Curitiba: Candidato Greca, que tem nojo de pobre, doa para própria campanha valor maior que seu patrimônio

25 de setembro de 2016
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Rafael Greca, candidato do PMN a prefeito de Curitiba.

Rafael Moro Martins, via UOL em 16/9/2016

O ex-ministro do Esporte e Turismo Rafael Greca (PMN) doou R$600 mil à própria candidatura a prefeito de Curitiba. É o que mostram dados da primeira prestação parcial de contas, divulgada na quinta-feira, dia 15/9, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É o equivalente a 59,71% do R$1.004.900 arrecadados até agora pela campanha do PMN. O valor supera, inclusive, o patrimônio declarado por Greca ao TSE: R$573.442,75.

O Ministério Público Eleitoral diz que irá “apreciar a questão”. “[A doação de valor superior ao patrimônio declarado] É um fato relevante que precisa ser apreciado”, afirmou ao UOL o procurador regional eleitoral Alessandro José Fernandes de Oliveira.

A Resolução 23.463/2015, do TSE, autoriza o candidato a “usar recursos próprios em sua campanha até o limite de gastos para o cargo ao qual concorre”. Em Curitiba, quem busca a prefeitura pode gastar até R$9.571.089,80.

[…]

Nota do Limpinho: Rafael Greca, líder das pesquisas para prefeito em Curitiba, confessa seu nojo por pobre: “Eu nunca cuidei dos pobres. A primeira vez que carreguei um pobre no meu carro, eu vomitei por causa do cheiro”.

Ministro Justiça diz que terá mais prisões da Operação Lava-Jato nesta semana. Como ele sabe?

25 de setembro de 2016
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Ele fica sabendo com antecedência que operações a PF vai fazer. Como assim? Elas não são sigilosas?

ALEXANDRE DE MORAES SOBRE OPERAÇÃO LAVA-JATO: “ESTA SEMANA VAI TER MAIS”
“Teve a semana passada e esta semana vai ter mais, podem ficar tranquilos. Quando vocês virem esta semana, vão se lembrar de mim”, disse o ministro enquanto participava de evento de campanha do deputado tucano Duarte Nogueira, no domingo, dia 25/9.

Via Congresso em Foco em 25/9/2015

Ao participar de um evento de campanha do deputado Duarte Nogueira (PSDB/SP), que concorre à Prefeitura de Ribeirão Preto, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, sugeriu no domingo, dia 25/9, que uma nova fase da Operação Lava-Jato será deflagrada pela Polícia Federal (PF) esta semana. “Teve a semana passada e esta semana vai ter mais, podem ficar tranquilos. Quando vocês virem esta semana, vão se lembrar de mim”, disse o ministro. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

A frase foi dita durante uma conversa com representantes do Movimento Brasil Limpo (MBL), em que o ministro falava sobre o futuro das investigações e sobre a pareceria entre Ministério Público Federal e PF.

À reportagem do Estadão, o ministro explicou que a continuidade da Lava-Jato com “o apoio total à Polícia Federal” é um compromisso firmado por ele desde o momento em que assumiu o comando da pasta. Ainda sobre a força-tarefa, considerada por Moraes como uma “belíssima operação”, o ministro afirmou que não houve excessos na prisão do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, na última quinta-feira, dia 22/9, revogada no mesmo dia pelo juiz Sérgio Moro. Mantega acompanhava a esposa em um procedimento cirúrgico quando foi contatado e detido por agentes da PF, que o conduziram até seu apartamento, onde foi executado mandado de busca e apreensão.

Para Alexandre de Moraes, a PF apenas cumpriu seu papel e atuou de forma “absolutamente discreta”. “A prisão só foi revogada por um fato superveniente (posterior), desconhecido da polícia, Ministério Público e Judiciário, um fato humanitário, o que não leva a nenhum descrédito toda a operação e aquele momento da prisão”, disse o ministro.

Repercussão
A fala de Alexandre de Moraes sobre a Lava-Jato logo repercutiu entre parlamentares, que se manifestaram nas redes sociais. Em sua conta no Twitter, a senadora Gleisi Hoffmann (PT/RS) sugeriu que a autonomia da PF estaria comprometida na gestão de Moraes. “Min da Justiça sabe agora com antecedência as operações da PF na Lava-Jato? Pode isso? Cadê a autonomia da PF? Só funcionou com Dilma e Lula”, escreveu a senadora. “PF, MP, Moro devem explicações s/ esse ‘conhecimento’ do ministro da Lava-Jato. Imagina se fosse Zé Eduardo ou Aragão que dissessem isso?!”, continuou Gleisi. “Pra completar o Ministro da Justiça ainda divulga a operação policial, que deveria ser sigilosa, em palanque eleitoral do PSDB”, concluiu.

O deputado Paulo Pimenta (PT/RS) também se manifestou sobre o fato na rede social. “Descarada ameaça do Ministro da Justiça revela seletividade criminosa da lava jato. Golpistas usam PF para #BocaDeUrna contra o PT”, escreveu o deputado.

Nova Operação Condor tem Lula e Cristina Kirchner como alvos

25 de setembro de 2016

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Querem ocultar as corrupções do presente, prendendo líderes populares da esquerda como banquete para a opinião pública, entorpecida pelo ódio à política.

Editorial do jornal El Telégrafo, do Equador, via Carta Maior em 23/9/2016

É evidente que não se trata de uma simples coincidência. Se antes foram os grupos de conspiradores formados dentro das instituições militares latino-americanas as que protagonizaram os casos de tomada de poder derrubando governos legitimamente constituídos, agora são os aparatos judiciais e midiáticos os que lideram esta nova retomada do poder por parte dos setores empresariais, defensores do neoliberalismo, que desta vez atacam os governos progressistas que se constituíram no subcontinente.

Claro que, por trás dessa nova onda, impulsadas pelos mesmos de sempre, estão os mesmos objetivos de outrora, ainda que com novos métodos: desta vez, usam como arma a difamação, buscam o desprestígio, a constante condenação moral de tudo aquilo que fazem os líderes de governos progressistas, tentando sempre vinculá-los a atos de corrupção.

São as mesmas narrativas, criadas e difundidas pelos grandes meios de comunicação, que deformam a realidade para parecer que líderes populares como Lula da Silva e Cristina Kirchner se dedicaram, em seus governos, a gerar grandes esquemas de corrupção, e não a mudar a realidade social em seus países – e claro, através disso, defender a judicialização do legado destes ex-presidentes. Não há dúvidas de que esta é uma estratégia que visa um só objetivo: recuperar o poder imperial, uma nova hegemonia neoliberal na região, acabando com todo um período de avanços sociais bastante significativos em vários países – que incluíram a erradicação da pobreza e a defesa da soberania nacional – e reivindicando os interesses dos grandes grupos econômicos, especialmente os norte-americanos. Era preciso destruir o máximo possível do modelo que vinha sendo construído, para que os mesmos de sempre possam voltar a se enriquecer como antes.

No caso de Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, vemos a angustia daquele que é o homem mais popular da história deste país. Seus rivais sabem que se houvesse eleições presidenciais neste instante, ele seria o vencedor, e por isso precisam deslegitimá-lo. O plano é que a perseguição jurídica, se não puder levá-lo à cadeia, que ao menos o impeça de se candidatar em 2018.

Algo similar acontece com a ex-mandatária argentina Cristina Fernández de Kirchner, que também enfrenta a sanha da Justiça em seu país, sendo ela a principal líder da oposição e a figura que incomoda o impopular governo de Mauricio Macri. No seu caso, a perseguição ganha contornos de ironia, ao se observar a diferença da cobertura midiática ao seu caso e ao que envolve o próprio presidente Macri e suas relações com empresas offshore no Panamá e em Bahamas.

O que querem, portanto, é ocultar as corruptelas do presente, entregando a prisão dos líderes populares da esquerda como banquete para a opinião pública, entorpecida pelo ódio à política.

Tradução: Victor Farinelli.

“Ponte para o passado”: A grande mídia ignorou a confissão de Temer sobre o golpe

25 de setembro de 2016

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GRANDE MÍDIA IGNORA CONFISSÃO DE TEMER, EXCETO POR ACUSAÇÃO FALSA DE COLUNISTA DO ESTADÃO
Glenn Greenwald, via The Intercept Brasil em 23/9/2016

Na quinta-feira, dia 22/9, Inácio Vieira do The Intercept Brasil expôs uma das mais significativas provas das verdadeiras motivações por trás do impeachment da presidente eleita, Dilma Rousseff. Em palestra para um grupo de empresários e dirigentes da política externa americana, o atual presidente, Michel Temer, admitiu que não foram as pedaladas fiscais que deram início ao processo de impeachment, mas a oposição de Dilma à plataforma neoliberal, composta de cortes em programas sociais e privatizações, proposta pelo PMDB.

Mas o que é ainda mais revelador do que o casual reconhecimento das motivações golpistas de Temer é como a grande mídia brasileira – unida em torno do impeachment – ignorou completamente o comentário do presidente. Literalmente, nenhum dos inúmeros veículos do Grupo Globo, nem o maior jornal do país, Folha, e nenhuma das revistas políticas sequer mencionou os comentários surpreendentes e incriminadores de Temer. Foi imposto um verdadeiro apagão. Enquanto diversos jornalistas e sites independentes abordaram a admissão do recém-empossado, nenhum dos grandes veículos de comunicação disse uma só palavra.

A única exceção à cortina de silêncio que se fechou foi a colunista do Estadão, Lúcia Guimarães, que investiu horas no Twitter humilhando-se, num enorme esforço em negar que Temer havia dito o que disse. Começou por insinuar que o The Intercept Brasil teria feito um “corte” suspeito no vídeo que alterava sua genuinidade – basicamente acusando Inacio Vieira de cometer uma fraude – sem apresentar nenhuma prova quanto a isso. Tudo em função de proteger Temer.

Após um colunista da Folha enviar um link para o vídeo completo, Lúcia escreveu que só poderia acreditar que Temer havia feito a afirmação quando visse os drives originais das câmeras exibidos simultaneamente. Ela acrescentou que o que torna suspeita a reportagem é o fato de Temer ser um autor de um best-seller de direito constitucional, que não diria um “despautério” desses. Apenas quando a transcrição oficial completa do Palácio do Planalto foi publicada, a colunista finalmente admitiu que Temer havia dito a tal frase, mas, em vez de retratar as acusações falsas ou se desculpar com Inácio Vieira e com o The Intercept Brasil por ter sugerido que o vídeo teria sido fraudado, ela apenas publicou a parte relevante do discurso de Temer, como se ela mesma tivesse descoberto a citação e estivesse informando seus seguidores. Mesmo após admiti-lo, a jornalista alegou de forma ligeiramente amargurada que os oponentes do impeachment estavam transformando a questão em um carnaval e comemorando a revelação.

Mesmo tento sido forçada a fazê-lo por ter se complicado para defender Temer, ao menos uma colunista do Estadão reconheceu a existência de uma reportagem de tamanha importância. O resto da grande mídia brasileira a ignorou por completo. Imagine a seguinte situação: o recém-empossado presidente de um país admite para uma sala repleta de oligarcas e imperialistas que ele e seu partido deram início ao processo de impeachment da presidente eleita por razões políticas e ideológicas, e não pelos motivos previamente alegados. Toda a grande imprensa brasileira finge que nada aconteceu, se recusa a informar os brasileiros sobre a admissão do presidente e ignora as possíveis repercussões sobre o caso do impeachment.

Há um motivo para a organização Repórteres Sem Fronteiras ter reduzido a posição do Brasil em seu ranking de liberdade de imprensa para 104 e denunciado a grande mídia corporativa como uma ameaça para a democracia e liberdade de imprensa no país. Como explicou a ativista brasileira Milly Lacombe: “Temer confessa o golpe, existe uma gravação com a confissão e nossa mídia corporativa esconde o que ele disse. Tá bom ou precisa de mais?” Um dos mais palpáveis exemplos foi dado através deste lamentável silêncio.

Paulo Moreira Leite: Dignidade não pode ser esquartejada

25 de setembro de 2016

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Paulo Moreira Leite em 23/9/2016

Seria preciso regredir à primeira metade do século 18 e aos tempos do absolutismo para compreender o grau de barbárie a que o economista Guido Mantega foi submetido na manhã de quinta-feira, dia 22/9. Você provavelmente já sabe: acompanhando a mulher que era submetida a uma cirurgia para operar um câncer, no Albert Einstein, em São Paulo, Mantega foi retirado do local pela Polícia Federal, que cumpria um mandato de prisão assinado pelo juiz Sérgio Moro, revogado após cinco horas.

Naquela longa fase da história da humanidade anterior ao nascimento dos direitos humanos como um valor universal, o suplício de pessoas condenadas – não é o caso de Mantega, diga-se – ocorria em praça pública. Antes de serem executadas, eram torturadas e, em alguns casos esquartejadas. A multidão aplaudia numa espécie de transe, e até pedia mais. Profissionais da morte e do sofrimento, os carrascos chegavam a ser personagens populares nas grandes cidades. Minutos antes de perder a cabeça na guilhotina de Paris, o revolucionário Danton pediu ao matador que a mostrasse ao povo reunido na praça da Revolução – hoje da Concórdia – pois queria que a multidão visse “como é bela”.

Tentando explicar essa imensa evolução no direito e na sensibilidade humana, a historiadora Lynn Hunt lembra, num livrinho particularmente instrutivo, (“A Invenção dos Direitos Humanos”) que a noção de que todos são iguais perante a lei e assim devem ser tratados, é uma novidade recente da civilização, embora seja uma ideia tão repetida que parece ter vigorado já na idade das cavernas.

Na realidade, não chega a ter 300 anos de existência no passado deste bípede que anda pela Terra sabe-se lá quantos milhares de anos. Para Hunt, homens e mulheres precisaram superar vários degraus de cultura primitiva, baseada na desigualdade entre os homens e na tirania mais bruta do Estado sobre os indivíduos, para compreender que era necessário desenvolver uma relação de empatia de cada pessoa com toda a humanidade, única forma de garantir que não se faça com o próximo daquilo que não se deseja para si mesmo.

Hunt localiza o nascimento dessa ideia nos debates que deram origem à Constituição dos Estados Unidos, de 1776, confirmada pela Declaração dos Direitos do Homem da Revolução Francesa, de 1789. Foram decisões que representaram um imenso progresso, lembra, ainda que tenham ocorridos recuos graves, mais tarde, pois além da luta política, também havia uma disputa cultural. Hunt está convencida de que, criando epopeias românticas que envolviam heróis e heroínas de terras distantes, em sociedades da Ásia ou da África, que cultivavam costumes vistos como exóticos em Londres ou Paris, os noveleiros daquele tempo, que escreviam folhetins publicados em sequência pelos jornais, cumpriram um papel positivo no esforço para criar uma cultura de uma sociedade onde a igualdade é um valor fundamental.

A experiência futura ensinou que, como a luta global pela democracia, a defesa dos direitos humanos é um esforço que nunca termina. A opressão da mulher prosseguiu pelos séculos seguintes, a escravidão permaneceu como uma vergonha duradoura. A dominação de povos frágeis, do ponto de vista econômico, é uma realidade até hoje. A tortura jamais foi inteiramente abolida. Chegou a ser sistematizada pelo Exército francês na guerra da Argélia, nos anos 1950. Empregada em interrogatórios de prisioneiros na guerra do Vietnã, foi admitida por decreto de George W Bush após o 11 de setembro, numa regressão cujo maior exemplo é a prisão de homens sem direitos de Guantânamo. Há outros exemplos, mas este é o espírito da coisa.

No Brasil, a igualdade está presente em todas as Constituições escritas desde a independência. Mas foi na última, em 1988, que os constituintes providenciaram um longo e detalhado artigo, número 5, onde os direitos individuais são definidos de forma ampla e detalhada. Entre várias providências essenciais, como a proteção absoluta a liberdade de expressão e a proibição da censura, a Carta chamada “cidadã” pune a tortura como crime imprescritível, inafiançável. A partir deste artigo, que acertava contas com a ditadura de 1964, define-se, a começar pela defesa da integridade do corpo humano, a supremacia dos direitos do indivíduo frente ao Estado, que dá base para a noção de que todos são inocentes até que se prove contrário.

Um dos pontos essenciais dessa visão universal foi estabelecida por Voltaire, o mestre do iluminismo, para quem “é preferível um culpado solto do que um inocente preso”.

Em setembro de 2016, o repúdio a uma medida truculenta e desnecessária levou Moro a revogar o mandato contra Mantega, que, nos governos Lula e Dilma, somou a mais longa permanência continua no posto de Ministro da Fazenda em nossa história republicana.

Arrancar uma pessoa com endereço conhecido, que jamais se negou a prestar esclarecimentos solicitados, da companhia de uma mulher que desde 2011 luta de forma corajosa contra um câncer, não é apenas uma medida desnecessária.

É um ataque a sua dignidade, que não pode ser esquartejada em praça pública.

Isso interessa a quem promove o espetáculo da honra ferida, da cidadania diminuída, quem sabe atemorizada.

É uma forma de colocar o interesse do Estado por cima dos direitos do cidadão, quando seria perfeitamente compatibilizar uma coisa e outra.

A menos, claro, quando o show para a TV é a prioridade sobre todas as coisas.

Mesmo correta, a decisão de Moro não foi capaz de evitar um escândalo numa Operação marcada por outras denúncias que envolvem a violação de garantias constitucionais.

A primeira investigação, na pré-história da Lava-Jato, envolveu um grampo telefônico que violava o sigilo das conversas entre um cliente – assessor do falecido deputado José Janene – e seu advogado, garantido pela Constituição.

Quebrado por uma longa prisão preventiva, que incluía feriados sem banho de sol e sem visitas familiares, previstos em lei, o diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa fez uma delação premiada que mudou o curso de toda investigação.

Um ano mais tarde, o senador Delcidio do Amaral foi preso de forma ilegal, pois um parlamentar só pode ser levado para a cadeia em caso de flagrante, o que não era seu caso. Delcídio afirma que só decidiu falar depois de ser mantido incomunicável numa cela sem luz da Polícia Federal em Brasília, onde chegou a bater na porta pedindo por socorro, mas não foi atendido.

Muitas pessoas costumam assumir uma postura tolerante diante de atos dessa natureza, com o argumento nocivo de que finalidades nobres podem justificar o emprego métodos condenáveis.

A verdade é que, justamente porque vivemos numa sociedade onde os homens têm direitos iguais, uma postura flexível diante dos ataques aos direitos de determinados indivíduos cedo ou tarde cobra um preço muito mais alto sobre o conjunto das instituições de governo. As prisões preventivas sem motivação justificável, empregadas com a finalidade óbvia de obter delações premiadas, são definidas como uma forma de tortura por juristas à prova de qualquer suspeita pelas preferências políticas dos acusados – e parece difícil encontrar, ao menos entre pessoas capazes de empatia pelo sofrimento alheio, este traço peculiar do aprendizado democrático segundo Lynn Hunt, quem conteste essa noção.

“Morra, terrorista” gritavam na rua para a guerrilheira Cida Costa, no momento em que era conduzida à prisão, na década de 1970. A própria Cida não foi executada, embora isso não fosse incomum, na época.

Da mesma forma que o choque elétrico e o pau de arara se tornaram peça essencial na ditadura militar, num circo de horrores onde chefes de tortura eram glorificados pelos jornais, promovidos e recebiam medalhas em datas cívicas, é difícil negar que a tolerância e mesmo aplauso diante de abusos e medidas de exceção da Lava-Jato seja responsável pela criação de um ambiente político de conivência que permitiu o golpe de 31 de agosto, numa trama que produziu o impeachment sem prova de Dilma Rousseff, para dar posse a um sucessor envolvido nos mesmo crimes pelos quais ela foi afastada – sem falar em práticas pelas quais a presidente jamais foi acusada, inclusive uma condenação pela Justiça Eleitoral.

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