Um outro dia na vida do Perfeito Idiota Brasileiro

28/03/2015

15_Marco_Dilma_Puta

Paulo Nogueira, via DCM em 24/3/2015

Algum tempo atrás escrevi sobre o PIB. O Perfeito Idiota Brasileiro.

Ele ia para o trabalho ouvindo a CBN e antes de dormir via o Jornal da Globo. Nos intervalos, lia Merval, Reinaldo Azevedo e Villa. Tinha por ídolo Joaquim Barbosa.

E agora, nestes trepidantes dias de 2015, o que faz o nosso PIB?

Bem, as leituras se ampliaram, dada a oferta de colunistas dedicados a pessoas como ele.

Agora, pela manhã, a caminho do serviço, ele alterna a CBN com a Jovem Pan. Gosta de ouvir Sheherazade. Que sua mulher jamais saiba, mas às vezes tem sonhos eróticos com Sheherazade.

Aquela voz, aqueles cabelos. Será que ela faria um daqueles comentários durante o sexo? …

Na Jovem Pan o PIB também aprecia os comentários de Marco Antônio Villa.

Um cabeça.

Numa entrevista com Haddad, Villa massacrou-o. Provou que o futuro pertence aos carros, e não às bicicletas.

Londres, Paris, Nova Iorque, Copenhague, Amsterdã, todas elas estão na contramão da história. Investem em ciclovias.

“Villa poderia dar consultoria a elas”, pensou PIB depois de ouvir Villa enquadrar Haddad.

Também aumentou o número de gênios que ajudam PIB a formar sua opinião. Ele agora sempre passa os olhos pelo blog de Constantino, da Veja.

A expressão “esquerda caviar” é uma inspiração divina, pensa PIB. Para ele, um sinal dos problemas atuais da humanidade é que o mundo dá atenção a economistas como Piketty e ignora sábios como Constantino.

PIB leu que Constantino, a bordo de uma bolsa-esposa, foi para Miami. “É a chance de os norte-americanos descobrirem seu talento”, deduz PIB.

Rapidamente, prevê PIB, o livro de Constantino sobre a esquerda caviar será traduzido em inglês. Piketty será reduzido a nada, na comparação.

Caviar left…

Com a publicação do livro, Constantino chamará a atenção da presidência norte-americana. Poderá ser um conselheiro econômico da Casa Branca.

Por que não um Nobel?

Na verdade o Brasil já merecia um Nobel faz tempo por realizações literárias. Como os suecos puderam ignorar o livro de Ali Kamel que diz que não somos racistas?

E além do mais é um livro fininho…

O debate sobre o racismo contemporâneo foi reescrito ali. Os brancos é que são vítimas de preconceito no Brasil. Os brancos e os héteros.

Até quando vamos ter de suportar a ditadura gayzista?

Nas noites de segunda, Roda Viva é obrigatório. Augusto Nunes, o Brad Pitt de Taquaritinga, é maravilhoso.

Faz perguntas sensacionais. Perguntou a Lobão, por exemplo, o que ele achava da Dilma. Como alguém pode fazer uma pergunta tão profunda e tão surpreendente?

PIB ri também com os artigos de Augusto Nunes da Veja. Compartilha todos. Finalmente alguém para falar das bebedeiras de Lula, pensou PIB.

Claro que, para falar naquele tom, Augusto Nunes tem que ser um homem que jamais passou do primeiro copo de cerveja.

Em Taquaritinga, os pais devem ser muito rigorosos ao ensinar a seus filhos os males da bebida…

PIB ouviu falar também de um novo site, o Antagonista. O editor é tão modesto que, quando trabalhava na Veja, transformou uma edição especial sobre seu romance numa simples reportagem de meia dúzia de páginas.

Poderia ter colocado seu livro na primeira posição dos mais vendidos, mas preferiu pô-lo, singelamente, apenas entre os dez mais.

Tenho de ler… O nome é brilhante. Antagonistas por causa de antas. O outro editor escreveu um livro sobre antas, e então uma coisa puxou a outra. Não ficou nenhuma ponta solta.

Todas as noites, uma passagem por Gentilli é obrigatória.

Nasceu para fazer rir.

PIB gostava, particularmente, da maneira como Gentilli lidou com um negro que reclamou de piadas racistas. Ofereceu bananas.

Como ele pode ter tanta inspiração?

O respeito de PIB pela Justiça brasileira cresceu ainda mais depois que um juiz considerou que não havia racismo nas bananas oferecidas por Gentilli.

Temos de acabar com a ditadura do politicamente correto.

Nas últimas semanas, a vida de PIB tem sido particularmente agitada. No dia 15 de março, vestiu a camisa da seleção e foi para a Paulista.

Um pouco de vaidade não faz mal a ninguém, e então PIB pintou o rosto de verde e amarelo.

Boas chances de chamar a atenção da imprensa. Só que não havia imprensa. Alguém falou que os jornalistas estavam com medo de apanhar, mas PIB não acreditou.

Viu vários filmes em que jornalistas cobriam guerra como se cobrissem concursos de receitas de pudim.

Heróis.

Quis ser original na placa que carregaria. E então escreveu: “Fora Foro de São Paulo”. Não tinha a menor ideia sobre o que era o Foro de São Paulo, mas Constantino falava disso o tempo todo, e então sua frase era oportuna.

PIB cantou o hino na Paulista. Quer dizer, fez que cantou. Ninguém é perfeito, e PIB fazia tempo que esquecera a letra.

Voltou para casa cheio de amor pelo Brasil e pelos colunistas que o faziam ser quem era, um PIB.

Estava cansado à noite, mas ainda tinha pela frente as panelas. Jamais imaginara que bater panelas pudesse ser tão excitante.

Hummm… o que é isso?

Isso era uma ereção cívica.

PIB, depois de muito tempo, solicitou a mulher à noite para algo além de um prato de comida.

Na cama, consumado o sexo, PIB se sentiu o rei do mundo. E gritou isso, não em português, que seria muito clichê, mas em inglês, como em Titanic.

Sua mulher não entendeu nada, mas fazia tempo que ela desistira de compreender o marido.

Nem banho ele foi tomar.

Dormiu direto, aquele sono límpido, majestoso, inviolável típico do Perfeito Idiota Brasileiro.

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Um dia na vida do Perfeito Idiota Brasileiro

As estratégias de destruir o SUS para mercantilizar a saúde

28/03/2015

SUS_DolarSe privatizada, a saúde deixa de ser um bem público como direito social para se tornar mais um produto inserido na dinâmica capitalista global.

José Tanajura Carvalho, via Carta Maior em 25/3/2015

A proposta de destruir o SUS, na tentativa de privatizar a saúde pública brasileira, tem início no governo FHC e veio embrulhada no contexto do Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. De fato, a Reforma fez parte da ação governamental como componente da estratégia neoliberal, compreendida por três ações básicas: a) substituição ao que se chamou de administração pública burocrática e clientelista por uma administração gerencial ou nova administração pública; b) modificação do sistema previdenciário, transformando-o em fundos de investimento; c) privatização de empresas e serviços públicos passíveis de reverterem seus objetivos sociais para a busca do lucro. O princípio básico da proposta sintetizava-se na administração gerencial, estabelecida nas relações de mercado, inclusive naquelas atividades consideradas como bens e serviços públicos em geral, especialmente a saúde e a educação. A implantação dessa política assumiu procedimentos açodados do governo, quando até mesmo aspectos formais não foram de todo resolvidos na premência de impor o novo modelo e por concepção autoritária de governar. Segundo COSTA FILHO: “… o processo [referindo-se à Reforma] se afasta de qualquer padrão democrático na medida em que se constrói sobre o informalismo e o lobby, de natureza intrinsecamente excludente” (COSTA FILHO, 1997, p. 188). Com tal formulação, a Reforma se apresentou excludente, autoritária e na confirmação do caráter intransitivo do Estado brasileiro quanto à acessibilidade popular da informação-pública e de resistência às conquistas sociais.

Todavia, a reforma do aparelho estatal, empreendida por FHC, ficou inconclusa diante da perspectiva distorcida da realidade socioeconômica e geopolítica do país, do inconsistente aspecto operacional, e da rejeição tácita pelos segmentos populares da sociedade. Porém, a sua essência resistiu e se consolidou. As agências autônomas, por exemplo, foram estabelecidas e fortalecidas, e se mantiveram insuladas no posicionamento de total independência do governo e, como sói acontecer, das classes populares, dialogando intensa e diretamente com grandes grupos econômicos e financeiros e representantes da elite burocrática. Bem como as proposições neoliberais se radicaram nas demais esferas de governo.

O entendimento, enfim, é de que a reforma do Estado FHC avançou até onde foi possível e politicamente satisfatória ao capital. Haja vista que à época houve a promulgação da Emenda 29, com previsão de garantia de recursos para a saúde pelos governos dos municípios, dos estados e federal. Porém, enfaticamente, a Emenda 29 transparece ser parte da estratégia para disciplinar os recursos da saúde que, revestida no simulacro de uma proposta com alcance popular, viabilizaria os investimentos de interesses privados a ser completada com a destruição do SUS. Contudo, os segmentos capitalistas ligados à saúde não puderam contar com o timing político favorável à reversão em benéficos próprios das perspectivas de mobilização dos recursos públicos financeiros em montantes colossais e garantidos que a nova emenda constitucional projetava. Primeiramente, houve a necessidade política de dar tempo ao tempo para o governo se refazer do esforço despendido na venda das empresas estatais a preços aviltantes. Fatos que não deixaram de melindrar a opinião pública, mesmo tendo sido um processo realizado com a escamoteação de informações sobre o processo de desestatização e o deliberado cerceamento de participação da sociedade civil, principalmente das classes populares, no debate que o assunto exigia.

A alternativa prudencial parece ter sido a de aguardar momentos propícios para, então, voltar à privatização de atividades com notório interesse social e sujeitas à mobilização política de segmentos populares que se sentissem prejudicados, como, por exemplo, a saúde pública, previdência social, grandes extensões do território nacional destinado à agricultura em larga escala, e, no plano dos negócios, as vendas do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e o que ainda havia de público na Petrobras. Todavia, a alteração do mando político no cenário nacional, em 2003, alterou substancialmente essas pretensões.

A partir de 2003, os setores privados voltaram à carga com o objetivo de mercantilizar a saúde no Brasil, com o apoio sustentado na parceria com o Banco Mundial, instituição que, segundo RIZZOTTO (2000), age nos “… interesses político/ideológicos e econômicos que tem permeado determinados processos, aparentemente favoráveis à consolidação do SUS, mas que em realidade modificam substancialmente a configuração original deste Sistema”. Como parte de sua estratégia, essa instituição financeira internacional publicou, em 2008, o livro Desempenho hospitalar no Brasil: em busca da excelência, de autoria de Gerard La Forgia e Bernard Conttolenc, representantes da Interhealth Soluções em Saúde e da Universidade de São Paulo. Em síntese, os autores procuram apontar a incapacidade de o sistema hospitalar brasileiro se apresentar em níveis de eficiência exigidos para atender a demanda (sic) crescente, e, implícita e explicitamente, indicam como solução a privatização do sistema de saúde, portanto, com a exclusão dos princípios da equidade, universalidade e gratuidade no formato original do SUS, sustentado na CRFB, Art. 196, e Leis nº 8080/1990 e 8142/1990.

A eficiência do aparelho estatal, alinhada no discurso neoliberal desses autores, é estabelecida na lógica recursos/custos/oferta/demanda/lucro em saúde, e deverá se propagar, continuamente, na fundamentação da aliança entre o Estado e o mercado de saúde. Não é difícil compreender que o estratagema é permitir o processo de cessão paulatina, pelo Estado, dos aparelhos de saúde, concomitante com o repasse de recursos públicos, perdão de dívidas e incentivos fiscais a grandes grupos privados constituídos segundo as regras do terceiro setor, seguradoras e grandes empresas de hospitais. No tempo em que se enalteceriam, com instrumentos de marketing político, os direitos individuais e não mais da sociedade como pedagogia-subliminar de controlar e transformar as necessidades de saúde em demandas de serviço.

A proposta dessas políticas de saúde não se efetiva a partir das causas de aumento das necessidades de saúde (promoção e proteção de saúde; prevenção, tratamento e reabilitação de doenças), mas nas formas de encontrar condições (infraestrutura hospitalar, tecnologias de última geração, geralmente importadas, centralização de atendimentos em grandes hospitais em cidades polos, com o objetivo de ganhos de escala, transportes de pacientes, precarização do exercício da medicina, etc.) para dar conta do aumento da demanda (sic). Em outras palavras, a qualidade da saúde dá lugar à quantidade de atendimento. Isto é, a saúde deixa de ser um bem público como direito social. Para se afirmar no contexto das definições segundo as planilhas de custo, como forma de se manter os riscos financeiros sob o controle rígido em busca do máximo lucro, expressão objetiva da gestão por resultados, conforme explicito na Reforma de FHC. Os objetivos da saúde deixariam de ser a conquista do bem viver, quando, então, passariam a ser geridos, não no enfrentamento das causas de necessidades vinculadas aos limites e fragilidades das pessoas, mas a partir de adequações dos recursos determinados pela imagem-objetivo do lucro. Em resumo, a necessidade de saúde transformar-se-ia, pois, em demanda de saúde, por conseguinte em mercadoria a ser pesada, vendida e comprada, por quem, evidentemente, tivesse dinheiro.

A proposição se completa na mensuração de resultado das ações na saúde através de metodologias externas de controle de qualidade ou autorregulação. Uma prática ilusória, pois o atributo saúde implica uma dimensão qualitativa e subjetiva que transcende qualquer método externo. Ademais, o corporativismo na autorregulação é decisivo diante da avidez do capital representado por grandes organizações privadas de saúde, as agências reguladoras e o próprio Bird. A estratégia é, assim, desmontar, política e midiaticamente, a estrutura brasileira de saúde fazendo romper os ganhos sociais representados pelo SUS, com o sucateamento final do aparelho estatal de saúde, a partir da restrição do investimento público e da renuncia fiscal pelas diferentes esferas de governo em favor dos planos privados de saúde, pelo menos até quando o sistema permanecer nas mãos do Estado e a saúde como direito social estiver viva na consciência da sociedade civil, para, então, doar ou subordiná-lo à iniciativa privada, organizações do terceiro setor, cooperativas de saúde e seguradoras em geral.

José Tanajura Carvalho é economista, mestre em Ciências Sociais, ex-professor da UFMG e da PUC/MG, atualmente é pesquisador associado do Cedeplar/UFMG.

Parece brincadeira de Alckmin: Sósia de Chuck Norris homenageia policiais

28/03/2015
PM_Chuck_Norris01.jpg

Chuck Norbas, sósia brasileiro de Chuck Norris, participa de uma homenagem a PMs.

Ricardo Gallo, via Portal UOL em 21/3/2015

Com óculos escuros e cara de mau – tal qual seu inspirador mais famoso –, Chuck Norbas foi convidado pela Polícia Militar para homenagear policiais que se destacaram em serviço em 2014.

Norbas, 60, é sósia do ator Chuck Norris, cultuado pela invencibilidade em filmes B nos anos 1980. A diferença no sobrenome ante o original se explica: é uma alusão a Norberto, seu nome verdadeiro.

Pois Norbas se postou no palco ao lado de oficiais e praças da PM condecorados, em evento que ocorreu no começo de março.

De expressão séria feito Norris, ele até discursou: “Quis deixar claro a importância da polícia militar. Os jornais sensacionalistas, as reportagens sensacionalistas mostram o lado ruim da PM, mas existe um trabalho psicológico por trás, um trabalho bonito”, afirmou o sósia durante a homenagem.

Segundo a PM, Norbas estava lá porque entre os policiais laureados estavam os que prenderam quatro assaltantes que haviam roubado a casa dele, na Lapa, zona oeste da capital paulista, em outubro de 2014.

Ao falar, o sósia agradeceu aos policiais pela “presteza e rapidez no atendimento”. Os policiais, segundo a PM, foram homenageados pelo “profissionalismo e pela legalidade de suas ações”.

Após o roubo, Chuck Norbas inclusive passou a integrar o Conseg da Vila Leopoldina, conselho que discute temas de segurança no bairro. Lá, estão sendo colocadas 50 câmeras para tentar coibir crimes, afirma.

O sósia, que nas redes sociais defende a intervenção militar no país, faz eventos promocionais há quatro anos vestido feito Chuck Norris.

Propaganda: Reaça, a cerveja do coxinha homofóbico e reacionário

28/03/2015

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27/03/2015

15_Marco_Intervencao_Militar

A elite se consolida alicerçada em práticas de corrupção. Por isso o fim do financiamento privado de campanha não é uma pauta de seus protestos.

José Augusto Valente, via Carta Maior em 20/3/2015

Observando as manifestações de sexta-feira, dia 13/3 – convocadas pela CUT e movimentos sociais – e de domingo, dia 15/3 – convocadas pelo Movimento Brasil Livre e pelo Vem pra Rua – fica claro o acirramento da divisão existente na sociedade brasileira. Embora saiba que a realidade é complexa, para fins de análise, considerarei apenas os aspectos mais relevantes.

De um lado, os pobres e parte da classe média progressista fazendo pressão para que o governo Dilma avance para a esquerda, ou seja, para que amplie e aprofunde as reformas sociais e políticas.

Do outro lado, os ricos e parte da classe média conservadora, desejando o retorno à direita, com tudo o que isso significa.

Em minha opinião, engana-se quem pensa que estes últimos querem apenas tirar a Dilma da Presidência. O que eles querem mesmo é um país socialmente desigual, machista, racista, homofóbico e alinhado com os EUA.

É preciso atentar que os avanços conseguidos pelos governos Lula e Dilma nestes aspectos, incluindo os avanços dos BRICS, estão construindo uma nova realidade insuportável para a elite e para a parte da classe média que se julga elite. Isso é notório nas redes sociais: quem frequenta, sabe do que estou falando.

No entanto, a elite propriamente dita quer sim o impeachment da Dilma, porque estão muito seguros de que seu governo contraria e continuará contrariando os seus interesses. Ao contrário do que alguns afirmam, penso que ela não acha que tanto faz ter a Dilma ou o Michel Temer no comando do executivo federal.

Com todo o respeito ao vice-presidente, e à parcela progressista do PMDB (Requião, Pezão, Eduardo Braga, entre outros), a elite econômica acha que num governo presidido por Temer, pressionado pelo grupo do deputado Eduardo Cunha, conseguirá mudanças que garantam seus interesses e a estratégica preservação do status-quo na área de Comunicação. Acredita que conseguirá, sem dificuldade, implantar o regime de concessão na exploração do pré-sal. Que conseguirá acabar ou reduzir bastante a política de conteúdo local, no âmbito da Petrobras, entre outras questões relevantes.

Em síntese, essa elite pensa que conseguirá voltar a ser o foco do direcionamento das políticas do governo federal, em todas as áreas. Como no período 1500-2002!

Já a classe média conservadora, com muita ou pouca renda, diz temer o “comunismo” que os governos do PT estão implantando (sic). Para conseguir o apoio destes, as elites construíram um modelo ideológico, que lhes garante a necessária adesão, votos e manifestações. A insuficiente politização dos governos do PT e do próprio partido contribui para deixar parte da população à mercê dessa “lavagem cerebral” anti-PT.

O que essas pessoas entendem por “comunismo do PT”?

  • Garantia do direito à moradia digna para os pobres, aumento de renda para a classe média e renda mínima para os miseráveis. Garantia de sistema de saúde, de educação e de assistência social público e universal. Baixo nível de desemprego. Além desses, programas como Mais Médicos, Brasil Sorridente, UPAs, Escolas Técnicas e Universidades públicas são considerados, por essa classe média, um desperdício de recursos.
  • Redução das desigualdades sociais. Para essa parcela, bolsa de estudos para os seus filhos estudarem fora do país é algo desejável. Já Prouni, Fies e cota para negros é uma excrecência a ser abolida. Para ela, pobre se quiser subir na vida tem que estudar e trabalhar bastante. Como se as condições históricas econômicas, sociais e culturais fossem minimamente favoráveis a isso. O ponto alto da raiva dessa classe média contra o PT é o fato de Lula, um operário, analfabeto (segundo ela), ter se tornado presidente do Brasil, se reeleger e, ainda por cima, ter garantido a sucessão para a Dilma. Mas o pior de tudo, para ela, talvez seja a possibilidade de Lula voltar à Presidência em 2018!
  • Criminalização do racismo e política de cotas. Onde já se viu garantir aos afrodescendentes os mesmos direitos dos brancos? Para elas, negros só podem ascender por mérito, e olha lá!, como se as condições históricas fossem permeáveis a isso.
  • Criminalização rigorosa do machismo e políticas de emancipação e autonomia das mulheres. Aqui também essa parcela da classe média entende que é um direito histórico dos homens poder agredir esposa, namorada, filha, irmã ou colegas de trabalho. Sempre foi assim! Porque agora tem que ser diferente? Não é à toa que o termo mais utilizado para se referir à Dilma é “vaca”! Além do mais, que história é essa de Lei Maria da Penha, para punir os machões? Autonomia econômica? Uma ova! “Lugar de mulher é na cozinha”.
  • Criminalização rigorosa da homofobia e políticas públicas para a parcela LGBT da sociedade brasileira. A recente punição da Justiça ao ex-candidato Levy Fidélix, por declarações homofóbicas, são inaceitáveis para os conservadores. Um governo que defende esses direitos tem mais é que cair, pensam eles!
  • Interferência na ordem econômica e na geopolítica mundial, com a consolidação dos BRICS, o que significa alinhamento com China, Rússia, Índia e África do Sul, bem com o recém-criado fundo próprio para desenvolvimento destes países, similar ao FMI. Esse movimento diminui a dependência em relação aos EUA, sendo considerado por eles uma afronta a nossos irmãos do Norte. Fingem não ver que esse movimento foi tão bem sucedido que até a Alemanha está interessada em fazer parte disso!

Finalmente, ouso dizer que a corrupção, para o movimento anti-Dilma, nunca foi e jamais será um problema real. Mas essa bandeira é levantada porque “não pega bem” lutar pela volta da desigualdade social, do machismo, do racismo, da intolerância aos LGBT e da dependência aos EUA. Ao contrário, bradar contra a corrupção – de preferência do PT, é claro! – garante uma boa imagem aos manifestantes.

A elite econômica e boa parte da classe média conservadora se consolidam e crescem alicerçadas em práticas de corrupção. São elas o poder corruptor, sem o qual não existiriam corruptos. No que depender delas, o financiamento de empresas privadas às campanhas eleitorais continuará vigindo.

Dito tudo isso, fica a triste constatação de que quanto mais os governos de esquerda fazem avançar uma pauta progressista, socialista, mais irrita os defensores do status-quo de antes de 2003.

Essa tensão, portanto, tende a aumentar, porque temos governos progressistas e de esquerda, não só no âmbito federal, mas em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Ceará e em cidades importantes como São Paulo.

Não resta a esses governos alternativa ao avanço das políticas econômicas e sociais. Mas para isso ser viável, há que aumentar sensivelmente a participação social, em espaços atrativos para a parcela progressista da sociedade. Há missão também para os movimentos sociais e para os partidos de esquerda. Mas me restringirei aos governos.

Atualmente, a correlação de forças nos é desfavorável e ela não será alterada somente com ações e comunicação eficazes. É fundamental termos um processo de tomada de decisão e controle social que garanta o necessário empoderamento da sociedade na defesa de um governo de esquerda. Quanto mais conscientes dos porquês das decisões, maior dificuldade terá a direita para a sua lavagem cerebral.

Quem nunca vivenciou um processo eficaz de participação social na gestão talvez tenha dificuldade de entender o que estou dizendo. Por isso, pretendo fundamentar essa tese em artigos futuros, com maior nível de detalhamento e de exemplos bem sucedidos.

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