Até mais, mundo cruel

8 de novembro de 2018

Foto de Lula Marques.

Marcelo Zorzanelli em 6/11/2018

Olá, Brasil de novembro de 2018. Não quero mais saber o que acontece com você. Vou ficar no meu cantinho lendo meus livros. Não adianta mandar notificações no meu celular. Quero um tempo. Não sou eu, é você.

Parei, mesmo. Eu não sei quem é o ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. Aproveitei o fim da eleição para fazer uma dieta de notícias, uma vez que desde o impeachment deitei e rolei no minuto a minuto dessa insanidade grossa, espessa que fabricamos.

Se soubesse quem é o ministro, talvez acabasse irritado – vai que o magistrado escolhido seja, sei lá, um juiz que prendeu o maior opositor de Bolsonaro, que vazou grampo ilegal de uma presidente, que liberou a dias da eleição uma delação que prejudicava o adversário de Bolsonaro. Sei que minha imaginação é fértil e que uma indicação dessas seria um absurdo internacional, algo inconcebível. Mas reza o bom senso que no Brasil tudo pode acontecer. Vai que.

Acho que o ciclo de polêmicas que funciona 24 horas (não estou falando de jornalismo de verdade, mas da pauta apocalíptica das redes) é uma droga como qualquer outra. Fazer o uso recreativo é difícil quando tal droga é o potente coquetel de insanidades, agressões e mentiras oferecido pela “nova política” eleita em outubro. Um teco e você já está acorrentado ao hábito, do jeitinho que o traficante quer. Não consegue trabalhar direito, briga com a família, passa o dia na Cracolândia das redes sociais consumindo chamadas caça-clique.

Quem fabrica esse entorpecente sabe exatamente o que está fazendo. No meio da confusão, você está distraído com, sei lá, uma prancha de bodyboard e se esquece do veto a veículos de comunicação numa coletiva de imprensa. (Novamente, esse é um exemplo surrealista que me ocorreu. Duvido que algo assim possa acontecer.) Criar distrações é tática de trombadinha. Já me despedi de dois celulares em shows dessa mesma forma: um meliante esbarrava em mim para criar uma distração enquanto outro esvaziava meu bolso.

Você pode achar graça na forma como expliquei minha intenção de fazer uma reabilitação na forma como consumo notícias nas redes sociais, mas há ciência por trás disso. A indústria da polêmica não é um comportamento espontâneo do ser humano, mas algo que foi projetado pelos engenheiros e psicólogos do Vale do Silício. Tristan Harris, ex-designer de produtos do Google, dedica todo seu tempo a denunciar a má-fé de seus ex-colegas. Segundo ele, o objetivo sempre foi acessar áreas primitivas de nossa mente usando gatilhos para liberar neurotransmissores ligados ao mesmo sistema de recompensa das drogas mais pesadas. Quando seu coração para de bater por alguns momentos enquanto a timeline do Twitter carrega, não é porque sua conexão está lenta. O atraso de segundos, segundo ele, segue o princípio das máquinas de caça-níqueis. Está ali porque alguém o programou.

A discussão é urgente e está sendo travada nos Estados Unidos há algum tempo. Além dos efeitos na saúde mental, é consenso que as redes sociais não fizeram bem algum ao jornalismo. Milhares de jovens colegas capazes de grandes reportagens acabaram na batalha inglória no front das manchetes polêmicas baseadas na polêmica do dia. Quando os novos ocupantes de Brasília são orgulhosos produtores desse lixo, é sinal de que precisaremos quebrar o hábito.

Vou voltar a consumir notícia diariamente quando sentir que a mente menos propensa em morder a isca da controvérsia superficial. Por enquanto, sou aquele sujeito que chega na churrascaria apavorado de fome, se entope de pão de alho e linguiça enquanto a picanha fica escondida.

A coisa passa a valer de verdade só em1º de janeiro. Até lá, aproveito a retórica de nosso novo establishment e termino com o Velho Testamento. Eclesiastes 1º, versículo 18: “Afinal, quanto maior o saber, maior o sofrimento; e quanto maior o entendimento maior o desgosto”.

“Justiça imparcial”: O dia em que Rosângela Moro comemorou o novo emprego do marido

8 de novembro de 2018

VOCÊ TAMBÉM COMPROU ESSA NARRATIVA ENLATADA?
Leandro Demori, via The Intercept Brasil

Bolsonaro nomeou Moro, e Moro até pode ser um bom ministro (calma), mas isso é assunto para outra news. Hoje quero falar sobre a armadilha das narrativas.

Bolsonaro já sabia que Moro diria sim. A cena do juiz viajando ao Rio foi apenas um show para a imprensa. Naquele dia, todas as redes de zap (elas não foram desmontadas depois da eleição, e nem serão) e todos os tuiteiros bolsonaristas amanheceram vacinados. Sem argumentos melhores para rebater a tese de que o juiz agiu com parcialidade evidente no caso Lula – e que por isso foi nomeado ministro da Justiça –, os cabos eleitorais pagos ou voluntários espalharam na praça uma tese quase infantil: “Moro só condenou o Lula na 1º instância” então “tudo bem” ele aceitar o convite do Bolsonaro pra ser ministro, “nenhum conflito de interesse” já que a “ficha suja se define a partir da 2ª instância”.

Milagrosamente, de tuiteiros assessores de políticos do PSL até aquele cara com dois seguidores brotaram com a mesma tese ao mesmo tempo, redondinha, empacotada, pronta pra ser vendida na feira livre das obviedades. “Quem delimita a ficha suja é o TRF4!”, eles escreveram, como se até as portas dos banheiros das rodoviárias não soubessem disso.

Acontece que o argumento jurídico é totalmente irrelevante nesse caso, e só se escora nele quem quer fugir do debate real.

O que importa aqui é o papel que o juiz teve na Lava-Jato em relação a Lula, e o cheiro grande de “prêmio” que esse cargo tem para alguém que já havia sido convidado para ser ministro ainda durante a campanha. Vocês leram bem: o vice Mourão disse que já tinham convidado Sérgio Moro antes mesmo de vencerem as eleições, no meio da campanha.

Campanha na qual ele soltou publicamente uma delação do Palocci que nem o MPF quis e que, na prática, não deve servir juridicamente pra nada. Sabem quem disse isso? Um dos principais procuradores da… Lava-Jato. Leia o que declarou Carlos Fernando dos Santos Lima em uma entrevista:

“Não tinha provas suficientes. Não tinha bons caminhos investigativos. Fora isso, qual era a expectativa? De algo, como diz a mídia, do fim do mundo. Está mais para o acordo do fim da picada. Essas expectativas não vão se revelar verdadeiras.”

Acha pouco? Tem mais: a mulher do juiz, Rosangela Moro, comemorou a eleição do Bolsonaro. No Instagram:

Ou seja: a mulher comemorou a eleição do cara que já tinha prometido um cargo ao marido.

Não ver nesse enredo todo um enorme conflito de interesses, imoral e antiético, é apenas ridículo e sequer digno de debate. E, de fato, as pessoas da feira de obviedades não estão dispostas a conversar. Para parte delas, é uma questão de fé; para outra parte, se o prejudicado foi o PT, vale tudo; outras são pagas para defender o chefe.

Acostumem-se com isso: veremos com frequência um pacote de argumentos prontinhos entregue todas as manhãs na nossa mesa. Quando nos espantarmos com o novo espanto que substituiu o espanto anterior, eles virão repetindo a mesma ladainha, saindo pela tangente, encobrindo as cenas reais.

A Lava-Jato fez um trabalho longo, complexo e que tem muitos pontos positivos. Não sou da turma que acha que ela foi concebida para destruir o PT, salvo melhor juízo. A operação colocou na cadeia gente que sequer sabia onde ficavam os presídios das cidades onde moravam e trouxe técnicas usadas em outros países para bater de frente com ladrões históricos do Brasil. Há um legado nisso, se bem usado. Mas seus integrantes estão longe de serem esses santos imaculados que parte da população bajula. O antipetismo tem dessas: ele santifica por osmose quem fere o PT.

Moro, depois do episódio do grampo ilegal entre Dilma e Lula (o juiz divulgou um trecho que não tinha autorização para ser gravado), meteu os pés pelas mãos outras vezes, sem o menor pudor em esconder sua fixação por Lula. Virou caso pessoal, briga de rua. Eu lamento por quem aplaude isso e acha que em qualquer país decente do mundo a Justiça se comporta dessa maneira. Isso é coisa de republiqueta.

O juiz “herói” e anti-establishment que “jamais entraria para a política”, como declarou várias vezes, agora se alinha à parte política que (ainda) está em pé e que se beneficiou diretamente de seus atos e furadas de sinal. Deveria ter sido punido, foi premiado. Virou ministro da Justiça de quem defende tortura e morte.

No auge da euforia da vitória eleitoral de Bolsonaro, criticar isso tudo é apenas mau humor. A gente conversa mais tarde.

A história da música “Eu te amo, meu Brasil”

8 de novembro de 2018

Luis Nassif em 8/11/2018

A dupla Dom e Ravel surgiu no início dos anos 70 com uma música fácil, em um gênero que poderia ser rotulado de marchinha pop. Junto com eles, apareceu um argentino, acho que de nome Santos Dumont, ou nome parecido, com uma música, a Monalisa, do mesmo gênero. Era um estilo bem agradável, uma modernização das marchinhas. Houve o período das marchinhas bossa-novas dos festivais internacionais da canção e, por curto espaço de tempo, as marchinhas pop. Coloquei a dupla no meu radar de repórter musical iniciante, por identificar seu valor musical.

Mas a dupla explodiu mesmo é com o “eu te amo, meu Brasil”. Logo em seguida compuseram o hino do Mobral e caminhavam para se tornar os compositores oficiais do governo militar.

Repórter da Veja, fui incumbido pelo redator de música, o grande Tarik de Souza, de entrevistar o duo. Eles moravam em um apartamento na rua Tabatinguera, no mesmo prédio do meu amigo Zé Grandão. Ficava a uma quadra da baixada do Glicério.

A entrevista foi curiosa. O mais baixo, Ravel, era o mais esperto. O grandão, Dom, deslumbrado e mandão.

Comecei perguntando como fabricavam suas músicas. Ravel logo tratou de explicar que não se tratava de “fabricar”, mas apenas inspiração. Foi interrompido por Dom.

– Fabricamos sim, é tudo planejado. Estudamos o comportamento do público e planejamos músicas de meio de ano, músicas de carnaval e, agora, as músicas patrióticas.

Ravel ouvia com claro ar de desgosto, mas não ousava rebater o irmão, que estava a mil por hora.

– Nossa próxima música será para uma campanha visando convencer todo jovem a usar fitas verde-amarelas, em vez de blusões com nomes de universidades americanas, o que é um absurdo.

Comentei que sua irmã, que estava na sala assistindo a entrevista, usava um blusão da Columbia University. Dom nem piscou:

– É a prova maior dessa influência norte-americana. Até nossa irmã!

A entrevista prosseguiu, com eles falando dos velhinhos cearenses amparados por eles. Até que chegou a pergunta fatal:

– Tem um pessoal falando em substituir o Hino Nacional Brasileiro pela música de vocês. O que acham da proposta?

Ravel balbuciou um “o que é isso?”, mas Dom avançou:

– Concordamos! O Hino Nacional é coisa de velho. Mas, antes, queremos beber na teta da vaca, os direitos autorais. Se for para virar hino e não recebermos mais direito autoral, não aceitaremos.

No dia seguinte escrevi a reportagem e deixei com o Tarik. Saiu publicada na edição seguinte, com a indagação do Mino Carta, sobre por que não havia subido para as Páginas Amarelas, o local nobre de entrevistas.

Antes do meio-dia da segunda-feira, o empresário da dupla me ligou em pânico:

– Por que você publicou a história do Hino Nacional?

– Uai, porque perguntei e eles responderam.

A entrevista havia sido gravada, não havia maneiras de refutá-la. O empresário esboçou algumas ressalvas:

– Mas por que você não publicou que eles amparam velhinhos do Ceará?

Expliquei que passei a entrevista completa para a editoria e, por questão de espaço, a decisão do que entrava ou não era dos editores.

Naquela segunda-feira havia uma entrevista marcada entre o ministro da Educação Jarbas Passarinho e a dupla, para acertar outros hinos para o regime. Passarinho cancelou e nunca mais remarcou.

O episódio comprovou que, na maioria dos casos, o patriotismo é o último refúgio dos negocistas.

***

Ex-assessora de Moro conta como a “grande mídia” aceitava qualquer coisa da Lava-Jato

8 de novembro de 2018

ENTREVISTA: “A IMPRENSA ‘COMPRAVA’ TUDO.” ASSESSORA DE SÉRGIO MORO POR SEIS ANOS FALA SOBRE A LAVA JATO.
Amanda Audi, via The Intercept em 30/10/2018

Christianne Machiavelli costuma chamar cada repórter pelo nome, e não são poucos os que ela conheceu durante os seis anos em que trabalhou encastelada no vigiado e protegido prédio da Justiça Federal de Curitiba, de onde saem os despachos de busca, apreensão e prisão assinados pelo juiz Sérgio Moro.

Chris, como é conhecida, trabalhava sozinha no departamento de comunicação da Lava-Jato até agosto, quando pediu demissão para abrir uma assessoria de imprensa voltada a clientes da área jurídica. Ela diz que identificou um filão de mercado no setor, e garante que não é beneficiada por ter trabalhado com Moro. “Ele é amado por uns e odiado por outros. Eu tenho que lidar com o ônus e o bônus disso.”

Ela não tinha ideia do volume de trabalho que teria pela frente quando passou no processo seletivo em 2012. Acostumada com a rotina tranquila de seu trabalho anterior, na comunicação da Igreja Metodista de Curitiba, ela passou a responder a dezenas de jornalistas todos os dias, das primeiras horas da manhã até a madrugada. Teve crises de estresse, começou a tomar remédios controlados, engordou 30 quilos.

O trabalho de Chris era a ponta de uma estratégia costurada acima dela. A imprensa foi responsável pelo sucesso da Lava-Jato. E isso não foi por acaso: Moro se inspirou na operação Mãos Limpas – que prendeu centenas de pessoas e mudou o cenário político da Itália – ao definir que, sem a imprensa, a operação morreria nos primeiros meses, como tantas outras antes dela.

“Os responsáveis pela operação Mani Pulite [mãos limpas, em italiano] fizeram largo uso da imprensa. Com efeito: para o desgosto dos líderes do PSI [um dos partidos investigados, que acabou extinto], que, por certo, nunca pararam de manipular a imprensa, a investigação da ‘mani pulite’ vazava como uma peneira”, escreveu Moro em um artigo de 2004, dez anos antes de dar início a operação que o tornou conhecido nacionalmente. Ele fez um copia/cola das estratégias do procurador italiano Antônio Di Pietro.

“Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no L’Expresso, no La Republica e em outros jornais e revistas simpatizantes. Apesar de não existir nenhuma sugestão de que algum dos procuradores mais envolvidos com a investigação teria deliberadamente alimentado a imprensa com informações, os vazamentos serviram a um propósito útil. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva”, continuou o juiz, já dando pistas de como achava que uma operação desse tipo deveria ser tratada.

Desde o início, os órgãos da Lava-Jato (Ministério Público Federal, Polícia Federal e Justiça Federal) mantiveram vivo o interesse da imprensa, alimentando os veículos sobre qualquer movimento da operação. O Brasil assistiu extasiado ao desenrolar de cada nova fase como se fosse uma novela. “E hoje, quem será preso? Quem será delatado?”.

Foi para entender os bastidores desse processo que conversei com Christianne Machiavelli, por telefone, no começo de setembro. Ela tinha esvaziado suas gavetas na Justiça Federal poucos dias antes, em 30 de agosto. Levou consigo banais livros, canecas, documentos e outros objetos pessoais. Em especial, três dicionários que ganhou de presente do pai, que carrega consigo em todos os empregos, seus amuletos.

Por quatro anos, ela foi o único preposto entre os jornalistas e Moro – a quem ela chama de SFM, sigla para Sérgio Fernando Moro. Se tornou amiga pessoal de alguns repórteres. Os mais próximos ainda a convidam para os churrascos de confraternização de fim de ano onde todos os setoristas da cobertura se encontram – vários veículos de imprensa mantêm equipes permanentes em Curitiba só para atender à Lava-Jato.

O trabalho, diz ela, a fez repensar a forma como as pessoas investigadas pela Lava-Jato foram tratadas pela operação e, em especial, pela imprensa. Para ela, houve exageros. “Era tanto escândalo, um atrás do outro, que as pessoas não pensavam direito. As coisas eram simplesmente publicadas”.

Leia a seguir os principais trechos da conversa, editada para ficar mais clara, e alguns parágrafos de contexto.

Você atuou no centro nervoso da Lava-Jato desde o início, em 2014. Como vê a evolução da operação nestes anos?
A gente não tinha noção do que ia ser. No começo, a operação era contra doleiros que operavam no câmbio negro, e então apareceu o [ex-diretor da Petrobras] Paulo Roberto Costa, por causa de um presente que recebeu. Só fui entender o que era a Lava-Jato na 7ª fase, em novembro de 2014, depois da delação do Júlio [Camargo] e do Augusto [Ribeiro, executivos da Toyo Setal]. Nesse momento é que apareceu a grande história: que existia um clube das empreiteiras, com as regras do jogo. Foi a partir daí que a imprensa comprou a Lava-Jato.

A Lava-Jato manteve o interesse da mídia por anos. Era uma estratégia pensada?
Não acho que houve estratégia, pelo menos por parte da Justiça Federal. Mas a responsabilidade da imprensa é tão importante quanto a da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça. Talvez tenha faltado crítica da imprensa. Era tudo divulgado do jeito como era citado pelos órgãos da operação. A imprensa comprava tudo. Não digo que o trabalho não foi correto, ela se serviu do que tinha de informação. Mas as críticas à operação só vieram de modo contundente nos últimos dois anos. Antes praticamente não existia. Algumas vezes, integrantes da PF e do MPF se sentiam até melindrados porque foram criticados pela imprensa.

Pode citar exemplos?
O Maurício Moscardi Grillo [delegado da Lava-Jato em Curitiba] quando deu entrevista para a Veja dizendo que perderam o timing para prender o Lula foi muito criticado, e a polícia ficou melindrada. Mesma coisa quando o Carlos Fernando Santos Lima falou que o MPF lançou “um grande 171″ para conseguir delações. O PowerPoint do Deltan Dallagnol sobre o Lula. Eles ficaram muito chateados quando a imprensa não concordou com eles. Todo mundo fica magoado, mas não se dá conta daquilo que fala. Não posso dizer que ele [Sérgio Moro] não ficasse melindrado, mas uma única vez respondemos a um veículo. Foi um caso do Rodrigo Tacla Duran, num domingo de manhã. Ele me chamou para a gente responder à notícia que dizia que Carlos Zucolotto, amigo, padrinho de casamento e ex-sócio da esposa de Moro, fazia negociações paralelas sobre acordos com a força-tarefa da Lava-Jato . Nesse caso ele se sentiu ofendido, mais pelo processo do que pessoalmente.

A primeira fase da Lava-Jato foi no dia 17 de março. Na época, ainda não havia nada sobre Lula, Aécio, Renan, Jucá, Odebrecht, Camargo Corrêa ou qualquer outro político e empresa que seriam notícia nos anos seguintes.

A imprensa noticiou, sem destaque, que a Polícia Federal havia deflagrado uma operação contra lavagem de dinheiro, cujo montante chegava a R$10 bilhões. O doleiro paranaense Alberto Youssef foi preso.

Youssef foi um dos principais doleiros do Banestado, considerado o maior caso de corrupção na década de 90, e o primeiro a fechar uma delação premiada no país. O escândalo reuniu os principais nomes da Lava-Jato: Sérgio Moro e o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima.

Os casos citados podem ter incomodado a cúpula dos agentes da Lava-Jato, mas tiveram pouca repercussão na imprensa em geral. O papel de crítica ficou restrito a blogs e veículos mais identificados à esquerda – muitas vezes distorcendo fatos e apelando para fake news.

Para você, por que a imprensa ‘comprou’ a Lava-Jato sem questionar?
Era tanto escândalo, um atrás do outro, que as pessoas não pensavam direito, as coisas eram simplesmente publicadas. O caso da cunhada do [ex-tesoureiro do PT, João] Vaccari foi bem significativo. Os jornalistas foram na onda do MPF e da PF. Todo mundo divulgou a prisão, mas ela foi confundida com outra pessoa. Foi um erro da polícia. Quando perceberam o erro, Inês já era morta. O estrago já tinha sido feito. Acho que a gente vem de uma fase que remonta à ditadura, em que a imprensa foi violentamente cerceada. Na Lava-Jato a imprensa tinha muita informação nas mãos, dos processos, e entendeu que era o momento de se impor.

Qual a responsabilidade da imprensa?
Vou dar um exemplo. O áudio do Lula e da Dilma é delicado, polêmico, mas e o editor do jornal, telejornal, também não teve responsabilidade quando divulgou? Saíram áudios que não tinham nada a ver com o processo, conversas de casal, entre pais e filhos, e que estavam na interceptação. A gente erra a mão em nome de um suposto bem maior.

Cada dia de operação da Lava-Jato seguia os mesmos rituais.

O celular dos jornalistas começava a apitar antes das 7h da manhã com um texto da PF. Por volta das 10h, os policiais faziam uma coletiva de imprensa junto com membros do MPF. Em seguida, o MPF divulgava o seu release, já com os dados da denúncia. Por fim, a Justiça Federal informava o número da ação judicial, junto com a chave para o acesso.

Com essa ferramenta, os jornalistas tinham acesso a tudo relacionado à operação: das investigações iniciais até os pedidos de prisão. Nos próximos dias, podiam acompanhar o andamento em tempo real.

Quem estava acostumado a cobrir operações deste –tipo, como eu, sentiu que havia algo de diferente na Lava-Jato.

Geralmente, operações de combate à corrupção – principalmente as que envolvem poderosos – costumam ser difíceis de acompanhar. É preciso ter boas fontes, gastar sola de sapato e batalhar para conseguir qualquer informação.

Na Lava-Jato, tudo ficou muito fácil. Havia uma profusão de documentos disponíveis. Os agentes responsáveis eram acessíveis. Todo dia havia algo novo.

Em um país marcado pela falta de transparência, os gestos eram tidos como exemplares – e não estou dizendo que não sejam.

Mas o fato é que as facilidades fizeram com que a imprensa “comprasse” a Lava-Jato quase que imediatamente. Denúncias do Ministério Público eram publicadas em reportagens quase na íntegra, assim como os inquéritos da PF e as decisões de Moro.

Foram poucos os jornalistas que se valeram daquele mundaréu de elementos para fazer o papel que cabe à imprensa: o de usar os dados para construir investigações mais aprofundadas.

Eu acho que bandido bom é o bandido que pode ser recuperado, apesar de tudo. A lei deve ser aplicada sempre. A questão aí é o peso da mão, da caneta, da maneira que o réu é tratado, o preso é tratado.

Você já disse que a Lava-Jato mudou a visão sobre o direito. Antes era legalista, que olha apenas o cumprimento da lei. Agora é garantista, em que a lei deve ser cumprida preservando direitos. Por quê?
Como jornalista, minha base era na cobertura policial. Os repórteres que acompanham a polícia querem a imagem do preso, a história dele. Quanto mais sensacionalista, mais cliques, mais as pessoas vão ler. Mas, depois da Lava-Jato, eu entendi o quanto a privacidade e intimidade do criminoso são necessárias. Lembro quando o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral apareceu com algemas nos pés e nas mãos e a imprensa abusou da imagem. Eu passei a olhar pro réu de uma maneira mais humanitária. Também acho que a lei de execução penal tem que ser aplicada, deve ser a base para garantir o direito dele de ser humano. Eu acho que bandido bom é o bandido que pode ser recuperado, apesar de tudo. A lei deve ser aplicada sempre. A questão aí é o peso da mão, da caneta, da maneira que o réu é tratado, o preso é tratado.

Isso envolve o hábito de levar os presos da operação para Curitiba e o circo midiático que se forma em torno disso?
Durante o período ostensivo das fases da Lava-Jato, todos ficaram presos em Curitiba, com raras exceções, como Sérgio Cabral. Se criou essa cultura de trazer todos os presos pra cá, porque o juiz entende que o caso se desenrolou em Curitiba. Mas, no momento de uma execução penal, é a lei que vale, e ela diz que o preso tem direito a cumprir pena perto de seu domicílio, para a família poder visitá-lo. O José Dirceu, por exemplo, por um bom tempo não recebeu visita da família. Ele estava com os bens bloqueados e família não tinha condições. Os empreiteiros, por outro lado, as famílias vinham sempre.

Em geral, os presos ficam detidos no local onde moram. A Lava-Jato é um dos poucos casos em que o juiz demanda que eles sejam deslocados para o local de onde saem as decisões. Estar em Curitiba facilita a negociação de delação premiada e a ida a audiências presenciais. Mas, ainda assim, não seria necessário manter o preso na cidade o tempo todo.

Essa exigência de Moro criou uma espécie de “rota das imagens”. Os cinegrafistas e fotógrafos começam a registrar a prisão na cidade de origem, mostram o embarque no avião, a chegada em Curitiba, o exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal e, finalmente, as visitas dos parentes.

Essa marcação faz com que qualquer pessoa saiba, por exemplo, que Eduardo Cunha jantou arroz, feijão e frango em sua primeira noite na prisão. Em que situação isso seria relevante?

Você questionava Moro sobre decisões controversas, como a de levar os presos para Curitiba?
O trabalho da assessoria não era de questioná-lo sobre suas decisões, mas dar publicidade aos seus atos.

Você acha que a Lava-Jato influenciou as eleições deste ano? Por exemplo, o Moro ter levantado o sigilo da delação do Palocci na semana passada.
Só posso dizer que essa eleição é a mais atípica que vivi desde que tirei meu título. Quanto a colaboração do Palocci, entendo que quase a totalidade do termo divulgado já era de conhecimento público. Ele apenas deu nome aos bois, fato que também já teria sido mencionado pelo Paulo Roberto Costa e, se não me engano, por Youssef também. Portanto, não sei se influenciou. O que influenciou no resultado dessas eleições foram as notícias falsas, o ódio, o medo.

Além do Palocci, Moro adiou depoimento do Lula por causa do período eleitoral e o MPF pediu mais uma condenação a ele, dias antes da eleição. Acha que tem algo a ver?
Sim. Pelo que me lembre, o adiamento do depoimento do Lula ocorreu há alguns meses e o magistrado justificou em despacho. Sobre o pedido do MPF, não vejo relação também, pois estava no prazo das alegações finais. Destaco que o prazo para as alegações finais foi determinado há pouco tempo, pois ficou parado por meses a fio devido a quantidade de perícias peticionadas pela defesa de Lula e o MPF ao juízo. Caso nada disso tivesse acontecido, o processo já poderia ter sido sentenciado e, inclusive, com autos conclusos para um possível julgamento de apelação no 2° grau. Ou seja, a juntada das alegações finais por parte do MPF é apenas coincidência decorrente de uma tramitação processual lenta.

Mesmo estando dentro dos prazos, é inegável que esses fatos podem favorecer ou prejudicar candidatos. Não seria possível esperar passar o pleito para fazê-los? Isso não pode colocar em risco a legitimidade da Lava-Jato?
A celeridade processual é uma premissa do Judiciário e inclusive exigência do CNJ. Não é possível que o Judiciário pare em detrimento de um processo eleitoral. A celeridade processual é em prol do réu e não do magistrado. Pense: se o MPF tivesse se manifestado em favor do réu, então a celeridade processual seria boa? Mas como a manifestação é condenatória, a celeridade é ruim? Não há dois pesos e duas medidas. Há prazo que precisa ser cumprido.

O celular dos jornalistas começava a apitar antes das 7h da manhã com um texto da PF. Por volta das 10h, os policiais faziam uma coletiva de imprensa junto com membros do MPF. Em seguida, o MPF divulgava o seu release, já com os dados da denúncia.

O juiz e os procuradores sempre dizem que agem de modo isento. Mas é difícil negar que a Lava-Jato foi, no mínimo, associada a um forte antipetismo.

Dias antes das eleições, Moro levantou o sigilo sobre a delação do ex-ministro de Lula, Antônio Palocci, e o MPF pediu a condenação do petista no processo sobre o terreno onde seria construído o Instituto Lula. Na semana desses acontecimentos, o presidenciável Jair Bolsonaro cresceu nas pesquisas de opinião frente ao candidato do PT, Fernando Haddad. Bolsonaro passou de 28% de intenções de voto em 28 de setembro para 39% em 4 de outubro, de acordo com o Datafolha.

O mesmo Moro havia decidido, semanas antes, adiar um depoimento de Lula alegando que poderia influenciar o período eleitoral.

Há até pouco tempo, Moro era avesso à imprensa. Aos poucos, foi se soltando. Em entrevista ao Roda Viva em março, ele até defendeu o auxílio-moradia – que recebe, mesmo tendo apartamento de meio milhão de reais em Curitiba. O juiz tampouco se sente constrangido ao aparecer em fotos ao lado de Aécio Neves e João Dória, ambos do PSDB.

Moro tampouco negou que Alvaro Dias, que concorreu pela presidência pelo Podemos, usasse o seu nome durante a campanha. Paranaense e ex-tucano, Dias usou quase todo o tempo que teve em debates para enaltecer a Lava-Jato. Ainda assim, foi massacrado nas urnas.

Até o “japonês da Federal”, Newton Ishii, que ficou famoso por escoltar os presos da operação, se filiou ao Patriota, um partido abertamente antipetista, quando se aposentou da PF. Ele é o presidente da legenda no Paraná, que em nível nacional lançou Cabo Daciolo à Presidência.)

Qual o seu maior acerto e o maior erro nesse período?
Meu maior acerto foi sistematizar e compilar todas as informações da Lava-Jato em uma planilha, que servia para a imprensa acompanhar. E cumprir os deadlines dos jornalistas. Para mim foi sofrido. Eu engordei 30 quilos. Tomava remédio controlado para depressão e ansiedade. Cheguei a picotar um chip de celular porque as pessoas me ligavam até meia noite todos os dias. Eu trabalhava fim de semana, feriado… Agora chego em casa e vou fazer comida, ver série.

E agora, o que vai fazer?
Vou abrir uma empresa de gestão de crise, estou vendo nome, contador. Lidar com crise foi algo que aprendi na prática.

Vídeo inédito de Lula: “Pode ter igual, mas nesse país não tem ninguém melhor do que nós”

6 de outubro de 2018

PRONUNCIAMENTO DE LULA SOBRE ELEIÇÃO DE AMANHÃ
Via Portal do presidente Lula em 6/10/2018

“Queridas companheiras e queridos companheiros. É importante você comparecer para votar por algumas razões. Eu nem vou dizer da cassação ao Lula, da perseguição ao Lula porque eu estou acostumado ao país desde que comecei no movimento sindical. E eu queria falar com você. Falar com seu coração e a sua alma. E a gente defender o legado do partido que mais fez políticas sociais nesse país. Nunca esse país precisou tanto de você. Está na hora da gente levantar a cabeça, porque pode ter igual, mas nesse país não tem ninguém melhor do que nós”.

Amanhã, vote por Lula! Vote Haddad 13!

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