Festa do sobrinho do Lula: Repórter da Veja vira caso de polícia. Vai ter retratação?

27/02/2015
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Ulisses Campbell, o DJ que ataca de entregador de livros, estudante da USP e jornalista.

Hoje temos mais um chorumito produzido pelo jornalismo boimate, o beijo no coração do juiz que decidiu guardar os bens de Eike na sua casa, a pujante indústria de boatos liderada pelos Revoltados Online, e um Wando Responde ao comentarista que quer me ver na Papuda.

Via Jornalismo Wando

Choruminho
Na seção Choruminho da semana passada, o repórter da revista Veja Ulisses Campbell brilhou com seu jornalismo investigativo. Ele noticiou, com riqueza de detalhes, que um sobrinho de Lula de 3 anos daria uma festa de R$200 mil num buffet de luxo em Brasília. Mas o fato é que o tal sobrinho mora em Sorocaba, não terá essa festa nababesca e o repórter teve o seu boimate particular.

Bom, eu não queria ser repetitivo, mas não teve como não premiá-lo novamente com o Troféu Choruminho. Vocês vão me dar razão.

Ulisses parece ter ficado irritado quando os devaneios de sua reportagem vieram à tona. Decidiu, então, iniciar outra investigação sobre a família de Lula. Arregaçou as mangas e saiu de Brasília rumo ao interior de São Paulo, onde reside o sobrinho de Lula.

Depois de ligar três vezes se passando por personagens diferentes, o jornalista apareceu no condomínio do sobrinho do ex-presidente e se apresentou como um entregador de livros. Bom, depois eu continuo a história. Primeiro leia trechos do boletim de ocorrência registrado pelos familiares de Lula:

“No dia 23/02/2015 Ulisses ligou para o pai do declarante, que é irmão do ex-presidente Lula, passando-se por Pedro, da USP, e buscando informações sobre a família e nomes de sobrinhos e netos do ex-presidente Lula e do pai do declarante. Afirma que após algum tempo inquirindo o pai do declarante o interlocutor finalmente se identificou como Ulisses e disse estar em busca de informações sobre a festa de aniversário, sendo informado da inexistência de tal festa.”

Primeiro o jornalista se passou por “Pedro da USP” para conseguir pescar algumas informações. Sem sucesso, resolveu se assumir como Ulisses e passou a perguntar sobre a festa fictícia que ele havia noticiado uma semana antes. Um tipo de jornalismo que talvez só Freud explicaria.

Segue o B.O:

“Declara que no dia 24/02/2015 a esposa do declarante recebeu uma ligação […] de um homem que disse chamar-se Pedro, de Brasília, representando o Buffet Aeropark, questionando sobre o endereço onde deveria fazer a entrega dos presentes.”

O Pedro da USP virou Pedro do Buffet Aeropark, aquele em que Ulisses afirmou que a família Lula daria uma festa de arromba.

Não se perca, são muitos personagens.

Depois de tentar checar as fontes de uma notícia falsa que já havia dado, o jornalista resolveu encarnar um entregador de livros para conseguir entrar no condomínio:

“Babá dos filhos do declarante ligou para a esposa do declarante, dizendo que um homem teria entrado no condomínio, se passando por entregador de livros […], quando a babá percebeu que o referido indivíduo não entregou livro algum e começou a perguntar sobre os horários de chegada dos moradores, após ter anotado nome, RG e CPF dela, a mesma teria trancado a porta e pedido ajuda para a equipe de segurança do condomínio.”

Segundo nota do Instituto Lula, depois que a funcionária chamou a segurança do condomínio, Ulisses fugiu e foi localizado posteriormente pela Polícia Militar, que o identificou como jornalista da Veja.

Resumindo o roteiro: primeiro o jornalista noticiou com riqueza de detalhes uma festa nababesca que nunca existiu. Depois viajou até Sorocaba junto de três personagens diferentes e invadiu um condomínio. Descoberta sua falsa identidade, fugiu e foi descoberto pela polícia.

Convenhamos, a história está muito mais pra novela das oito do que pra jornalismo. Aliás, esse parece ser mesmo o desejo de Ulisses:

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PS.: Segundo a Folha, o jornalista informou que nem ele nem a revista irão se pronunciar. A Egípcia deve ser o último personagem de Ulisses nesse caso.

Beijo no coração
Você provavelmente já leu sobre o juiz que apreendeu diversos bens do ex-bilionário Eike Batista e escolheu alguns pra levar pra casa.

Antes de ser flagrado desfrutando dos bens confiscados, o magistrado esteve bastante presente na mídia. Deu longas entrevistas, emitiu opiniões e não teve a discrição que se espera de um juiz. Algumas declarações foram muito interessantes:

Pela minha experiência e formação, vou entrar na personalidade dele (ao interrogá-lo). Vou entrar mais fundo na essência dele. Até pelas minhas práticas budistas, tenho muita facilidade de saber quando a pessoa está mentindo ou falando a verdade. Vou esmiuçar a alma dele. Pedaço por pedaço.

E foi com desprendimento budista que o juiz resolveu levar pra casa um Porsche, um Range Rover e um piano. Só não levou a alma.

Eike_Batista03_Juiz_Flavio_Roberto_SouzaDepois de dar entrevistas como um herói da ética e da justiça, o juiz resolveu levar pra casa os bens apreendidos com a justificativa de que lá estariam mais seguros. O caso se apresenta como uma síntese perfeita do Brasil, que vislumbra no horizonte um futuro civilizado, mas ainda patina no chorume patriarcalista do passado.

Após ter flagrado o juiz dando um rolezinho no ex-Porsche de Eike, o jornal Extra tentou contatá-lo pelo telefone. O diálogo é tão engraçado que até parece ter sido escrito para um quadro do Zorra Total:

Procurado por telefone após o flagrante, o juiz não explicou o motivo de estar dirigindo o carro apreendido.
– A ligação está ruim. Não estou te ouvindo – disse.
Logo após, completou:
– Agora estou ouvindo, mas não posso falar pois estou numa reunião.

E, como vocês sabem, Deus perdoa, juiz absolve, mas as redes sociais não:

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Imagem wandalizada
O grupo Revoltados Online, linha de frente do Tea Party brasileiro, sempre foi mais reconhecido pela intensidade da sua revolta do que pela credibilidade das suas informações. Ele já apareceu aqui diversas vezes divulgando informações falsas, falando absurdos e fazendo bons negócios com a luta pelo impeachment.

Depois que militantes petistas e antipetistas se engalfinharam num ato em defesa da Petrobrás promovida por PT e CUT, os Revoltados Online publicaram essa imagem:

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Com tanta coisa para se criticar nessa lamentável briga de torcidas organizadas que se formou em frente à ABI, nossos revoltados preferiram criar um factoide pra incendiar ainda mais o lucrativo movimento pró-impeachment.

Vocês conhecem o modus operandi da turma, nem preciso dizer que as fotos acima são de pessoas diferentes.

A primeira foto é de Auguste Lubain, haitiano, pai de duas crianças, que veio para o Brasil em busca de melhores condições para sua família no Haiti. Ele foi entrevistado pelo UOL no ano passado, quando conseguiu tirar a carteira de trabalho brasileira.

Na segunda foto, vemos um militante petista qualquer que, pelo ângulo, até se assemelha ao haitiano. Mas em breve pesquisa encontramos facilmente outra imagem do mesmo militante, em outro ângulo, que não deixa mais dúvidas: não é Auguste Lubain.

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Foto de Reynaldo Vasconcelos/Futura Press

Em seu perfil no Facebook, o haitiano informa que mora no interior de Santa Catarina e trabalha na Aurora Alimentos. Está empregado e mora bem longe do Rio de Janeiro.

A publicação associando o haitiano à confusão no ato em favor da Petrobras teve quase 40 mil compartilhamentos. Ou seja, a imagem de um batalhador, um pai de família, está sendo espalhada na internet ao lado dos seguintes dizeres: “Sociopata haitiano contratado por Lula para espancar brasileiros que querem o fim dos roubos”, “pitbull haitiano”, “contratado para fazer o mal”. É assim que Lubain está sendo retratado.

Muitos seguidores da página perceberam a farsa e questionaram. Depois de muito enrolar e não apresentar nenhuma prova, o grupo deu uma resposta curiosa para um revoltado online que cobrou explicação:

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É, gente, vamos parar com essa frescura de ser rigoroso com a veracidade dos fatos e começar a ler mais Reinaldo Azevedo.

Wando responde
Na última WandNews, o amigo-internauta Francisco apareceu pra denunciar meu mau caratismo e desejar a minha prisão. Um sujeito com uma elegância que parece ter sido adquirida nas melhores estribarias suíças:

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Para quem não lembra da história do boimate, clique nos links abaixo.
Veja: O “jornalismo” ficcional mau caráter para leitores boimate
Veja produz seu segundo caso Boimate

O universo paralelo da GloboNews

27/02/2015

Via Esquerda Caviar

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Guido Mantega e o Hospital Albert Einstein

27/02/2015
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De que lado ele está?: Dr. Cláudio Lottenberg conversa com José Serra.

Barbara Gancia

Para o doutor Cláudio Lottenberg, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Albert Einstein, que, no domingo, dia 22/2, na modestíssima opinião desta datilógrafa que vos fala, ocupou o espaço da página 3 da Folha de S.Paulo (Tendências/Debates) com a distribuição de ufanismos a instituição que dirige, estatísticas soporíferas e metáforas de gosto duvidoso sobre saúde do corpo e vitalidade do país (“cancro da corrupção”; “ganância fiscal que aumenta a obesidade de órgãos públicos esclerosados” – fala a verdade? –; “Brasil precisa de terapia intensiva com o apoio de todos que possam colaborar para sua recuperação”), pois então, para este discípulo de Hipócrates tão cioso de seu dever sagrado e tão avesso ao exercício do poder por meio da política, para ele eu tenho algumas questões incisivas (uia!):

Caro senhor doutor presidente:

1) Já foram identificados os indivíduos que hostilizaram ao ex-ministro Mantega e sua mulher, que foi ao hospital na terça-feira para ser submetida a tratamento contra o câncer?

2) Que providências os senhores estão tomando, foi registrado Boletim de Ocorrência?

3) A direção do hospital está ciente de que, caso este comportamento brutal for tolerado e nenhuma medida tiver sido tomada contra quem o praticou, isto irá significar que a Sociedade Beneficente Israelita Albert Einstein compactua com a irresponsabilidade, a escalada da violência e o desrespeito à ordem pública?

O senhor entende, doutor Cláudio, que o Einstein não pode consentir, porque isso significa que ele se colocará do lado dos inconsequentes que querem ver o circo pegar fogo sem medir as consequências para as instituições?

Reatamento abre porta para “turismo médico” de norte-americanos em Cuba

26/02/2015

Cuba_Medicos73William Neuman de Havana (Cuba), via The New York Times

Anuja Agrawal correu para o telefone. O presidente Barack Obama havia acabado de anunciar que restauraria as relações diplomáticas com Cuba e Agrawal, que administra uma empresa de turismo médico em Orlando, Flórida, não queria perder a oportunidade.

Ela ligou para um administrador de serviços médicos em Cuba e concordou em ir adiante com um acordo que eles vinham discutindo havia meses na esperança de que pacientes norte-americanos pudessem logo começar a viajar para a ilha para fazer tratamento médico.

“Havia muito entusiasmo em relação a isso”, disse Agrawal, diretora-executivo da Health Flights Solutions, acrescentando que se os norte-americanos começarem a viajar para Cuba em busca de tratamentos médicos a preços acessíveis, isso pode significar um grande impulso econômico para o sistema de saúde do país. “Para eles, estão vendo isso literalmente como ganhar na loteria.”

À medida que o governo Obama reduz o isolamento econômico de Cuba, setores de vários tipos estão tentando descobrir o que o relaxamento das tensões significará para eles e exatamente quanta liberdade haverá.

Milhares de pessoas de outros países vão para Cuba a cada ano para o que é conhecido como turismo médico: viagens ao exterior para fazer cirurgias ou outros cuidados médicos, normalmente porque o tratamento lá é mais barato ou não está disponível onde os pacientes moram.

Agora, o governo Obama afrouxou as restrições de viagem para Cuba. Os norte-americanos podem viajar para o país por uma série de motivos, entre eles visitas familiares, conferências acadêmicas, apresentações públicas e atividades religiosas e educativas.

Embora o turismo ou as viagens para tratar da saúde ainda não sejam permitidos, o governo suspendeu uma restrição que exigia que muitos norte-americanos viajassem com grupos autorizados ou conseguissem uma licença prévia para visitar a ilha.

“É um relaxamento, um afrouxamento das restrições”, disse Agrawal, acrescentando: “acho que ficará cada vez mais livre”, uma vez que a porta estiver aberta.

Na prática, as mudanças podem significar que muito mais pessoas se sentirão livres para viajar para Cuba, mesmo para propósitos que estejam fora das categorias permitidas. Milhares de norte-americanos já viajam para Cuba para fazer turismo ou por outros motivos que estão fora das normas, e mesmo antes das mudanças, muitos cubano-americanos que visitavam a família aproveitavam a oportunidade para marcar tratamentos médicos, dizem muitas pessoas aqui.

Uma porta-voz do Departamento do Tesouro disse que os norte-americanos que desejam viajar para Cuba por motivos que estejam fora das atividades autorizadas podem pedir permissão, conhecida como licença especial, e que esses pedidos serão avaliados caso a caso.

Mas a porta-voz, que disse não ter autorização para falar oficialmente, disse que os norte-americanos que viajam para Cuba são obrigados a manter registros de sua viagem por cinco anos e podem estar sujeitos a auditorias para mostrar que a viagem ficou dentro das normas.

Cuba tornou o cuidado com a saúde uma prioridade depois da revolução de 1959, e conquistou a reputação de fornecer cuidados médicos gratuitos e de boa qualidade para seu povo. Milhares de médicos cubanos também trabalham no exterior, na Venezuela, no Brasil e em outros países em desenvolvimento, em uma troca que fornece ao governo do presidente Raul Castro moeda ou bens, como petróleo, em contrapartida.

David McBain, 47 anos, um paisagista de Toronto que fraturou a coluna em um acidente de carro, foi para Cuba três vezes no ano passado para uma terapia física extensiva.

“Os fisioterapeutas e os médicos têm muito conhecimento e são bem treinados em Cuba, e você simplesmente não pode competir com o preço deles”, disse McBain. “O preço é uma fração do que seria no Canadá ou nos EUA para um terapeuta.”

McBain, que está parcialmente paralisado e usa uma cadeira de rodas, disse que foi tratado por várias semanas durante cada visita a uma instituição de saúde de Havana. Ele disse que o tratamento em Cuba custa cerca de US$200,00 (R$572,00) por dia, o que inclui cerca de seis horas de fisioterapia diariamente, um quarto confortável e alimentação.

O sistema nacional do Canadá não fornece o tipo de terapia de que ele precisa, disse ele, e um fisioterapeuta neurológico particular teria cobrado cerca de US$93,00 (R$266,00) por hora.

McBain acertou seu tratamento em Cuba através de uma empresa em Toronto chamada Global HealthQuest. Ben Soave e Rosemary Toscani, que administram a empresa, disseram que ela regularmente envia pacientes para Cuba para fisioterapia, reabilitação de uso de drogas e álcool, e para tratamento de uma doença ocular chamada retinite pigmentosa.

Mais uma vez, Obama falha ao promover golpe de Estado na Venezuela

26/02/2015
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O presidente Obama com seu conselheiro para a América Latina, Ricardo Zuniga, e a conselheira nacional de segurança, Susan Rice.

Thierry Meyssan, via Voltairenet.org e lido Blog do Desenvolvimentistas

Mais uma vez, a administração Obama tentou mudar pela força um regime político que lhe resiste. A 12 de fevereiro, um avião da Academia (ex-Blackwater), disfarçado como aeronave do exército venezuelano, devia bombardear o palácio presidencial e matar o presidente Nicolas Maduro. Os conspiradores tinham previsto colocar no poder a antiga deputada Maria Corina Machado e fazê-la aclamar, de imediato, por antigos presidentes latino-americanos.

O presidente Obama tinha prevenido. Na sua nova doutrina de Defesa (National Security Strategy), ele escreveu: “Nós ficaremos do lado dos cidadãos cujo exercício pleno dos direitos democráticos está em perigo, tal como é o caso dos Venezuelanos”. Ora, sendo a Venezuela, desde a adoção da constituição de 1999, um dos mais democráticos Estados do mundo, esta frase deixava pressagiar o pior, no sentido de a impedir de prosseguir na sua via de independência e de redistribuição de riqueza.

Foi a 6 de fevereiro de 2015. Washington tinha acabado de terminar os preparativos para o derrube das instituições democráticas da Venezuela. O golpe de Estado tinha sido planejado para 12 de fevereiro.

A “Operação Jericó” foi supervisionada pelo Conselho Nacional de Segurança (NSC), sob a autoridade de Ricardo Zuniga. Este “diplomata” é o neto do presidente homônimo do Partido Nacional das Honduras, que organizou os “putsches” de 1963 e de 1972 a favor do general López Arellano. Ele dirigiu a antena da CIA em Havana, (2009-11) onde recrutou agentes, e os financiou, para formar a oposição a Fidel Castro, ao mesmo tempo que negociava a retomada das relações diplomáticas com Cuba (finalmente concluída em 2014).

Como sempre, neste tipo de operação, Washington vela para não parecer implicado nos acontecimentos que orquestra. A CIA agiu através de organizações pretensamente não-governamentais para dirigir os golpistas: a National Endowment for Democracy (Contribuição Nacional para a Democracia – NdT) e as suas duas extensões, de direita (International Republican Institute) e de esquerda (National Democratic Institute), Freedom House (Casa da Liberdade), e o International Center for Non-Profit Law (Centro Internacional para Assistência Jurídica Gratuita – NdT). Por outro lado, os Estados Unidos solicitam sempre os seus aliados para subcontratar certas partes dos golpes, neste caso, pelo menos, a Alemanha (encarregada da proteção dos cidadãos da Otan durante o golpe), o Canadá (encarregado de controlar o aeroporto internacional civil de Caracas), Israel (encarregado dos assassinatos de personalidades chavistas) e o Reino Unido (encarregado da propaganda dos “putschistas”). Por fim, mobilizam as suas redes políticas a estarem prontas ao reconhecimento dos golpistas: em Washington o senador Marco Rubio, no Chile o antigo presidente Sebastián Piñera, na Colômbia os antigos presidentes Álvaro Uribe Vélez e Andrés Pastrana, no México os antigos presidentes Felipe Calderón e Vicente Fox, em Espanha o antigo presidente do governo José María Aznar.

Para justificar o “putsch”, a Casa Branca tinha encorajado grandes companhias venezuelanas a açambarcar, mais do que a distribuir, as mercadorias de primeira necessidade. A ideia era a de provocar filas de espera diante das lojas, depois infiltrar agentes nas multidões para provocar tumultos. Na realidade se existiram, de fato, problemas de aprovisionamento, em janeiro-fevereiro, e filas de espera diante das lojas, jamais os Venezuelanos atacaram os comércios.

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Antigo nº 2 da ISAF no Afeganistão, o general Thomas W. Geary é hoje em dia o encarregado de Inteligência no SouthCom.

Para reforçar a sua atuação econômica o presidente Obama havia assinado, a 18 de dezembro de 2014, uma lei impondo novas sanções contra a Venezuela e vários dos seus dirigentes. Oficialmente, tratava-se de sancionar as personalidades que teriam reprimido os protestos estudantis. Na realidade, desde o princípio do ano, Washington pagava uma importância – quatro vezes superior ao ordenado médio – a gangues para que eles atacassem as forças da ordem. Os pseudo-estudantes mataram, assim, 43 pessoas em alguns meses, e semearam o terror nas ruas da capital.

A ação militar era supervisionada pelo general Thomas W. Geary, a partir do SouthCom em Miami, e Rebecca Chavez, a partir do Pentágono, e subcontratada ao exército privado da Academia (antiga Blackwater); uma sociedade atualmente administrada pelo almirante Bobby R. Inman (antigo patrão da NSA) e por John Ashcroft (antigo Attorney General – procurador geral – da administração Bush). Um avião Super Tucano, de matrícula N314TG, comprado pela firma da Virginia, em 2008, para o assassinato de Raul Reyes, o n° 2 das Farc da Colômbia, devia ser caracterizado com um avião do exército venezuelano. Ele deveria bombardear o palácio presidencial de Miraflores e outros alvos, entre uma dezena deles predeterminados, compreendendo o Ministério da Defesa, a direção da Inteligência e a cadeia de televisão da Alba, a TeleSur. Dado o avião estar estacionado na Colômbia, o QG operacional da “Jericó” tinha sido instalado na embaixada dos Estados Unidos em Bogotá́, com a participação direta do embaixador Kevin Whitaker e do seu adjunto Benjamin Ziff.

Alguns oficiais superiores, na ativa ou reformados, haviam registado, com antecedência, uma mensagem à Nação, na qual anunciavam ter tomado o poder a fim de restabelecer a ordem. Estava previsto que eles subscreveriam um plano de transição, publicado, a 12 de fevereiro, de manhã, pelo El Nacional e redigido pelo Departamento de Estado dos EUA. Um novo governo teria sido formado, dirigido pela antiga deputada Maria Corina Machado.

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O golpe de Estado deveria colocar no poder Maria Corina Machado. Em 26 de janeiro, ela recebeu, em Caracas, seus principais cúmplices estrangeiros.

Maria Corina Machado foi a presidente da “Súmate”, a associação que organizou e perdeu o referendo revogatório contra Hugo Chavez Frias, em 2004, já́ com o financiamento da National Endowment for Democracy (NED) e os serviços do publicitário francês Jacques Séguéla. Apesar da sua derrota, foi recebida com toda a pompa pelo presidente George W. Bush, no Salão Oval, a 31 de maio de 2005. Eleita como representante pelo Estado de Miranda, em 2011, ela tinha aparecido de súbito, a 21 de marco de 2014, como chefe da delegação do Panamá na reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ela fora, de imediato, demitida do seu lugar de deputada por violação dos artigos 149 e 191 da Constituição (da Venezuela – NdT).

Para facilitar a coordenação do golpe, Maria Corina Machado organizou, em Caracas, a 26 de janeiro, um colóquio, “O Poder da cidadania e a Democracia atual”, no qual participaram a maior parte das personalidades venezuelanas e estrangeiras implicadas.

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Pouca sorte! A Inteligência Militar venezuelana vigiava as personalidades suspeitas de ter fomentado um complô, anterior, visando assassinar o presidente Maduro. Em maio último, o procurador de Caracas acusava Maria Corina Machado, o governador Henrique Salas Römer, o ex-diplomata Diego Arria, o advogado Gustavo Tarre Birceño, o banqueiro Eligio Cedeño e o empresário Pedro M. Burelli, mas, eles negaram a autoria dos “e-mails” alegando que tinham sido falsificados pela Inteligência Militar. Ora é claro, eles estavam todos conluiados.

Ao rastrear estes conspiradores a Inteligência Militar descobriu a “Operação Jericó”. Na noite de 11 de fevereiro, os principais líderes do complô, e um agente da Mossad, foram presos e a segurança aérea reforçada. Outros foram apanhados no dia 12. No dia 20 as confissões obtidas permitiram deter um cúmplice, o prefeito de Caracas, Antônio Ledezma.

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O prefeito de Caracas, Antônio Ledezma, era o agente de ligação com Israel. Viajou secretamente para Telavive, em 18 de maio de 2012, para se encontrar, lá́, com Benjamin Netanyahu e Avigdor Lieberman. Ele representava o chefe da oposição venezuelana, Henrique Capriles Radonski.

O presidente Nicolas Maduro interveio imediatamente, na televisão, para denunciar os conspiradores. Enquanto, em Washington, a porta-voz do departamento de Estado fazia rir os jornalistas, que se recordavam do golpe organizado por Obama nas Honduras, em 2009 – quanto à América Latina –, ou mais recentemente da tentativa de golpe na Macedônia, em janeiro de 2015 – quanto ao resto do mundo –, declarando a propósito: “Estas acusações, como todas as precedentes, são ridículas. É uma prática política estabelecida de longa data, os Estados Unidos não apoiam mudanças políticas por meios não constitucionais. As mudanças políticas devem ser realizadas por meios democráticos, constitucionais, pacíficos e legais. Nós temos verificado, em várias ocasiões, que o governo venezuelano tenta desviar a atenção das suas próprias ações, acusando para isso os Estados Unidos, ou outros membros da comunidade internacional, por causa de acontecimentos no interior da Venezuela. Estes esforços refletem uma falta de seriedade por parte do governo da Venezuela, em fazer face à grave situação com a qual está confrontado”.

Para os venezuelanos este golpe, falhado, coloca uma questão seria: como manter viva a sua democracia se os principais líderes da oposição estão na prisão, pelos crimes que se aprestavam a cometer contra a própria democracia? Para aqueles que pensam, erradamente, que os Estados Unidos mudaram, que não são mais uma potência imperialista, e, que agora defendem a democracia no mundo inteiro a “Operação Jericó” é um tema de reflexão inesgotável.

Thierry Maissen é intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace.


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