Globo deflagra estratégia para manter o vazador José Eduardo Cardozo na Justiça

21/12/2014
Jose_Edu_Cardozo14_Daniello

Cardozo e Daniello: A garantia de que os vazamentos não serão coibidos.

Luis Nassif

Reportagem de O Globo de domingo, dia 21/12, sustenta que o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e o delegado geral da Polícia Federal Leandro Daniello deverão ser mantidos nos respectivos cargos por Dilma Rousseff.

As alegações são risíveis.

“Dilma também teria decidido manter Cardozo no cargo porque o ministro tem tido papel importante na linha de defesa do governo contra denúncias que surgem na Lava-Jato. O ministro foi o primeiro a contestar publicamente a suspeita de que parte do dinheiro de um dos empreiteiros investigados abasteceu a campanha da presidente em 2010. Em meio a críticas da oposição, o ministro alegou que a doação foi devidamente registrada. Disse também que o dinheiro foi para o PT, e não para a campanha da presidente”.

Cardozo não tomou nenhuma atitude em relação aos vazamentos da Lava-Jato, sequer daquele que resultou da capa falsa de Veja e que poderia ter decidido as eleições; não mantém nenhuma influência sobre a Polícia Federal, nenhuma interlocução com o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal. Deixou o governo sem defesa em inúmeros episódios, sob a alegação de sua falta de iniciativa devia-se ao espírito “republicano”. Nas poucas vezes em que saiu em defesa do governo, precisou ser empurrado para o centro do ringue – em uma dela, pela própria Dilma.

Há quase consenso no Palácio sobre o papel inócuo de Cardozo, não apenas na defesa do governo como no dia-a-dia da pasta, mesmo por parte de auxiliares que o tratam com carinho.

Por seu turno, Daniello é um delegado discreto, mas ferozmente crítico em relação ao abandono da PF pelo governo federal e, especialmente, pelo Ministro da Justiça

Para se preservar no cargo e não entrar em dividida, Cardozo adotou uma estratégia dúbia. Não leva para a presidente nenhuma demanda da PF porque sabe que Dilma, assoberbada por uma infinidade de problemas, não gosta de auxiliares que lhe tragam mais um.

Para compensar essa falta de iniciativa, Cardozo entrega à PF o que ela não necessita: palavras, elogios, retórica, declarações de apoio inócuas e liberdade absoluta para vazar dados, mesmo de depoimentos sob sigilo judicial, alimentar o noticiário contra seu governo. Para os agentes – e para a mídia – é jogo sem riscos.

O grande projeto de uma Polícia Federal de primeiro mundo implodiu quando, pressionando pelos grupos de mídia e pelo Ministro Gilmar Mendes, Lula tirou o delegado Paulo Lacerda do comando e colocou o substituto Luiz Fernando com a incumbência de esvaziar a Satiagraha. Vazamentos, empenho da PF em buscar provas contra Dilma e Lula tem como espoleta a maneira como o governo desmoralizou as investigações da Satiagraha e o abandono a que a PF foi relegada na gestão Cardozo.

A volta de Lacerda para o comando da PF poderia ser um ato de ousadia do governo Dilma. Mas é tão improvável quanto qualquer iniciativa de regulação de mídia.

De qualquer modo, mantidos Cardozo e Daniello, o cenário da Lava-Jato será o mais adequado para a oposição, deixando o governo sem sua última linha de defesa.

O que esconde o bombardeio da Petrobras pela mídia?

19/12/2014

Tucano_Pre_Sal03

Os dedos sujos de óleo
Luciano Martins Costa, via Observatório da Imprensa

Os jornais fazem um retrato tenebroso da situação em que se encontra a Petrobras, um mês depois de revelada a extensão das negociatas que envolveram políticos, dirigentes da estatal e grandes empreiteiras que fazem parte de sua constelação de negócios. Os números são tão grandiosos que o leitor é incapaz de imaginar o volume de dinheiro desviado em negócios superfaturados.

O resultado é que, quanto mais atenção coloca no noticiário, menos capaz fica o cidadão de abranger todo o contexto. Na terça-feira, dia 16/12, porém, surge uma ponta da meada que permite entender a lógica da imprensa: com seu valor reduzido seguidamente por conta do escândalo, sob ameaça de ações judiciais nos Estados Unidos e no Brasil, e ainda sob risco de ver seus principais fornecedores serem condenados e proscritos, analistas começam a afirmar que a estatal estaria impossibilitada de seguir explorando a reserva de pré-sal (ver aqui e aqui).

Como se sabe, os 149 mil km2 da província do pré-sal apresentam uma taxa de produtividade muito acima da média mundial e já são a fonte de quase 30% de todo o óleo extraído pela empresa. Feita a projeção de crescimento dos atuais 550 mil barris por dia em 25 poços produtores, daqui a três anos, com quase 40 poços ativos, o pré-sal deverá suprir 52% da oferta de petróleo no Brasil.

Num cenário em que o preço internacional do óleo cai abruptamente, cresce o valor estratégico da empresa brasileira justamente pelo fato de estar próxima de dar ao Brasil a oitava maior reserva do mundo, com 50 milhões de barris ou mais, qualificando o país como protagonista no setor.

Qual era a vantagem estratégica da Petrobras em relação às demais gigantes do setor? Exatamente o fato de possuir suas principais áreas de exploração em uma região sem conflitos militares, sem instabilidade política e plenamente conformada às normas e regulações internacionais. Até mesmo os riscos ambientais alardeados na década passada, quando foi anunciada a decisão de explorar as reservas de alta profundidade, foram desmentidos com o tempo.

O escândalo envolvendo a empresa a torna vulnerável a ataques de todos os tipos, mas principalmente abre caminho para as forças que têm interesse em alterar o marco regulatório do pré-sal.

Interesses poderosos
Há corrupção nos negócios da Petrobras? Certamente, muito do que tem sido noticiado nos últimos meses acabará sendo comprovado, mas há um aspecto que não vem sendo considerado pela imprensa: a corrupção é parte do processo de gestão do setor petrolífero em todo o mundo e, no caso presente, a estatal brasileira se encontra no papel de vítima. Portanto, há uma distorção no noticiário que esconde muito mais do que o propósito de expor a relação deletéria entre negócios e política.

Embora os contratos de partilha do óleo de grande profundidade sejam geridos pela empresa Pré-Sal Petróleo S.A, criada como subsidiária da Petrobras para executar o novo marco regulatório, a operadora do sistema é a Petrobras. Cabe à estatal criada por Getulio Vargas o ônus do processo de depuração que está em curso com as investigações que ocupam diariamente as manchetes dos jornais. Embora a maior parte dos danos seja debitada na aliança que governa o país desde 2003, principalmente ao Partido dos Trabalhadores, é o modelo do negócio que corre risco.

É pouco conhecido o fato de que a Petrobras não se tornou uma estatal com o novo marco regulatório: apenas 33% do capital pertencem ao Estado, e 67% estão em mãos privadas. O que mantém o controle da empresa em mãos do Estado é o fato de que este controla metade mais uma do total de ações com direito a voto, o que preserva a Petrobras como sociedade de economia mista.

Não é, então, a condição legal da empresa que pode mover interesses poderosos, mas o sistema de exploração do pré-sal: pelo modelo antigo, de concessão, as companhias concessionárias podiam fraudar facilmente os custos de extração, reduzindo a parcela a ser paga tanto em royalties ao Tesouro quanto em barris de petróleo a serem entregues ao sistema de refino e distribuição. O modelo de partilha, criado pelo novo marco regulatório de 2009, mantém sob controle mais rigoroso o usufruto dessa riqueza natural por parte do Brasil.

O bombardeio constante e diário de notícias sobre a corrupção esconde outros aspectos desse jogo.

Em São Paulo, prisões são administradas pelo Estado junto com facções criminosas, diz pesquisador

19/12/2014
Alckmin_Penitenciaria01

Geraldo Alckmin observa sistema de segurança de presídio. Estudo aponta articulação entre Estado de São Paulo e mundo do crime.

Para Felipe Athayde Lins de Melo, autor do livro As prisões de São Paulo, criminosos organizam cotidiano no interior das unidades prisionais.

Via Opera Mundi

Não é possível compreender a administração das prisões de São Paulo sem olhar as articulações que existem entre o Estado e o mundo do crime. Esta é a análise do pesquisador do Gevac – Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) Felipe Athayde Lins de Melo, que, depois de atuar oitos anos como gestor de políticas penitenciárias, defendeu a dissertação de mestrado “Estado e mundo do crime na gestão da reintegração social”, que deu origem ao livro As prisões de São Paulo (Editora Alameda, 238 páginas, R$40,00).

As prisões de São Paulo só são administradas porque existem vínculos muito fortes entre Estado e o mundo do crime. Quem administra o cotidiano do interior de grande parte das unidades prisionais é o crime organizado. O silêncio que vemos nas prisões, mesmo com a situação de superlotação, sem motins ou rebeliões, é porque existe um processo de negociação em vigência”, afirma Athayde Melo, que trabalhou oito anos na Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel”.

De acordo com Athayde Melo, o conceito de “articulação” é utilizado para descrever como as relações entre Estado e mundo do crime “se enredam e entrelaçam” para administrar as unidades prisionais.

Das 163 unidades prisionais do estado com mais de 210 mil pessoas presas, diz o pesquisador, praticamente todas convivem com a situação de superpopulação. A exceção são algumas prisões com perfil específico, ou seja, aquelas a que são direcionados presos de alta periculosidade.

Na unidade de segurança máxima Presidente Bernardes, por exemplo, a ocupação das celas não chega a 20% da capacidade. Para Athayde Melo, esta é uma forma de articulação entre o Estado de São Paulo e o mundo do crime para administrar o cotidiano das prisões.

“Uma situação peculiar é que o Estado, por meio de agentes penitenciários, não chega às áreas de convívio, ou seja, aos pavilhões habitacionais. Quem administra estas unidades são os próprios presos. Mesmo na penitenciária, alguns presos continuam praticando crimes, como o controle do tráfico. Este tipo de preso não é incomodado em momento nenhum pela administração. Eles ficam nas celas, fazendo os negócios, e o Estado não chega a eles de forma alguma”, analisa.

Por outro lado, explica Athayde Lins de Melo, os presos que tentam participar de atividades de reintegração social – como ir a escola, trabalhar ou buscar assistência médica – são abordados todos os dias pelo Estado.

“A escola é vista como o local de maior desconfiança pelas administrações prisionais. O detento para ir à escola precisa ser revistado, muitas vezes nu, entre outras situações de constrangimento. Isso acontece porque os diretores acreditam que, quando se cria uma situação de fuga ou rebelião, as coisas são organizadas a partir da escola. Eles pensam isso pois a escola é pensada ao longo da trajetória do desenvolvimento das prisões como um espaço de ‘libertação das pessoas’”, analisa.

Usando exemplos de experiências que viveu no convívio nas penitenciárias, o pesquisador afirma que essa situação evidencia uma contradição entre o objetivo de reintegração social das prisões – previsto na Constituição brasileira – e a realidade no cotidiano. “Quando pensamos na lógica de que alguém para sair melhor do regime privativo precisa passar pela escola ou trabalhar, vemos que na realidade o que acontece é o oposto: quem quer trabalhar ou estudar são os mais constrangidos e incomodados”, critica.

O outro lado
Em nota oficial, a SAP (Secretaria de Administração Penitenciária) afirmou “repudiar qualquer insinuação de que o Estado de São Paulo tenha qualquer vínculo com facções criminosas”.

“O combate ao crime organizado é efetuado diariamente em parceria com as Polícias Civil e Militar, grupos de atuação e combate ao crime organizado do Ministério Público, Poder Judiciário e Polícia Federal. São efetuadas revistas frequentemente nas celas e demais dependências de todos os presídios do estado, visando coibir a posse de ilícitos pelos presos. Qualquer servidor que for pego sendo conivente com o crime é submetido a processo administrativo e demitido a bem do serviço público”, diz a nota oficial.

A SAP também explica que está sendo instalado nos presídios que abrigam presos líderes de facções criminosas e nas que possuem presos de alta periculosidade o sistema de bloqueadores de celulares.

“O objetivo é impossibilitar qualquer tipo de contato dos presos com grupos criminosos. Serão abrangidos inicialmente 23 presídios, sendo que a primeira unidade em que foi instalado o sistema foi a Penitenciária II Presidente Venceslau”, afirma a SAP.

Sobre o CRP (Centro de Readaptação Penitenciária) de Presidente Bernardes, a SAP afirma que a internação no local “não é ato discricionário da Secretaria da Administração Penitenciária, só sendo permitida por despacho do juiz competente. Trata-se de uma sanção disciplinar em que os presos que lá habitam ficam em celas isoladas, só tendo direito a duas horas diárias de banho de sol, recebendo visitantes de maneira limitada e por curto espaço de tempo. A SAP diz ainda desconhecer os fatos relatados. Segundo a SAP, eles “não condizem com a realidade do sistema prisional paulista”.

Porto de Mariel: O que tucanos e aliados têm a dizer sobre isso?

19/12/2014

Cuba_Porto_Mariel03

O ataque ao financiamento da Odebrecht, na construção do porto, mostrou a pequenez daquele que se apresentava como projeto de estadista.

José Augusto Valente, via Carta Maior

A cada dia que passa, fica mais claro o que representavam as candidaturas presidenciais em 2014. De um lado, Dilma com visão de estadista, com protagonismo internacional, com independência em relação aos EUA e com um programa progressista.

Do outro lado, candidaturas de Aécio e Marina navegando ao sabor de ventos e correntes conservadoras, pensando no imediato, sem visão estratégica, com projeto de dependência aos EUA e com programa conservador e, em alguns casos, reacionário.

Um dos pontos que marcou esse confronto foi o financiamento de empresa brasileira, pelo BNDES, para construção do Porto de Mariel, em Cuba.

Neste vídeo de campanha (clique aqui), que foi ao ar no dia 25/9/2014, Aécio comete duas barbaridades: mentir sobre o financiamento da obra do Porto de Mariel, em Cuba, dizendo que se destinava ao governo cubano, quando o destino era a empresa brasileira Odebrecht; mostrar uma situação de caos portuário brasileiro inexistente, para “justificar” que o governo brasileiro priorize investir aqui e não lá.

O ataque ao financiamento da Odebrecht, na construção do porto, mostrou a pequenez daquele que se apresentava como projeto de estadista. O que estava em jogo, nesse ataque à Dilma, era consolidar sua posição com a direita conservadora que consegue ser mais realista do que o rei.

Sim, nos EUA, o empresariado quer as relações comerciais com Cuba e elas já ocorrem há tempos. Com o impedimento – para Cuba – de fazer suas trocas comerciais com crédito para pagamento a prazo. Tem que ser tudo à vista, por causa do embargo que, acredito, será suspenso em breve.

Se o empresariado dos EUA é a favor de relações comerciais com Cuba, o que impede então a suspensão do embargo? Pelo que pude apurar, quem não aceita a suspensão é a colônia de cubanos que mora nos EUA, que tem muito voto.

Na banalização ideológica desse tema, Aécio mostrou que não seguiu, sequer, a avaliação da Fiesp, que congrega uma boa parte do empresariado brasileiro.

Para fundamentar o que estou escrevendo, ouça (clique aqui) o que disse Thomaz Zanotto, diretor de infraestrutura da Fiesp, em entrevista concedida à Record News. Nesta entrevista, Zanotto explica em detalhes por que o financiamento do BNDES à Odebrecht, para construção do Porto de Mariel, foi um golaço estratégico do Brasil.

Segundo o site da EBC, as obras no Porto de Mariel, tocadas pela Odebrecht, exigiram investimento de US$957 milhões, financiado pelo BNDES. Do montante, US$682 milhões foram aportados pelo Brasil. Como contrapartida, houve exigência de que pelo menos US$802 milhões do total fossem gastos na compra de bens e serviços comprovadamente brasileiros. Isso foi insuficiente para comover o candidato tucano.

A retomada das relações de Cuba com os EUA, estabelecida na quarta-feira, dia 17/12, pelo presidente Obama, mostra o quanto Lula e Dilma são verdadeiramente estadistas e líderes mundiais e o quanto Aécio não é, nem nunca chegará a ser.

O que se espera, a partir de quinta-feira, dia 18/12, é uma declaração de autocrítica de Aécio e seus aliados, em relação às duras críticas feitas ao apoio do governo brasileiro ao porto cubano de Mariel. Terão grandeza para isso?

José Augusto Valente é especialista em infraestrutura de transportes.

Leia também:
Vídeo: Os três últimos heróis cubanos presos injustamente nos EUA chegaram em sua Pátria
Entenda o que muda em Cuba e nos EUA com as novas políticas anunciadas
Reatamento diplomático Cuba-EUA: Governo brasileiro marca golaço ao financiar o Porto de Mariel
Reatamento diplomático Cuba-EUA: Apesar de dia histórico, Raul Castro lamenta que bloqueio econômico seja mantido
Por que investir em Cuba? E na África, e na América Latina? Não é caridade ideológica, é negócio
Reatamento diplomático Cuba-EUA: Coxinhas indignados
Repercussão mundial: Os mais de 50 anos demonstraram que o isolamento dos EUA a Cuba não funcionou

Repercussão mundial: Os mais de 50 anos demonstraram que o isolamento dos EUA a Cuba não funcionou

19/12/2014
Cuba_Raul_Castro22_Obama

Os presidentes de Cuba e EUA anunciaram retomada da diplomacia em discursos na televisão.

Marcela Belchior, via Adital

Após anunciar a retomada das relações entre Cuba e Estados Unidos, os dois países devem adotar uma série de medidas para ampliarem o comércio e o fluxo de pessoas entre os dois países. Nos próximos meses, os estadunidenses deverão instalar Embaixada em Havana, como parte das ações que põem fim à ausência oficial do país na Ilha. “Esses 50 anos demonstraram que o isolamento não funciona”, disse o presidente estadunidense, Barack Obama. “É hora de ter uma nova estratégia”, acrescentou o mandatário dos EUA. “Devemos aprender a arte de conviver, de forma civilizada, com nossas diferenças”, afirmou o presidente cubano Raul Castro.

Em discurso oficial de anúncio da retomada das relações diplomáticas, transmitido pela televisão em cadeia nacional, Castro afirmou que o processo se deu a partir de um “diálogo respeitoso”, baseado na “igualdade soberana”, para tratar os mais diversos temas de forma recíproca. “Com a proposição de discutir e resolver as diferenças mediante negociações, sem renunciar a um só de nossos princípios”, disse. “O heroico povo cubano tem demonstrando, frente a grandes perigos, agressões, adversidades e sacrifícios, que é e será fiel aos nossos ideais de independência e justiça social”, destacou o socialista.

Para Obama, a política praticada entre os dois países há quase 53 anos está antiquada e não contribui para avançar em ambos os interesses. “Através dessas mudanças, temos a pretensão de criar mais oportunidades para o povo estadunidense e cubano e começar um novo capítulo entre as duas nações das Américas”, afirmou, em discurso oficial também divulgado pela televisão. “Estamos separados por pouco mais de 90 quilômetros, mas, ano após ano, uma barreira ideológica e econômica endureceu entre nossos países. No entanto, a comunidade cubana exilada nos EUA fez enormes contribuições ao nosso país – na política, nos negócios, na cultura e nos esportes”, reconheceu o capitalista.

O papa Francisco foi crucial na mediação entre Cuba e EUA, funcionando como personagem-chave no diálogo entre as duas nações. Segundo o Vaticano, o Sumo Pontífice escreveu, durante os últimos meses, a Obama e Castro, “convidando-os a resolverem questões humanitárias de comum interesse, como a situação de alguns detidos”. Além disso, o Vaticano recebeu, em outubro passado, delegações de ambos os governos, sendo o único líder estrangeiro a participar das negociações.

Em nota divulgada pela Santa Sé, Francisco disse sentir prazer pelo restabelecimento das relações, “a fim de superar, pelo interesse dos respectivos cidadãos, as dificuldades que marcaram sua história”. Ambos os presidentes, em seus discursos de anúncio da retomada das relações, agradeceram pelo envolvimento do Santo Padre na facilitação do diálogo.

Principais medidas político-econômicas
Um extenso conjunto de mudanças para normalizar as relações entre os dois países já foi iniciado com a permuta entre presos políticos de ambas as nações. Nesta quarta-feira mesmo, 17 de dezembro, já houve a libertação de Antônio Guerrero Rodríguez, Gerardo Hernández Nordelo e Ramón Labañino Salazar, três dos cinco cubanos que ainda se encontravam presos em território estadunidense. Os três já estão em solo cubano. O Governo de Cuba, por sua vez, libertou o estadunidense Alan Gross, sentenciado a 15 anos de prisão, acusado de planejar a instalação de uma rede ilegal de telecomunicações na Ilha socialista.

Cuba_Raul_Castro23_5_Cubanos

Raul Castro recebe agentes cubanos presos que retornam ao país. Foto: Granma.

Os passos da reaproximação devem ser graduais. Daqui para frente, o Governo dos EUA deve retirar o nome de Cuba da lista de países que apoiam grupos terroristas e, mesmo ainda estando em vigor a lei de 1995, que impõe estritas sanções à Ilha, se encaminha para flexibilizar as restrições de viagem e comércio. Estão previstas também ações para que empresas de tecnologia estadunidenses façam negócios para atuarem na infraestrutura de internet da Ilha.

Os EUA têm defendido o que consideram “maiores liberdades individuais e reformas democráticas” na Ilha. No que compete ao Parlamento dos EUA, ainda não há perspectivas para que medidas complementares contribuam para o vínculo entre as partes, o que também pode mudar em um futuro próximo.

Cuba_Granma02_5_Cubanos

Capa do jornal do Partido Comunista de Cuba, de 17 de dezembro de 2014.

Repercussão e expectativas
O jornal The New York Times (NYT), diário de maior prestígio da mídia comercial nos Estados Unidos, publicou, na quarta-feira, dia 17/12, que a retomada de relações é “um passo significativo que marca o fim de um dos capítulos mais desacertados da política exterior estadunidense”. Já o jornal Granma, periódico oficial do Partido Comunista de Cuba, avaliou a reabertura da diplomacia como uma medida de justiça, destacando o retorno dos cidadãos cubanos à pátria. “Voltamos!”, manchetou na capa da edição de quarta-feira, dia 17/12.

“Fidel [Castro, ex-presidente de Cuba] disse ‘voltarão’ e assim ocorreu. Esta foi uma batalha de milhões. O povo cubano sente uma grande alegria porque se restabeleceram as relações diplomáticas com os EUA na base do respeito mútuo e sem sacrificar nenhum princípio soberano”, destacou Yolanda Ferrer, presidente da Comissão de Relações Internacionais do Parlamento cubano, referindo-se ao retorno dos três presos cubanos ao país natal.

“Essa notícia é resultado da unidade que conseguimos […]. Essa decisão deve repercutir no mundo e marcará um antes e um depois em Cuba e na América Latina”, analisou o ministro das Indústrias cubano, Salvador Cruz. “É a forma que os EUA tiveram de reconhecerem uma série de erros de sua política direcionada a Cuba e, portanto, a necessidade de iniciar um novo tipo de política e, para nós, isso é um desafio também, porque mudam as regras do jogo, mas não muda o jogo”, ressaltou o historiador cubano Eduardo Cuevas.

Durante evento na Argentina, o presidente venezuelano, Nicolas Maduro, um dos maiores parceiros políticos de Cuba, destacou que, agora, se inicia uma nova etapa da história do país caribenho. “É uma nova história moral, da ética, da resistência, da lealdade aos valores. É a história de Fidel, do povo cubano”, disse. “O presidente Obama não pode seguir insistindo em uma política de tratar de levar Cuba ao colapso. É uma retificação histórica”, acrescentou Maduro.

Em declaração à imprensa, a presidenta do Brasil reeleita, Dilma Rousseff, afirmou que jamais imaginou viver esse momento histórico. “Nós, lutadores sociais, nunca imaginávamos, jamais imaginamos viver esse momento histórico. Quero cumprimentar o presidente Raul Castro, o presidente Barack Obama e também o papa Francisco”, disse a mandatária.

Entenda o conflito histórico
O bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos se iniciou em 07 de fevereiro de 1962, sendo convertido em lei em 1992 e 1995, além de ampliado em 1999 pelo então presidente estadunidense, Bill Clinton, proibindo as filiais estrangeiras de companhias estadunidenses de comercializarem com Cuba. A medida, em vigor por quase 53 anos, funcionou como um dos mais duradouros bloqueios econômicos na história contemporânea. O bloqueio estava formalmente condenado pelas Nações Unidas, que, nos últimos anos, aumentou a pressão mundial pelo fim do bloqueio.

O processo de rompimento entre os países foi marcado, inicialmente, em maio de 1958, quando os EUA suspenderam a ajuda militar oficial ao governo do então mandatário cubano, Fulgêncio Batista, em um episódio que ficou conhecido com o “bloqueio militar a Cuba”. Na época, a guerrilha entre as forças do ditador e os revolucionários de Fidel Castro já havia começado.

Cuba_Fidel_Nikita_Khrushchov01

Fidel com o presidente soviético Nikita Khrushchov, que governou a URSS de 1953 a 1964

Em julho de 1960, em resposta às nacionalizações, foi reduzida a quota de importação de açúcar cubano pelos EUA, que passou a ser comprado pela antiga União Soviética. Em resposta a esse alinhamento de Cuba com os soviéticos em plena Guerra Fria, o presidente John F. Kennedy ampliou as restrições comerciais em 07 de fevereiro e novamente em 23 de março de 1962.

Leia também:
Vídeo: Os três últimos heróis cubanos presos injustamente nos EUA chegaram em sua Pátria
Entenda o que muda em Cuba e nos EUA com as novas políticas anunciadas
Reatamento diplomático Cuba-EUA: Governo brasileiro marca golaço ao financiar o Porto de Mariel
Reatamento diplomático Cuba-EUA: Apesar de dia histórico, Raul Castro lamenta que bloqueio econômico seja mantido
Por que investir em Cuba? E na África, e na América Latina? Não é caridade ideológica, é negócio
Reatamento diplomático Cuba-EUA: Coxinhas indignados


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.873 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: