Bolsonaro mente: Em balanço de 300 dias, governo infla medidas, usa dados incorretos e faz panfleto ideológico

12 de novembro de 2019

O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia que marcou os 300 dias de seu governo. Foto: Lúcio Távora/Xinhua.

Com ministro envolvido em esquema e cortes na educação, Planalto disse que acabou com corrupção e investiu no ensino.

Fábio Fabrini, Paulo Saldaña, Natália Cancian, Bernardo Caram e Ranier Bragon, via Folha em 11/11/2019

Na celebração dos 300 dias da gestão de Jair Bolsonaro (PSL), o governo divulgou um balanço que apresenta, entre as medidas, ações superdimensionadas, informações que divergem de dados divulgados por órgãos oficiais e trechos com abordagem ideológica.

A cerimônia reuniu autoridades no Palácio do Planalto, na terça-feira [5/11], para discurso de Bolsonaro e assinatura de projetos. No evento, a Presidência distribuiu à imprensa um documento intitulado “300 Dias Recuperando a Confiança”.

Logo na abertura do balanço, a equipe de Bolsonaro afirma que “os escândalos de corrupção sumiram do Palácio do Planalto e dos noticiários”.

Desde o início do governo, os aliados do presidente e um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (PSL/RJ), são alvo de investigações sobre ilegalidades.

Em outubro, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi denunciado à Justiça sob a acusação de caixa dois eleitoral, apropriação indébita de recursos e associação criminosa.

A investigação do caso, revelado pela Folha, apontou ser ele o chefe de um esquema de candidaturas de laranjas no PSL, partido de Bolsonaro. O presidente decidiu mantê-lo no cargo.

Em fevereiro, o secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno, foi demitido por envolvimento no mesmo escândalo.

Flávio foi apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como possível envolvido em um esquema de “rachadinha”, desvio de parte dos salários de servidores de seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio. A investigação está suspensa por ordem do Supremo Tribunal Federal.

Na área ambiental, o levantamento sustenta ter havido “redução das queimadas no Brasil entre janeiro e agosto“. O documento não apresenta nenhum número.

Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), órgão federal que faz esse tipo de monitoramento, mostram o contrário. Relatório do Programa Queimadas, mantido pelo instituto, diz que o aumento no número de focos foi de 71% e é, “sem dúvida, expressivo”.

Para a diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Ane Alencar, a postura do governo na área ambiental, ao questionar dados oficiais e denunciar uma suposta indústria de multas, contribuiu para o problema. “Isso tudo leva o produtor e o grileiro a achar que está liberado [para desmatar].”

O documento exalta também a “queda da criminalidade” no primeiro semestre de 2019.

O combate a esses ilícitos, no entanto, é tarefa dos estados, os quais assumem a responsabilidade pela segurança pública.

Questionado pela Folha, o Ministério da Justiça não informou quais são as fontes dos dados citados e por que os avanços são atribuíveis à gestão federal.

A questão agrária foi incluída no trecho do balanço sobre o combate ao crime. Segundo o governo, registrou-se uma ocupação de terras no primeiro trimestre, contra 43 em 2018.

“O MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] está mais fraco graças à facilitação da posse de armas para pessoas de bem e pelo fim das ‘ajudas’ do governo”, justifica o documento, sem apresentar dados complementares a respeito.

O MST informou que houve cinco ocupações no primeiro trimestre e que a redução dessas atividades se deve a outras pautas, como a campanha contra a reforma da Previdência e o movimento Lula Livre.

Os 300 dias do governo na área da educação são celebrados com um reforço no discurso ideológico e valorização de transformações no setor que não ocorreram.

Há uma menção a uma suposta doutrinação de esquerda que seria dominante na educação. O tema faz parte do discurso bolsonarista. “Por anos, o futuro do Brasil foi criminosamente jogado na sarjeta das ideologias revolucionárias”, diz o texto.

Questionado, o MEC (Ministério da Educação) não respondeu sobre quais evidências fundamentam essas afirmações.

A pasta viveu neste período momentos de turbulência e paralisia, com disputas, troca de ministro e escassez de recursos. Só a partir do meio do ano o MEC inicia uma agenda de anúncios.

Apesar disso, o documento fala em “reestruturação do sistema educacional”, o que não ocorreu. A prioridade no discurso do governo é a educação básica, em detrimento do ensino superior. Os bloqueios de orçamento, no entanto, atingiram ações que vão da creche à pós-graduação.

O texto ressalta o chamado Compromisso Nacional pela Educação Básica, lançado em julho. As propostas, segundo o documento, teriam sido “construídas com base no plano de governo”, o que também não se sustenta.

As ações são praticamente a retomada de programas já existentes e cujos investimentos haviam sido esvaziados no primeiro semestre. A alfabetização, prioridade dos primeiros 100 dias, nem chegou a ser citada nesse compromisso de julho.

De novidade nesse programa, só o plano para expandir com dinheiro federal colégios cívico-militares, que começa com 54 escolas no próximo ano.

Quem lê o documento encontra que o governo realizou “investimentos nas universidades, na ciência e na tecnologia”. Mas a realidade foi de escassez de recursos para o ensino superior público, ataques à qualidade das universidades (que tiveram recursos bloqueados em boa parte do ano) e cortes de bolsas de pesquisa.

Só a Capes, órgão do MEC responsável pela pós-graduação, teve 8% das bolsas cortadas. Isso equivalente a 7.590 benefícios esvaziados.

Ações como o Enem digital e incentivo à educação profissional são exaltadas no texto, mas por ora só são anúncios.

No caso da educação profissional, por exemplo, o governo defende que o programa criará 1,5 milhão de matrículas até 2023, mas todo esse volume dependerá do esforço dos estados.

De concreto, o MEC ressalta o investimento R$ 120 milhões para conectar à internet banda larga 6.500 escolas rurais ainda neste o ano. O valor inclui também escolas urbanas. No total, a pasta espera atingir 32,4 mil escolas.

No trecho sobre ações sociais e de saúde, o discurso ideológico ganha destaque. O documento aponta entre ações dos 300 dias a “defesa da vida, da família, da fé”.

Divergências com governos anteriores em relação ao Mais Médicos e questões indígenas também são citadas.

O documento comemora uma parceria da Embrapa com a Funai para programas de treinamento voltados a essa população. “Chega de tratar nossos irmãos como animais de zoológico”, aponta.

Já no caso do Mais Médicos, o texto dá destaque ao que chama de “revisão” das regras do programa visando o “combate a diretrizes que praticamente escravizavam os médicos cubanos”.

Cubanos, porém, não fazem mais parte do programa desde novembro do último ano, quando o país caribenho declarou que romperia o contrato por causa da declarações polêmicas de Bolsonaro sobre a qualificação dos médicos.

Desde então, os médicos que permaneceram no Brasil dizem enfrentar dificuldades financeiras. Em agosto, o governo lançou o programa Médicos pelo Brasil, previsto para substituir o Mais Médicos, mas sem ações para esse grupo.

O Ministério da Saúde diz que aguarda discussões no Congresso sobre o tema.

O documento cita ainda redução de 38% de casos de malária em comparação com ao de 2018, atribuindo esse resultado “a ações do governo federal, estados, municípios e população”.

Especialistas, porém, dizem que a redução começou ainda no último ano e que não é possível determinar um fator exato para a queda.

Na economia, o governo menciona a criação de vagas com carteira assinada neste ano, mas omite o recorde de informalidade no país.

No dia 31, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) anunciou que houve uma alta 2,9% no número de trabalhadores sem carteira assinada no terceiro trimestre, atingindo 11,8 milhões de pessoas, patamar mais alto da série histórica.

O documento destaca a extinção de 21 mil cargos e comissões no governo. Entretanto, não menciona que desse total, quase 14 mil postos foram cortados de universidades públicas federais.

Rússia manda recado ao Brasil e EUA e chama crise na Bolívia de “golpe”

11 de novembro de 2019

Alerta do governo Putin ocorre às vésperas da cúpula dos Brics, em Brasília. Tema ameaça aprofundar o afastamento político entre o Planalto e o Kremlin.

Jamil Chade em 11/11/2019

O governo de Vladimir Putin acusou a oposição boliviana de promover uma onda de violência e insinuou que a tentativa de Evo Morales de promover o diálogo foi minada. Moscou também usou a palavra “golpe” para descrever o que havia ocorrido em La Paz nas últimas horas e mandou um recado aos países sul-americanos. A mensagem foi interpretada nos meios diplomáticos como um alerta especialmente dirigido ao Brasil, EUA e OEA.

Num comunicado emitido na manhã de segunda-feira [11/11], o governo russo ainda pediu que as forças políticas demonstrem “bom senso” e atuem “de forma responsável”.

“Causa profunda preocupação que a vontade do governo de buscar soluções construtivas, com base no diálogo, foi rejeitada por eventos que tem um padrão de um golpe de estado orquestrado”, disse o Ministério das Relações Exteriores da Rússia.

“Estamos preocupados com a dramática evolução da situação na Bolívia, onde a onda de violência desencadeada pela oposição não permitiu que o mandato presidencial de Evo Morales fosse cumprido”, afirmou Moscou.

“Apelamos a todas as forças políticas bolivianas para que sejam sensatas e responsáveis, para que encontrem uma solução constitucional para a situação no interesse da paz, da tranquilidade, da restauração da governabilidade das instituições do Estado, da garantia dos direitos de todos os cidadãos e do desenvolvimento social e económico do país, ao qual estamos ligados por uma relação de amizade”, alertou.

Mas o comunicado também manda um recado para a região. “Esperamos que esta abordagem responsável seja demonstrada por todos os membros da comunidade internacional, pelos vizinhos latino-americanos da Bolívia, pelos países extra-regionais influentes e pelas organizações internacionais”, disse Moscou.

O alerta foi interpretado na diplomacia brasileira como um recado especialmente dirigido a países como o Brasil que, imediatamente depois da queda de Morales, declararam que não se tratava de um golpe. O alerta também se referiu, indiretamente, ao governo norte-americano e à OEA.

Nas redes sociais, o chanceler Ernesto Araújo indicou que o Brasil “apoiará transição democrática e constitucional” e indicou que “a narrativa do golpe só serve para incitar a violência”.

Aproximação
O interesse de Moscou não ocorre por acaso e o alerta é lançado às vésperas do desembarque de Putin ao Brasil, onde participa da cúpula dos Brics.

Já esvaziada diante de um posicionamento cada vez mais distante entre Brasília e o restante do bloco, diplomatas envolvidos na preparação do evento admitem que a crise boliviana deve contribuir para um certo distanciamento político entre os governos.

Moscou tem visto com sérias desconfianças a aproximação brasileira ao governo de Donald Trump. Ainda que, em termos políticos, o governo Bolsonaro tenha indicado a necessidade de contar com investimentos chineses e de outros parceiros, o alinhamento geopolítico é o que preocupa o Kremlin.

Para os russos, a situação na Bolívia, portanto, faria parte desse cenário de aproximação de líderes da América do Sul à lógica da política externa norte-americana.

No caso de Morales, Putin tem muito a perder. Nos últimos anos, Moscou ampliou sua participação na economia boliviana, inclusive com a assinatura entre a agência de energia atômica, Rosatom, e autoridades locais em La Paz para pesquisas na área nuclear. Moscou nunca disfarçou seu interesse pelas reservas de metais no país sul-americano. No ano passado, Morales e Putin ainda fecharam acordos em diversas áreas estratégicas e a Gazprom passou a ser um importante ator no país.

Recentemente, o site russo Proekt revelou como Moscou enviou consultores políticos para ajuda Evo Morales em sua campanha eleitoral. Os especialistas teriam desembarcado na Bolívia em junho para montar uma estratégia nas redes sociais.

Os sinais de apoio a Morales também vieram de Margarita Simonyan, chefe da Russia Today, um canal estatal do Kremlin destinado a promover a imagem e interesses de Putin no exterior. Num post nas redes sociais, ela sugere a Morales um cargo de apresentador na RT em Espanhol, lembrando como o equatoriano Rafael Correa também seguiu o mesmo caminho.

Em meados do ano, Morales já havia recebido o título de doutor Honoris Causa de uma universidade russa. Em seu discurso ao receber o título, indicou que foi a “estabilidade política que garantiu a estabilidade econômica” de seu país.

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Jô Soares em carta a Bolsonaro: “Vossa excelência é o leão. É o rei dos animais”

11 de novembro de 2019

Jô ainda comparou o condomínio Vivendas da Barra, onde moram Bolsonaro, o filho Carlos, e o assassinato de Marielle Franco, Ronnie Lessa, de “valhacouto de papalvos”, uma espécie de “refúgio de patetas”.

Via Revista Fórum em 10/11/2019

Em uma carta irônica publicada na edição de domingo [10/11] da Folha de S.Paulo, o “humorista, escritor e influenciador analógico”, como se define, Jô Soares criticou Jair Bolsonaro pelo vídeo em que aparece como um leão enfrentando as “hienas” do STF, do PSL e da mídia, entre outros.

“Sua definição é perfeita: vossa excelência é o leão. Vossa excelência é o rei dos animais!”, afirma o humorista.

Jô ainda comparou o condomínio Vivendas da Barra, onde moram Bolsonaro, o filho Carlos, e o assassinato de Marielle Franco, Ronnie Lessa, de “valhacouto de papalvos”, uma espécie de “refúgio de patetas”.

“A calúnia não para! Agora, querem lhe responsabilizar pelo fato de sua ilibada residência localizar-se na mesma região onde, por uma coincidência estúpida, habitava também um certo Ronnie, de alva notoriedade (mas em outro lar doce lar, é claro!). Sem nenhuma ligação, um valhacouto de papalvos!”, diz o humorista.

Leia a íntegra a seguir.

CARTA AO NOSSO CARÍSSIMO PRESIDENTE
Vossa excelência é mesmo o leão, o rei dos animais!
Jô Soares em 10/11/2019

Très cher président: “Quo usque tandem abutere patientia nostra?!”

Frase que, em latim, vossa excelência, melhor latiador do que eu, conhece perfeitamente, foi dirigida em quatro cartas do senador e escritor romano Cícero ao Senado e ao povo em relação a Catilina, militar e senador que pretendia derrubar a República. Veja que ousadia! Isso antes do AI-5!

Mas o que me leva a esta monótona missiva é associar-me a vossa excelência no episódio do leão contra as hienas.

Realmente é um excesso de diversos predadores a atacar um leão solitário, tentando proteger-se e aos seus filhotes: são chacais supremos, racuns, capivaras e gambás, sem falar das folhas, cujo destino é inominável, e das eternas hienas globais.

A calúnia não para! Agora, querem lhe responsabilizar pelo fato de sua ilibada residência localizar-se na mesma região onde, por uma coincidência estúpida, habitava também um certo Ronnie, de alva notoriedade (mas em outro lar doce lar, é claro!). Sem nenhuma ligação, um valhacouto de papalvos!

(Para os menos ilustrados: 1) Valhacouto: lugar seguro onde se encontra refúgio; abrigo, esconderijo; o que se usa para encobrir o aspecto de uma coisa, ou as intenções de alguém; disfarce, dissimulação; 2) Papalvo: diz-se de indivíduo simplório, pateta ou tolo.)

Voltando ao tema principal: cheguei a pensar, quando vi o vídeo (por sinal, parabéns pela montagem), que talvez a figura de Mogli, o Menino Lobo, criado na selva, enfrentando múltiplos perigos, fosse mais adequado a vossa excelência.

Meditei muito, passei a noite sem dormir, mas antes de apagar a luz estava começando um filme da Metro com aquele rugido característico: para mim, aquela mensagem foi decisiva. Pude finalmente dormir em paz: a sua definição é perfeita: vossa excelência é o leão. Vossa excelência é o rei dos animais!

Jô Soares é humorista, escritor e influenciador analógico.

Golpe na Bolívia de 2019 é comparável ao que Pinochet deu no Chile em 1973

11 de novembro de 2019

Morales renunciou no domingo [10/11] à Presidência da Bolívia.

Morales renunciou ao cargo no domingo [10/11] pós um golpe de Estado iniciado pelos partidos opositores que perderam as últimas eleições presidenciais; anúncio veio depois de os militares “sugerirem” que ele renunciasse.

Via Opera Mundi em 11/11/2019

A renúncia forçada do presidente da Bolívia, Evo Morales, é comparável a um golpe de Estado ocorrido há menos de meio século em outro país da região, afirma Júlio Gambia, presidente da Sociedade Latino-Americana de Economia e Pensamento Crítico (Sepla).

“Temos que recuperar a memória histórica e pensar em 1973, no golpe de Estado no Chile que agora está sendo desafiado pela mobilização popular”, destacou Gambina em entrevista ao canal RT.

O analista se refere às décadas que o povo chileno sofreu com as medidas do ditador Augusto Pinochet, estipuladas na Carta Magna do Chile e que hoje são combatidas pelo povo mediante protestos massivos por todo o país.

Morales renunciou ao cargo no domingo [10/11] após um golpe de Estado iniciado pelos partidos opositores que perderam as últimas eleições presidenciais. O anúncio veio depois de os militares “sugerirem” que ele renunciasse.

“Lamento muito este golpe. A luta não termina aqui”, disse o presidente, durante discurso após a renúncia. “Até aqui, chegamos pela pátria, não pelo dinheiro. Se alguém diz que estamos roubando, que apresente uma prova sequer. […] Não estou escapando. Nunca roubei, que demonstrem se roubei. Foi um golpe cívico-policial”, disse o presidente.

Morales ainda destacou que sua renúncia se dava na intenção de pacificar o país, ao mesmo tempo em que condenou as atitudes dos líderes opositores Carlos Mesa, candidato derrotado no último pleito, e Luis Fernando Camacho.

O vice-presidente boliviano, Álvaro Garcia Linera, também renunciou ao cargo e afirmou que “o golpe de Estado se consumou”.

Minutos depois da renúncia de Evo, a presidente do Senado boliviano, Adriana Salvatierra, que seria a próxima na linha sucessória do país, renunciou ao cargo. O presidente da Câmara, Víctor Borda, havia renunciado mais cedo. A Constituição do país não diz quem herda o cargo em uma situação como esta.

Militares pediram renúncia
O comandante das Forças Armadas da Bolívia, Williams Kalliman, pediu na tarde deste domingo que Morales renunciasse ao cargo.

“Ao analisar a situação conflituosa interna, sugerimos ao presidente de Estado que renuncie a seu mandato presidencial, permitindo a pacificação e a permanência da estabilidade pelo bem de nossa Bolívia”, disse o comandante.

Desde a vitória de Evo nas últimas eleições presidenciais, os partidos de oposição têm se recusado a aceitar os resultados e incitam um golpe de Estado contra o governo do Movimento ao Socialismo (MAS).

O comandante geral da polícia boliviana, Yuri Calderón, também aderiu ao pedido de renúncia da Evo. “Nos somamos ao pedido do povo boliviano de sugerir ao senhor presidente Evo Morales que apresente sua renúncia para pacificar o povo da Bolívia”, disse.

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Com Lula livre, Bolsonaro passa a ter oposição de verdade

11 de novembro de 2019

Sábado [9/11], Lula discursa em São Bernardo. Foto: Henry Milleo.

Lula vestiu um figurino moderado e disse sair da cadeia “sem ódio”. De volta ao jogo, ele aponta a mira contra o pacote de Paulo Guedes.

Bernardo Mello Franco em 10/11/2019

Depois de 580 dias preso, Lula está livre para fazer política. Aos 74 anos, o ex-presidente volta à cena no papel de líder da oposição. Ele deve bater firme no governo, mas quem apostar numa radicalização corre o risco de quebrar a cara.

Na sexta-feira [[8/11], o petista começou a mostrar as cartas. Ao deixar a sede da Polícia Federal, ele vestiu um figurino moderado e disse que saía da cadeia “sem ódio”. “Aos 74 anos, meu coração só tem espaço para o amor”, gracejou.

Lula desabafou contra a Lava-Jato e provocou Bolsonaro, mas indicou que seu alvo prioritário será outro: a política econômica de Paulo Guedes. “Depois que eu fui preso, o Brasil não melhorou. O Brasil piorou”, disse.

Na semana em que o governo promoveu um megaleilão do pré-sal, o ex-presidente prometeu “lutar para não permitir que esses caras entreguem o país”. Ele ligou o projeto neoliberal ao aperto na vida dos mais pobres. “O povo tá passando mais fome, o povo tá desempregado, o povo não tem mais trabalho com carteira assinada”, discursou.

Na quarta-feira, o IBGE mostrou que a extrema pobreza cresceu pelo quarto ano seguido e atingiu 13,5 milhões de brasileiros em 2018. A crise foi gestada na gestão de Dilma Rousseff, mas seus efeitos se agravaram depois do impeachment. Isso favorece a tática de comparar o Brasil de hoje com o que ele governou.

Dois dias antes de ser solto, o ex-presidente disse que a esquerda precisa “construir uma narrativa” para voltar ao poder. Em entrevista ao Blog da Cidadania, ele pediu que os petistas “acordem” e parem de morder todas as iscas jogadas pelo clã presidencial.

“O grande cancro deste país não é o Bolsonaro”, disse. “Todo dia a gente tá colocando o Bolsonaro nas nossas redes, dizendo que ele falou bobagem aqui, falou bobagem ali. Enquanto isso, o Guedes vai desmontando, vai vendendo”, afirmou.

Depois de tachar o ministro de aliado dos banqueiros, o petista orientou a tropa a estudar seu novo pacote para criticá-lo. “Não discuta do ponto de vista do economês. Discuta do ponto de vista do povo, da mesa do trabalhador”, reforçou.

“Todos os que não gostavam do PT por causa das suas políticas sociais adoram o que está acontecendo no Brasil”, disse o ex-presidente. Ontem, no palanque, ele chamou Guedes de “demolidor de sonhos” e repetiu que suas reformas empobrecem os trabalhadores.

Lula sabe que não tem adversários à esquerda, apesar do esforço de Ciro Gomes para se contrapor ao PT. Seu desafio é reconquistar os eleitores que bandearam para o outro lado em 2018. Gente que se desiludiu com os escândalos de corrupção e o aumento do desemprego, mas não viu a vida melhorar depois da queda de Dilma.

Na volta ao ABC paulista, o ex-presidente subiu o tom contra Bolsonaro e pediu que os brasileiros voltem ás ruas, seguindo o exemplo dos chilenos. Ao mesmo tempo, reconheceu que o rival foi eleito democraticamente e rejeitou articulações para derrubá-lo.

Em dez meses de governo, o capitão brigou com aliados e torrou capital político, mas nunca enfrentou uma oposição organizada. Com Lula livre, o jogo passa a ser outro.

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