A Lava-Jato e o desmanche nacional

14 de fevereiro de 2016

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Jorge Rebolla, lido Jornal GGN em 5/2/2016

DESMANCHE NACIONAL
O atraso dos cronogramas e a possível inviabilização dos programas de modernizações das forças armadas é um dos efeitos colaterais do modo como a troika Poder Judiciário, Ministério Público Federal e Polícia Federal estão combatendo a corrupção.

A Construtora Norberto Odebrecht, através da Odebrecht Defesa e Tecnologia, controla as empresas responsáveis pela fabricação do submarino nuclear brasileiro, é um dos principais alvos da Lava-Jato e da sua sanha aniquiladora. Extrapolar do indivíduo a punição para que atinja o seu patrimônio, além das multas justificadas, relembra a antiga prática de salgar o solo que pertencia ao condenado, para que nada mais nascesse ali.

O vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, que liderou o programa brasileiro para domínio do ciclo do enriquecimento do urânio, está preso por acusações, que antes de uma condenação transitada em julgado, não leva ninguém para a cadeia. Sem ele dificilmente o Brasil hoje teria condições próprias de fabricar combustível a partir do urânio.

Agora o MPF reabre o inquérito sobre a aquisição dos caças Gripen, da Saab, que pode provocar o cancelamento do contrato de compra, afinal qual empresa quer ser jogada no picadeiro do circo midiático que paralisa hoje o Brasil? Sem ele não receberemos transferência de tecnologia de ponta da empresa sueca.

A FAB utiliza caças projetados inicialmente na década de 1950, que apesar das modernizações que sofreram estão totalmente obsoletos. No máximo, nos países mais ricos, são utilizados como aviões de treinamento.

O projeto do submarino nuclear brasileiro está décadas atrasado. O Brasil possui tecnologia para a fabricação de submarinos a diesel e desenvolvia os equipamentos para a propulsão nuclear. Com o descaso governamental e os pequenos orçamentos para o projeto, nas últimas décadas, decidiu adquirir no exterior, na França, um pacote tecnológico para equipar a Marinha com o tão necessário submersível, queimando etapas e acelerando a construção. Hoje isto corre o risco de não se concretizar, novamente devido a cortes orçamentários e principalmente ao assédio ao grupo que o construirá.

O Brasil hoje não possui a menor condição de se defender. A indústria bélica nacional que se fortaleceu na década de 1970 começou a desaparecer no governo Sarney (PMDB/AP), foi definitivamente sepultada durante o tucanato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB/SP).

Hoje em dia compramos sucata para as forças terrestres, como o tanque Leopard 1A5, após o fim da sua vida útil em outros países. Este veículo blindado que “moderniza” o nosso Exército é tecnologicamente mais atrasado que o tanque brasileiro Osório, desenvolvido pela Engesa, há mais de 30 anos.

Para o combate a corrupção e a punição dos corruptos não é necessário desmontar e destruir empresas e projetos essenciais ao país, porém tenho a impressão que os agentes responsáveis pela persecução consideram mais importante a autopromoção e a fama fácil que a segurança nacional. Posam de paladinos da moralidade pública, e mesmo se atingirem as suas metas continuarão em meio à podridão. As administrações públicas que possuem como principal objetivo a manutenção da elite dirigente no poder permanecerão. Pois as questões de fundo que são os atuais sistemas político-partidário e eleitoral e a apropriação privada do patrimônio público, que gera os recursos necessários para esta permanência, contaminam todas as esferas administrativas. A operação Mãos Limpas, na Itália, pariu Sílvio Berlusconi, quem será o rebento da Lava-Jato?

O modo como as investigações vazadas são utilizadas pela imprensa parecem dirigidas para algo muito além do PT, a soberania nacional. A catarse induzida pela mídia é direcionada para que a terra arrasada seja o desfecho desejado por todos. Mesmo as iniciativas corretas tomadas durante os governos Lula e Dilma não estão apenas sob suspeição, são alvos de ataques que visam a sua total destruição. Independentemente de serem benéficas para a nação.

No Planeta Terra não existem nações amigas, o que conta são os interesses nacionais de cada uma delas. Principalmente os das mais poderosas. Quando vejo um brasileiro criticando os gastos militares a única coisa que consigo pensar é: nasceu com vocação para capacho. Em geral perguntam com a inocência dos tolos quem irá nos atacar, ora, qualquer um dependendo da situação, do momento e das complicações geopolíticas. E o ataque pode se dar de várias formas.

Neste século 21 dois países foram completamente destruídos, Síria e Líbia, e outros estão em tal situação que serão necessárias décadas para retornarem ao que eram há dez ou quinze anos, como a Ucrânia.

O atual poder hegemônico mundial, os EUA, está em declínio relativo, e isto provocará ainda mais mudanças, zonas de influência e interesses econômicos sofrerão alterações. Como já está ocorrendo hoje. Os países citados acima foram tragados nesta dinâmica. A história nos mostra quem nenhum império cede poder sem antes confrontar os desafiantes, isto causará dor e nenhum país do mundo estará imune a ela.

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Ô Lula, vê se aprende com os Marinho a fazer um puxadinho honestamente…

14 de fevereiro de 2016

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Fernando Brito, via Tijolaço em 6/2/2016

Em 2012, a Bloomberg publicou uma reportagem destas que não saem aqui.

A Folha não contratou um barquinho para ir até lá. O Estadão não destacou uma força-tarefa para escarafunchar a documentação. O doutor Sérgio Moro… Bem, neste caso do doutor Moro não faz diferença… E O Globo, modestamente, nem disse que o projeto ganhou o prêmio da Wallpaper, uma das mais importantes publicações de design.

E olhem que, quando os “robertinhos” fizeram a mansão, só havia seis anos que o império global estava em moratória, cheio de dívidas e com R$1 bilhão de impostos sonegados pela compra de direitos da transmissão dos jogos da Copa…

Mas, convenhamos, o projeto é lindo.

Já pensou, Lula, sentar ali, de frente pro mar, com uma geladeira de isopor do lado, com uma cerveja bem geladinha?

Com todo o respeito, presidente, seu problema é o Guarujá…

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O trecho da matéria da Bloomberg:

Esse é o caso com a família de mídia Marinho. Os Marinhos quebraram leis ambientais através da construção de uma mansão de 1.300 metros quadrados ao lado da Praia de Santa Rita, próximo de Paraty, diz Graziela Moraes Barros, uma inspetora do ICMBio.
Sem licença, a família, em 2008, construiu uma casa modernista entre dois blocos de concreto de largura, independentes envoltos em vidro, diz Barros. A casa Marinho ganhou vários prêmios de arquitetura, incluindo o Wallpaper Design Award de 2010. […]
“Esta casa oferece exemplos de alguns dos mais graves crimes ambientais que vemos na região”, diz Barros. Muitas pessoas dizem que os Marinhos governam o Brasil. A casa de praia mostra a família certamente pensa que eles estão acima da lei.

Mas é preciso ser compreensivo.

Lula comandou o Brasil só por oito anos, e os Marinho por mais de meio século.

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Para aliviar bolso dos ricos, tucano apresenta emenda que reduz IR dos milionários

14 de fevereiro de 2016
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O senador tucano Tasso Jereissati (CE) é relator da MP 692/15.

Via Vermelho em 5/2/2016

A Câmara dos Deputado aprovou no último dia 3 de fevereiro a Medida Provisória 692/15 que trata das alíquotas do Imposto de Renda dos mais ricos. A proposta enviada pelo governo federal estabelecia a cobrança de 30% para o IR sobre ganhos de capital que ultrapasse R$20 milhões. Mas o senador tucano Tasso Jereissati (PSDB/CE), relator da MP, achou que esse valor é demais para o bolso dos milionários e fez uma emenda rebaixando alíquota.

Com a emenda, a alíquota baixou de 30% para 22,5%. E não foi só isso. Também aumentou o piso de R$20 milhões para R$30 milhões. A previsão de arrecadação do governo federal, graças à bondade de Jereissati e dos deputados com os ricos, cai de R$1,8 bilhão para R$900 milhões, ou seja, cai pela metade.

O texto aprovado prevê quatro alíquotas do IR sobre ganhos de capital: 15% em valores de até R$5 milhões; 17,5% até R$10 milhões; 20% de R$10 milhões a R$30 milhões; e 22,5% para ganhos acima de R$30 milhões. O projeto seguirá para o Senado.

Para ficar ainda mais suave para os mais ricos, os valores serão corrigidos pelo mesmo índice inflacionário da menor faixa de renda do IR, que em 2015, foi de 6,5%. Vale destacar que a correção inflacionária não estava prevista no texto enviado pelo governo.

Além disso, serão somados apenas os ganhos de capital aferidos no mesmo ano calendário. Isso significa que a pessoa física poderá dividir a venda de ações em dois anos para pagar menos impostos.

Apesar de aliviar o bolso dos mais ricos, a oposição disse que tais alterações do texto enviado pelo governo foi para não prejudicar o país ao cobrar imposto de renda sobre ganho de capital pela alienação de bens e direitos do ativo não circulante das empresas não tributadas pelo lucro real, presumido ou arbitrado.

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Descoberta a padaria que Lula comprava pão e as últimas da Gestapo em Atibaia

14 de fevereiro de 2016

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Fernando Brito, via Tijolaço em 6/2/2016

A “força-tarefa” do Estadão destacada para acompanhar a completamente abusiva ação da Lava-Jato que “investiga” a compra do sítio frequentado por Lula nos finais de semana está produzindo um festival de barbaridades para arranjar “suspeitas” sobre o imóvel que, francamente, fazem qualquer despachante ficar de queixo caído.

Primeiro, que a orientação de um advogado num contrato de compra e venda de imóvel seja “suspeita”, em lugar de corriqueira e recomendável, até.

Segundo, que “instrumento particular de compra e venda” de imóvel seja algo de extraordinário, quando é feito, na prática, em quase todos os negócios imobiliários, até porque o contrato, em si, depende de uma série de documentos. Alguns com curto prazo de validade – como a certidão do Registro Geral de Imóveis, que só “dura” 30 dias e, portanto, só se tira depois de acertada a venda, posto que o vendedor, para tê-la pronta de imediato, teria de tirar uma após outra.

Terceiro, que é indispensável um agrimensor quando você trata de um imóvel rural, acidentado e com uma mata no meio, porque é impossível medir uma área com uma trena, certo, rapazes?

Quarto, que cheque administrativo tenha virado “dinheiro vivo”. Se os amiguinhos do Estadão não sabem, cheque administrativo é igual a um cheque necessariamente nominal, com a diferença que é o banco quem o emite e garante. Portanto, é justamente o contrário do que se pode intuir do “dinheiro vivo”, que não tem origem oficial e nem destino registrado bancariamente. O administrativo, mesmo sendo sacado, deixa no banco a identidade, o CPF e a assinatura do beneficiário.

Mas o melhor do dia é o “voo de reconhecimento “ feito pela Folha sobre o sítio.

Dessa, eu acho que Lula e dona Marisa não escapam.

Vão ser condenados por mau-gosto.

A imagem aí de cima do post é a da “cinematográfica” churrasqueira, repare bem. Tem até aquele banquinho com dois bonecos de criança fantasiadas para festa junina, olhe no canto inferior esquerdo! O resto não esquadrias de madeira e vidro comum, nada de blindex e vãos maiores, como pediria um projeto moderno. Nem deck de madeira na piscina, feito de pedra de São Tomé, que é bem barata e que eu mesmo já assentei, com massa de barro, nos tempos em que os meus joelhos permitiam.

Do lado direito, se você olhar bem, vai ver uma daquelas garças de barro horríveis, destas que vendem em beira de estrada e um chuveirão destes que se faz enchendo de concreto um tubo de PVC.

Não deu para ver se tinha aqueles cogumelos e anões de Branca de Neve de jardim.

Fora isso, tem um erro básico de projeto, porque a quantidade de água que desce pela calha no vinco entre as duas águas dianteiras do telhado vai acabar com as esquadrias de madeira em pouco tempo, além de danificar o piso do deck de pedra.

Em outro ponto do vídeo, acha-se uma miniestátua do Cristo Redentor e, noutro, pedalinhos em forma de cisne, um espanto!

Para economizar o trabalho dos “sherlocks” de folhices, fui levantar o preço nababesco destas coisas.

A estátua do Cristo, confeccionada em pó de mármore, com um metro de altura, para ser colocada em cima de um pedestal, custa R$1.750,00.

O pedalinho em formato de cisne é mais caro: sai por R$2.900,00. Há uma versão em cisne negro em promoção, mais barata: R$2.700,00.

A edificação das quatro suítes é uma construção simples, sem qualquer recurso arquitetônico, quase quadrada, o que economiza horrores em matéria de estruturas, telhado, madeirame e até nas “paredes hidráulicas” que, com esta disposição, passam a servir a dois banheiros em lugar de uma para cada peça.

Ah, e tem também a suposição de que a OAS fez reparos no telhado da casa antiga, muito maior que o “quadrado” novo.

Mas tudo isso é uma bobagem enquanto gestapianos e bisbilhoteiros não responderem a uma perguntinha básica, sem a qual, admite até a Folha, não se configura qualquer ilegalidade: qual é o ato de favorecimento que Lula teria feito em favor da empreiteira X, Y ou Z?

Fora isso, só do que se pode condenar o casal Lula é de muita falta de imaginação arquitetônica e de um gosto para lá de duvidoso.

Só se for isso: a criminalização da geladeira de isopor.

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O tempo e o vento no tempo

14 de fevereiro de 2016

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Enquanto a Operação Lava-Jato continua atrás do governo e do PT, o presidente da Câmara continua sentado incólume em seu trono.

José Carlos Peliano, via Carta Maior em 4/2/2016

Sim, tomei emprestado o título de Érico Veríssimo, depois de manuseá-lo e obter um outro. Mas o espírito da coisa pode ser o mesmo, dependendo de como se lê e como se imagina.

A ideia é destacar o princípio do aqui e agora, da urgência, em consonância com o princípio da câmera lenta, do escoamento. Um nos impele a não perder tempo, o outro a ver o tempo passar do jeito que for.

Depois dos 50 ou dos 60 anos quando a gente toma consciência, de fato, de que o tempo vale tempo, a vida nos pede urgência, mas também câmera lenta. Uma contradição em termos que em seus termos deixa de ser contradição.

A urgência é para superar etapas já percorridas, mas encostadas em nós por outras demandas que não as nossas. A câmera lenta é para desfrutar do que ainda não percorremos e está a nossa porta para começar a caminhar.

Há que se levar um saco de paciência junto para superar os transtornos e um bom vinho de insuperável safra para brindar com outros como convém a comunhão de interesses, ideias, ideais, momentos.

Não querendo estragar o texto, mas já estragando, vamos aos fatos. Enquanto a Operação Lava-Jato continua atrás do governo e do PT, pois é isto que se depreende das decisões e se lê todos os dias em matérias imbecis ou requentadas, o presidente da Câmara continua sentado incólume em seu trono carregado de ações, denúncias e que tais, e nada.

Ou por outra, enquanto a mídia em sua rotineira “comídia” continua a defenestrar o governo e o PT, de novo por manchetes chulas e desavergonhadas, ela vende gato por lebre, espalha pessimismo, abismo, ajuda a derrubar as ações e levantar o dólar, barateando ainda mais a riqueza do país, e nada com ela acontece. Onde orbita o Ministério Público?

Nada acontece mesmo porque, por exemplo, a dívida da Rede Globo com a Receita, estimada hoje em modesto R$1 bilhão, continua do mesmo jeito que estava quando foi autuada anos atrás, parada em alguma gaveta. Até na tardança da Justiça os ricos levam a melhor.

Pois, então, esses fatos apenas tumultuam ainda mais nossa urgência em tentar resolver essas idiossincrasias brasileiras o mais rápido possível. Não tem cabimento, diria minha avó, um país assim, como esse, entregue ao vento. Se ventar muito esparrama mais sujeira para todos os lados.

E todos nós depois dos 50 e 60 que já buscamos uma rede debaixo de um coqueiro, sem o próprio fruto evidentemente para não desprender lá de cima em cima de nós, ou debaixo de uma boa varanda, na praia, ou na montanha, acabamos ficando sem a rede, o coqueiro, a praia e a montanha.

Porque os coxinhas, os globelezas, os midiáticos, os assacadores, enfim toda essa fauna grotesca, não nos deixam relaxar, tomar um vento com tempo ou sem tempo. Temos que voltar às trincheiras para defender o estado democrático de direito, não de delações sem eira nem beira.

Um trecho de um poema meu diz assim: os que veem inverno e primavera verão outono. Será que nós, cinquentinhas e sessentinhas, teremos a devida e merecida paciência em câmera lenta para ver as estações nos seus devidos ritmos e apogeus?

Digo isso porque do jeito que a coisa anda, já faz um ano, parece que estamos vivendo uma prolongada subestação do tempo, não uma das clássicas estações, mas a lameira. Lama para todo o lado, verdadeira ou não. Como pode um país ficar assim por tanto tempo?

Depois querem cobrar ação do governo para impulsionar a economia, como? Se as armas da oposição, da mídia e de vários procuradores estão apontadas contra o governo eleito ou seus apoiadores? Como limpar a barra da recessão sem um mínimo de conversa com eles se o presidente que eles queriam não ajuda em nada, pelo contrário não fez nada em um ano a não ser reclamar, ameaçar e espernear.

Aliás, desde a míngua em que se encontra as bravatas do impedimento da presidenta que o presidente deles está quieto, não diz palavra. Ou tramando outra ou arrumando suas coisas para não sobrar alguma para ele.

Rola uma certa desesperança no ar por conta da subestação lameira em seu apogeu porque ela sempre existiu acobertada nos corredores, gabinetes, redações e pastas rosas. O ar está poluído por gente que não tem pressa em retirar as manchetes de lama, ou as denúncias, ou as delações ou a estratégia de vingança. Sangrar com lama a dignidade da nação.

Dia desses um juiz da Vara de Execuções Penais de Pernambuco me disse que o estado geral das penitenciárias é igualmente um lamaçal. Há muito dinheiro num fundo destinado à recuperação das penitenciárias, mas nada.

Pois bem, esse juiz me contou uma triste estória. Um condenado por tráfico de drogas, bagrinho, foi solto por bom comportamento depois de um certo par de anos. Um belo dia volta ao gabinete do juiz para falar com ele. O magistrado se espantou pelo inusitado.

O indigitado diz que estava há 6 meses procurando emprego, mas nada conseguiu porque não lhe cediam vaga por ser ex-presidiário. Como era pobre, de família idem, sem recursos fora biscates, não via alternativa a não ser voltar às drogas. Tinha que comer, pagar aluguel e demais despesas. Despediu-se dizendo até daqui uns dias, meu juiz!

O próprio juiz reconheceu a gravidade do fato, compadeceu-se, mas não teve o que dizer. Apesar de se juntar a outros juízes para ver como reverter esse quadro caótico dos presídios e dos libertados.

O tempo e o vento no tempo ainda não têm ajudado a nós dos 50 e 60. Se a esperança venceu o medo anos atrás, agora o medo mina a esperança. É lama muita para todo lado. Haja limpadores de ruas, faxineiras e que tais para ajudarem a tornar a nação mais limpa.

Uma coisa é certa: na atual conjuntura não há nada certo. Conseguiram desacreditar jovens, irritar adultos e desesperançar velhos. Há que continuarmos pelo menos indignados que é uma forma de não nos curvar ao rolo compressor. A indignação é a nação digna indignada.

Como nos lembrou o saudoso Manoel de Barros é preciso repetir, repetir, até ficar diferente, repetir é o dom do estilo. Pois é isso, indignar, indignar, até encontrar uma alternativa de derrubar a visão única dos privilegiados. Principalmente os que mamam nas tetas do governo atrás de benesses e favores, mas se gabam de estarem na iniciativa privada! E ainda assim falando mal do governo.

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