Dos rostos da Cracolândia, a Veja só enxerga um: o branco

27/11/2014

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Matéria de capa da Veja São Paulo deste sábado faz um perfil de Loemy: dependente química branca, loira, de olhos verdes e ex-modelo que vive na Cracolândia. O que ela tem de diferente das centenas de pessoas que ali vivem? Ela não é negra e, portanto, “vítima”.

Ivan Longo, via SpressoSP

“É difícil distinguir alguém no bloco de maltrapilhos que andam a esmo na região, feito zumbis […] Uma loira magra, de 1,79 metro de altura e olhos verdes, no entanto, não consegue passar despercebida”. Assim, que a matéria de capa de Veja São Paulo do último sábado introduz a sua personagem. Ignorando as outras centenas de pessoas que vivem em situação de miséria e dependência química na região da Cracolândia, centro de São Paulo, a revista traça um perfil e conta a história da jovem Loemy, que deixou o Mato Grosso há alguns anos e veio para a capital paulista para tentar engatar na carreira de modelo.

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Hoje, Loemy vive na Cracolândia, da mesma maneira que os outros dependentes químicos: pedindo esmolas, por vezes assaltando, com poucos ou nenhum cuidado médico e fazendo uso abusivo de drogas. Ela também vaga pelo chamado “fluxo” dopada de crack e fica alucinada, aos maltrapilhos, como os outros usuários – estes, em sua maioria negros, a Veja prefere chamar de “zumbis”. O que a ex-modelo tem, portanto, de diferente em relação à toda aquela população de rua e dependente de crack? A própria publicação responde: ela é loira, magra, de 1,79 metro de altura, olhos verdes e ex-modelo.

A militante e historiadora Luzia Souza.

A militante e historiadora Luzia Souza.

“Para a Veja, ela não pertence àquele cenário e precisam resgatá-la de lá. Só ela. Salvando-a, evitam que todos os outros à sua imagem e semelhança caiam no fosso. Como se fosse uma espécie de aviso psicológico aos jovens e às crianças brancas. O restante não importa, são pretos e pardos”, afirmou a professora de história e militante do movimento negro Luzia Souza, que recebeu, recentemente, o título de uma das 25 negras mais influentes da internet.

Esse tipo de recorte feito pela reportagem acaba por reforçar a invisibilidade a qual negros e pobres, principalmente dependentes químicos, são submetidos pela sociedade e pela imprensa. A matéria da Veja mostra, indiretamente, que só aquele perfil merece atenção, em detrimento das tantas outras pessoas que passam pelos mesmos problemas. A grande diferença consiste no fato de que a loira de olhos verdes e com um futuro promissor representa um exemplo perfeito, para a classe média e branca, do que não pode e não deve acontecer. A ex-modelo, neste sentido, torna-se uma grande vítima, que não deveria estar naquele lugar, enquanto todos os outros seriam vilões.

Para o psiquiatra Dartiu Xavier, diretor do Proad (Programa de Orientação e Assistência a Dependentes), da Universidade Federal de São Paulo, e uma das maiores referências do assunto, a matéria da Veja ajuda a manter o preconceito criado por essa mesma imprensa que exclui as minorias e contribui para a falta de entendimento de um problema tão delicado que é o crack.

Psiquiatra Dartiu Xavier.

Psiquiatra Dartiu Xavier.

“A Veja se transformou em imprensa marrom, não faz jornalismo. Esse tipo de matéria só reforça o estereótipo do que as pessoas entendem por Cracolândia, que está completamente fora da realidade”, afirmou Xavier.

“Desde que o crack passou a dominar o cenário das grandes cidades, sobretudo de uma cidade como São Paulo, essas pessoas causam ódio, nojo e incômodo. Assim se tornam invisíveis. Não seria nada bonito, nem saudável, nem venderia revistas, colocar negros na capa, isso jamais emocionaria as pessoas, assim como também ninguém se emociona quando um negro não passa despercebido ao ser morto, ou espancado, confundido com bandido. É normal”, reforçou Luzia Souza.

Tabelando com Luzia, o psiquiatra, que há mais de 15 anos frequenta a Cracolândia, acredita também que a reportagem passa o entendimento errado em relação à droga, de que seria ela que levava as pessoas à condição de rua e miséria quando, na verdade, o que acontece, é justamente o contrário.

“As pessoas acabam partindo do princípio de que a droga colocou aqueles usuários em situação de miséria, quando na verdade foi a miséria que os levou à droga. Essa vitimização da pessoa pela sua aparência e status social é extremamente perigosa. Quando é branco e rico, é vítima. Quando é preto e pobre, culpado”, analisou.

Assim como Loemy, centenas de outros usuários de crack da Cracolândia tinham uma condição financeira e social completamente diferente e, em um determinado momento da vida, perderam tudo e encontraram na droga um caminho para amenizar a dor. Será que essas tantas outras pessoas da região, majoritariamente negras, também não tem histórias de vida para contar? Ou foram, a vida inteira, viciados em droga? Por qual motivo, então, essas pessoas são completamente ignoradas pela mídia tradicional enquanto a figura de Loemy desperta interesse ao ponto de ser capa de uma das revistas de maior circulação no país? Luzia de Souza responde:

“Não tem importância relevante o crack, nem o extermínio dos jovens, nem a mendicância, nem a pobreza de crianças e jovens pretas e pardas. Está no imaginário popular, fomentado pelas mídias como Veja, que nós todos temos tendência ao crime, ao abismo social, à pobreza e que nos adaptamos com maestria nesses cenários, não os brancos de olhos azuis. Nós só causamos revolta e eles causam sentimento de piedade”, disse.

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Capa da Veja de 2009, que associava usuários de drogas a criminosos.

Vale lembrar também que a Veja é a mesma revista que, em 2009, usou sua capa para reforçar seu apoio à criminalização dos usuários de droga. Com a chamada “Quem cheira, mata”, a publicação tentou associar o consumidor ao traficante e, indiretamente, à criminalidade. Na reportagem de capa deste sábado, no entanto, a usuária, Loemy, é tratada de maneira humanizada e em nenhum momento é ligada ao crime. Será que, para a Veja, a ex-modelo compra drogas em um mercado paralelo ao dos traficantes?

Durante toda a reportagem, a jovem loira que se “afundou” no mundo do crack é tratada como uma usuária em detrimento de todas as outras pessoas que ali vivem, que são simples “viciados” ou ainda pior, limitam-se a números. No final da matéria há, inclusive, um balanço que aponta a “Cracolândia em números”. Afinal, para a publicação, história humana ali só há uma: a da que “não pertence” àquele lugar.

Loemy, agora, parece ter um futuro um pouco mais promissor. Após a repercussão da reportagem da revista da editora Abril, a dependente química foi chamada para gravar um programa com o apresentador Rodrigo Faro, na TV Record. Ela agora está em um hotel, sob cuidados médicos, com tudo pago pelo programa. E a emissora promete ainda custear um tratamento em uma clínica de reabilitação para “resgatar” a usuária.

Em fevereiro deste ano, a reportagem da Fórum esteve na Cracolândia quando flagrou um usuário parecido com Loemy, só que negro, pedindo às equipes de reportagem de veículos da imprensa tradicional que o dessem um violão, pois seria a “única coisa” que o faz feliz. O homem não só não ganhou um violão como sequer estampou qualquer capa de algum desses veículos.

Loemy precisa de ajuda, diz a chamada da capa da Veja. A Cracolândia também.

Eleições 2014: Indústria de armas financiou 21 parlamentares

27/11/2014
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Instituto Sou da Paz aponta movimento da bancada da bala contra Estatuto do Desarmamento.

Levantamento mostra que fabricantes de armamentos contribuíram para a campanha de 14 deputados federais e sete estaduais. Quase metade da comissão da revogação do Estatuto do Desarmamento recebeu doações do setor

Fábio Góes, via Congresso em Foco

Mais de 70% dos candidatos que receberam legalmente doações de campanha da indústria de armas e munições se elegeram em outubro. Dos 30 nomes beneficiados pelo setor, 21 saíram vitoriosos das urnas: são 14 deputados federais e sete deputados estaduais. Ao todo, fabricantes de armas e munições destinaram R$1,73 milhão para políticos de 12 partidos em 15 estados. Metade desses recursos ficou com candidatos do PMDB e do DEM, do Rio Grande do Sul e de São Paulo.

Os dados, aos quais o Congresso em Foco teve acesso em primeira mão, são de levantamento exclusivo do Instituto Sou da Paz, organização não governamental (ONG) de combate à violência, com base em dados registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Apesar de identificar uma redução no volume de doações legais (R$1 milhão a menos do que nas eleições de 2010) e no número de congressistas financiados pelo setor (foram 13 federais a menos neste ano), o instituto vê a indústria de armas fortalecida no Congresso. E com um alvo certo e imediato: a revogação do chamado Estatuto do Desarmamento, que restringe o porte e o uso de armas de fogo em todo o país.

Dos 24 titulares da comissão especial incumbida de discutir o projeto que libera o porte e o uso de armas de fogo no país, dez receberam doações do setor para suas campanhas eleitorais neste ano. Ou seja, cerca de 40% dos integrantes. Outros seis suplentes do colegiado também foram financiados por fabricantes de armas e munições.

“A bancada da bala aproveitou o período eleitoral para avançar o projeto na surdina. Nesse sentido, desistiu de realizar seis audiências públicas país afora e optou por realizar apenas uma audiência, em 26 de novembro. Mais do que isso, o objetivo da comissão é votar o projeto de forma açodada, sem realizar uma discussão aprofundada com a sociedade civil, no dia 10 de dezembro”, afirma a ONG.

O projeto de lei (PL 3.722/12), que será debatido em audiência pública na Câmara na quarta-feira, dia 26/11, enfrenta resistência do governo, que prefere manter as diretrizes da atual legislação. Entre os pontos polêmicos da proposta está o número de armas que cada cidadão poderá adquirir e legalizar: até nove. O texto também aumenta o número de munição para portadores de armamento: de 50 balas por ano para 50 balas por mês.

“Por que um cidadão comum precisa ter nove armas e 50 munições por mês? O projeto é desastroso”, disse ao Congresso em Foco o cientista político e professor de Relações Internacionais Marcelo Fragano Baird, coordenador de projeto do Instituto Sou da Paz para a área de Sistemas de Justiça e Segurança Pública.

Para Marcelo, o financiamento de candidaturas tem objetivos explícitos. Entre eles, a aprovação de proposições como a que visa assegurar o porte de arma para o maior número possível de categorias (advogados, oficiais de Justiça, políticos etc.), com óbvios propósitos comerciais. “Diversos projetos são apresentados por ano para modificar pontualmente o Estatuto do Desarmamento. De vez em quando eles conseguem algumas vitórias”, acrescentou.

O Instituto Sou da Paz lembra que alguns projetos aprovados no Congresso estenderam o porte de armas a outras categorias profissionais, como o referente aos guardas municipais – a lei proveniente desse projeto foi sancionada pela presidenta Dilma em agosto.

Munição majoritária
O estudo da ONG demonstra que a comissão especial voltada para a revogação do Estatuto do Desarmamento é majoritariamente composta por membros da chamada bancada da bala. Segundo o instituto, há parlamentares alinhados aos interesses do setor mesmo sem ter recebido doação.

“O [deputado Jair] Bolsonaro, por exemplo, nem precisa receber doação de campanha, porque ele faz [a defesa de interesses da indústria das armas] por ideologia”, observou Marcelo Fragano, mencionando um dos componentes do colegiado. Para o especialista, o PL 3.722 é “o mais ousado” entre os projetos defendidos pela bancada da bala, porque revoga a lei vigente e inverte papéis.

“É quase um atestado de falência do Estado como instituição que deve zelar pela segurança pública. É como se dissesse: ‘Como não conseguimos resolver a situação, vamos armar o cidadão para cada um se defender. Assume a guerra de todos contra todos’”, acrescentou Marcello, para quem, em suma, o projeto instaura a cultura do porte de arma no Brasil.

O projeto de lei criticado pela ONG institui o Estatuto do Controle de Armas de Fogo, que, na prática, revoga o Estatuto do Desarmamento. Caso o projeto seja aprovado, passa a ser responsabilidade da Polícia Civil, em conjunto com o Sistema Nacional de Armas, a emissão do registro e porte de armas de fogo. O PL também sugere a extinção da obrigatoriedade de renovação do registro de arma de fogo a cada três anos, tornando-o definitivo. A justificativa alegada é o excesso de burocracia, como o pagamento de taxas tidas como elevadas, a comprovação da necessidade de porte de arma e a observância a outros pré-requisitos formais.

Thomas Piketty: “Marx é possivelmente mais importante que Jesus.”

27/11/2014
Economista e escritor Thomas Piketty.

Economista e escritor Thomas Piketty.

Via DCM

“A diminuição de desigualdade de renda depende de políticas de valorização do salário mínimo e de políticas inclusivas. A difusão de educação de qualidade é o mais importante mecanismo para diminuir a desigualdade de renda. É preciso também criar taxações progressivas de renda e fortalecer movimentos trabalhistas.”

São palavras do economista francês Thomas Piketty, em São Paulo. Ele está na cidade para promover o lançamento de seu polêmico livro O capital no século 21. Piketty participou na tarde desta quinta de um debate sobre a sua obra na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA/USP).

O título de seu livro remete ao clássico de Karl Marx. “Marx é possivelmente mais importante que Jesus”, disse ele na FEA. “Se nenhuma medida for tomada, os países desenvolvidos tendem a ter uma concentração de riqueza semelhante à das oligarquias do século 19”, afirmou Piketty.

Dessa maneira, segundo ele, a economia ficaria cada vez mais dominada por herdeiros abastados. Em um cenário extremo, seria o fim da meritocracia e da livre iniciativa.

Nota do Limpinho: Com certeza Karl Marx é mais importante do que Jesus Cristo, pelo simples fato de o filósofo e pensador alemão ter existido e o outro ser obra do melhor marqueiteiro de todos os tempos.

Por que Pondé odeia tanto a USP que o formou?

27/11/2014

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Pedro Zambarda de Araujo, via DCM

Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé tem 55 anos, é pernambucano, formou-se em Medicina na Bahia e, goste ele ou não, é um dos filhotes do curso de graduação em Filosofia da Universidade de São Paulo.

Formou-se na USP em 1990, fez mestrado em Filosofia Contemporânea em 1993, doutorado em 1997 e pós-doutorado em 2000. Teve experiência de pesquisa em Sevilha, Tel Aviv e Paris. Recebeu orientação filosófica de um dos melhores professores da maior universidade pública do Brasil: Franklin Leopoldo e Silva.

Mesmo assim, em sua coluna na Folha, Pondé não poupa críticas pesadas ao meio universitário, impregnado, segundo ele, pelo pensamento de esquerda. Chamou professores doutores de cursos de pós-graduação de “ratazanas com PhD”. Afirmou também que a inclinação política à esquerda ignora a realidade humana, além de ser “mau-caráter” e “abstrata”.

Um dos maiores patrimônios é sua produção de pesquisas acadêmicas, e isso não se restringe ao campo das tão criticadas ciências humanas. No entanto, para Pondé, “a produção na universidade é industrial do tipo salsichas. Puro capitalismo chinês”.

Pondé publicou um texto revelador a respeito do que acha do meio universitário em 2012. “Nietzsche foi minha primeira paixão na faculdade de filosofia da USP. Na época, recém-saído da medicina e em formação para ser psicanalista, o que nunca aconteceu, eu colocava em diálogo Nietzsche e Freud”.

Ele parece se ressentir com sua segunda graduação por não ter permitido que colocasse seus dois pensadores favoritos em contato. Esse ódio parece ter evoluído até sua pós-graduação. Pondé utiliza sua coluna para atacar a forma tradicional de se ensinar filosofia ou qualquer ciência humana.

Ele deixa de lado qualquer compromisso com o rigor das informações que compartilha. Falsamente acusa o pensador franco-suíço Jean-Jacques Rousseau de ter começado o “pensamento popular” que daria origem ao marxismo, afirmando que o conceito de “bom selvagem” atribui a culpa à sociedade e não ao indivíduo.

Um estudante de graduação em filosofia como eu seria capaz de apontar que o contratualismo de Rousseau nada tem a ver com a crítica ao capitalismo de Karl Marx. O Contrato Social não prevê um conflito de classes e nem o desenvolvimento de uma sociedade descrita no texto do Manifesto Comunista de Marx. Trata-se, portanto, de uma aberração conceitual construída pelas associações levianas de Pondé.

Seria como apontar o grego Aristóteles como culpado pelos estudos de Santo Agostinho durante a Idade Média. Não faz muito sentido. Como nem todo mundo estuda a área, as besteiras de Pondé são saudadas como “grandes sacadas” por alguns. “Filosofia” pura.

Em 2001, como parte de seu doutorado na USP, ele lançou O homem insuficiente – Comentários de antropologia pascaliana, em que analisa de maneira interessante o desenvolvimento do catolicismo francês sob influência da sociedade laica e iluminista. O livro foi elogiado no meio acadêmico.

Em 2012, publicou O guia politicamente incorreto da filosofia. Entre outras coisas, Pondé acusa o cidadão classe média consciente com a causa indígena de serem “índios do bairro de Perdizes”. Ele próprio faz parte do mesmo extrato social e mora no mesmo bairro, mas a culpa é sempre dos outros.

No pensamento de direita, ele não tem a elegância, por exemplo, de um José Arthur Giannotti, que ainda atua na Universidade de São Paulo e preza pelo rigor dos conhecimentos filosóficos. O destempero o coloca ao lado de Olavo de Carvalho, reacionário lelé conhecido por ter criado o curso de extensão universitária em astrologia na PUC e que hoje controla a mente de Lobão (e vice-versa, tanto faz).

Luiz Felipe Pondé ainda dá aulas na PUC/SP e na Faap. É de se perguntar: Como alguém que despreza o meio acadêmico dá aula em faculdades? É só para pagar contas? Será que ele hostiliza alunos que aparecem com camisetas do Che Guevara? Faria “paredão intelectual” por causa disso? Seus estudantes não se incomodam com o fato de ele classificar as pessoas da academia de “ratos” e “ratazanas”?

Seus textos mais atuais jogam anos de pesquisas no lixo e o transformaram num personagem muito distante da realidade. Ele age tal como seu texto sobre a “direita festiva”, que reclama dos esquerdistas que “pegam mais mulheres”. Pondé, o filho da USP, é um fenômeno do ressentimento e da falta de compromisso intelectual do reacionarismo.

Breno Altman: Diferenças entre militontos e militantes pró-Dilma

27/11/2014

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Breno Altman

O militonto recebe as decisões da presidente da República e não admite qualquer crítica. Quem ousar fazê-lo, é aliado objetivo da direita.

O militante não vacila em apoiar o governo e defender a presidente, especialmente diante da escalada reacionária. Mas não abdica do direito e do dever de pensar com a própria cabeça, criticando o que lhe parece errado na estratégia adotada e concebendo essa atitude como indispensável na ação política.

O militonto tudo explica e justifica através de um pacote fechado e imutável: a correlação de forças no parlamento. Serve como uma espécie de álibi para defender o governo de qualquer crítica por adotar políticas conciliatórias, mesmo as que podem ser um tiro no pé.

O militante encara com seriedade a tal correlação de forças, mas com o objetivo de alterá-la a favor da esquerda. Sabe que negociações e composições são inevitáveis, necessárias, mas deseja forçá-las ao limite.

O militonto ficou acostumado a pensar correlação de forças apenas ou principalmente como uma questão institucional, parlamentar. A mobilização social e a luta de massas não entram de verdade em seus cálculos como hipótese para pressionar as instituições desde seu exterior.

O militante não descuida da governabilidade institucional. Mas aprendeu, nesses doze anos e várias crises, que também é imprescindível a construção de governabilidade social. Sabe, a propósito, que as maiorias parlamentares de orientação progressista somente foram formadas, na história do Brasil, quando o povo organizado e mobilizado obrigou o Parlamento a dançar sua música.

O militonto costuma achar que divide a esquerda quem entra em desacordo com ações do governo. Não admite que, às vezes, pode ser o governo quem divida a esquerda com suas ações.

O militante quer a unidade da esquerda e das forças progressistas. Mas acha que a pedra angular desse processo vai além de apoiar ou não o governo: depende de um programa unificador e de uma estratégia de coalizão do campo popular.

O militonto acha que o passado fornece crédito infinito, no presente e no futuro. Por tudo o que foi feito, e definitivamente não é pouco, o governo deveria ser defendido incondicionalmente e qualquer crítica seria descabida por princípio.

O militante reivindica os enormes avanços promovidos pelo governo e se mobiliza para defendê-los, mas não acha que o passado basta para garantir o presente e o futuro, que devem ser discutidos sempre com espírito crítico e aberto.

O militonto é superlativo e hiperbólico em relação aos líderes do governo e do partido. Sua frase estruturante: “eles sabem o que fazem…”

O militante respeita e admira os chefes históricos da esquerda, mas a vida já ensinou que também são passíveis de erros e confusões. Considera, portanto, que os instrumentos coletivos são mais qualificados que as clarividências individuais e esses só podem ser construídos pelo debate franco e desabrido de todos os temas.

O militonto é governista e acha que isso basta para resolver todos os problemas.

O militante defende o governo contra a direita, mas busca ser um revolucionário, um lutador social, para quem governar é apenas parte, ainda que imprescindível, de um processo estratégico mais amplo, o da transformação do país.


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