Ricardo Melo: Aécio perde a batalha da verdade

21/10/2014

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Insistência do tucano em chamar de “mentiras” fatos incontestáveis derrete sua própria credibilidade.

Ricardo Melo

A frase atribuída ao nazista Joseph Goebbels – uma mentira repetida mil vezes se transforma em verdade – tem sido a resposta preferida do candidato Aécio Neves e sua equipe diante de críticas. O problema é quando a verdade, repetida mil vezes, continua sendo verdade, sem contraponto ou contraditório capaz de desmenti-la.

O candidato tucano construiu uma pista de pouso em propriedade familiar. A chave da mordomia ficava na mão de parentes, os quais, aliás, ele empregou aos montes. Tudo documentado. Nenhum estudo, mesmo fabricado às pressas, provou a necessidade da obra. Isso não é uma questão íntima. É dinheiro público queimado para fins pessoais. Existe uma ação em curso, por improbidade administrativa. É um fato, não depoimento selecionado de delação desesperada, desculpe, premiada.

O governo de Minas destinou uma gorda fatia de publicidade para empresas de telecomunicações dos Neves. Nem o candidato nega. É deselegante perguntar como o rapaz lida quando se encontram o público e o privado? Cabe aos brasileiros descobrir o montante, pois envolve gente disputando a Presidência. “Não registramos quanto foi gasto”, respondem o tucano e seu staff.

Documentos do Tribunal de Contas de Minas Gerais apontavam suspeitas de irregularidades no governo do atual senador. A capivara foi citada durante um dos debates. Horas depois, a papelada desapareceu do site oficial do tribunal, uma instância pública (!). Tomou Doril. Sumiu. E nada se faz a respeito.

O drible no bafômetro e outros momentos pouco edificantes da rotina noturna do senador estão fartamente documentados na internet e imprensa escrita. Não são montagem, assim como não é falso o stand-up daquele artista de fim de noite que relacionou Maradona e Aécio quanto ao consumo de drogas. Hoje o mesmo personagem posa de aecista desde criancinha. Mas nunca desmentiu a performance.

Balela a história de que trazer a público tudo isso é baixaria etc. etc. Isso é falta de argumento de quem não tem resposta.

Pense bem: quantas vezes já não deparamos com indivíduos brilhantes (o que não é propriamente o caso…), mas com uma trajetória errática, que seríamos incapazes de indicar para uma função, mesmo menor, numa empresa? Não há nisso preconceito nenhum; somente o desejo de saber qual é a pessoa certa para o lugar certo.

“Ah, mas e os programas, as propostas?”, indagam os puritanos habituais. Bem, todos conhecem o que pensam tanto Dilma quanto Aécio e seu braço direito, Armínio Fraga.

A primeira pelo que ela e seu partido fizeram nos últimos tempos no Planalto. Aécio, pelo que ele e sua equipe revelam em entrevistas e jantares. Coisas como corte de gastos sociais, esvaziamento de bancos públicos, encolhimento de salários, facão nas empresas, tarifaço, mudança nas leis trabalhistas e por aí vai. As tais medidas impopulares. Para ele, sem isto o Brasil vai piorar. Acredite quem quiser.

Com a campanha perto do fim, supostas regras de etiqueta surgem para esconder o essencial. Cortina de fumaça. Estão em jogo a vida e o futuro de milhões de pessoas. Elas têm todo o direito de conhecer quem pretende ocupar o cargo mais alto da República.

Pesquisas são só pesquisas. A depender delas, o PT não teria ganho no primeiro turno na Bahia e em Minas Gerais, Aécio não teria os votos obtidos em São Paulo, e o PMDB estaria fora do segundo turno no Rio Grande do Sul.

A questão não é satanizar institutos. É dar aos seus levantamentos o peso que merecem. Mais do que nunca, o primeiro turno mostrou que a palavra final é do eleitor, não de pesquisados. Da mesma forma que é patética a tática de carimbar como mentiras verdades inapagáveis, registradas em vídeo, áudio e folhas de papel.

Aécio “funga-funga” x Dilma “técnica”: A petista saiu-se melhor na Record

21/10/2014

Rodrigo Vianna, via Revista Fórum

A primeira constatação é óbvia: Dilma e Aécio estavam calminhos no debate da TV Record, realizado no domingo, dia 19/10, depois da pancadaria no SBT.

Aécio, especialmente, tentou se controlar porque as pesquisas qualitativas devem ter mostrado: a agressividade desmedida contra Dilma pegou mal pra ele. Ficou com a pecha de autoritário, de não conseguir tratar mulher de igual pra igual (aliás, uma das pérolas do tucano foi dizer que “creche é o que de mais importante pode existir para a mulher”; deixou escapar que, pra ele, “mulher” é só a mãe e dona-de-casa; Freud explica).

Apesar de todo treinamento, os marqueteiros não conseguiram tirar de Aécio algo que é quase um vício: o sorriso sarcástico, de canto de boca, passa a impressão de alguma arrogância, de deboche e desprezo. Isso deve agradar o eleitor que já odeia o PT, e sonha em ver Dilma “esmagada”. Mas é um tiro no pé, afasta os indecisos.

Alguns jornalistas notaram – também – um outro vício do tucano. José Roberto de Toledo, do Estadão, falou pelo Twitter:

“Alguém podia dizer para o Aécio que dá para ouvir ele fungando o tempo todo. Deve estar resfriado, sei lá, mas incomoda”.

Por que Aécio “fungou” tanto? Foi o esforço para evitar a agressividade? Ou o cansaço?

Dilma, que teve sua melhor performance no primeiro debate (na Band), voltou ao perfil “técnico” na Record. Um pouco cansativo, um jeito lento de falar. Como se sabe, ela não tem grande capacidade de oratória. Ainda assim, teve um desempenho consistente – pelo efeito de comparação. Dilma mostrou seriedade, consistência, não riu do adversário.

Aécio “sarcástico” x Dilma “técnica”. Esse parece ter sido um dos saldos do debate da Record. O outro foi a insistência do candidato do PSDB em mostrar-se pessimista. Ele fala que quer comandar “mudança para o futuro”, mas passa pessimismo. Diz que os empregos estão “sumindo no Brasil”, quando o trabalhador sabe que o desemprego nunca esteve tão baixo. Claro, há muito pra melhorar, mas parece-me que Aécio erra um pouco no tom.

Fora isso tudo, há a questão programática. Num só debate, Aécio atacou a Petrobras (e esse foi o ponto alto de Dilma, ao lembrar que os tucanos querem privatizá-la e entregá-la a petroleiras estrangeiras), levantou dúvidas sobre Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Pronatec…

Passa a impressão de que o projeto do PSDB é mesmo o desmonte do Estado brasileiro. Isso pode agradar as classes médias do Rio, São Paulo e Brasília – que já estão com ele, e aderem ao discurso privatista. Mas o povão quer mais Estado, porque sabe que sem governo não há chance de se equilibrar um pouco o jogo.

O debate da Record talvez tenha sido aquele em que ficaram mais claros os dois projetos em disputa: um é o projeto do “mercado”, das classes médias que mantem o sorriso de arrogância ao falar de “programas sociais” como se fossem “esmola”; o outro é o programa de valorização do Estado, como indutor do crescimento e da justiça social.

O ruído midiático e a onda de “caçar PT corrupto” (como se o PSDB não fosse muito pior nesse quesito) escondem essa disputa. Mas no debate os dois projetos parecem ter aflorado. E isso é positivo para o Brasil. Permite uma escolha mais honesta, sem tanto ruído.

Dilma não ganhou a eleição no domingo, dia 19/10, na Record. Nem tampouco Aécio. Mas o saldo, depois dos três debates, é favorável à candidata à reeleição pelo PT.

A uma semana da eleição, os sinais são de que cresce a rejeição a Aécio e de que Dilma avança (ainda que lentamente) entre os eleitores de baixa renda que votaram em Marina no primeiro turno.

Esse quadro vai perdurar até próximo domingo? Não se sabe…

Até lá, há o JN, a Globo e o dispositivo midiático devem lançar novos mísseis contra Dilma. Aécio mesmo deu a dica na Record: falou várias vezes de Vacari – o tesoureiro do PT, acusado (sem provas, até aqui) de envolvimento com o escândalo da Petrobras.

O juiz amigo dos tucanos no Paraná e a Globo de Ali Kamel devem estar preparando surpresas nessa área… E Aécio sabe que daí pode vir a cavalaria a ajudá-lo na reta final.

Mas o eleitor parece vacinado. E Dilma colhe – nesse momento – os resultados de uma campanha que bateu na hora certa e voltou à discussão programática na hora em que Aécio tentou bater de volta…

Ainda assim, essa é uma eleição pra ser decidida por diferença muito estreita, menos de 2 milhões de votos. Inicia-se a semana decisiva…

Petrobras: Jogo sujo da Globo confirma que delação foi armada

21/10/2014

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Miguel do Rosário em O Cafezinho

O post publicado no domingo, dia 19/10, no blog do Camarotti, dizendo que Aécio recebeu o relatório da delação premiada, com “detalhes” do que foi dito por Paulo Roberto Costa, e tentando usar isso como “escudo” contra possíveis ataques de Dilma, tem cheiro de jogo sujo e cheiro de blefe.

Aécio está com medo. Sabe que mais umas porradas num debate e sua rejeição, que já supera a de Dilma, explode de vez.

Mas confirma uma coisa.

A delação foi um jogo armado entre os advogados dos ladrões e os tucanos do Paraná, com a possível conivência do juiz Sérgio Moro.

Como é possível Álvaro Dias e Aécio terem acesso a depoimentos de conteúdo secreto, que não foram disponibilizados nem ao Congresso nem à presidenta da república?

Que bagunça é esta?

Os ladrões da Petrobras são isso: ladrões.

Qualquer denúncia que eles façam tem de ser provadas. Por isso mesmo é tão irresponsável, por parte do juiz, receber esta delação exatamente no momento mais tenso de uma eleição presidencial. E participar do jogo de vazamentos, legais ou ilegais.

Os ladrões Paulo Roberto Costa e Youssef estão tentando livrar a cara entrando no jogo político.

Com isso, desviam atenção de si mesmos e jogam a culpa nos outros.

A denúncia contra um tucano morto, Sérgio Guerra, tem cheiro de armadilha. Está morto, e ninguém liga para ele mais.

Serviu apenas para que os petistas passassem a valorizar a palavra de Costa, e daí a mídia vir com mais vazamentos bombásticos na reta final da campanha.

***

No blog do Gerson Camarotti, em O Globo.

Aécio recebe relatório detalhado sobre delações de ex-diretor da Petrobras e doleiro

Quando esteve em Curitiba, na semana passada, o tucano Aécio Neves recebeu do senador Álvaro Dias (PSDB/PR) um relatório detalhado com o conteúdo das delações premiadas do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef.

Segundo relatos, haveria no relatório um tópico específico em que integrantes da cúpula petista são citados no esquema de desvio de recursos da estatal.

Aécio decidiu guardar esse relatório como uma munição reserva para o terceiro debate entre os presidenciáveis, que acontece hoje à noite. E vai usá-lo caso haja golpe abaixo da cintura preparado pela campanha da petista Dilma Rousseff, candidata à reeleição.

O balanço das denúncias contra Aécio que a mídia ignorou

20/10/2014

Conceição Lemes, via Viomundo

Nos últimos dias, a Folha de S.Paulo descobriu as três rádios – dentre elas, a Arco-Íris – e o jornal de Aécio Neves, candidato à presidência pelo PSDB, e de sua família.

O jornal tentou, mas não conseguiu obter informações sobre quanto o governo de Minas gastou em publicidade nesses veículos. Isso, no entanto, não é nenhuma novidade.

Desde 2011, o Viomundo denuncia a aplicação, via publicidade, de dinheiro de estatais mineiras e da administração direta estadual na rádio Arco-Íris e demais veículos de comunicação de Aécio Neves e família.

Por que 2011?

Em 17 de abril de 2011, Aécio foi parado pela polícia numa blitz de trânsito no Leblon, cidade do Rio de Janeiro. Convidado a fazer o teste do bafômetro, ele se recusou. A carteira de habilitação, vencida, foi apreendida. Levou duas multas.

O carro em que o senador dirigia na hora da blitz – Land Rover TDV8 Vogue, ano 2010, placa HMA 1003, valor mercado R$255 mil, comprado após as eleições de 2010 – pertencia à rádio Arco-Íris, de Belo Horizonte (MG), cujos sócios são Aécio, a irmã Andrea e sua mãe, Inês Maria Neves Faria.

Durante todo o período em que Aécio governou Minas (janeiro de 2003 a abril de 2010), sua irmã, Andrea Neves, comandou o Núcleo Gestor de Comunicação Social da Secretaria de Governo. Uma de suas funções era decidir sobre a alocação de recursos de toda a publicidade do Estado de Minas Gerais.

Na terça-feira, dia 14/10, no debate do SBT, Dilma questionou Aécio sobre o assunto duas vezes:

– Sua irmã era responsável por toda a verba destinada à publicidade, que foi para as rádios e os jornais que vocês têm em Minas.

– Quando a gente pergunta sobre os recursos passados às rádios e a um jornal mineiro que você tem em Minas Gerais, não há transparência.

Aécio não respondeu. Fez de conta que não era com ele. Assim como mídia corporativa menosprezou essa e outras denúncias feitas e reiteradas desde 2011 em relação ao governo de Aécio Neves (confira aqui, aqui e aqui).

Por isso, nós resgatamos agora – 17 de outubro, às 21h30 – a reportagem abaixo, que foi publicada em 17 de fevereiro de 2013. Nela, tratamos da Rádio Arco-Íris, Banjet, Oswaldinho, aplicação de verbas públicas em empresas da família, voos em jatinho do presidente da Codemig, suspeitas de ocultação de patrimônio e sonegação fiscal, blindagem.

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“SE O GURGEL NÃO ABRIR INQUÉRITO CONTRA O AÉCIO, ESTARÁ PREVARICANDO”

Em Minas, o ex-procurador Alceu Marques Torres arquivou duas representações contra Aécio e Andrea Neves. Em 31 de maio de 2011, os deputados Rogério Correia, Sávio Souza Cruz e Antônio Júlio entregaram a Roberto Gurgel outra denúncia. Ela está na gaveta do procurador-geral da República há 22 meses e 17 dias.

Conceição Lemes

17 de abril de 2011. Madrugada de domingo, Leblon, Zona Sul carioca. O senador Aécio Neves (PSDB/MG), dirigindo uma Land Rover, é parado pela polícia numa blitz de trânsito. Convidado a fazer o teste do bafômetro, ele se recusa. A carteira de habilitação, vencida, é apreendida. Leva duas multas.

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A partir daí, o poderoso bunker montado para protegê-lo foi sofrendo alguns abalos.

O Movimento Minas Sem Censura (MSC), bloco de oposição que reúne parlamentares do PT, PMDB, PCdoB e movimentos sociais, descobriu fatos até então desconhecidos. Além de denunciá-los publicamente, fez representações a várias instâncias, pedindo que fossem investigados.

Essas ações não deram em nada até agora.

Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), as tentativas para instalar CPIs não prosperaram. Lá, como em São Paulo, vige a lei da mordaça tucana.

Alceu José Marques Torres, procurador-geral da Justiça de Minas até início de dezembro de 2012, arquivou as duas representações feitas contra o senador, a irmã Andrea Neves e a rádio Arco-Íris.

Clique em Despacho do ex-procurador-geral de Justiça de MG, Alceu José Torres Marques

“Como o procurador nada apurou, nós entramos com a segunda representação”, diz o deputado estadual Rogério Correia (PT/MG), líder do MSC.

“O promotor João Medeiros Silva Neto, do Ministério Público do Estado de Minas, abriu inquérito para investigá-la. Porém, o doutor Alceu avocou para si o processo e arquivou. O então procurador-geral prevaricou.”

Em 31 de maio de 2011, Rogério e os colegas Luiz Sávio de Souza Cruz e Antônio Júlio, ambos do PMDB, foram a Brasília.

Entregaram pessoalmente a Roberto Gurgel representação denunciando Aécio e a irmã dele, Andrea Neves, por ocultação de patrimônio e sonegação fiscal. A representação está na gaveta do procurador-geral da República há 22 meses e 17 dias.

“Como em 2010 Aécio se tornou oficialmente sócio da rádio Arco-Íris, cujo valor de mercado é de R$15 milhões, se tinha patrimônio total declarado de R$617.938,42?”, questiona Sávio Souza Cruz, vice-líder do MSC.

“Como Aécio viajava para cima e para baixo em jatinho da Banjet, cujo dono preside a Codemig e é dono de empresas que prestam serviços ao governo de Minas? Por que Aécio indicou Oswaldinho para presidir a Codemig?”

Rogério Correia denuncia: “Há fortes indícios de ocultação de patrimônio e sonegação fiscal. Aécio se recusa a prestar esclarecimentos sobre o seu patrimônio. Andrea destinou dinheiro público para empresas da família. Isso é improbidade administrativa!”

“Em Minas, o Aécio tudo pode”, continua Souza Cruz. “Nós poderíamos ter copiado tantas coisas aprazíveis da Bahia, acabamos por reproduzir uma das menos positivas, o Aecinho Malvadeza.”

“Está tudo dominado”, ele sentencia. “A Assembleia Legislativa homologa tudo o que é do interesse do Aécio. O ex-procurador geral de Justiça de Minas virou o zagueiro do Aécio, nós passamos a chamá-lo de ‘Aéceu’.”

As denúncias menosprezadas pela mídia corporativa

Rádio Arco-Íris, Banjet, Oswaldinho, aplicação de verbas públicas em empresas da família, voos em jatinho do presidente da Codemig, suspeitas de ocultação de patrimônio e sonegação fiscal, blindagem.

Nenhuma dessas denúncias, praticamente desprezadas pela mídia corporativa, é novidade. Todas, desde 2011, têm sido feitas e reiteradas (confira aqui, aqui e aqui).

O ponto de partida, relembramos, foi o flagrante do teste do bafômetro, em 17 de abril de 2011, na cidade do Rio de Janeiro.

O carro que o senador dirigia na hora da blitz – Land Rover TDV8 Vogue, ano 2010, placa HMA 1003, valor mercado R$255 mil, comprado após as eleições de 2010 – pertencia à rádio Arco-Íris, de Belo Horizonte (MG), cujos sócios são Aécio, a irmã Andrea e sua mãe, Inês Maria Neves Faria.

Há anos é propriedade da família Neves. Em 1987, o então deputado federal Aécio Neves ganhou a concessão para explorá-la do à época presidente da República José Sarney, atualmente senador.

Por coincidência, Aécio votou a favor da ampliação do mandato de Sarney para cinco anos, o que lhe valeu entre adversários a alcunha de “Aecinco”.

Antônio Carlos Magalhães, ministro das Comunicações naquele momento, assinou a outorga. Inicialmente a sede da emissora ficava em Betim, depois foi transferida para BH.

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A matéria abaixo de Veja, publicada na seção Radar, em 1987, circulou muito após o teste do bafômetro. Ela diz que Aécio já seria proprietário de outras três rádios, em Cláudio, Formiga e São João Del-Rei. Investigação feita em 2011 revelou que oficialmente ele era sócio apenas da Arco-Íris. Estavam em nome de Andrea outra emissora e um jornal em São João Del-Rei.

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Aécio, aliás, só passou a integrar legalmente a sociedade da rádio Arco-Íris dois meses após ser eleito senador. Mais precisamente a partir de 28 de dezembro de 2010 com valor declarado à Junta Comercial de Minas Gerais de R$88 mil, o equivalente a 88 mil cotas. A mãe, dona Inês Maria Neves Faria, repassou-lhe a maior parte das suas.

Em consequência, as 200 mil cotas da empresa ficaram assim distribuídas: Andrea, 102 mil (51%); Aécio, 88 mil (44%); e dona Inês Maria, 10 mil (5%).

Foi a sétima alteração contratual da empresa, que iniciou atividades em 1986. Abaixo a última página do contrato.

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A rádio Arco-Íris, além da Land Rover, era proprietária em 2011 de outros 11 veículos registrados no Departamento de Trânsito de Minas (Detran/MG).

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Dos 12 veículos, seis são carros de passeio de luxo, em geral não utilizados para fins empresariais. Mais surpreendentes foram as frequentes autuações dos veículos da Arco-Íris no Estado do Rio de Janeiro.

Afinal, ela é retransmissora da rádio Jovem Pan FM, tem sede em BH, não possui departamento de Jornalismo e se atém a transmitir músicas para jovens.

As multas aplicadas em 2011 no Toyota Fielder (HEZ1502) e na Land Rover TDV8 Vogue (HMA 1003) decorreram de excesso de velocidade nas cidades de Búzios, Rio Bonito e Rio de Janeiro e em rodovias fluminenses.

A informação é do Detran/MG. Abaixo uma do Toyota Fielder (HEZ1502).

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Milagre dos peixes

Aécio governou Minas de janeiro de 2003 a abril de 2010. Durante os dois mandatos, a irmã Andrea comandou o Núcleo Gestor de Comunicação Social da Secretaria de Governo, criado por decreto em 3 de abril de 2003, pelo próprio governador.

O setor tinha as funções de:

1) coordenar, articular e acompanhar a execução de toda a política de comunicação social do Estado, inclusive a das secretarias, autarquias, empresas públicas e fundações estaduais;

2) decidir a alocação de recursos financeiros de toda a publicidade do Estado de Minas Gerais, sua administração direta e indireta, até mesmo das empresas controladas pelo poder público mineiro, bem como o patrocínio de eventos e ações culturais e esportivas.

De 2003 a 2010, as despesas com “divulgação governamental” somaram R$489 milhões. No primeiro mandato, foram R$157 milhões; no segundo, R$325 milhões, de acordo com o Sistema Integrado de Administração Financeira do Tesouro (Siafi).

Nesses valores não estão incluídos os gastos com publicidade de empresas públicas ou de economia mista controladas pelo Estado, como as companhias Mineradora (Codemig), Energética (Cemig), Saneamento (Copasa) e Gás (Gasmig), assim como as do Banco de Desenvolvimento de Minas (BMDG) e Loteria estadual (LEMG). Eles totalizaram mais de R$325 milhões de 2003 a 2009, conforme o Tribunal de Contas do Estado.

Pois era Andrea quem orientava, determinava e supervisionava quanto, quando, como e onde aplicar todos esses recursos do Estado e suas empresas, diretamente ou via agências de publicidade.

No decorrer das gestões do irmão-governador, o seu núcleo aplicou, a título de publicidade, dinheiro de estatais mineiras e da administração direta estadual na rádio Arco-Íris e em outras empresas de comunicação dos Neves.

Exatamente quanto não se sabe, pois o ex-procurador-geral Alceu José Marques Torres nem ao menos investigou quanto de dinheiro público a rádio Arco-Íris recebeu.

Por falar em patrimônio, em fins de 2010, quando Aécio passou a ser oficialmente sócio da rádio Arco-Íris, o capital social registrado não representava o valor real. Somente os 12 veículos em nome da empresa valiam aproximadamente R$714 mil em maio de 2011. Já o valor comercial da emissora, de acordo com fontes do mercado, era de aproximadamente R$15 milhões.

Contudo, no início de 2010, ao registrar a candidatura ao Senado, Aécio declarou à Justiça Eleitoral patrimônio total de R$617.938,42. Um decréscimo de cerca de 20% em relação ao de 2006. Apenas a parte dele no valor dos automóveis da rádio Arco-Íris seria de R$314 mil! Um milagre dos peixes às avessas.

Banjet, Codemig, Bandeirantes, IM: Relações familiares e comerciais

Em 2011, o Minas Sem Censura fez outra denúncia contra o senador tucano: Aécio usava gratuitamente os jatinhos da Banjet Taxi Aéreo Ltda., para deslocamentos no Brasil e exterior. “Uma cortesia da empresa”, justificou-se na época.

A Banjet fazia parte do grupo do extinto Banco Bandeirantes, sendo seus donos os empresários Clemente Faria e Oswaldo Borges da Costa Filho.

Oswaldinho (como Oswaldo Borges da Costa Filho é conhecido em Minas) é casado com Beatriz Faria Borges da Costa, filha do banqueiro Gilberto de Andrade Faria, que foi padrasto de Aécio. Gilberto, falecido em 2008, casou-se em segundas núpcias com dona Inês Maria, com quem viveu durante 30 anos.

Clemente, morto em acidente aéreo em julho de 2012, é o outro filho do primeiro casamento do banqueiro Gilberto Faria. Clemente, portanto, era cunhado do Oswaldinho, seu sócio na Banjet.

Pois Oswaldinho e Clemente eram sócios em outras empresas, entre elas a Star Diamante Ltda. (nome fantasia Starminas), criada em setembro de 2003. Em 4 de fevereiro de 2004, Clemente transferiu todas as suas cotas para Oswaldo Borges da Costa Neto, que já era sócio, e Oswaldinho, a quase totalidade. Costa Neto é filho de Oswaldinho e ficou com 259.999 cotas das 260 mil cotas da empresa. Abaixo fragmento da última página do contrato social de constituição dela.

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A essa altura, Oswaldo Borges da Costa Filho já presidia a Companhia Mineradora de Minas (Comig), como mostra nota publicada pelo jornal O Estado de Minas em 24 de setembro de 2003, página 17.

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No final de 2003, a Comig teve nome e objeto social alterados para Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig).

Codemig é uma empresa pública e como tal o diretor-presidente deve ser eleito pelo seu conselho. Mas, na prática, é quem o governador indicar. Em 2003, com Aécio no poder, Oswaldinho – genro do padrasto de Aécio – passou a presidir a Comig, depois a Codemig, cargo que ocupa até hoje.

Não haveria aí conflito de interesses?

Explico. A mineração é uma das áreas de atuação da Codemig. Além disso, Oswaldo Borges da Costa Filho era sócio ou integrava a diretoria de várias empresas, segundo levantamento feito na Junta Comercial de Minas Gerais em 16 de maio de 2011. Entre elas, a Minasmáquinas S/A e a Bamaq S/A – Bandeirantes Máquinas e Equipamentos, que também pertenceram ao grupo do extinto Banco Bandeirantes e mantêm relações comerciais com o Estado de Minas Gerais, segundo o bloco de oposição Minas Sem Censura.

Curiosamente, um dos endereços do liquidado Banco Bandeirantes – Avenida Rio de Janeiro, 600, Belo Horizonte – era o mesmo da IM Participações e Administração Ltda.

Gilberto Faria, relembramos, era dono do extinto Banco Bandeirantes e foi padrasto de Aécio.

A IM, por sua vez, tem como sócios os irmãos Neves da Cunha – Aécio, Andrea e Ângela, a mais nova do clã. A mãe é a administradora. Dona Inês Maria atuou também na gestão do Bandeirantes e foi sócia do marido, o banqueiro Gilberto Faria, em algumas empresas, como a Trevo Seguradora.

A investigação pedida pela oposição mineira poderia esclarecer, por exemplo, se houve alguma triangulação entre o Banco Bandeirantes e a IM.

Assessoria de Aécio: “Motivação meramente política.”

Esta repórter buscou falar com o senador e a irmã, para saber o que teriam a dizer sobre as representações feitas contra ambos pelo Minas Sem Censura.

Foram muitos e-mails e telefonemas para o gabinete de Aécio, em Brasília, com a secretária driblando: “os assessores de imprensa estão em Minas”, “estou tentando contatá-los, mas não consigo”.

Até que, depois de muita insistência, veio esta resposta:

A assessoria do senador Aécio Neves informa que se trata de antigas iniciativas de dois deputados de oposição ao PSDB de Minas Gerais, amplamente noticiadas à época e sobre as quais foram prestados todos os esclarecimentos. É nítida a motivação meramente política das mesmas. Registre-se que uma delas chegou a ser apresentada por duas vezes, tendo sido, nas duas ocasiões, investigada e arquivada por falta de fundamento.

De Andrea, nenhum retorno. Em 2003, o então governador Aécio Neves nomeou-a para a presidência do Servas (Serviço Voluntário de Assistência Social), cargo que ocupa até hoje. Está na terceira gestão. O site da entidade informa:

O Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) é uma associação civil, de direito privado, sem fins econômicos, que tem como objetivo promover e executar ações sociais em Minas Gerais, dotado de autonomia administrativa, financeira e operacional. É reconhecido como entidade de utilidade pública nos níveis municipal, estadual e federal. Existe desde 1951.

Andrea Neves da Cunha permanece na presidência do Servas, de janeiro de 2011 até a presente data, dando continuidade aos programas já existentes, em parceria com o Governo de Minas, empresas e entidades de classe.

Após vários e-mails e telefonemas ao setor de Comunicação do Servas nos últimos 25 dias, a chefe do setor alegou: “Andrea está de férias, não posso encaminhar para ela”.

Em resposta a mais um e-mail enviado por esta repórter, ela respondeu nessa quinta-feira 14: “A senhora Andrea já retornou de férias, mas ainda não pude tratar com ela sobre seu pedido. Havendo um retorno, informo”.

Denúncia contra Aécio e Andrea na gaveta de Gurgel há quase 23 meses

Em 31 de maio de 2011, os deputados Sávio de Souza Cruz, Antônio Júlio e Rogério Correia entregaram nas mãos do procurador-geral da República, em Brasília, a representação contra Aécio e Andrea.

Gurgel fez questão de ir com os parlamentares até o setor de protocolo da Procuradoria Geral da República (PGR). Aí, a representação recebeu o número 1.00.000.006651/2011-19.

“Ligávamos de vez em para o setor de protocolo e a informação era de que não havia novidade”, diz Correia. “Sabíamos apenas que a representação não havia sido arquivada nem inquérito aberto.”

“No dia 29 de janeiro, ligamos e nos disseram que no dia 18 de dezembro de 2012, a Coordenadoria de Comunicações Administrativas (CCA) remeteu a representação e um relatório para o doutor Gurgel”, acrescenta Correia. “Nos disseram que estão na mesa dele.”

Ao Viomundo, a Secretaria de Comunicação da PGR limitou-se a dizer antes do Carnaval: “O documento protocolado pelos deputados encontra-se em análise no gabinete do procurador-geral”.

Nesta sexta-feira 15, voltamos a contatar a Secretaria de Comunicação da PGR para saber se havia tido alguma mudança nesse período. A resposta foi “não”.

Fontes da própria PGR nos disseram que até 28 de janeiro de 2013 – portanto, um dia após Correia ligar para lá – não havia sido dado qualquer despacho na representação protocolada em 31 de maio de 2011, que continua na gaveta do procurador.

Oficialmente não é da alçada da CCA dar parecer jurídico sobre qualquer representação. É um setor grande da PGR. Aí, ficam expediente, protocolo, arquivo, publicação.

Além disso, mesmo não existindo arquivamento, o status da representação dos deputados mineiros contra Aécio e Andrea estava gravado como “arquivado” no sistema. Isso sempre acontece quando o processo está parado há mais três meses.

“Diante de todas essas denúncias, não há outra saída para doutor o Roberto Gurgel a não ser abrir inquérito junto ao STF contra Aécio Neves”, espera Rogério Correia. “Do contrário, ele estará prevaricando.” Sávio Souza Cruz afirma: “Espero que o procurador-geral da República cumpra a Constituição”.

A propósito. Enquanto a representação contra Aécio e Andrea Neves dorme há quase 23 meses na gaveta de Gurgel, ele decidiu, em cinco meses, o destino das acusações feitas em setembro de 2012 pelo publicitário Marcos Valério de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria recebido vantagens financeiras do esquema do mensalão.

No dia 6 de fevereiro, o procurador-geral resolveu mandar para Minas o processo. Nessa quinta 14, o Ministério Público Federal (MPF), em Belo Horizonte, recebeu o depoimento de Valério contra Lula.

“A denúncia de Marcos Valério, réu já condenado, querendo benefício para reduzir pena, foi rapidamente remetida ao MPF para investigação”, compara Correia. “Já a de duas bancadas, representando 19 deputados estaduais, contra Aécio e Andrea está sem nenhuma providência desde maio de 2011.”

“Parece que o Marcos Valério, como fonte de denúncia, tem mais credibilidade para o procurador-geral do que as bancadas estaduais de Minas dos dois maiores partidos do Brasil”, diz Sávio Souza Cruz. Correia finaliza: “É o cúmulo do partidarismo”.

Wanderley Guilherme dos Santos: A Petrobras não é feita de ladrões

20/10/2014

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Wanderley Guilherme dos Santos, lido em O Cafezinho

A Petrobras não é feita por ladrões, mas tem sido vítima de vários tipos de criminosos. Desde os que não desejavam que fosse criada aos que ridicularizavam dizendo que o Brasil não tinha capacidade para fabricar sapatos quanto mais para produzir petróleo.

Ainda mais: os que desejavam associar o capital estrangeiro aos negócios do petróleo (que, insistiam, não existia) transformaram-se nos que propunham vendê-los a preço de banana podre, antes da descoberta do pré-sal, já pressentido pelos enormes investimentos de prospecção em águas profundas. Descoberta uma das maiores reservas de óleo, pressionaram para entregar essa riqueza às aves de rapina internacionais.

Não, a Petrobras não é feita por ladrões e outros tipos de criminosos. Ela é feita por dezenas de milhares de trabalhadores qualificados, por centenas de engenheiros de diversas especialidades, por mergulhadores, reparadores, dezenas de pessoas responsáveis pela saúde, alimentação e segurança de todos os que se arriscam, dia a dia, para fazer o que ela de fato é.

Apesar de todos esses criminosos, a Petrobras não é uma empresa ocupada por assaltantes, ela é uma das maiores empresas de petróleo do planeta, bate sucessivos recordes de produção, detém a preciosa tecnologia de pesquisa em águas profundas e, com base na riqueza já conhecida, está preparada para se tornar uma potência mundial, garantindo a soberania e independência do país. Os ladrões e criminosos estão ou irão para a cadeia, mas a Petrobras caminha para um sucesso sem paralelo na história do petróleo nacional.

Wanderley Guilherme dos Santos é cientista político.


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