. Para que a sociedade esqueça do que leu e ouviu? O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmou que Jair Bolsonaro avaliará a situação quando aparecer algo “de gravidade”. Creio que o governo precisa compartilhar conosco a escala com a qual está lidando. Afinal, o que é grave? O ministro surtar e jogar laranja no público, em frente ao Palácio do Planalto, gritando “fui eu!”?

Da mesma forma que a do filho 01 do presidente da República, a ação de Marcelo parece indicar que ele tem algo que não quer que venha à público.

Creio que Jair Bolsonaro deveria se manifestar usando sua passagem bíblica preferida: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” e pedir para o ministro do Turismo se explicar. Afinal, mesmo os mais ateus concordam com João capítulo 8, versículo 32 e gostariam de ouvir a verdade. Não só de políticos como Marcelo Álvaro Antônio e de Flávio Bolsonaro, mas também de ex-assessores como Fabrício Queiroz e, por que não, Gustavo Bebianno. Aliás, principalmente de Queiroz e Bebianno.

A Folha de S.Paulo, em uma série de reportagens, mostrou que Marcelo, o deputado federal mais votado de seu Estado, foi responsável por um laranjal de quatro candidaturas. Presidente do PSL mineiro, destinou R$279 mil de recursos públicos para essas campanhas. Parte dos recursos acabaram em empresas de pessoas próximas a ele. As quatro candidaturas tiveram cerca de 2 mil votos apenas.

E falando em Flávio, vale a pena recordar que há mais de dois meses o país espera “explicações plausíveis” sobre as primeiras denúncias de laranjal. Em 6 de dezembro, Fábio Serapião, do jornal O Estado de S. Paulo, revelou “movimentações atípicas” de R$1,2 milhão detectadas através do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) nas contas de Queiroz, incluindo um depósito de R$24 mil para a hoje primeira-dama Michele Bolsonaro. O ex-assessor e motorista de Flávio Bolsonaro, quando deputado estadual, faltou às convocações do MP/RJ para prestar esclarecimentos, alegando problemas de saúde. Foi operado no hospital Albert Einstein, no início deste ano, um dos mais caros do país, para a retirada de um tumor no intestino. Repetiu que daria esclarecimentos, quando a saúde permitisse. Disse em uma entrevista à TV que “fazia dinheiro” com rolo de carros.

Flávio também não atendeu ao convite dos promotores para falar sobre o caso. Solicitou ao Supremo Tribunal Federal a suspensão da investigação criminal envolvendo Queiroz e a anulação das provas. Com a polêmica instalada, vieram a público depósitos fracionados em sua conta que Flávio atribui à compra e venda de imóveis e mais movimentações de Queiroz, agora totalizando R$7 milhões.

Jair Bolsonaro afirma que o valor depositado para sua esposa é a devolução de parte de um empréstimo que fez a Queiroz, que totaliza R$40 mil. A oposição ao governo acusa Fabrício Queiroz de ser um laranja usado pela família Bolsonaro para repassar parte dos salários recebidos por funcionários de seus mandatos. Há coincidências entre datas de pagamentos pela Assembleia Legislativa do Rio, depósitos na conta de Queiroz feitos por outros funcionários do antigo gabinete de Flávio e saques em dinheiro pelo ex-assessor.

Quando a história já parecia suficientemente bizarra, a imprensa revelou que a esposa e a mãe de um miliciano poderoso trabalharam no gabinete do então deputado estadual. E que Flávio homenageou formalmente, via Assembleia Legislativa, esse miliciano, que teve prisão decretada, e um outro, que já foi preso. E, até agora, nada.

Como já disse aqui, pessoas próximas ao centro do poder político do país deveriam prestar contas de seus atos sem necessidade de ordens judiciais. Ministros não deveriam mentir, atacar ou ameaçar jornalistas, tampouco usar de fantasia para justificar censura ou pedir ajuda ao Judiciário para evitar dar esclarecimentos à população. O Estado teria que proteger e não tentar reduzir o alcance da Lei de Acesso à Informação. Atores públicos, que construíram fama afirmando-se guardiões da lei e que assumiram cargos no governo precisariam ter pudor e agir contra a tentativa do governo e seus aliados de acobertar informações de interesse público.

Mas, daí, seríamos um país. E não uma grande plantação.


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