Em 2013, devido à falta de manutenção nas tubulações, Sabesp desperdiçou uma Cantareira

24/01/2015
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Falta de manutenção nas tubulações pela Sabesp causa desperdício de água.

Perda de 31,2% da água entre estação de tratamento e as casas ajuda a secar o Cantareira.

Camila Denes, via Agência de Notícias em 17/7/2014

Só em 2013, cerca de 950 bilhões de litros de água limpa e tratada vazou dos canos da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o suficiente para atender 3,7 milhões de pessoas ou duas Belo Horizonte.

Esse volume perdido no ano passado (31,2% do produzido) é praticamente a capacidade de armazenamento do Sistema Cantareira (981 bilhões de litros), que está reduzido a 17,8% – nível apurado na quarta-feira (16).

Grande parte da perda se dá por problemas nas tubulações antigas, que são quase metade da rede de distribuição em áreas centrais da capital paulista. Levantamento da Sabesp registra que 34% dos tubos tem entre 30 e 40 anos e 17%, mais de 40 anos. No Centro de São Paulo, há tubulação que funciona desde a década de 1930.

A proporção de perda está bem aquém dos indicadores internacionais. Na Europa e nos Estados Unidos, o índice de perda oscila entre 10% e 15%. No Japão, referência mundial, o indicador está em 4%.

O professor do departamento de engenharia hidráulica e ambiental da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), José Carlos Mierzwa, explica que as tubulações acima de 30 anos exigem acompanhamento mais rigoroso. “É preciso avaliar se estão ocorrendo vazamentos e, identificando o problema na rede, fazer uma programação para substituir aquele trecho”, explica Mierzwa.

Mesmo a meta modesta de baixar os vazamentos neste ano a 29,3%, feita pela Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp), não será atingida.

Já foi pior
O Ministério Público Estadual (MPE) abriu inquérito para investigar um possível favorecimento de empresas em contratos da Sabesp no Programa de Redução de Perdas e Uso Racional da Água. Os promotores acharam pequena a queda no desperdício de 34,1% em 2008 para os atuais 31,2%, considerando o investimento de R$ 1,1 bilhão.

A meta não atingida no ano passado era chegar a 30,5%. “A situação indica possível irregularidade administrativa, noticiando direcionamento contratual e absoluta falta de eficiência administrativa do programa”, diz o promotor Marcelo Daneluzzi.

***

Quatro denúncias de desperdício de água em São Paulo

Prezados editores da blogosfera,

Já que o governo Alckmin e a Sabesp resolveram incitar os cidadãos a se denunciarem uns aos outros, instaurando uma atmosfera fascista e transferindo para a população a responsabilidade (e a culpa…) pela falta d’água, segue como contribuição uma lista de sugestões de denúncias a serem feitas pela população (podem alterar e acrescentar novos itens à vontade)

Quatro flagrantes de desperdício de água em São Paulo para você denunciar agora mesmo.

1) As tubulações estão rompidas
Segundo dados de 2013, foram perdidos devido a vazamentos nas tubulações da Sabesp 31,2% do total da água bombeada desde as estações de tratamento até as caixas d’água dos consumidores (estudos mais recentes apontam para um desperdício ainda maior).

2) O rodízio ainda não foi implantado porque trará riscos para a saúde
O rodízio (alternância de períodos com e sem água) implica sucessivas pressurização e despressurização nas redes, o que provoca danos nas tubulações enterradas (fissuras nas paredes da tubulação e ressecamento e ruptura nas juntas) o que aumenta o risco de infiltração de água poluída dos lençóis freáticos.

3) A depender da Sabesp, indústrias e shopping centers não pagariam sobretaxa caso consumam acima da média
Os chamados “grandes consumidores” pagarão sim a sobretaxa, mas isso só porque a Agência Reguladora de Água e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp) assim determinou à Sabesp; a solicitação encaminhada pela Sabesp (a quem caberia cuidar da água de todos) isentava essas empresas.

4) O governador Geraldo Alckmin até agora ainda não alertou a população que a água vai acabar em algum momento de 2015.

Caso a população fosse informada da real gravidade do problema, certamente pouparia mais água.

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Para entender a escassez de água

Folha, 12/10/2003: São Paulo só atende demanda por água até 2010

24/01/2015

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Aos que acham que é culpa de São Pedro. E tem mais: a “mídia isenta” se esqueceu disso?

Mariana Viveiros e Simone Iwasso, via Folha de S.Paulo

A crise de água que a Grande São Paulo vive hoje não é a primeira nem será a última. Por causa de limites naturais na disponibilidade hídrica, da poluição de rios e represas, da ocupação desordenada de mananciais, do descaso no uso e da falta de políticas eficientes para reeducar o consumo e reduzir perdas, a região só tem água garantida até 2010.

Se o quadro atual não mudar, a partir daí, para acompanhar o aumento da demanda, será preciso ir longe, gastar muito, enfrentar disputas com outros estados e causar impactos ambientais.

Com obras e mudanças no processo de produção, até 2006 os mananciais poderão aumentar seu potencial de geração de água em 8.700 l/s, passando de 65 mil para 73,7 mil l/s. O incremento segue o aumento anual médio no consumo até 2010, no máximo.

A cada ano, são necessários mais 2.000 l/s para abastecer a Grande São Paulo – sobretudo por causa da entrada de novos consumidores, com o crescimento populacional na periferia.

Já prevendo escassez, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) cogita quatro alternativas de abastecimento, das quais as mais viáveis são o represamento do rio Capivari-Monos, na área de proteção ambiental municipal de mesmo nome, em Parelheiros (extremo sul da capital), e a captação no rio Juquiá, em Juquitiba (Grande São Paulo).

As outras duas opções são – da mais para a menos exequível – trazer água do conjunto de represas de Paraibuna (a cerca de 120 quilômetros de São Paulo); e reverter o rio São Lourenço (que nasce em São Lourenço da Serra, na Grande São Paulo).

Todas as alternativas têm prós e contras, mas as dificuldades ambientais, econômicas ou institucionais parecem ser maiores que os benefícios de sua exploração. Isso leva ambientalistas e especialistas a afirmar que seria melhor investir na recuperação e conservação dos mananciais existentes e em medidas eficientes para forçar a população a economizar água e a Sabesp a reduzir as perdas na rede. Antônio Marsiglia, diretor de Produção e Tecnologia da empresa concorda, mas não totalmente.

Inevitável
Estimando em cerca de 24 milhões a população da região metropolitana em 2020, Marsiglia entende que é possível retardar ao máximo o uso de novos mananciais, mas que isso seria inevitável.

A Grande São Paulo está na nascente dos rios que formam a bacia do Alto Tietê, por isso a disponibilidade de água per capita é baixa – 200 mil litros por habitante por ano. A ONU recomenda 2 milhões de litros anuais por pessoa.

As obras que aumentarão a produção dos sistemas em funcionamento – investimento que beira os R$600 milhões – já seriam uma forma de adiar o gasto maior e o desgaste por trás dos projetos de médio e longo prazo.

Elas se concentrarão no Alto Tietê, em Guarapiranga e no Rio Grande. Outra alternativa seria aumentar o aproveitamento da represa Billings para o abastecimento. Ela serve 1,3 milhão de moradores, mas tem potencial para atender quatro vezes essa população, segundo estudo feito em 2002 pelo ISA (Instituto Socioambiental).

Mas há dois problemas: ocupações ilegais e o uso para gerar energia. Por isso a Sabesp tem planos de médio e longo prazo.

O rio Capivari-Monos poderia ajudar o abastecimento com mais 4.000 l/s. Para tanto, seria preciso represá-lo – atualmente, a Sabesp capta 1.000 l/s no local. A proposta original da obra teve o estudo de impacto ambiental rejeitado no início dos anos 90 e foi alterada – a área alagada foi reduzida, e o bombeamento, reforçado. Mas não há unanimidade em torno da ideia.

Enquanto especialistas como Ivanildo Hespanhol, titular e chefe do Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Poli/USP, não têm restrições, ambientalistas.

Os motivos, além das terras indígenas na região, são a necessidade de desmatar áreas de mata atlântica e seus possíveis impactos, diz Marussia Whately, do ISA.

Já a proposta do Juquiá, que poderia aumentar a produção em 4.700 l/s, é mais bem vista pelos ambientalistas, mas seu custo a deixou na gaveta até agora.

As outras duas opções não são cogitadas num médio prazo. Tirar água de Paraibuna envolveria uma disputa com o Rio de Janeiro e Minas Gerais, além disso, a oferta é limitada. Já o rio São Lourenço tem água de sobra e poderia fornecer até 20 mil litros. Os problemas são ambientais – a região também é de mata atlântica – e econômicos (a obra é caríssima).

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Os tucanos já gastaram US$3,6 bilhões para limpar o Tietê, mas o rio continua poluído

24/01/2015
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O rio Tiete continua poluído e provocando enchentes na capital paulista.

Prestes a completar 20 anos, o projeto de despoluição dos rios Tietê e Pinheiros custou caro e pouco adiantou. Os rios que cortam a capital de São Paulo seguem praticamente mortos, inviabilizando seu aproveitamento econômico.

Rosenildo Gomes Ferreira

Vistos de longe, os rios Tietê e Pinheiros, que cortam a cidade de São Paulo de norte a sul, lembram alguns cursos d’água de metrópoles como Nova Iorque, Londres, Paris e Seul. Nelas, as margens dos rios são usadas para a prática de lazer. Na capital francesa, os passeios de bateaux mouches e os piqueniques na beira do Sena atraem milhões de turistas do mundo todo. Muitos moradores dessas cidades também se arriscam a mergulhar e a pescar nos grandes rios. Nenhuma dessas cenas, no entanto, seria possível na chamada Terra da Garoa. Os rios que correm pela maior cidade do Brasil estão praticamente mortos, em um sinal evidente da ineficiência dos programas de despoluição, lançados em 1992 e iniciados, na prática, em 1995.

O cenário é ainda mais desolador quando lembramos que, desde então, já foram gastos impressionantes US$3,6 bilhões nesse processo. Não precisa ser graduado em biologia ou meio ambiente para perceber a extensão do problema. O odor que exala desses cursos d’água é eloquente o bastante. São verdadeiros esgotos a céu aberto, ladeados por alguns belos jardins e ciclovias vistosas, mas também por vias marginais quase sempre engarrafadas. Pobres capivaras e ciclistas que ainda insistem em passar por ali. Azar dos turistas que virão para a Copa e serão recebidos pela feiura da foto ao lado, ao chegarem na cidade do Itaquerão.

Apesar da tragédia ambiental que o Tietê e o Pinheiros representam, o discurso oficial minimiza a situação. “Não é verdade que não tenha havido avanços no combate à poluição dos rios”, afirma Carlos Eduardo Carrela, superintendente de gestão de projetos especiais da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), estatal paulista responsável pelo projeto de despoluição dos rios. Será mesmo? Carrela lança mão de uma série de dados e estatísticas para justificar como a verba tem sido gasta. No esforço para recuperar os rios vêm sendo usados recursos de inúmeras fontes: BNDES, Caixa e o governo local, além do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

O grande foco da terceira etapa do processo, iniciada em 2009 e prevista para ser concluída ainda neste ano, é a coleta e o tratamento de esgoto das 365 cidades atendidas pela estatal, especialmente aquelas que integram a Região Metropolitana de São Paulo e margeiam o rio Tietê. “Com isso, o índice de coleta de esgoto subirá de 84% para 87%, enquanto o tratamento vai avançar de 70% para 84%”, disse Carrela. A expectativa é de que essas intervenções, orçadas em US$2 bilhões, beneficiem cerca de três milhões de pessoas. Os números, no entanto, parecem não impressionar os especialistas. Para o professor do departamento de engenharia hidráulica e ambiental da Universidade de São Paulo (Poli/USP), José Carlos Mierzwa, o problema está relacionado à deficiência na gestão do processo.

É que, apesar de São Paulo ter sido um dos Estados pioneiros na criação de uma política de gestão de recursos hídricos, em 1991, atrás apenas do Ceará, o governo falhou em dar sequência ao trabalho iniciado há duas décadas. “Faltou fazer a lição de casa”, afirmou. Segundo ele, o descompasso da relação entre a oferta e a demanda está na raiz dos problemas atuais. “A ampliação do abastecimento de água colabora para a produção de uma quantidade cada vez maior de esgoto”, disse. “Como a capacidade de tratamento de esgoto ainda é extremamente menor do que a sua produção, o rio seguirá cada vez mais poluído.” Isso ajuda a explicar porque, após os bilhões investidos no âmbito do programa de despoluição do Pinheiros e do Tietê, eles continuam com suas águas impróprias para banho e consumo.

O esgoto de milhões de residências continua sendo jogado no rio, todos os dias. “Passamos a atuar como os romanos, que poluíram totalmente os cursos de água no entorno de sua capital e, por conta disso, tiveram de construir aquedutos para captar água de fontes cada vez mais distantes”. É fato. O líquido que hoje falta no conjunto de represas que forma o Sistema Cantareira, que, consequentemente, coloca a cidade sob o risco concreto de um megarracionamento, poderia estar sendo retirado do Pinheiros e do Tietê. Para matar a sede dos paulistanos, um dos projetos da Sabesp prevê a captação de água no rio Juquiá, distante 100 quilômetros da capital, ao custo de R$2,2 bilhões. Prometida para 2015, a obra só deverá ser concluída em 2018.

Questionado sobre seu papel no programa de despoluição, no qual funciona como um dos principais financiadores, a direção do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) não quis se manifestar. Limitou-se a enviar, por meio de sua assessoria de imprensa, um comunicado onde diz que o trabalho corre de acordo com o planejado. “A execução do programa de despoluição do rio Tietê tem seguido seu curso dentro dos parâmetros acordados entre o BID e o Estado de São Paulo.” A morte dos rios que cortam São Paulo é encarada com tristeza pelos paulistanos. Afinal, até 1972 o rio Tietê era cenário de disputas acirradas de provas de canoagem entre atletas de clubes da região.

Hoje, devido à quantidade de detritos boiando no rio e ao mau cheiro, isso seria praticamente impossível. Carrela, superintendente da Sabesp, reconhece que o problema relacionado aos detritos ainda é grande, mesmo após o esforço de dragagem do rio. No período 2011-2013, foram retirados 17 mil pneus de dentro do Tietê. “Essa quantidade é suficiente para equipar 4.250 veículos”, diz ele. Para evitar que todo o lixo descartado irregularmente pela cidade vá parar no rio, o governo do Estado vem atuando em duas frentes. Uma delas foi a instalação de 11 ecobarreiras na foz de seus afluentes, o que permite recolher dez metros cúbicos de lixo por dia. O superintendente da Sabesp se mostra otimista em relação ao futuro.

De acordo com o plano traçado pela estatal, a questão da coleta e do tratamento do esgoto, deverá estar totalmente equacionada até 2020. Período inferior em até 30 anos ao previsto em nível nacional, de acordo com dados da ONG Trata Brasil, desde que os investimentos em saneamento básico, previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), sejam mantidos no ritmo atual. Mas, de acordo com Carrela, o desafio de despoluir os rios paulistanos só será vencido, efetivamente, se houver a participação mais vigorosa da população. Isso porque uma parte importante da poluição que vai parar no Tietê e no Pinheiros, diz ele, se deve à poluição difusa, resultante do lixo jogado nas ruas pelas pessoas e pelas empresas, além do serviço malfeito de varrição.

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O que sai no jornal ou “o racionamento dos fatos”

23/01/2015

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Fernando Brito, via Tijolaço

Uma amiga me conta que a mãe telefonou para saber como ela tinha ficado “durante o apagão”.

– Mãe, aqui não teve apagão!
– Mas como, minha filha, deu no jornal!
– Mas não teve. E aí, teve?
– Não. Aqui não faltou luz, nem lá na sua tia fulana que falou comigo agora, lá de Florianópolis.
– Pra você, mãe, aprender a não acreditar em tudo o que sai no jornal…

Detalhe: esta amiga é jornalista.

Como é jornalista, dos melhores, o veterano Luciano Martins Costa, que publica, no Observatório da Imprensa, uma trágica crônica sobre a forma e a escala de destaque do que sai nos jornais brasileiros.

Que me consegue traduzir o nojo com que li a chamada “Dom Evo I”, na manchete de O Globo, um deboche contra a autenticidade de um índio, Evo Morales, assumir a Presidência do país segundo a tradição de seu povo – e seu povo é a imensa maioria do povo boliviano.

E que registra, com explicitude, o tratamento esquizoide com que se analisa a política econômica. O que é “bom”, é Levy. O que é “ruim”, mesmo sendo bom, é Dilma.

Quem sai no retrato
Luciano Martins Costa

Os jornais de quinta-feira, dia 22/1, refletem uma circunstância corriqueira na relação da imprensa com o poder político e reproduzem o estado de guerra que domina o ambiente midiático. As manchetes e outros títulos de destaque nas primeiras páginas procuram exacerbar as dificuldades da economia nacional, ao mesmo tempo em que tentam colocar o problema de abastecimento de água em São Paulo na conta das mudanças climáticas.

O conjunto de notícias e opiniões que os diários apresentam como a síntese do período induz o leitor a acreditar que o Brasil é um comboio em direção ao abismo, e que o condutor, o ministro da Fazenda Joaquim Levy, está tomando as providências para reduzir a velocidade e desviá-lo de volta para o trilho do desenvolvimento. A presidente da República, responsável pela estratégia que o ministro deve administrar, é citada quase exclusivamente no meio de declarações sobre o escândalo da Petrobras.

Há espaço, ainda, para a fotografia do presidente reeleito da Bolívia, Evo Morales, envergando a bata tradicional na cerimônia indígena que antecede sua posse. Com exceção de O Estado de S.Paulo, os jornais expõem na primeira página a imagem de Morales junto a xamãs nativos, acompanhada de textos que mal dissimulam o preconceito. Em O Globo, o título do conjunto é: “Dom Evo I”. Na Folha de S.Paulo, o título chega próximo da zombaria: “Pelos poderes de Evo”, diz o jornal paulista.

A imprensa não suporta essa coisa de indígena fora de reservas, ocupando palácio de governo e resolvendo problemas centenários de seus países.

Como se vê, há uma série de elementos a serem observados nas escolhas dos editores. Um dos aspectos mais interessantes é o posicionamento que a imprensa faz dos principais protagonistas da cena pública.

Evo Morales, que vai para seu terceiro mandato com um histórico de êxitos na recuperação da economia e da autoestima dos bolivianos, é retratado como uma aberração excêntrica, numa América Latina cuja elite se imagina europeia. A presidente do Brasil vira personagem secundária na crônica do poder. Por outro lado, o governador de São Paulo, responsável direto pela crise que ameaça o bem-estar de milhões de cidadãos, é retirado de cena quando deveria estar respondendo perguntas incômodas, porém cruciais.

Racionamento de fato
Se a imprensa aprova as medidas anunciadas pelo governo federal, o destaque vai para o ministro da Fazenda. Se a imprensa se vê na contingência de reconhecer o descalabro na gestão dos recursos hídricos e no sistema de distribuição de energia em território paulista, o foco vai para auxiliares do segundo ou terceiro escalão. O governador Geraldo Alckmin aparece apenas para criticar a empresa responsável pela gestão da energia, AES Eletropaulo, numa clara manobra para criar um novo foco de atenção e desviar do Palácio dos Bandeirantes o olhar crítico do público.

O isolamento da presidenta Dilma Rousseff no noticiário sobre medidas econômicas (que a imprensa apoia) vem acompanhado de comentários que amplificam supostas reações de dirigentes de seu partido às medidas anunciadas pelo ministro da Fazenda. Assim, o leitor é induzido a pensar que Joaquim Levy conduz a economia à revelia da presidente e contra a orientação do partido que a reconduziu ao poder.

No caso paulista, quem vai para a frente da batalha comunicacional é o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, que em artigo na Folha de S.Paulo tenta convencer o cidadão de que não há racionamento de água, mas pode vir a acontecer. Aproveita para reconhecer que a principal causa da crise hídrica é a fartura de vazamentos na tubulação. São 64 mil quilômetros de tubos enterrados sob o asfalto da região metropolitana, uma extensão correspondente a uma volta e meia em torno do planeta.

O presidente da Sabesp só não explica por que seu chefe, o governador Geraldo Alckmin, não exigiu que a empresa corrigisse essa deficiência desde a primeira vez que ocupou o Palácio dos Bandeirantes, em 2001. E a Folha de S.Paulo esquece que publicou no dia 12 de outubro de 2003, um domingo (ver aqui), uma reportagem na qual alertava para o fato de que, se nada fosse feito para reduzir as perdas, a região metropolitana só teria água até o ano de 2010.

Nada foi feito. Tudo que sai dos mananciais do sistema Cantareira se perde nos vazamentos. A Sabesp raciona a água, a imprensa faz o racionamento dos fatos.

Em 2009, Serra foi alertado para a crise hídrica de 2015. E não fez nada

22/01/2015

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Luis Nassif

Em 2009, o governador José Serra foi alertado para os problemas hídricos que ocorreriam em 2015, caso o estado não enfrentasse o problema da água.

Trabalho encomendado pela Secretaria de Meio Ambiente ao Instituto Sagres ouviu 200 especialistas visando traçar os cenários ambientais para 2020. Nele, é prevista a crise de 2015, se nada fosse feito.

Na apresentação, o secretário Francisco Graziano Neto escreveu:

“As políticas públicas aqui propostas visam atingir a melhor qualidade ambiental no Estado de São Paulo até o final da próxima década, por meio de ações articuladas entre o poder público, iniciativa privada e sociedade civil organizada. Espera-se que este projeto seja precursor de muitas iniciativas de planejamento ambiental, tanto em nível estadual quanto regional. Com cenários e propostas estabelecidos, cabe a nós, agora, transformá-los em realidade. Menos discurso e mais gestão ambiental. Mãos à obra, para o bem, e o futuro, da Humanidade”.

Na página 27, o estudo traça o Cenário de Referência, o cenário provável se nada fosse realizado.

Na página 38, prevê-se a crise de 2015.

Por volta de 2015, a crise atingiu também a Bacia Hidrográfica dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), obrigando as autoridades a aumentarem a quantidade de água trazida dos reservatórios Barra Bonita e Jurumirim para garantir o abastecimento da chamada Macrometrópole.

[…] A Agência Nacional de Águas (ANA) disponibilizou técnicos que auxiliaram na mediação do conflito. No auge da crise, prefeitos e vereadores aprovaram pacotes com leis restringindo temporariamente algumas atividades econômicas de uso intensivo de água.

Na página 44, o trabalho desenha o que seria um Cenário Ideal. Seria um estado com Zoneamento Ecológico Econômico, por meio de um consenso político tocado pelo governo do estado e atuando por intermédio dos Comitês de Bacias e Consórcios Municipais.

O zoneamento permitiria planejar investimentos nas áreas de serviço e infraestrutura para cidades pequenas e médias, desconcentrando a capital.

O governo do Estado deveria lançar um Plano Diretor de Aproveitamento de Recursos Hídricos, garantindo o abastecimento de um dos maiores aglomerados urbanos do planeta: a macrometrópole paulista, que inclui as Regiões Metropolitanas de São Paulo, Campinas, Baixada Santista, Sorocaba, Jundiaí e São José dos Campos.

Simultaneamente deveria implementar o Projeto Aquíferos, com foco principal na proteção dos aquíferos do Estado, responsável pela identificação das áreas críticas em termos de qualidade e quantidade e pela criação de mecanismos de controle e restrição para a exploração da água subterrânea.

Nada foi feito nem pelo governo Serra nem pelo governo Alckmin.

Leia o documento Cenários Ambientais 2020


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