Formação de quadrilha: Um novo indício de que o clã dos Bolsonaro tem informação privilegiada no caso Queiroz

18 de janeiro de 2019

Via Jornal GGN em 17/1/2019

A quinta-feira [17/1], tumultuada pela notícia de que o Supremo Tribunal Federal suspendeu a investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro contra Fabrício Queiroz, termina com um novo indício de que o clã Bolsonaro tem informações privilegiadas a respeito do caso envolvendo o Coaf.

Este segundo indício soa mais grave que o primeiro, pois sugere que Jair Bolsonaro fez uso das informações no cargo de presidente da República, com o Coaf já sob o guarda-chuva de Sérgio Moro.

Nesta quinta, a defesa de Flávio ganhou do Supremo uma liminar para paralisar a investigação contra Queiroz no Rio. Mas o pedido integral vai além da suspensão. O que os advogados do senador pretendem é anular as provas obtidas junto ao Coaf. Isto porque, segundo eles, houve quebra de sigilo fiscal e bancário de Flávio – que passou a se considerar “objeto de investigação” – sem autorização judicial.

De acordo com nota divulgada na noite de hoje, a defesa “descobriu” que Flávio vinha sendo investigado pelo MP do Rio quando teve acesso aos autos da investigação contra Queiroz.

Pelo que se tem notícia, o acesso só foi solicitado no dia 10 de janeiro, dia em que Flávio comunicou oficialmente, e nas redes sociais, que não iria comparecer ao depoimento marcado com os promotores, sob o pretexto de que não era, até então, investigado, e de que não tinha conhecimento de todos os fatos em apuração.

Só que, uma semana antes disso, no dia 3 de janeiro, já no cargo de presidente, Jair Bolsonaro disse em rede nacional, durante entrevista ao SBT, que Queiroz teve sigilos bancário e fiscal quebrados irregularmente a pedido do MPE/RJ.

Como Bolsonaro teve conhecimento disso, se a investigação tramitava (e ainda tramita) sob segredo de Justiça?

O argumento da suposta arbitrariedade, agora abraçado pela defesa de Flávio no STF, está em posse dos Bolsonaro ao menos desde o início do mandato presidencial.

Antes da entrevista do dia 3, nenhuma informação fora publicada a respeito de qualquer reclamação, por parte da defesa de Queiroz, quanto a eventuais arbitrariedades. Bolsonaro foi o responsável por trazer a novidade à tona.

No dia seguinte à entrevista, parte da imprensa, aliás, se dedicou a desmontar a fala de Bolsonaro, explicando que o Coaf não precisa de aval de um juiz para fazer análises em contas bancárias delatadas por instituições financeiras – que seria o caso de Queiroz.

O primeiro indício de vazamento
Quando o caso Coaf pipocou na mídia, veio acompanhado do primeiro indício de que os Bolsonaro foram avisados da investigação ainda durante a corrida presidencial.

Queiroz foi exonerado do gabinete de Flávio Bolsonaro no dia 15 de outubro. No mesmo dia, a filha, Nathália Queiroz, foi demitida do gabinete de Jair, em Brasília. Coincidência?

Dois dias depois da exoneração, a operação Furna da Onça, do Ministério Público Federal, pediu autorização para uma operação na Assembleia do Rio, que culminou na prisão de uma dezena de parlamentares e assessores. A equipe e o então deputado do PSL foram poupados.

Deputados do PT, à época, chegaram a cobrar providências da Polícia Federal e disseram que era evidente que houve vazamento de informações da Furna da Onça para a família presidencial.

Chamou atenção, ainda, o fato de que o MPF estava em posse das informações sobre Queiroz e o repasse de R$24 mil à Michelle Bolsonaro, mas não fez nada a respeito. O MPE do Rio só entrou em cena depois que a imprensa passou a perguntar se Flávio e o ex-motorista estavam sob investigação.

Surpresos, ministros do Supremo disseram em off, ao G1, que a estratégia de Flávio era suicida, porque agora Michelle e até Jair Bolsonaro podem ser investigados pelo elo com Queiroz.

Mas até o momento, as defesas de Queiroz e Flávio não se mostraram de movimentos impulsivos.

A conferir.

***

COMO FLÁVIO BOLSONARO LIQUIDOU COM O JOGO DE CENA DO STF
Luis Nassif em 18/1/2019

Quando assume um novo presidente, o prazo e carência, perante a opinião pública, costuma ser de 6 meses. Jair Bolsonaro está a caminho de quebrar um recorde. Poucas vezes se viu uma família tão despreparada na arte de se tornar vidraça.

É evidente que, com mais de vinte anos frequentando o baixo clero, Bolsonaro se lambuzou com muitas práticas comuns à sua turma – que estão longe de alta corrupção, mas muito perto da noção de corrupção dos baixos eleitores. E também de seu maior avalista, as Forças Armadas.

A maneira como os Bolsonaro se enredaram no caso do motorista Queiroz caminha para se tornar um clássico na galeria das trapalhadas políticas.

São uns completos sem-noção.

O STF (Supremo Tribunal Federal), através de Dias Toffoli, e a Procuradoria Geral da República, com Raquel Dodge, montaram um jogo complexo, para manter a aparência de autonomia, na quadra atual de democracia monitorada. Eles estavam recuando, não tão lentamente, que parecesse provocação, nem tão rapidamente, que parecesse pânico.

Ao apelar ao STF para interromper as investigações, Flávio Bolsonaro desmonta o castelo de cartas, obrigando o ex-implacável ministro Luiz Fux a “matar no peito” e, por conta do foro, a jogar a bomba no colo da PGR Raquel Dodge.

Se não enfrentar o caso Flávio Bolsonaro, depois da perseguição feroz ao ex-presidente Lula, só restará ao STF e à PGR fechar as portas da casa e entregar a chave para o Forte Apache.

Aliás, a opinião pública está sequiosa para ouvir os ensinamentos do ministro Luis Roberto Barroso, um dos principais patrocinadores dessa refundação do Brasil, que jogou o país nos braços dos Bolsonaro.

O episódio enfraquece também os álibis do ministro Sérgio Moro, de que as concessões populistas são relevantes para se aprovar as tais reformas estruturais – explicitando cada vez mais suas motivações políticas.

Na entrevista à GloboNews, Moro fez uma defesa eloquente (dentro dos limites de sua eloquência) da maneira como foi montado o Ministério, “sem concessões políticas”. No dia seguinte, a imprensa revela que o ministro do Meio Ambiente conseguiu mais que dobrar o patrimônio no curto período de vida pública, simplesmente comprando um apartamento por R$2 milhões, reformando e dividindo por dois apartamentos, de R$4 milhões cada, mostrando um tino comercial de dar inveja ao comércio de carros de Queiroz.

Mesmo com o voo de galinha que se prenuncia, haverá o desafogo com certo otimismo inicial com a economia, enquanto o ministro Paulo Guedes vai empinando as pipas das tais reformas – as “balas de prata” que resolverão imediatamente todos os problemas nacionais.

Como me dizia ontem um experiente alto funcionário público, Guedes está praticando a estratégia empresarial onde deveria existir a estratégia política.

Explicando: nas negociações empresariais, a lógica é começar pedindo muito para se chegar a um meio termo. Nas negociações políticas, se o negociador começa propondo muito, qualquer resultado inferior – mesmo que positivo – será interpretado como derrota.

Além disso, Guedes não tem a dimensão, nem o pragmatismo, de seu guru maior, Roberto Campos. Campos tornou-se um ideólogo radical depois que se aposentou da vida pública. Enquanto ministro, movia-se por pragmatismo, por buscar soluções para problemas. Jamais abriria mão de uma instituição como o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social).

Guedes, não. É partidário tardio da teoria do choque aplicado no Chile de Pinochet. Ou seja, aproveite tempos de desacertos para impor mudanças de cunho ideológico, que não seriam aceitas em tempos de normalidade.

É por isso que, com o país necessitando urgentemente de retomar os investimentos em infraestrutura, esvazia o BNDES, criminaliza suas operações, visando viabilizar as debêntures de infraestrutura – aumentando o custo do capital, sem ter a menor segurança sobre a capacidade do mercado em prover fundos.

O grande problema é que, depois da sova de realidade que receber, não terá mais cacife para as mudanças de rumo que se fizerem necessárias.

***

FUX COLOCA FLÁVIO BOLSONARO NO OLHO DO FURACÃO
Via Estadão em 18/1/2019

A defesa de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, foi surpreendida com a decisão do ministro Luiz Fux de suspender a investigação que envolve seu cliente. O advogado Paulo Klein soube da decisão pelo Estado.

Pessoas próximas a Queiroz avaliam que o despacho de Fux tira o ex-assessor e coloca o senador eleito Flávio no olho do furacão. Um ministro do STF ironiza, em referência ao caso Collor: “O motorista chegou cedo.” Na Corte, a decisão foi reprovada.

Hugo Mendes Plutarco, o advogado que impetrou a reclamação para suspender as investigações contra Flávio Bolsonaro, teve entre seus clientes o ex-ministro petista Aloizio Mercadante.

Segundo sua assessoria, Flávio Bolsonaro “descobriu” que é investigado junto com Queiroz

18 de janeiro de 2019

Via Jornal GGN em 17/1/2019

A assessoria do senador Flávio Bolsonaro emitiu uma nota à imprensa, na noite desta quinta [17/1], informando que sua defesa descobriu que ele era “objeto de investigação” do Ministério Público do Rio de Janeiro depois que teve acesso aos autos do processo contra o ex-motorista Fabrício Queiroz.

O acesso foi demandado somente após Flávio ter faltado ao depoimento marcado no MP do Rio, em 10 de janeiro.

A defesa afirmou que ao pedir providências ao Supremo Tribunal Federal, a intenção não era beneficiar Queiroz com a suspensão das investigações, mas reparar “nulidades” que os promotores do Rio supostamente teriam praticado contra Flávio.

Entre elas está a alegada quebra do sigilo fiscal e bancário do senador, entre 2007 e 18 de dezembro de 2018 (quando ele recebeu o diploma de eleito), sem autorização prévia da Justiça.

Ao STF, a defesa de Flávio pediu que as provas obtidas junto ao Coaf sejam anuladas. Mas o ministro Luiz Fux só concedeu uma liminar para paralisar as investigações.

Caberá ao Supremo analisar se Flávio deverá ser investigado na Corte, graças ao foro privilegiado, ou se o inquérito continuará tramitando na primeira instância.

Leia, abaixo, a nota completa:

A assessoria de Flávio Bolsonaro informa que sua defesa ajuizou Reclamação no Supremo Tribunal Federal em face do MP/RJ tendo em vista que, ao ter acesso aos autos do procedimento, verificou ser o Senador objeto de investigação, o que atrai a competência ao Supremo Tribunal Federal — única autoridade competente para decidir sobre o foro adequado à continuidade das investigações em curso relativamente a ele.

Ademais, a defesa apontou, na Reclamação, nulidades diversas, como a quebra dos sigilos bancário e fiscal do Senador, para fins de investigação criminal, sem autorização judicial.

Todos os requerimentos feitos limitaram-se à pessoa do Sr. Flávio Bolsonaro e aos procedimentos ilegais que foram tomados em relação a ele pelo MP/RJ, não implicando solicitação relativamente a nenhum terceiro.”

***

Olha o nível: Carlos Bolsonaro pergunta ao senador Randolfe Rodrigues se “o chupão na barriga já sarou”

18 de janeiro de 2019

Mônica Bergamo em 17/1/2019

Para ministro do STF, Flávio Bolsonaro confessou que é culpado no caso Queiroz

18 de janeiro de 2019

Em off, ministro do STF afirma que pedido de Flávio Bolsonaro sobre motorista foi uma confissão de culpa.

Mônica Bergamo em 18/1/2019

O pedido feito pelo senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) para suspender a investigação criminal sobre movimentações financeiras de seu ex-assessor Fabrício Queiroz foi considerado uma “confissão da culpa” por um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo o magistrado, o caso ficou ainda mais grave e a atitude é uma confissão de que o envolvido é o senador eleito e não o motorista. O ministro Luiz Fux acatou a petição do senador na quinta [17].

Outros ministros da corte acreditam ainda que, se a questão for aberta no STF, o presidente Jair Bolsonaro também será investigado, já que existem movimentações financeiras ligadas à primeira-dama Michelle.

***

NOS BASTIDORES, MINISTROS DO STF SE SURPREENDERAM COM PEDIDO FEITO POR FLÁVIO BOLSONARO NO CASO QUEIROZ
Andréia Sadi e Mariana Oliveira, via G1 em 17/1/2019

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ouvidos pelo blog, em caráter reservado, se disseram surpresos com a decisão do ministro Luiz Fux suspendendo temporariamente o caso envolvendo o ex-assessor Fabricio Queiroz, que trabalhou para o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL/RJ).

Mas, mais do que isso, apontaram surpresa com o pedido feito por Flávio Bolsonaro, uma vez que ele diz não ser investigado – apenas citado no inquérito do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf)que apontou movimentação atípica de Queiroz.

O ministro Fux atendeu a um pedido do senador eleito que, por ter foro privilegiado, quer que o caso seja julgado pelo Supremo Tribunal Federal. Queiroz não tem foro.

Quem vai decidir sobre o caso é o ministro Marco Aurélio Mello, relator, mas a discussão pode acabar na 1ª Turma da Corte, por se tratar de um senador.

Um dos ministros da Corte ouvidos pelo blog afirmou considerar o pedido do Flávio Bolsonaro um “erro”, porque agora a questão será avaliada pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

Na avaliação desse ministro, a procuradora será obrigada a pedir a ampliação da investigação, porque os fatos também envolvem o presidente Jair Bolsonaro. Para ele, era melhor para a família o caso seguir na primeira instância, onde há uma limitação para ampliar o escopo por conta do foro privilegiado.

Esse ministro considera que Raquel Dodge terá de pedir para analisar a questão dos depósitos na conta de Michele Bolsonaro. Jair Bolsonaro disse que o dinheiro se refere ao pagamento de uma dívida de Queiroz. Pela Constituição, o presidente não pode ser processado por fatos anteriores ao mandato, mas pode ser investigado.

A avaliação é que o ministro Marco Aurélio, que é o relator, vai instigar essa ampliação da investigação.

A elite da tropa do crime: Seis testemunhas apontam ex-policial do Bope como assassino de Marielle Franco

18 de janeiro de 2019

Sérgio Ramalho, via The Intercept Brasil em 18/1/2019

Foi nas fileiras do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar que o principal suspeito de assassinar Marielle Franco e Anderson Gomes se aperfeiçoou nas técnicas de matar pessoas. Expulso da PM por envolvimento com um dos principais clãs da máfia do jogo do bicho no Rio, o ex-capitão do Bope, então, passou a trabalhar exclusivamente como mercenário de bicheiros, políticos e quem mais estivesse disposto a pagar por seus serviços. Sua especialidade: matar.

O Intercept Brasil teve acesso ao inquérito que a Justiça proibiu que a Rede Globo divulgasse. Nele, ao menos seis testemunhas citam o policial como assassino da vereadora e do motorista. Por considerar que a divulgação do nome do suspeito poderia atrapalhar as investigações, o Intercept, que leu o documento por intermédio de uma fonte envolvida na investigação e que pediu para não ser revelada, decidiu mantê-lo anônimo.

Seu grupo paramilitar tem ao menos outros dois ex-caveiras, homens altamente treinados – capacitados numa unidade de elite mantida com nossos impostos –, que desvirtuaram o aprendizado em troca de dinheiro. Um deles é também ex-oficial, parceiro dos tempos de academia, conforme o inquérito da Polícia Civil. Ambos tiveram participação no assassinato de Marielle, de acordo com o inquérito. O Bope foi criado para atuar em resgate de reféns e salvar vidas, mas se tornou uma ampla tropa de guerra urbana e, não é segredo para ninguém, alguns de seus policiais trabalham para o crime organizado.

A elite da tropa do crime
O ex-capitão apontado pelas testemunhas como autor dos disparos já mantinha ligações umbilicais com a contravenção quando ingressou na Academia Dom João VI, o centro de formação de oficiais da Polícia Militar, de acordo com o inquérito. Posteriormente, fez o curso do Bope. Há tempos, a polícia sabe que os bicheiros recrutam e formam oficiais que paralelamente atuam na sua proteção. O ex-capitão entrou para o crime organizado dessa forma, mas a hipótese de envolvimento de bicheiros no crime contra Marielle e Anderson é praticamente descartada pela Divisão de Homicídios. Milicianos são os principais suspeitos de serem os mandantes do crime.

O governador Wilson Witzel fez flexões no Bope na semana passada. Depois de participar de ato que quebrou placa em homenagem à Marielle, ele agora comanda a polícia que investiga sua morte. Foto: Carlos Magno/Governo do Estado do Rio de Janeiro.

O Intercept Brasil já tinha antecipado em maio do ano passado as suspeitas de o assassino ter ligações com o Bope, além das possíveis armas usadas no crime – justamente aquelas com as quais os atiradores de elite estão mais familiarizados.

Agora, a DH chegou ao nome do suspeito. Primeiro, por meio de depoimentos, depois, ao revisar inquéritos relacionados às execuções de dois ex-sargentos da PM: Geraldo Antônio Pereira e Marcos Vieira de Souza – o Falcon, ex-presidente da escola de samba Portela e, à época, candidato a vereador.

Pereira e Falcon foram executados, respectivamente, em maio e setembro de 2016. Ambos já tinham sido investigados por envolvimento com milícias e a máfia dos jogos. No caso de Falcon, testemunhas ouvidas pela DH na ocasião relataram que quatro homens encapuzados portando fuzis foram responsáveis pela execução. O grupo chegou ao seu comitê eleitoral em um Gol prata. Três deles saíram do veículo, dois entraram no comitê. Falcon foi surpreendido sem sua escolta de segurança e morto a tiros que atingiram o peito e a cabeça. Após o crime, os bandidos fugiram no mesmo carro. Passados dois anos da execução, a DH não conseguiu identificar os assassinos e a motivação por trás do crime.

Pereira também foi assassinado a tiros de fuzil, e os matadores usaram veículos com placas clonadas e não deixaram rastros, dinâmica muito parecida com o atentado contra Marielle e Anderson.

Os investigadores então foram a campo e concentraram esforços na região do Itanhangá, sobretudo em Rio das Pedras, onde o ex-capitão lidera um grupo de mercenários. Depois de rodarem a zona atrás de câmeras de segurança, eles conseguiram finalmente imagens do Chevrolet Cobalt usado pelos matadores da vereadora e de seu motorista. O carro foi abastecido em um posto de gasolina na área, na véspera do crime.

Arma fantasma
O bando age com sofisticação e, além de empregar placas clonadas, usa o que eles chamam de “armas fantasmas” para eliminar seus alvos, de acordo com o inquérito.

A estratégia é simples. Policiais corruptos apreendem armas em operações, geralmente contra traficantes. É um espólio de guerra. A maioria das armas são entregues ao estado depois de apreendidas, como requer o procedimento. Mas as melhores não são recolhidas ao depósito da Polícia Civil – são ilegalmente desviadas para a formação dos arsenais particulares dos maus policiais. Algumas delas seriam guardadas até mesmo nos paióis dos próprios batalhões onde eles atuam.

Foto: Mauro Pimentel/AFP/Getty Images.

O tamanho desses arsenais é desconhecido, já que são compostos por armas sem apreensão registrada pela polícia e, em grande parte, importadas ilegalmente pelo crime. Foi justamente a suspeita do uso de uma arma fantasma nos assassinatos de Marielle e Anderson que levou a DH a solicitar perícia em submetralhadoras 9 mm recolhidas em unidades da PM, entre elas o Bope.

Miliciano, vereador, grilagem de terras, exploração de saibro
Sem provas cabais que liguem diretamente o bando do ex-capitão caveira à execução da vereadora e de seu motorista, a DH passou a revisar os casos de homicídios nos quais o grupo era o principal suspeito. Além das mortes dos ex-sargentos Pereira e Falcon, os investigadores também retornaram aos inquéritos sobre o assassinato de José Luiz de Barros Lopes, o Zé Personal, em setembro de 2011, e de Myro Garcia, em abril de 2017. Eles eram, respectivamente, genro e filho do banqueiro do jogo do bicho Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, morto em setembro de 2004.

A estratégia de tentar encontrar pontos de ligação entre os suspeitos de envolvimento nas mortes de Marielle e Anderson em antigos inquéritos levou a polícia e o Ministério Público a abrirem, em outubro passado, uma investigação separada que apura o envolvimento de milicianos na grilagem de terras e exploração de saibro na zona oeste.

A ação serviu de base ao pedido de quebra dos sigilos bancário, telefônico e de dados do vereador Marcello Siciliano, apontado por uma testemunha do inquérito de Marielle como mandante do crime. O processo resultou ainda na realização de busca e apreensão na casa e no gabinete do vereador do PHS.

Num trecho da ação, os promotores ressaltam que Marcello Siciliano participou de mais de 80 transações imobiliárias envolvendo a cessão de terras em áreas dominadas por grupos paramilitares nos últimos dez anos. O documento cita também uma negociação entre Siciliano e um empresário envolvido na exploração de saibro cujo irmão foi preso sob acusação de ser miliciano. O vereador negou envolvimento com paramilitares e afirmou que as negociações imobiliárias foram legais e registradas em cartório. Ele também nega ser o mandante do duplo homicídio. Pela linha de investigação, Marielle seria um entrave aos negócios do grupo, mas a polícia ainda não apresentou provas que sustentem a hipótese.

Hoje, Siciliano é o principal suspeito de ter encomendado o assassinato, em associação com o suposto miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica. O vereador já depôs várias vezes, mas a polícia não o acusou formalmente pelo crime. De acordo com O Globo, um motorista de Curicica, preso por outro homicídio, disse aos investigadores que levou seu chefe para encontrar Siciliano pelo menos quatro vezes, o que contradiz a afirmação dos dois de que mal se conhecem.

Uma testemunha disse à polícia que, em um dos encontros, Siciliano disse a Curicica: “Tem que ver a situação da Marielle. A mulher está me atrapalhando”. Logo depois, o vereador teria dito que “precisamos resolver isso logo”. Segundo essa linha de investigação, assessores de Marielle estavam se alinhando com moradores da zona oeste que buscavam regularização de áreas que seriam do interesse do grupo de Siciliano.

Em 2018, Curicica foi condenado a quatro anos e um mês de prisão por posse ilegal de arma.

Menos de um mês depois do crime, dois homens foram mortos a tiros no Rio. Um trabalhava no gabinete de Siciliano, e outro era um policial aposentado. Os dois teriam ligação com milicianos, e, na época, fontes da polícia disseram ao Intercept que as mortes eram queima de arquivo.

Mentor de Marielle na política, o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, já colocou dúvidas sobre a grilagem de terras como motivação para o assassinato da vereadora. “Eu não vejo a possibilidade da morte da Marielle ter algum vínculo em relação ao nosso trabalho com as milícias”, disse Freixo em dezembro. “Se o secretário diz que a motivação é a questão fundiária ou é a questão das milícias, esta frase tem que ser acompanhada de provas”, afirmou.

Placa quebrada
Dez meses depois das execuções de Marielle e Anderson, DH e MP parecem, enfim, estar sintonizados e próximos de reunir todas as peças desse intrincado quebra-cabeças. O general Walter Braga Netto, ex-interventor federal na segurança pública do Rio, disse no dia 11 ao jornal O Globo que as investigações sobre a morte de Marielle e Anderson estão adiantadas e que o resultado virá “em breve”.

“Eu poderia ter anunciado quem a gente acha que foi, ou dito ao (general) Richard (Nunes, secretário de Segurança Pública durante a intervenção, para que o fizesse), mas quisemos fazer um trabalho realmente profissional”, afirmou o ex-interventor num evento militar em Brasília.

O encaixe dessa peças, contudo, pode estar nas mãos do governador Wilson Witzel, que recentemente postou um vídeo fazendo flexões no Bope. No ano passado, ele participou de um evento no qual dois candidatos da última eleição exibiram como troféu a placa com nome de Marielle quebrada ao meio.

Leia também:
Parte 1 – Ex-vereador miliciano indiciado por CPI na qual Marielle Franco trabalhou esteve na Câmara do Rio
Parte 2: Manifestantes tomam as ruas, e voz de Marielle Franco ecoa pelo mundo
Parte 3 – Essa é a história dos três crimes que Marielle Franco denunciou antes de morrer
Parte 4 – Outro miliciano de CPI na qual Marielle Franco trabalhou esteve na Câmara – horas antes do crime
Parte 5 – Exclusivo: as milícias assumiram o controle do Rio de Janeiro
Parte 6 – Polícia descobre celular do motorista do carro usado no crime de Marielle e quebra sigilo de vereadores
Parte 7 – Caso Marielle: execuções de suspeitos de serem milicianos podem ser queima de arquivo
Parte 8 – Marielle: 3 modelos de submetralhadora suspeitos e uma certeza – o assassino era atirador de elite
Parte 9 – Assassino de Marielle e Anderson pode ser um caveira do Bope


%d blogueiros gostam disto: