Bolsonaro: “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira, é um discurso populista”.

19 de julho de 2019

O presidente Jair Bolsonaro durante café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, em Brasília, nesta sexta-feira [19/7]. Foto Marcos Corrêa/PR.

Em resposta ao El País, presidente critica transferência de renda e diz que “o que faz tirar o homem da miséria é o conhecimento”. Segundo a FAO, 5,2 milhões de brasileiros passaram um dia inteiro sem comer em 2017.

Carla Jiménez, via El País Brasil em 19/7/2019

Jair Bolsonaro recebeu pela primeira vez, na sexta-feira [19/7], a imprensa estrangeira desde que assumiu o cargo como presidente do Brasil, em primeiro de janeiro. Não foi uma entrevista coletiva de imprensa tradicional, mas um café da manhã com representantes de 12 veículos convidados, incluindo o El País. “A imprensa tem uma imagem distorcida de quem eu sou”, disse Bolsonaro, abrindo a conversa, na qual cada jornalista pôde fazer uma única pergunta, sem direito a complementos. “Entendo perfeitamente o tamanho do envenenamento do Brasil lá fora”, seguiu ele, ao lado de dois de seus ministros, o general da reserva Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Nacional, e Onyx Lorenzoni, da Casa Civil.

“Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não”, afirmou o presidente. Bolsonaro respondia a um questionamento do El País sobre o aumento da pobreza e da desnutrição no país, tema que preocupa o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, conforme disse em entrevista a este jornal nesta semana. “Você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países pelo mundo”, completou o mandatário. Bolsonaro disse ainda que falar de fome é um “discurso populista”.

A preocupação com o tema não é só de Rodrigo Maia. Especialistas na matéria apontam a resiliência da crise econômica e do desemprego como fatores que pressionam os índices de fome e miséria. No Brasil, 2,5% da população ainda se encontram em grave situação alimentar, segundo o relatório sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo, apresentado no final de 2018 pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Os dados, referentes a 2017, apontam que mais de 5,2 milhões de brasileiros passaram ao menos um dia inteiro sem comer ao longo do ano.

A FAO elabora anualmente os índices de pessoas que passam fome ou são subnutridas no mundo, com informações fornecidas pelos próprios países. Os dados sobre o Brasil têm se mantido relativamente estáveis desde 2009, em um patamar menor que 2,5% da população. Em 2014, a organização da ONU tirou o Brasil do Mapa da Fome – composto por países em que mais de 5% da população consome menos calorias do que o recomendado. Há o temor, entretanto, de que, com a persistência da crise, o país possa voltar a fazer parte deste grupo de países. Segundo o IBGE, entre 2016 e 2017 a pobreza no Brasil passou de 25,7% para 26,5%. O número de extremamente pobres, aqueles que vivem com menos de 140 reais mensais, saltou de 6,6%, em 2016, para 7,4%, em 2017.

Ao comentar o estado da fome e da miséria no país, Bolsonaro voltou a criticar programas de transferência de renda, como o Bolsa Família. “Agora adotou-se no Brasil, do Governo de Fernando Henrique para cá, depois o PT, que distribuição de riquezas é criar bolsas. Somos o país das bolsas! E o que faz tirar o homem ou a mulher da miséria é o conhecimento”, disse o presidente, sem citar o Bolsa Família, que distribui 28 bilhões de reais aos mais miseráveis e é apontado como um fator que ajudou a combater a insegurança alimentar no país. Apesar das críticas, seu Governo promete um complemento inédito no Bolsa Família neste ano, espécie de décimo terceiro para os beneficiários.

Foi a quarta vez que Bolsonaro se reuniu em café da manhã com jornalistas. O presidente já havia convidado jornalistas brasileiros para os três anteriores. Durante a conversa, que durou uma hora e vinte, ele garantiu que é totalmente favorável à liberdade de imprensa e de redes sociais “mesmo que publiquem mentiras”, provocou Bolsonaro, sendo fiel ao seu estilo de lançamento de frases de efeitos que colidem com o mundo inteiro. O presidente falou ainda de meio ambiente (“estou convencido de que os dados de desmatamento são mentira”) e sobre relações internacionais e comerciais (“possíveis acordos comerciais com a China e Japão são bem-vindos”).

Assista, no vídeo abaixo, a partir de 5:20.

REDES SOCIAIS

O inexplicável silêncio de Bolsonaro sobre o encerramento do caso Adélio

19 de julho de 2019

Adélio Bispo deixa prisão em Juiz de Fora. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil.

Presidente não recorreu da sentença que considera seu agressor inimputável por problemas psicológicos nem comentou encerramento do processo contra ele. Um segundo inquérito policial ainda investiga a possível participação de terceiros no ataque.

Beatriz Jucá, via El País Brasil em 18/7/2019

Era plena campanha de uma das eleições mais polarizadas do Brasil. Há pouco mais de dez meses, o presidente Jair Bolsonaro caminhava pelas ruas da cidade mineira de Juiz de Fora, acompanhado por centenas de apoiadores aos gritos de “mito!”, quando sofreu um ataque que quase lhe custou a vida. Adélio Bispo de Oliveira cravou uma faca no abdômen do então candidato, segundo ele mesmo justificou às autoridades policiais, por motivos políticos e religiosos. Acreditava que Bolsonaro fazia parte de uma conspiração maçônica que incluía “o extermínio dos militantes dos partidos de esquerda e minorias” e que ele havia sido escolhido por Deus para salvar o país, conforme consta em documentos anexados ao processo. Laudos médicos particulares e judiciais apontam que o responsável pelo crime tinha problemas psicológicos, uma versão que o presidente nunca comprou. “Sabe por que a jogadinha de ser maluco? É que daqui para frente, se ele resolver fazer delação premiada, não vale mais porque ele é maluco”, disse em ao vivo, no Facebook.

Desde o ataque, Bolsonaro passou a defender veementemente a tese de que Adélio seria apenas um instrumento de uma suposta tentativa de assassinato planejada por opositores políticos. Chegou a se irritar com as investigações sobre o crime – praticado durante um ato de campanha e, por isso, amplamente documentado em vídeos e fotografias – e até acusou a Polícia Federal de tentar “abafar o caso”. “Parece que a PF age em parte como uma defesa do criminoso. Não quero que inventem o responsável, mas quero que apurem o caso”, afirmou em uma entrevista semanas depois do atentado. Em fevereiro, a PF apontou que Adélio teria agido só. Meses depois, Bolsonaro mandou reforçar as investigações.

No último mês de junho, a Justiça considerou Adélio inimputável por apresentar problemas psicológicos. Bolsonaro não gostou da decisão. Indignado, prometeu que iria “até as últimas consequências” para que o grave ataque contra ele não ficasse impune. Também chegou a dizer que seria importante evitar que o caso transitasse em julgado para que Adélio tivesse a “oportunidade de falar” quem encomendou sua morte. Nesta semana, porém, a 3ª Vara Federal de Juiz de Fora encerrou o caso porque não recebeu recursos nem do Ministério Público Federal (MPF) nem dos advogados do presidente, que atuavam como assistentes de acusação.

Apesar de ter feito duras críticas às investigações e de ter endossado uma narrativa de conspiração em torno do caso ao longo dos últimos meses, Bolsonaro decidiu silenciar sobre o fim do processo e não explicar por que não recorreu, mesmo tendo criticado o reconhecimento da insanidade mental de seu agressor pela Justiça. No Twitter, onde o presidente costuma ser bastante atuante, a última manifestação sobre o caso aconteceu no dia 11 de junho. Bolsonaro postou um vídeo em que o advogado de Adélio, Zanone Manuel de Oliveira Júnior, se recusa a revelar quem o contratou.

A tese do presidente é de que o responsável pelo pagamento dos honorários indicaria os supostos mandantes do crime contra ele. O mistério em torno disso e o fato de Adélio ter sido filiado ao PSOL durante seis anos (2008-2017) são os principais fatores que alimentam a narrativa do presidente sobre o crime – enquanto, do lado oposto da polarização política, há até um documentário apócrifo no YouTube que garante que o ataque nem sequer ocorreu. O partido, inclusive, costuma ser relacionado ao caso frequentemente tanto pelo presidente quanto pelos seus filhos em suas postagens nas redes sociais. Em referência ao clamor na Internet para apurar os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco, chegaram a criar a hashtag Quem mandou matar Bolsonaro. Cinco dias após o encerramento do processo, porém, ainda impera o silêncio no clã bolsonarista.

A ausência de reação causou estranhamento até mesmo junto a correligionários, como por exemplo o deputado federal Alexandre Frota. No Twitter, o parlamentar, que já vinha fazendo pequenas críticas ao Governo, reclamou que o caso da facada ficaria impune. “A facada vai ficar por isso mesmo. Nem o esfaqueado se interessa em punição, justiça ou dar continuidade ao processo do suposto crime. Esse é o Brasil estranho”, publicou.

Sem recursos que contestassem a sentença, o processo contra Adélio Bispo foi definitivamente finalizado – ou transitado em julgado, no vocabulário jurídico. Ele já não pode mais ser condenado pelo crime praticado contra o presidente Bolsonaro, mas ainda está em curso uma investigação sobre a possível participação de terceiros. Na sentença de Adélio, o juiz federal Bruno Savino reconhece que ele planejou o crime, chegando a fotografar os locais que seriam visitados por Bolsonaro previamente, mas entende que o réu não pode ser responsabilizado por seus atos pela comprovação de insanidade mental. Adélio seguirá, então, internado por tempo indeterminado na Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Campo Grande (MS) e deverá ser reexaminado por psiquiatras e psicólogos em um prazo de três anos, quando terá sua periculosidade reavaliada.

A sentença foi proferida no último dia 14 de junho. Três dias depois, o Ministério Público Federal foi intimado, mas não apresentou recurso. “Não havia o que pleitear em recurso nem sobre o que recorrer”, explica o procurador Marcelo Medina, responsável pelo caso. Ele lembra que, antes da sentença na ação penal, a Justiça já havia reconhecido a insanidade mental e a consequente inimputabilidade do Adélio. “Então, na ação penal, só havia dois caminhos: a sentença absolutória, caso se entendesse que Adélio não praticou o fato, e a absolutória imprópria, com a aplicação de medida de segurança. Um terceiro caminho não seria possível juridicamente”, argumenta.

No dia 28 de junho, o presidente também foi intimado, mas igualmente não apresentou recurso, apesar de Bolsonaro haver dito que iria até as últimas consequências. O El País procurou o escritório de advocacia Moraes Pitombo, que representa o presidente no caso, mas não obteve retorno. Ao jornal O Estado de S.Paulo, o escritório enviou uma nota na qual informa que mudou de estratégia: “Os advogados do sr. presidente preferiram adotar nova estratégia jurídica, em razão da persecução penal evidenciar que o condenado se apresentou como instrumento, ou parte de uma engrenagem, para a prática do grave crime”. O Planalto também não comentou a mudança de estratégia.

O MPF e os advogados do presidente não discutiram a possibilidade de questionar a sentença. Segundo o procurador Marcelo Medina, não seria tecnicamente cabível agora um recurso. “Ele teria que ter sido interposto lá atrás, contra a decisão que reconheceu a inimputabilidade de Adélio. Só que essa decisão também estava calcada em laudos periciais e provas. Não havia nada a defender no recurso”, explica.

Segundo inquérito e conspiração
O processo que foi encerrado trata apenas da atuação de Adélio no atentado contra Jair Bolsonaro. Uma eventual existência de coautores no crime continua sendo investigada em outro inquérito da Polícia Federal, que nos últimos dez meses ouviu mais de 100 pessoas que tiverem contato com Adélio. Um deles é o advogado Zanone Oliveira, que prestou novamente depoimento à PF na segunda-feira [15/7] para esclarecer informações sobre o pagamento de despesas de uma viagem que fez a Campo Grande, onde seu cliente Adélio está detido. Alguns desses gastos teriam sido custeados por emissoras de televisão.

No depoimento, Zanone manteve a versão de que uma pessoa que frequentava a mesma igreja de Adélio em Montes Claros pagou 5 mil reais para que ele assumisse a defesa, mas desapareceu após a intensa repercussão do caso. Disse ainda que não revela o nome desta pessoa por questões de segurança e que não tem mais contato com ela. E que decidiu seguir o trabalho mesmo sem pagamento. As investigações policiais devem continuar até o fim de agosto, mas podem ser prorrogadas por mais 90 dias caso o Ministério Público Federal julgue necessário.

Segundo o procurador Marcelo Medina, diversas medidas têm sido adotadas com autorização judicial no curso do inquérito, mas todas elas estão sob sigilo. “Elas se destinam a identificar quais são os interlocutores com quem Adélio manteve contato antes do ataque e a verificar dados sobre vida financeira dele. Todas essas questões não podem ser publicizadas porque envolvem quebra de sigilo bancário e telefônico”, explica.

Leandro Fortes: A Veja, o Bolsonaro e o terrorismo silvestre

19 de julho de 2019

Ecoterroristas: Individualistas que Tendem ao Selvagem.

Leandro Fortes em 19/7/2019

Gente, o grupo terrorista entrevistado pela Veja, via deep web, se chama Sociedade Secreta Silvestre (SSS), que se apresenta como braço brasileiro do Individualistas que Tendem ao Selvagem (ITS).

Querem matar Bolsonaro.

Não adianta, mesmo com o suspiro de jornalismo que a #VazaJato lhe deu, a Veja passou tempo demais envenenada para ainda poder se salvar.

Sociedade Secreta Silvestre.

Individualistas que Tendem ao Selvagem.

Esses nomes foram arrancados de alguma promoção de fitas VHS vendidas em balaios, em frente a locadoras falidas.

Como a Veja, que precisa, desesperadamente, da grana de propaganda oficial do governo Bozo.

REDES SOCIAIS

Viajandão: Toffoli fez 73 voos em aviões da FAB em menos de um ano na presidência do STF

19 de julho de 2019

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, durante abertura de audiência pública no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Foto: André Coelho/Folhapress.

Antecessora fez 30 no mesmo período; viagens incluíram Israel, Fernando de Noronha e Buenos Aires.

Frederico Vasconcelos, via UOL em 19/7/2019

O ministro Dias Toffoli fez ao menos 73 voos em aviões da FAB (Força Aérea Brasileira) desde que assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal, em setembro de 2018. Em igual período no cargo, sua antecessora, Cármen Lúcia, viajou 30 vezes.

Uma das últimas viagens dele em aeronave da FAB ocorreu em junho, para uma visita oficial de oito dias a Israel, a convite da Confederação Israelita do Brasil, Federação Israelita do Estado de São Paulo e Projeto Interchange, que promovem seminários para ministros do STF e do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

O presidente do Supremo também usou avião oficial para eventos de final de semana em Fernando de Noronha (maio) e em Buenos Aires(novembro).

Na ilha, Toffoli fez palestra em seminário organizado pela seccional de Pernambuco da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Na Argentina, foi ao 1º Encontro Internacional da Ajufe (Associação de Juízes Federais do Brasil).

Embora Toffoli tenha direito de usar os aviões da FAB, informações detalhadas sobre os voos, incluindo a lista completa de passageiros, não são divulgadas pelo Comando da Aeronáutica – nem quando consultado com base na Lei de Acesso à Informação.

O STF também não informa antecipadamente as requisições de aviões. As rotas são registradas pela FAB só quando concluídas as viagens.

Após decisões controversas, Toffoli e outros ministros do Supremo chegaram a ser um dos alvos de embates com procuradores e manifestações de rua a favor da Lava-Jato.

Nesta semana, enfrentou críticas após suspender investigações que usem dados detalhados de órgãos como Coaf e Receita Federal sem prévia autorização judicial. A decisão beneficiou o senador e filho do presidente da República Flávio Bolsonaro (PSL/RJ), investigado por suspeitas no período em que era deputado estadual na Assembleia do Rio.

A preferência de Toffoli pelos voos da FAB pode sugerir uma opção para evitar hostilidades em voos comerciais, como as que Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski enfrentaram nos últimos meses.

Quando assumiu a presidência do STF, Toffoli revelou que retomaria as viagens internacionais, prioridade que marcou sua presidência no Tribunal Superior Eleitoral (2014-2016).

Em 2015, Toffoli acompanhou eleições ou fez palestras em 12 países. De janeiro a setembro daquele ano, conforme a Folha registrou, Toffoli recebeu R$115,8 mil em diárias.

O voo de Toffoli para Tel-Aviv em viação da FAB em junho partiu de Brasília, no sábado [15/7], e fez escalas em Fortaleza, Cabo Verde e Valência, na Espanha. A aeronave, no sábado seguinte [22/7], retornou descendo em Roma e em Lisboa, onde ele pernoitou.

Em Israel, Toffoli foi recebido por membros do governo e do Judiciário e ouviu especialistas em tecnologia, segurança dos processos e sistema penitenciário.

Também foram ao país os ministros Luís Roberto Barroso e Rosa Weber (do STF), Ricardo Villas Boas Cueva, Mauro Campbell Marques, Joel Paciornik, Sebastião Alves dos Reis Jr. e Maria Isabel Galotti Rodrigues (do STJ).

O STF e o STJ não informaram previamente quais ministros viajariam a Israel. A assessoria de Toffoli não informou se algum ministro acompanhou o presidente do STF no voo da FAB.

Barroso e Rosa Weber anunciaram que arcariam com suas despesas. Os anfitriões ofereceram transporte, hospedagem e alimentação. A Latam tem voos diretos a Tel-Aviv, e várias empresas aéreas têm voos com uma escala.

A assessoria do STF informou que Toffoli, um juiz auxiliar, um assessor internacional e o chefe de gabinete da presidência cobrariam diárias.

O STF pagou em novembro passado R$32,6 mil em diárias aos seis juízes auxiliares e assessores que acompanharam Toffoli à Argentina.

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O Brasil ao lado das ditaduras mais cruéis do mundo

19 de julho de 2019

Bolsonaro na posse de Gustavo Montezano como presidente do BNDES em 16 de julho. Foto: Evaristo Sá/AFP.

No Conselho de Direitos Humanos da ONU, o nome do Brasil já não acompanha a Europa ou mesmo a América Latina, mas príncipes árabes, em nome da suposta defesa da família.

Jamil Chade em 18/7/2019

No final de junho, uma diplomata latino-americana que preparava uma declaração conjunta com o Brasil na ONU submeteu ao Itamaraty o texto que iria ler, dias depois, ao Conselho de Direitos Humanos.

No dia seguinte, ao abrir seu email, levou um susto ao ver a resposta do Governo brasileiro. O texto tinha sido devolvido com vetos a termos que, pelos últimos 25 anos, eram considerados como consensos internacionais e assinados até mesmo pelo Brasil.

Expressões como “igualdade de gênero”, direitos sexuais e reprodutivos e várias outras frases foram literalmente riscadas e substituídas por termos escolhidos para deixar claro uma visão de mundo em que direitos eram limitados, e não ampliados.

A diplomata estrangeira, surpreendida, apenas respondeu que aqueles termos originalmente colocados no texto não seriam modificados e, lamentando, notava que a postura da tradicional diplomacia brasileira sofria uma transformação inédita.

Nos bastidores da política externa, o Brasil de Jair Bolsonaro dava um claro sinal de que o posicionamento baseado em orientações religiosas, de restrições ou ultraconservadoras não se limitaria à retórica. Nas salas de negociação, nos corredores e trocas de telegramas, a guinada passara a ser uma realidade. E, com ela, novas alianças improváveis, sempre com governos marcados por posições polêmicas.

Nas semanas que se seguiram ao e-mail entre o Brasil e o governo latino-americano, o que as delegações estrangeiras ocidentais descobriram era um novo país, distante daquele que havia liderado um movimento progressista desde o final dos anos 90 no campo dos direitos humanos.

Nas fichas de votações publicadas ao final de cada resolução, o nome do Brasil já não acompanhava a Europa ou mesmo a América Latina. Mas sim algumas das ditaduras mais cruéis do mundo. Ali, o grupo de Bolsonaro e príncipes árabes encontraram um ponto em comum: a suposta defesa da família e valores.

Assim, o Brasil apoiaria propostas da Organização de Cooperação Islâmica para excluir educação sexual de textos da ONU, criticaria o uso do termo gênero, e até passou a concordar com sauditas sobre a necessidade de se manter em resoluções uma referência explícita à defesa do papel dos pais em casos em que se combatia o casamento forçado de meninas, muitas vezes patrocinados pelos próprios pais.

À medida que abandonavam suas tradicionais posições de ampliação de direitos, delegados brasileiros começaram a ser procurados por grupos do lobby antigay, que passaram a se sentir confortáveis em trocar impressões com a nova administração brasileira. Eventos com a presença do Brasil ainda foram patrocinados por ongs ultraconservadoras para falar da perseguição que cristãos estariam sofrendo.

Dias depois, o Itamaraty resistiria à ideia de que a ONU promovesse um maior espaço para que grupos indígenas pudessem se expressar e tomar posição, uma proposta apoiada por escandinavos e vários governos latino-americanos.

O Brasil ainda não apoiaria uma resolução amplamente patrocinada pelo Ocidente solicitando que a ONU iniciasse investigações sobre a campanha de Rodrigo Duterte, nas Filipinas, contra a suposta criminalidade. Em três anos, foram mais de 27 mil mortos, além de propostas como a redução da idade penal para apenas nove anos de idade.

Meses antes, o governo Bolsonaro havia abandonado sua tradição e votado em resoluções que condenam as violações de direitos humanos por parte de Israel.

Em todas as votações de emendas e mesmo no caso das Filipinas, o Brasil se aliou ao lado derrotado. Nenhuma das emendas foi aprovada e Duterte será investigado. Para completar, o governo de Jair Bolsonaro passou a receber cartas de protesto da ONU, denúncias e cobranças em relação a diversas políticas públicas de sua gestão.

Eleição?
Mas é exatamente neste contexto que o Brasil se apresentará à eleição para mais um mandato de três anos no Conselho de Direitos Humanos da ONU. A votação ocorre em outubro e a verdade é que dificilmente Bolsonaro será derrotado. Afinal, são oferecidas duas vagas para a América Latina e apenas dois candidatos se apresentaram: Brasil e, ironicamente, a Venezuela. Um espelho de uma região dividida e sem direção, para nenhum dos lados.

Para ser eleito, basta o país ter 97 dos 194 países da Assembleia Geral. Mas o teste será outro. Nas urnas, o Governo Bolsonaro vai descobrir até que ponto é aceito pela comunidade internacional e, no fundo, a votação se transformará em uma espécie de termômetro da popularidade do país.

Ao longo dos últimos anos, o Brasil viu de fato essa popularidade despencar. Depois de acumular 175 voto em 2008 e 184 em 2012, o governo brasileiro viu o apoio internacional cair na gestão de Michel Temer. Visto com hesitação, o Itamaraty perdeu quase 50 votos e, na eleição de 2016, ficou com apenas 137 apoios.

Para a campanha de 2019, o programa brasileiro tem uma linha clara: a delimitação de direitos, e não sua expansão.

Em seu programa apresentado aos demais governos, o centro das propostas brasileiras é a proteção à família, entendida apenas como aquela composta entre um homem e uma mulher.

Entre suas prioridades, nenhuma referência foi feita ao combate à tortura, ao direito à verdade, a processos de reconciliação, à garantia de direitos para imigrantes ou à educação. Em toda a campanha brasileira, a menção ao combate à homofobia ou direitos de LGBTs foi simplesmente omitida.

Bolsonaro, assim, caminha para a eleição em outubro em Nova Iorque fazendo acenos não a uma expansão de direitos. Mas a governos que, abertamente, buscam ampliar o número de aliados dentro do Conselho da ONU para enfraquecer uma tendência de abrir novas fronteiras nos direitos fundamentais no mundo.

Assim, quando os sauditas, egípcios e paquistaneses derem seu voto por Bolsonaro, não estarão aplaudindo os avanços na proteção à vida no Brasil. Mas sim considerando que terão, a seu lado, mais um governo hostil a investigações internacionais, a homossexuais e às eventuais violações ao caracter sacro da soberania.

Quando Duterte der seu voto ao Brasil, não estará apostando em uma nova forma de lidar com as drogas e nem uma visão mais humana do combate ao crime. Mas por ter tido, em Bolsonaro, um aliado contra a ingerência da ONU em assuntos domésticos.

Quando poloneses e húngaros derem seu voto ao Brasil, não será por sua abertura de fronteiras. Mas por sua recusa em assinar pactos de migração, assim como fizeram os governos do leste-europeu.

Quando o Itamaraty se apresentar para a eleição na ONU, portanto, sua bandeira não será a da expansão de direitos. Mas justamente a de impedir que as fronteiras das liberdades fundamentais sejam cada vez mais amplas.

Poderia parecer uma contradição o Brasil de Bolsonaro se candidatar ao Conselho de Direitos Humanos. Mas não o é, especialmente se o objetivo for o de formar uma aliança contra qualquer ideia de direitos internacionais que se sobreponham à soberania.

Minando esses direitos por dentro, o Brasil se alia a outros governos que, de forma hipócrita, usam as tribunas internacionais para desmontar um sistema criado há 70 anos e que serve de bússola moral ao mundo.

Entre as delegações ocidentais, o dia de votação promete ser um momento amargo: os diplomatas estarão entre dar seu voto a Bolsonaro ou a Nicolas Maduro, reconhecido pela própria ONU como violador de direitos humanos.

Mas, nos corredores da entidade, não faltam ironias diante da situação constrangedora. “Tem horas que dá uma enorme vontade de votar pela Venezuela”, debocha uma diplomata europeia.

Leia também: O Brasil do chanceler Ernesto Araújo: Da luta contra o Foro de SP ao voto com islâmicos sobre mulheres


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