Não vale chorar, Marina: Aliados da fadinha acusam Dilma de ser o anticristo

16/09/2014

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Via Brasil 247

Aliados de Marina Silva no Rio de Janeiro, os candidatos Ezequiel Teixeira e Édino Fonseca produziram uma revista que está sendo distribuída a eleitores, em que a presidente Dilma Rousseff é acusada de ser o “anticristo”. Um dos motivos é o combate feito pelo governo federal à homofobia – tema que produziu a primeira crise na campanha de Marina Silva, depois que ela abandonou seus compromissos, ao ser pressionada pelo pastor Silas Malafaia.

Nesta semana, numa estratégia articulada com seus marqueteiros e meios de comunicação das famílias midiáticas brasileiras, Marina se vitimizou e encenou um choro em razão de supostos ataques que estaria sofrendo do PT e do ex-presidente Lula.

A verdade, no entanto, é que seus aliados partiram para ataques vis e rasteiros na reta final da campanha eleitoral. Leia, abaixo, texto postado pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOL/RJ) sobre o material que está sendo distribuído no Rio de Janeiro:

Assustador!

O esgoto eleitoreiro já começa a vazar de maneira repugnante nessa reta final de campanha. Na zona oeste do Rio de Janeiro, um exército de fiéis recrutados como voluntários por igrejas evangélicas fundamentalistas está distribuindo um material de campanha tão bizarro quanto criminoso e assinado pelas campanhas de Marina Silva para presidenta, Ezequiel Teixeira para deputado federal e Édino Fonseca para deputado estadual (sendo este último quem se responsabiliza com seu CNPJ eleitoral, 20583168000184, pelo material): milhares de revistas de 24 páginas em cores acompanhadas de um DVD com mentiras e falsidades acerca de LGBTs, no sentido de estimular o ódio e a violência contra estes, mas também com deturpações acerca das pautas dos movimentos feministas e negro com intuito de prejudicar a candidatura da presidenta Dilma.

Para quem está duvidando dessa sujeira, aqui está o link para a digitalização que fiz do material difamatório para usá-la como prova quando acionar a justiça eleitoral no intuito de que essa porcaria seja apreendida e seus responsáveis sancionados de acordo com a lei (clique aqui).

Na capa, a revista com Fonseca, Teixeira e Marina anuncia: “Veja os planos do anticristo: nova ordem mundial contra a família e a igreja” (a palavra Veja é escrita com a mesma tipografia usada pela revista da Editora Abril), e depois enumera: “eutanásia, mercado do feto, prostituição de menores, carícias de homossexuais em lugares sagrados…” etc. Misturando um discurso religioso da época da Inquisição (com repetidas alusões ao “anticristo”) e uma linha argumentativa que lembra a propaganda nazista contra os judeus (no caso, em vez dos judeus, o “inimigo” apontado é composto por homossexuais, prostitutas, ateus, comunistas, “abortistas”, usuários de drogas e o governo Dilma), a publicação descreve uma conspiração satânica internacional para a criação de uma “nova ordem mundial” que pretende “se rebelar contra Deus” e “dominar a mente do povo com a legalização das drogas”, acusa o governo do PT de querer legalizar a eutanásia para “matar os mais velhos” e o aborto para provocar um “extermínio” e comercializar os órgãos dos fetos abortados (!).

O delírio é tal que a revista traz uma tabela de preços do “mercado do feto” e diz que a legalização do aborto provocará um aumento da pedofilia, porque as meninas estupradas serão obrigadas a abortar para esconder o crime.

Nas páginas seguintes, a revista ataca a regulamentação da prostituição, relacionando-a também, com extremo cinismo e má fé, à pedofilia (como se o abuso sexual de crianças pudesse ser equiparado à prostituição exercida por pessoas adultas!); diz que a criminalização da homofobia permitirá que os gays pratiquem sexo dentro das igrejas; refere-se a gays, lésbicas e transexuais como doentes mentais; ataca com argumentos igualmente toscos a proposta de legalização da maconha e até diz que existe um plano do “anticristo” para dominar a água e os alimentos.

Quase todas as páginas da publicação são dedicadas a atacar meus projetos e os de outros parlamentares progressistas e comprometidos com os direitos humanos, embora não nos mencione expressamente, mas o alvo explícito da publicação é o governo Dilma, que seria, de acordo com a publicação, o principal representante no Brasil da rebelião mundial comandada por Satanás.

A publicação faz uma relação direta entre o “plano do anticristo” e as eleições de 5 de outubro: para impedir a vitória do Demônio, os eleitores deveriam votar em Marina Silva para presidenta e em Teixeira e Fonseca para os parlamentos federal e estadual. Na última página, a publicação traz uma foto em cores dos três candidatos, com a logo da campanha de Marina destacada no centro.

Uma pergunta que não quer calar é: quem pagou por tudo isso? Por todo esse lodo?

Eu gostaria de saber se Marina Silva sabe que seu nome está sendo usado nessa campanha suja, abjeta e evidentemente criminosa. Fonseca é candidato pelo PEN, uma legenda de aluguel de ultradireita que faz parte da coligação de Aécio Neves, da mesma forma que o partido Solidariedade, formado por parlamentares que decidiram sair das legendas pelas quais se elegeram, entre eles Teixeira. Ambos fazem parte, também, da coligação estadual que apoia o governador Pezão, que por sua vez é do PMDB, aliado à presidenta Dilma, mas que também faz campanha por Aécio. Contudo, Fonseca e Teixeira fazem campanha por Marina – e juntos, apesar de suas candidaturas proporcionais não estarem coligadas.

Além de ser incompreensível e causar confusão a qualquer eleitor, essa esquizofrenia eleitoral também é ilegal, já que um candidato proporcional (ou seja, a deputado federal ou estadual) não pode citar em seus materiais de campanha o nome de um candidato majoritário (ou seja, presidente ou governador) que não seja o de seu partido ou coligação. Porém, para as gangues da velha política corrupta do nosso querido país, vale tudo!

Será que Marina, ou sua coordenação de campanha concordaram com essa sujeira e “deixaram” que ela fosse feita porque, na reta final, tudo o que servir para somar votos é bem-vindo, mesmo que provenha do esgoto político e da baixaria mais imperdoável? Ou será que Fonseca e Teixeira estão usando o nome de Marina sem a anuência dela porque acham que a figura da candidata do PSB pode ser mais atraente para o eleitorado evangélico fundamentalista que pretendem conquistar que o do liberal Aécio?

Seja como for, Marina deveria se perguntar por que o nome dela pode ser associado a esse discurso fascista. Será por que seu discurso, em vez de questionar, à esquerda, as falências do governo Dilma, como muitos dos seus eleitores progressistas de 2010 esperavam, é cada dia mais reacionário, aproximando-a da linha discursiva da revista Veja (que essa semana saiu em defesa dela), do Círculo Militar (que se declarou esperançoso com a sua candidatura), dos pastores que pregam discurso de ódio contra a população LGBT e dos setores mais conservadores da sociedade, que podem se sentir representados pela propaganda de Fonseca e Teixeira?

Marina deveria preparar um café, sentar no sofá e, com calma, refletir sobre o que está fazendo ou sobre o que estão fazendo com o nome dela. E você, eleitor, eleitora, deveria pensar com qual Brasil você sonha. O fundamentalismo está aí, virando a esquina, e dá medo.

Cuspindo no prato: O Estadão e o perfil de Neca Setúbal

16/09/2014

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Luciano Martins Costa, via Observatório da Imprensa

Uma página inteira do jornal O Estado de S.Paulo traça, na edição de sexta-feira, dia 12/9, um perfil malicioso da educadora e socióloga Maria Alice Setúbal, conhecida como Neca Setúbal, acionista do Banco Itaú e coordenadora da campanha da ex-ministra Marina Silva à Presidência da República. As três faces da personagem estão presentes na reportagem, mas o diário paulista se interessa especialmente por outro aspecto: o papel dela como principal financiadora individual da candidatura do PSB.

O conjunto de textos também informa que o Banco Itaú é um dos 20 maiores doadores entre pessoas jurídicas, com quase RS$11 milhões distribuídos entre os partidos até o fim de agosto, período coberto pelo levantamento. No que se refere ao financiamento direto dos candidatos à Presidência da República, o banco só havia dado dinheiro para a oposição: o senador Aécio Neves, do PSDB, e o ex-governador Eduardo Campos, candidato do PSB até sua morte num acidente de aviação, receberam R$2 milhões cada um, e até José Maria Eymael, do “nanico” PSDC, foi contemplado, com uma ajuda de R$50 mil. A candidatura da presidente Dilma Rousseff, do PT, não recebeu um centavo do Itaú.

Pessoalmente, Neca Setúbal dirigiu todo seu apoio financeiro ao partido que assessora, enquanto o banco do qual é acionista apostou pesadamente no PSDB: além da ajuda direta a Aécio Neves, o partido recebeu do Banco Itaú nada menos do que R$3,07 milhões para distribuir entre outros de seus candidatos. Em segundo lugar na lista de beneficiários vem o PSB, que foi agraciado com R$2,15 milhões; na terceira posição fica o PMDB, que recebeu R$1,38 milhão. O Partido dos Trabalhadores ficou em quinto lugar na preferência do banco, com R$995 mil, abaixo do PSD.

Entre os textos que ocupam a página há uma referência à Cenpec, entidade dirigida por Neca Setúbal, que foi beneficiada por convênios nos governos do ex-presidente Lula da Silva e de Dilma Rousseff, com verbas que totalizaram R$32,2 milhões. No conjunto, o material produz um efeito negativo tanto sobre a imagem da socióloga quanto sobre a reputação do banco, considerando-se o contexto belicoso que é criado no calor da disputa eleitoral.

Conspiração e jornalismo

A pergunta que não quer calar: que motivações teria o jornal paulista para colocar o Banco Itaú e a educadora Maria Alice Setúbal numa circunstância claramente depreciativa, quando a escaramuça entre candidatos escala o setor financeiro entre os vilões nacionais?

O fato de terem sido destacados nada menos do que cinco jornalistas para fazer a reportagem, entre eles o principal analista de pesquisas da redação, indica que se trata de uma pauta prioritária.

Curioso observar que o diário paulista faz questão de mostrar a educadora como uma oportunista que se beneficia de convênios com governos do PT e passa a apoiar a oposição. Ao mesmo tempo, coloca o Itaú na situação dúbia de haver sido beneficiado, como os outros bancos dominantes, pela política de estímulo ao crédito dos governos petistas, e, em seguida, apostar no PSDB e no PSB.

Num contexto de alta carga emocional como é a reta final das disputas eleitorais, o jornal está fornecendo munição pesada para os marqueteiros da campanha de Dilma Rousseff.

Por que o interesse específico na figura da socióloga que é também acionista de um banco que foi durante anos credor e avalista do grupo que publica o jornal? Estaria O Estado de S.Paulo interessado em fazer jornalismo puro e simples, para variar?

O histórico recente do jornal, protagonista destacado do poderoso consórcio da mídia tradicional que vem atuando como uma agremiação política de oposição, autoriza o observador a buscar outras razões.

Segundo a Folha de S.Paulo, a tendência dos votos foi revertida nos últimos dias e a candidatura da presidente Dilma Rousseff se recupera rapidamente na faixa mais influente do eleitorado – a classe média com renda familiar entre cinco e dez salários mínimos – e oscilou duas vezes para cima na região Sul, onde passou de uma situação de empate com Marina Silva para uma vantagem de 7%.

Teorias conspiratórias são fontes interessantes na investigação jornalística, mas a verdade deve ser bem mais simples: a imprensa hegemônica pode estar revendo suas apostas.

O vale-tudo de Aécio contra a liberdade de expressão

16/09/2014
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O candidato a presidente Aécio Neves (PSDB) concede entrevista coletiva após ato de campanha em São Paulo.

Obsessivo pelo controle de sua imagem pública, o candidato a presidente do PSDB tem longo histórico de censura e intimidação contra jornais e jornalistas independentes em Minas Gerais.

Marcelo Carota, via RBA

A investida do senador e presidenciável tucano contra 66 comunicadores independentes sob a alegação de “formação de quadrilha remunerada” para difamá-lo, infelizmente, não foi um caso isolado, mas uma dentre tantas semelhantes, e mesmo piores, já empreendidas pelo candidato desde 2002, na campanha para o governo de Minas Gerais, ponto de partida para sua principal ambição, a Presidência da República, à qual concorre agora.

Para tanto, havia uma imagem a ser minuciosamente construída, e que nada ou ninguém poderia arranhar, por mais que o candidato, sozinho, se encarregasse de fazê-lo como ninguém, política e pessoalmente. Apesar disso, sua irmã e mentora, Andréa Neves, e equipe tinham como mantê-lo sob controle, mas a questão era: e a mídia, e a opinião pública?

A adesão dos proprietários da primeira foi natural e satisfatória para ambas as partes, mas, entre eles, havia jornalistas compromissados com a verdade dos fatos. Por outro lado, a internet já possibilitava a quem se dispusesse ser a sua própria mídia. Conheça, ou relembre, as ações e reações dos irmãos Neves em relação à liberdade de expressão, de forma a construir uma carreira equilibrada sobre muita propaganda e, tanto quanto, sobre muitos silêncios.

2002

O jornalista Ulisses Magnus era editor de esporte da Rede Minas quando estourou o que se chamou “Caso Cruzeiro”, sobre uma desavença entre o então técnico, Vanderlei Luxemburgo, e alguns jogadores, com grosserias por parte de Luxemburgo. Um fato comum a qualquer clube, mas que tomou um destino insólito. Ulisses fez a matéria, levou-a ao ar, causando alguma repercussão interna e externa, junto à torcida, e com mais grosserias por parte do treinador, agora contra a equipe da tevê estatal. Num encontro com Zezé Perrella, à época presidente do clube, Ulisses ouviu deste, em tom de brincadeira: “Olha que quando o Aécio (cruzeirense e já eleito governador) assumir, você pode perder o emprego”. Ulisses foi demitido dias após a posse do tucano.

2003

Logo no início de seu primeiro mandato como governador, Aécio pressionou a Rede Minas, emissora oficial do governo de MG, a tirar de sua grade o programa de entrevistas políticas “Palavra Cruzada”, dirigido e apresentado pelo jornalista Gilberto Menezes, que, em carta enviada ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG), afirmou ter sido “censurado pelo governo Aécio Neves”. De acordo com ele, a retirada do programa do ar se deveu a uma exigência do ex-governador Eduardo Azeredo e do ex-ministro das Comunicações, hoje candidato de Aécio ao governo do estado, Pimenta da Veiga. A razão, afirma Menezes em trecho da carta, foram “(…) as críticas que fazia sistematicamente aos governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e à administração de Eduardo Azeredo enquanto governador”.

Não muito tempo depois foi a vez do então presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Aloísio Lopes, em artigo publicado no jornal Pauta, da entidade, denunciar que, a partir do governo Aécio Neves, tornou-se crescente o número de queixas de jornalistas sobre a postura das redações dos jornais e das chefias de comunicação de instituições públicas em todas matérias compreendendo a gestão do governador. As queixas mais frequentes eram relativas à edição das matérias, com omissão e distorção dos fatos até que o texto publicado se tornasse absolutamente diferente do que fora produzido a partir dos fatos apurados.

Em abril de 2003, a afiliada mineira da Rede Globo produziu matérias cuja relevância garantiu veiculação pelo Jornal Nacional: uma, sobre crianças se drogando na chamada “rua do crack”, em Belo Horizonte, a poucos metros do Departamento de Investigação; outra, denunciando a ineficiência da polícia, por desvios de função; e a última, sobre superlotação das penitenciárias mineiras. A série de reportagens causou a demissão do diretor de jornalismo da Globo Minas, Marco Nascimento. Segundo Nascimento, sua cabeça foi pedida diretamente por Andréa Neves.

Ao final de 2003, o Instituto Brasmarket fez pesquisa nacional para avaliação dos 27 governadores da Federação no início de seus mandatos. Ugo Braga, editor do jornal O Estado de Minas, foi demitido após divulgar nota informando que o governador fora mal avaliado, ocupando o antepenúltimo lugar na pesquisa.

O radialista Paulo Sérgio, apresentador do “Itatiaia Patrulha”, programa policial feito ao vivo, cobra ações do governo Aécio para a segurança. Certo dia, foi informado de que seu programa estava sendo gravado pela assessoria de comunicação do governo, com acompanhamento pessoal da irmã do governador, Andréa Neves. A partir daí, seu diretor, Márcio Doti, o proibiu de veicular qualquer informação sem antes submetê-la à sua avaliação, o que tornou insustentável a continuação do programa.

2004

Belo Horizonte, 2 de junho, amistoso Brasil x Argentina no Mineirão. O jornalista esportivo da Band, Jorge Kajuru, momentos antes do início da partida, reporta com imagens as áreas de acessibilidade do estádio reservadas para a entrada dos 10 mil VIPs convidados pela CBF e pelo governador, assim impedindo a entrada de cadeirantes. No intervalo para o segundo tempo do jogo, Kajuru foi retirado do ar, a pedido, segundo ele, de Andréa Neves, irmã do governador, que também pediu à Band que o demitisse, o que aconteceu uma semana depois do episódio.

2007

No início de seu segundo mandato, em janeiro de 2007, sem o habitual estardalhaço publicitário destinado às suas ações, o governador Aécio Neves, após aprovação pelo Legislativo mineiro, publicou a chamada “Lei Delegada 132/2007”, permitindo ao seu gabinete militar colher informações que julgasse de seu interesse monitorar em movimentos organizados livres e em manifestações da sociedade civil, sua comunicação, com poder, inclusive, para quebra de sigilo e demais direitos assegurados constitucionalmente.

A medida tornou-se de conhecimento público graças ao jornalista mineiro Marco Aurélio Carone, criador e editor do Novo Jornal, com sede na capital do estado, que denunciou o fato após descobrir que o jornal estava grampeado, vigiado e investigado pelo Gabinete Militar do Governo de Minas, algo equivalente ao que fazia o Serviço de Informação do Estado, criado na ditadura militar para monitorar e coibir a liberdade de expressão em todas as suas formas. Desde então, Carone teve seguidos e graves problemas para fazer seu trabalho, mas nada que se comparasse ao ponto em que chegou, sete anos depois, a obstinação do senador e presidenciável em calar o jornalista.

2014

Assim como toda a blogosfera, e até parte da mídia corporativa, Marco Aurélio Carone, do Novo Jornal, também fez matéria sobre o escândalo da apreensão do helicóptero da empresa Limeira Agropecuária e Participações Ltda., da família do senador Zezé Perrella (SDD/MG), com uma carga de quase meia tonelada de pasta-base de cocaína. Mas, ao contrário dos demais jornalistas e veículos que cobriram o escândalo, Carone foi o único a ser duramente retaliado por isso: a pedido do senador e presidenciável Aécio Neves, seu site foi censurado sumariamente, saindo do ar, e Carone está preso.

Cardiopata e hipertenso, já teve de ser removido em estado grave a um hospital, para atendimento de urgência, mas retornou à prisão, com a saúde ainda bastante debilitada. O tratamento do TJMG à sua sentença é um caso à parte: seus advogados já foram proibidos de falar com ele, o que compromete substancialmente a produção de sua defesa, e lhe foi negado o habeas corpus para responder ao processo em liberdade sob justificativa “amparada no requisito da conveniência da instrução criminal, já que em liberdade poderá forjar provas, ameaçar e intimidar testemunhas, além de continuar a utilizar o seu jornal virtual para lançar informações inverídicas”, conforme despacho da juíza Maria Isabel Fleck. Pergunta-se: “conveniente” a quem?

Se faltava censura prévia no histórico da relação do senador com a liberdade de expressão, com a prisão de Carone nessas circunstâncias, não falta mais.

Antonio Lassance: PSDB tenta tirar o foco do mensalão tucano

16/09/2014

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Antonio Lassance, via Carta Maior

O PT errou o alvo

O PT não entendeu qual é o jogo das acusações contra Lula. O jogo que está em disputa é sobre quem será a bola da vez num futuro “mensalão 2”: o PSDB ou, mais uma vez, o PT. A rigor, dada a conclusão da Ação Penal 470, deveria ser a vez do julgamento do mensalão dito “mineiro”. Deveria, mas as acusações se tornaram uma pedra no meio do caminho.

Os ataques seletivos contra Lula têm várias intenções, mas uma é especial: virar a mesa do que está na fila do julgamento do mensalão e inventar algo supostamente mais relevante a ser julgado, deixando o escândalo que envolveu os tucanos para depois, bem depois. Vários articulistas cometeram o ato falho de dizer, em seus comentários ao longo desta semana, que as denúncias feitas por Valério à Procuradoria tinham tudo para se tornar um “mensalão 2” – como se já não houvesse um “mensalão 2” à espera de julgamento: o chamado mensalão mineiro.

A expressão “mensalão mineiro” foi, em 2005, um eufemismo criado com o propósito de mitigar a associação da sigla PSDB com o escândalo que tinha como pivô a figura do mesmo Marcos Valério. Na estratégia, ficava exposta a cabeça do ex-governador de Minas e então senador (hoje deputado) Eduardo Azeredo (PSDB/MG), alvo de eventual sacrifício, preservando o partido. Se estava a um ano das eleições de 2006. A denúncia contribuiu para enfraquecer a ala mineira do partido, que tinha em Aécio Neves sua principal expressão. O problema reforçou a hegemonia mantida pela ala paulista, que se debatia entre Alckmin e Serra como opções preferenciais. Na pior das hipóteses, essa parte do mensalão seria um problema apenas para os mineiros.

Pois bem, passado o vendaval, o jogo mudou. Aécio é o candidato de consenso do PSDB. A AP 470 está nos finalmentes. O próximo caso a ser julgado, pela lógica, é exatamente o da gênese desse esquema tão duramente condenado pelo Supremo. Mas quem disse que questões dessa natureza são resolvidas pela lógica cartesiana, e não pela lógica da política?

Para defender Lula, o PT concentrou seu ataque, primeiro, na índole do acusador, que todos já sabem qual é. Em seguida, partiu para cima de FHC. Ressuscitou a ideia de CPI da Privataria e aprovou, no Congresso, um convite para que o ex-presidente vá falar sobre outros escândalos, em particular, sobre a “lista de Furnas”.

Ao fazê-lo, o PT acabou contribuindo para desviar o foco. Parece uma briga entre Lula e FHC, enquanto a oposição e sua mídia fazem um jogo estratégico para preservar seu candidato às eleições presidenciais e, mais uma vez, desgastar o PT e sua presidenta.

Aliás, até agora, parece que o PT não leu a peça produzida pelo Procurador-Geral a esse respeito. O inquérito da Procuradoria (INQ 2280), que sustenta a denúncia contra Azeredo, foi apresentado, pelo mesmo Procurador e ao mesmo Supremo que julgou a AP 470, como demonstração que “retrata a mesma estrutura operacional de desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e simulação de empréstimos bancários objeto da denúncia que deu causa a ação penal 470, recebida por essa Corte Suprema, e envolve basicamente as mesmas empresas do grupo de Marcos Valério e o mesmo grupo financeiro (Banco Rural)”.

É a mesma coisa, com o mesmo peso. No entanto, diante da manipulação (o nome é este mesmo) que se fez contra Lula, corre-se o risco do mensalão mineiro ter outro desfecho. Pode ser guardado na gaveta. Corre o risco de ser medido com uma outra régua.

O STF começou o ano de 2012 prometendo julgar todo o processo do mensalão até setembro. Cumpriu só metade da promessa. A outra metade é a parte desmembrada, o mensalão tucano.

Pois bem, se há algo que o PT deveria fazer, bem mais importante do que convites a FHC, é pedir ao Supremo que simplesmente cumpra o que prometeu. Se não foi possível fazer tudo até setembro, que pelo menos julgue, no ano que vem, o que ainda resta de mensalão para ser julgado. De preferência, assim como fez na AP 470, com um calendário prévio a ser rigorosamente cumprido.

A melhor postura do PT, a mais clara, lúcida e eficaz, é pura e simplesmente a de exigir que as regras do jogo sejam respeitadas. Se não, é virada de mesa da pior espécie.

Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Lula: “Marina não precisa de inverdades para chorar.”

16/09/2014

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Via Brasil 247

O ex-presidente Lula rejeitou as lágrimas que a candidata Marina Silva, do PSB, verteu ao falar dele, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. “Se ela quer chorar, que chore por outras coisas, não por mim”, reagiu Lula, ao ser abordado sobre a atitude da ex-ministra. Ela disse ter aprendido com o ex-presidente que “a esperança vence o medo”, mas que não pode “controlar o que Lula pode fazer contra mim”. Neste momento, lacrimejou.

Lula, ao que se viu, não se sensibilizou nem um pouco. Ao contrário. Ao fazer campanha no bairro do Sapopemba, em São Paulo, Lula desatou uma espécie de lição de moral sobre a adversária, do alto do palanque montado para a campanha do candidato a governador Alexandre Padilha:

– Não gosto de usar nomes de adversários em palanque. Mas hoje, supreendentemente, vi numa manchete que Marina chorou ao falar do Lula. A dona Marina não precisa falar inverdades para chorar por mim. Se ela quiser chorar, que chore por outras coisas, iniciou Lula ao público:

– Nunca deixei de ter relações de amizade por causa de política. Nunca falei mal da dona Marina e vou morrer sem falar mal dela. Ela é quem tem que se explicar, porque ganhou todos os cargos do PT e agora está falando mal do PT. Um verdadeiro líder não muda de partido a toda hora, não muda de opinião. Ele evolui, assim como Dilma evoluiu – discursou Lula. O evento teve a presença de Padilha, do candidato a senador Eduardo Suplicy e do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.

Lula deixou no ar a suspeita de que, para ele, as lágrimas de Marina tiveram origem no fato de ela não ter sido escolhida como sua sucessora política:

– Na hora que eu tinha de escolher para quem ia entregar o direito de dirigir o País, tinha de entregar para a pessoa que achava mais preparada”, disse Lula, referindo-se à presidente Dilma Rousseff.

“Ela é que nos acusou de ter colocado ladrão na Petrobras.”

O ex-presidente se mostrou diretamente incomodado pelos ataques desferidos por Marina contra a gestão da Petrobras. Ela aproveitou a repercussão da delação premiada do ex-diretor Paulo Roberto Costa para acusar o PT de nomear diretores corruptos para a estatal. O presidente do PT, Rui Falcão, procurou justificar a dura resposta de Lula:

– Não temos atacado a candidata. Ao contrário, ela que nos acusou de ter colocado um ladrão na Petrobras. Está sendo processada por isso, inclusive, disse Falcão, que continuou:

– Temos criticado o programa dela. Não temos nada contra ela, temos contra o programa, discordamos dele. Não tem campanha do medo. Estamos dizendo que ela é apoiada pelos banqueiros. Será que o povo tem medo dos banqueiros? O programa dela fala em desmontar indústria, em dar independência ao Banco Central, em terceirização. Isso deve estar intimidando as pessoas quando conhecem o programa de governo dela. Não estamos estimulando o medo em relação a ninguém. Quem quer ser presidente da República, precisa ter mais controle, mais firmeza. Ela está com muitas idas e vindas, o que sugere insegurança na população – disse Falcão.


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